LAFETÁ, João Luiz - Os Pressupostos Básicos in 1930 - A Crítica e o Modernismo
LAFETÁ, João Luiz - Os Pressupostos Básicos in 1930 - A Crítica e o Modernismo
LAFETÁ, João Luiz - Os Pressupostos Básicos in 1930 - A Crítica e o Modernismo
Lafet
0s pressupostos
bsicos
1.Modernismo:
proietoesttico
e ideolgico
O estudoda histria literria coloca-nossemprediante de
dois problemasfundamentais,quando se trata de desvendaro
alcancee os exatoslimites circunscritospor qualquermovimento de renovaoesttica:primeiro, precisoverificarem que medida os meios tradicionaisde expressosoafetadospelo poder
transformadorda nova linguagemproposta,isto , at que ponto essalinguagem reamentenova; em seguida,e como necessriacomplementao, precisodeterminarquaisasrelaesque
o movimento mantm com os outros spectosda vida cultural,
de que maneiraa renovao
dos meiosexpressivos
seinsereno
contextomaisamplo de suapoca.Pararetomara distinoaprsentadapelos"formalistasrussos"diramos que senata, na hist6r'nlterLria,
de sinar o movimento inovador: em primeiro Iugar dentro da srieliterria, a seguir na sua relaocom s outrassriesda tota.lidadesocial.Decorre da que qualquer nova proposioestticadeverserencaradaem suasduasfaces(complementarese, alis,intimamente conjugadas;no obstante,svezesrelacionadas em forte tenso): enq no projeto extico, dietamenteligada as modificaesoperadasna linguagem, e en-
l9
qantoprojeto ideolgico,
diretamenteatadaao pensamento(visode mundo) de sua poca.
Essadistino,que pretendemosusarno examede um aspecto do Modernismo brasileiro, til porque operrria;no
podemosentretano correr o risco de torn-la mecnicae fcil:
na verdadeo projeto e*tico,que a crtica da velha linguagem
pelaconfrontaocom uma nova linguagem,j contm em si o
seluprojetoideohgico.O ataquesmaneirasde dizer seidentifica
ao ataquesmaneirasde ver (ser,conhecer)de uma poca;se
na (e pela)linguagemque os homensexternamsuavisode mundo (.justificando,explicitando,desvelando,simbolizandoou encobrindo suasrelaesreaiscom a naturezae a sociedade)investir contra o falar de um empo ser investir contra o ser desse
tempo. Entretanto, consideremoso poder que tem uma ideologia de se disfararem formas mltiplas de linguagem; revestindo-sede meios expressivosdiversosdos anteriores,pode passar
por novo e crtico o que pmancvelho e apenasdiferente.
Pensemos,por exemplo,em certo aspectoexaltadordo futurismo marinettianoque, pretendendo-se
expresso
da modernavida
industrial, representava
de fato o prolongamentoanacrnicoda
conscinciaburguesaotimista e "progressista"do sculoXIX; ou
lembremosainda a retrica popularescae demaggicade contra-revoluescomo o fascismoe o nazismo, com seu apelo
mobilizao das massas,instaurando na simblica prtidria
fraude ideolgica.Por outro ado, tambm verdadeque Mari
netti e o fascismo- para continuar com nossoexemplo- em
muitos dos seusaspectosrepesentaminovaesradicaisna literaturae na retricapoltica e nessesentidodevemservistoscomo
rupruras parciaiscom o passado;nessecaso,apesarda postura
itlcol<igicareacionriade base,a linguagem contm elementos
modernidade.
tx n(.rccntcs
Assinr,c'possvelconcluir que, a despeitode suaartificialida-
ir
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pressupostos
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"Desrecalquelocalista;assimilao
da vanguardaeuropia",
sintetizaAntonio Candido.aA convergnciade projeto esttico
e de projeto ideolgico deu as obras mais radicais,mais tipicamente modernistas(e talvezmais "modernas",vistasda perspectiva de ho.je)do movimento: o Miramar e o Serafm, de Oswald,
de Andrade,o Macunama deMrio, a contundnciaestricada
poesiaPau-Brasil A ruptura na linguagemliterria correspondia
ao instante em que o curso da histria propiciava um reajustamento da vida nacional:"E a coincidnciada orimeira construgeral.PoesiaPauo brasileirano movimentode reconsrruo
Brasil", intuiu Oswald5.Da a fora renovadoramodernista,seu
cartermarcadamentenacionle o vio de contemporaneidade
que, cinqenta anosdepois,faz com que suasobrasmais representetivsmantenham o trao da vanguarda.
2. Daasehericaaosanostinta
Essaconvergnciafeliz, no entanto, se d principalmente
durante a faseherica do Modernismo, por razesque, como
bvio, estolonge de terem sido esgotadas- sequerafloradas
em toda a sua extenso- nos brevespargrafosanteriores.Limitemos,entretanto,nossocampode investigaes:
nocabeaqui
uma aniseda essncia
do movimento modernista,e apenasabordamostaisaspectos
a fim de nossituarmoscom rnaior clarezaface
problemticaenfrentadapela crtica literria durante os anos
1930:
a crticae o Modernismo
0s pressupostos
bsicos
subseqentes
ponanto,o que
Revolu$o de 30. Recapinrlemos,
foi visto,e tentemoschegaratl.
Vimos que, po uma rao de ordem artsdca(e natureza
1
intrnsecada linguagemmodernisa solicitandoa incolpora$o
I do popular e do primitivo) e outra de ordem ideolgica(a buratravsda
em suaorigeme revalorizando,
\guesiaapoiando-se
jtransmutaSo estticgmodernizante,hbitose tradiesculrujrais do Brasil arcaico)os dois projetosdo Modernismoseanilculam e secomplementam.Podemosagoralevarum poucomais
longeo raciocnioe indagardascondies
sociais
e polticasque,
a essapoca,permitema complementao.
Parasituarcorretamenteo Modernismo precisopensarna
suacorrelaocom outrassriesda vida socialbrasileira,em especialna suacorrelaocom o desenvolvimento
da economiacapitalistacm nossopais.A pareceestaro firlcro da questo:atenpoltica dos anosvinte o obserr"edor
tando paraa efervescncia
poderinferir que o Brasilatravessa
uma fasede transformaes
profundas,tendentes
a configurarum quadroeconmico-estrutural maiscomplexoque o sistemaagrrio-exportadorherdado
do Imprio.As modifica@esno sistemade produodatarn,naturalmente,demuito antesdadcadade20: vmdeantesdaAbolio,com o empregodo trabalhoassalariado,
e passampelossucessivos
sunosde industrializaSo,pelapoltica do Encilhamento, pelasvriaslevasimigratrias,pelasinmerasagita@es
operriasdo comeodo sculo,rudo caminhandoem direo a uma
tantoda nossavidaeconmica
quancornplexifica$ocrescente
to da nossavidacultural.pesarde noafastardo poderasoli(comercial,
grrtluiasrurais,a burguesia
financeira,
industrial;soou
aos
interesses
capitdistas
imperialistas)
seencontra
zitthr aliacla
mdia,
ot li'[nco processo
de ascenso;
crescetambma classe
um proleariadoquesabe,svezes,
demonslirrttu'rc nuscidades
rrgrcssividade.
Nos
trs
primeiros
decnios
do
sculo
)O(
tnr
llr
1l
osvelhosquadroseconmicos,
polticose cturais do sculo
solentamentemodificadose acabampor estourarna Revoluode 30.
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1930:
crtica
e o Modernismo
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doras e de direita (literatura espiritualista, essencialista,metafsicae ainda definiespolticastradicionalistas,como a de Gilbeno Freyre, ou francamente reacionfuias,como o integralismo).
Na verdadeos dois projetos ideolgicosparecemcorresponder,
para retomar aqui uma proposiode Mrio Vieira de Mello, a
duas f*es distintas da conscinciade nossoatraso:nos anosvinte
a tomada de conscincia tranqila e otimista, e identifica asdeficinciasdo pas- compensando-as
- ao seuestaturode "pas
novo"; nos anosffinta d-seincio passagem
paraa conscincia
pessimistado subdesenvolvimento,implicando atitude diferente diante da realidade.TDentro dissopodemosconcluir que, se
a ideologia do "pas novo" serve burguesia (que estem franca
ascenso
e seprevalece,poftanto, de todasasformas - mesmo
destrutivas- de otimismo), a conscincia(ou a "prconscincia", como prefereAntonio Candido) pessimistado subdesenvolvimento no seenquadradenuo dos mesmosesquemas,j que
aprofunda contradies insolucionveis pelo modelo burgus.
A diferenaentre os projetos ideolgicosdasduasfasesvai
principalmente por conta dessaagudizaoda conscinciapoltica. O "anarquismo" dos anosvinte descobreo p,
ra a idealiza$o mantida pela literatura rprsenradvadas oligaquias e dasestruturastradicionais, instaura uma nova yiso e uma
nova linguagem,muito diferentesdo "ufanismo" masainda otimistas e pitorescas,pintando (como em Pau-Brasil e em JooMiramar, na Paulicia desuairadae no Cl dojaboti, no Verdamarelismo) estadosde nimo vitais e eufricos;o humorismo a
grande arma dessemodernismo e o aspectocarnavalesco,o canto largo e aberto,jovem e confiante, so sua meta e seu princ-
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30
a seutrmino,
e a dcada
de30, chegando
u- qur- J i
"r.lr,.
"
da
lio
esttica
essencial
do
Modernismo:
a/
se-esquecimento
rupturada linguagem.
/
t/
,\
3, Vanguarda
e diluio
Essetimo ponto, pelo que encerra de complexidade, deve
sermais detalhadamentematizado.Com efeito, a opinio unnime dos estudiososdo Modernismo que o movimento atingiu, durante o decnio de 30, sua fase urea de maturidade e
equilbrio, superandoos modismose os cacoetesdos anosvinte,
abandonandoo que era pura contingncia ou necessidadedo
perodode combateesttico.Tendo completadode maneiravitoriosaa luta contra o passadismo,os escritoresmodernistase a
nova geraoque surgiatinham campo aberto suafrente e podiam criar obras mais livres, mais regularese seguras.Sob esse
ngulode viso,a incorporao
crticae problematizada
da rea-l
i
lidade socialbrasileirarepresentaum enriquecimenroadicionall
l
e completa- pela ampliaodos horizontesde nossaliteratura | \
- a revolu@ona linguagem.
I I
Tal aniseapaece-nos,ainda hoje, como essenciamente
coreta. fato que a dcadade 30 deu-nos algumasdasobrasmais
realizadase algunsdos escritoresmais importantes da literatura
brasileira.Na poesiabastarialembrar a qualidade dos dois esffeantes(em livro) de 1930, Carlos Drummond de Andrade e
ainda que o perodo tem RemaMurilo Mendes, acrescentando
te de males,Libernagem e Esnela da manh. alm de Jorge de
Lima; na prosade ficoo romancesocialdeJosLins do Rego,
JorgeAmado e Rachel de Queiro, o ponto alto atingido por Graciliano Ramos,a direodiferentede Cyro dosAnjos; no ensaio
1930:
a crticae o Modornismo
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cial" e j surgeuma revistaque sedeseja"uma espciede repertrio" do Brasil. Em termosde mudanadz nfaseessa
modifica
significativa,
principalmente
porque,
com
o
decorrer
dos
o
anos,a imparcialidadeda dosagemvai sendolevementealterada; seos primeiros tempos do decnioassistem alta produo
da maruridademodernista,assistemtambm ao incio da diluio de suaesttica: medida que asrevolucionriasproposies
de linguagem vo sendo aceitase praticadas("rotinizadas", segundo Antonio Candido) vo sendoigualmentarenuadase diludas,vo perdendo a contundnciaque anspareceem livros
radicaise combativosda faseherica, como as Memriassentimentaisde Ioo Miramar e Macunama.
Tal diluifo, alis,comeaantesde 10, comeano interior
mesmo do movimento modernistae j na hora mais quente da
luta. O crtico Haroldo de Campos, examinandoa dialticaentre "Yangaarda.e htscli', observavacom acerto que o Verdamarelismo e a Escola da Anta dissolverame aguarema escritura
vanguardista.9Mas principalmente na segundametadeda dcadade 30 gri.ez kitschzaodavanguarde parecsetorna mais
aguda,mais grave,at desembocar,j nos anosquarenta,numa
literaturaincolor e pouco inventiva,e numa linguagemnovamen,
te preciosa,anmica,"passadista",
pelaqual principalmenteresponsvel a chamada " gerapo de 45" .
Mas que tem issoa ver com o projeto ideolgicodo Modernismo, com a intensidadeda luta poltica que setrava apsa Revoluode Outubro, com as nov:rsposiesassumidaspelosinte
lcctuaise anistasbrasileiros,com osextremismospartidaristasd
pcrodo que nos interessa?A nossahiptese esta:na fasede cons
imparcial."8.
Peguemoso problema por essengulo: nos anos vinte a
I
i I grande discusso eminentemente literria e se trava em tono
Moder1f da questo (bsica) da linguagem nova inaugurada pelo
ll nismo; no raiar dos anostrinta j sequer uma "dosagemimpar-
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cientiza@opolitica, de literatura panicipante e de combete,o Projeto ideolgico colore o projeto estticoimPrimindolhe novos
madzesque, sepor um lado possibilitam realizaesfelizescomo
asj citadas,por outro lado desviamo conjunto da produoiterriada linha de intensaexperimentaoque vinha seguindoe
acabampor destruir-lheo sentidomais ntimo de modernidade.
Ve.jamos,de forma rpida, algunsexemplos.
Na poesiatal modificaose d principalmente por causa
de uma reaode fundo "direitista", que vem do grupo espiripor Tassoda Silveira,correparaelamenteao
tualistaencabeado
Modernismo com asrevistasTena de Sole Fea' evai encontrar
suarealizaomaior nos PoemasPolixose retricosde Schmidt.
Essepoeta, tento como os seusseguidoresde menos taento e
menostcnica(e que proliferaramno decniode 30), parece-nos
um bom exemplo de diluio: desejandocombater as "exterio-
No cabenos estreitoslimires dessaintroduo - repetimos- uma anise da woluo estticado Modernismo nos nos
trinta. Limitamo-nos aqui a esboaro roteiro de um conflito que
senos afigura impoftanre para compreendere situar os problemasque seroenfrentadospela crtice nessemomento. A tenso
que seestabelece
entre o projeto estticoda vanguarda(a ruptura da linguagem atravsdo desnudamentodos procedimentos,
a criafo de novos cdigos,a atitude de aberturae de
contidasno interior da prpria obra) e o projeto ideolgico
posto pela luta poltica) vai sero ponto em torno do qual sedesenvolvera nossaliteratura por essapoca.Desseconflito
nasceruma opinio bstantecomum nos anostrinta: a suspeita de que o Modernismo rraziaconsigouma cargmuiro giande de cacoetes,de "atitudes" literriasque era precisoalijar para
seobter a obra equilibrada e bem realizada.Na verdadeessequestionamento tinha um ponto de rao: mas, na medida errque
(e niso a conscinciapoltica,tanto de direitaquanfoi exagerado
to de esquerda,exerceuforte influncia) afastoudasobrsento
produzidasgrande parte da radicalidadeda nova esttica.No
(bom) exemplo que a rea@oespiritualista em poesia,parece-nos
que o pesoda ideologia claramenteo fator responsvelpela diluio, pois insistindo em que a literatura devia trarar temses-
de soubever e denunciar.lo
Na prosade fico essebalanceioentre rodnizaoe dilui-
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| [ senciaise elwados caminhou para a eloqncia inflada e super(bom) exemplo que o romance neo-naturalista, foi
J | fi.irl;
"o
I \ ta-b- a .ottrcincia da funo sociat da literatura que' toma ldadeformaerrada,conformeosparmetrosdeumdesguamecido
i,
[realismo,provocou o desvioe a dissoluo'
O estudo da literatura na dcadade 30 (e at o fim da guerra), vista do ngulo dessatensoentre o projeto estticoda vanguaida e asmodificaesintroduzidaspelo novo projeto ideolgico, ainda estpor ser feita. H, naturalmente,problemasintrincadosa seremresolvidos;para ficar num casoapenas,podemos exemplificarcom asalteraesformais na linguagemdo romance,operadasem compromissocom as estruturasnarrativas
do sculoXIX (os modelos romntico e naturalista) , o que constitui por si s um campo vastode discusso.
Mas o nossointeresse a crtica dessedecnio; poranto, assinalada a tenso entre vanguarda e posiSo poltico-ideolgica,
fiquemos por aqui. E passemosao nossoPonto.
4.A crticadodecnio:
paEsoestdo
pre55postos
Em pocasde grandesrwisesnosprocedimentosliterrios,
de mudanasradicaisnas concepesestticas,o papel da crtica fundamental; no crsocontemporneo essepapel crescede
imporncia, j que se trata de uma literatura que assumea posio crtica como elemento constitutivo, que se constri a partir da crtica constante suaprpria linguagem, a revio da obra
fazendo-seno interior da prpria obra. Com efeito, na medida
em que o ato criador incorpora a metalinguagem - Provocndo dessamareira a ruptura com um esttica da iluso - a literatura sepensae secritica, Que resta ento a fazer?Que sobrat
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(p.rz).
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