A Crônica
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Maio 2009
CRÔNICA:
A RELEITURA DO REAL NOS FLASHES DA VIDA
Este trabalho intitulado “Crônica: a releitura do real nos flashes da vida” investiga o papel
prazer pela leitura por meio das crônicas, participando ativamente da construção textual
INTRODUÇÃO
O presente trabalho aborda o papel do leitor no novo processo interativo, com base
genérica, além do contexto sócio-cultural que envolve o autor, o texto e o leitor. São
considerando-se a participação ativa do leitor, em pleno diálogo com o texto, que é por ele
O GÊNERO
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Pós-Graduanda em Letras, Centro Universitário Plínio Leite. Rosaly.pf@gmail.com
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especificidades do gênero textual adotado. Desta forma, vale ressaltar que o autor constrói
seu texto dotado de uma intenção comunicativa, sendo orientado pelo suporte genérico e
deixando indícios da sua condição de ser que representa a coletividade. E, durante o ato de
ler, o leitor passa por uma experiência que envolve sensações e construção de significados,
projetando-o para suas experiências anteriores e para uma mudança em curso. Esse
jornal seria seu principal veículo, embora as crônicas sejam atualmente publicadas em
revistas, em páginas da web e em livros. Sua origem no jornal esclarece suas características
estruturais, como a economia de espaço que gerou sua pequena extensão. Essa
característica, no entanto, não impede sua riqueza estrutural, bem como a liberdade do
cronista. Convém notar, também, seu hibridismo, como considera Angélica Soares, ao
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Esse registro é marcado pela subjetividade do autor, a partir da recriação do real. Assim,
embora possa trazer informação, a função do gênero não é informar objetivamente. Com a
em leve tom de reflexão dialógica, que gera o efeito de intimidade, de proximidade com o
leitor.
“(...) a leitores apressados, que lêem nos pequenos intervalos da luta diária, no transporte ou
no raro momento de trégua que a televisão lhes permite” (p.10). Esse leitor, constituinte da
massa, tipicamente urbano, deverá ser seduzido por um título marcante ou criativo, por uma
trecho:
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para outro suporte, como o livro, a crônica está fortemente vinculada ao tempo e espaço
transpassada pela visão individual do artista da palavra. A fim de transmitir essa visão, ele
conotativo, com sua diversidade, que o texto literário vai além da objetividade dos fatos
concretos, como analisa Rogel Samuel, na obra Novo manual de teoria literária: “A
linguagem gera a forma, que é denominada escrita. A linguagem gera a estrutura de signos
das lacunas a serem preenchidas pelo leitor, quando analisa o literário: “O literário existe na
escrita como uma potência. Essa energia não se vê no que é dito, mas é a concentração do
dizer. (...) A riqueza da escrita tanto se faz mais criadora, quanto mais profundo for o nível
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ambigüidade. Esta característica é abordada por Domício Proença Filho, que destaca a
rumo à sua visão de mundo, que é individual, mas provém da coletividade a qual ele se
integra enquanto ser social em constante processo de interação. Por isso, a arte não se
desprende da ideologia, como aborda Maria Helena Martins em O que é leitura: “Há,
portanto, relação entre texto e ideologias, pois estas são inerentes à intenção (consciente ou
provocar-lhe uma reflexão a partir das sensações que a experiência da leitura pode
despertar-lhe. É o que considera Jorge de Sá em sua obra A crônica: “(...) o escritor não
perde de vista que a sua situação particular só conta para o leitor na medida em que
funciona como metáfora de situações universais, o que permite que façamos da leitura uma
Catarse e empatia estão ligadas à emoção. Existem meios expressivos da língua por
no leitor uma reação de ordem afetiva. Esses meios expressivos são analisados pela
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Estilística, tendo sua base nos estudos de Charles Bally, que considera o indivíduo e sua
inserção na sociedade:
identifica com seu autor devido às emoções e experiências compartilhadas, ele estaria
algo além da superfície textual, em processo contínuo, progressivo, que iria ao encontro de
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sua esfera, passando a enxergar o outro, neutralizando seus conceitos e valores pré-
formados:
Abrangeria a apreensão dos mais diversos meios de linguagem. Como considera Maria
verbal:
A memória, formada a partir de todas as experiências, por meio dos sentidos e pela
razão, é considerada decisiva durante a leitura da palavra escrita, definida pela autora
como:
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poder pelos dominadores, mas que pode também vir a ser a libertação dos
dominados (p.19).
porque a literatura não se deixa aprisionar por imposições, seja das normas lingüísticas, seja
das normas sócio-culturais. Há uma tentativa, por parte do escritor, de se colocar fora do
mundo real a fim de percebê-lo em sua essência. Por isso, ele reconstrói o real através da
imaginação. Essa visão, em relação à arte, é abordada por Rogel Samuel: “A arte provoca e
mobiliza, com sua visão, com sua negação, com sua recusa, a possibilidade daquilo que se
situa fora do mundo. A imaginação do mundo ideal problematiza a realidade do mundo real
texto, seduzindo-o por meio da identificação: “Quando a literatura faz a mimese da ação
cultural entre o autor e o leitor. Domício Proença Filho define, desta maneira, a natureza do
discurso literário:
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extratextuais. Por meio destes últimos, o leitor confere sentido ao texto, visto como
experiência. Rogel Samuel aborda em sua obra a teoria de Hans Robert Jauss, que focaliza
o papel do leitor no processo de interação entre o autor e o público, por meio da obra
destacadas:
O processo de leitura é abordado por Maria Helena Martins na obra O que é leitura.
(...) a leitura se realiza a partir do diálogo do leitor com o objeto lido (...).
Esse diálogo é referenciado por um tempo e um espaço, uma situação;
desenvolvido de acordo com os desafios e as respostas que o objeto
apresenta, em função de expectativas e necessidades, do prazer das
descobertas e do reconhecimento de vivências do leitor. (p.33)
A autora propõe uma reflexão acerca da leitura, com base na configuração de três
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aspectos visuais e táteis, no caso do texto verbal, que pode estar associado à linguagem
icônica. Tipos, tamanhos e cores de letras são explorados em jornais e revistas. Títulos
criativos e frases impactantes destacadas podem ser recursos decisivos para prender a
conta também sua pequena extensão, e iniciar uma leitura que não lhe exigirá muito tempo.
Isto quando se tem em mente o leitor apressado das grandes cidades, nos tempos atuais.
texto literário, apresenta diversos recursos de linguagem, com finalidade de seduzir o leitor.
dito, que o leitor será instigado a refletir, a somar às suas vivências novos conhecimentos,
A fim de ilustrar a análise, foi selecionada a crônica Longa vida aos famintos, de
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letras maiores. É o espaço da autora, que expõe suas idéias e impressões, mas é
uma criança que não usufrua do direito de se alimentar e crescer” (linha 4), há um apelo à
desenvolver e o efeito que pode gerar, a fim de se compreender a realidade: “(...) passo para
o terreno das metáforas, que sempre nos coloca frente a frente com a ambigüidade das
encontra em destaque na página, em letras maiores: “Não há razão para se existir com
fome, mas tampouco sem fome. Alguma fome é necessária. É o que nos dá energia para
denotativo, passa a ter sentido conotativo. É esse o sentido que predomina ao longo de
quase todo o texto. Assim, uma pergunta é lançada ao leitor: “Você tem fome de quê?”, que
faz referência também a uma letra de música. É o diálogo que a cronista desenvolve com o
leitor, instigando-o a refletir, envolvido pela leveza da linguagem em tom coloquial: “(...) a
gente sabe o tamanho da encrenca” (linha 33). Além disso, aborda situações que podem
gerar a identificação no leitor: “Há milhares de casais que se amam e que não
como a causa de frustrações e insatisfações, criando uma imagem que a define com
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notar, ao longo do texto, idéias em relação à fome que revelam ideologias, como em “nos
isenta de todos os pecados” (linha 57), que podem gerar ou não a concordância por parte do
leitor. Isso porque cada leitor traz em si seus conceitos e valores, sua visão de mundo.
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CONCLUSÃO
Com base na análise do gênero crônica, conclui-se que o leitor pode vivenciar uma
contribuintes é o fácil acesso que seus suportes possibilitam ao leitor. Além disso, sua
linguagem literária, tem a finalidade de conquistar o leitor. E, enquanto objeto artístico, ela
supera a transitoriedade do tempo, imortalizando o instante que ela apreende. O leitor tem
dinâmico processo de leitura. O autor tem liberdade para recriar o real e, assim, instigar o
leitor a compreender o mundo e a si mesmo. O texto revela as marcas do autor enquanto ser
inclui o leitor, identificado com o autor, a partir das idéias, sentimentos e vivências
compartilhadas.
Por fim, convém notar que o papel do leitor é ativo, na medida em que ele preenche
as lacunas do texto, com base em suas leituras de mundo, fazendo do ato de ler uma
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REFERÊNCIAS
2001.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 2004 (Coleção
MEDEIROS, Martha. (2008, 12 de Outubro). Longa vida aos famintos. Revista O Globo,
SAMUEL, Rogel. Novo manual de teoria literária. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
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