Proteomica Forense
Proteomica Forense
Proteomica Forense
1. Introdução
2. Metodologia
O presente trabalho foi desenvolvido por meio de levantamento bibliográfico
em periódicos indexados a PubMed, SCIELO, Science Direct on-line e Periódicos Capes.
Foram priorizados os artigos publicados a partir do ano 2000, no entanto artigos utilizados
com data de publicação anterior há esse ano foram julgados como relevantes para a
pesquisa. Os termos utilizados na pesquisa foram: proteomics, forensic proteome, 2-DE
electrophoresis, human body fluids. Os critérios para a escolha dos artigos envolveram
todo tipo de estudo relacionado ao tema não havendo exclusões.
3. Histórico
Com o uso de DNA forense nos tribunais as análises forenses de DNA vêm
progredindo e desenvolvendo protocolos cada vez mais precisos. Resultados no perfil de
DNA já são amplamente aceitos como evidências importantes nos tribunais por meio da
implementação de bases de dados consistentes de DNA forense (CAREY et al., 2002).
Métodos similares são usados em outros tipos de identificação humana como testes de
paternidade, identificação de corpos em caso de desastre ou de guerra. O sucesso na
identificação de qualquer biomarcador dependerá da qualidade das amostras analisadas, da
habilidade de gerar informações válidas nos diferentes níveis protéicos e da interpretação
precisa dos dados gerados.
A análise do proteoma de fluidos corporais humanos tem se tornado uma das pesquisas
mais promissoras na descoberta de biomarcadores para identificação de doenças. (HU et
al., 2006). A detecção de proteínas conhecidas presentes em fluidos corporais como o
sangue, a saliva e o sêmen e a possivel diferenciação dessas proteinas em nível tecidual
pode esclarecer o que deve ter ocorrido na cena do crime. Ainda por meio dessa pesquisa,
espera-se determinar quais itens da evidência podem ser usados em testes moleculares mais
detalhados para a identificação do possível suspeito de um crime. Fluidos corporais
possuem algumas vantagens para serem coletados devido a facilidade da coleta e
processamento, além de serem menos invasivos quando comparados a exames de sangue
ou de impressão digital (VEENSTRA et al., 2005). Desta maneira, fica preservado o direito
°
a intimidade, direito fundamental, e cláusula pétrea, presente no artigo 5 , inciso X, da
Constituição Federal de 1988. Nestes casos, o material coletado na cena do crime é
considerado prova, não havendo a necessidade de autorização do suspeito para a coleta dos
vestígios por autoridade policial.
4.1. Sangue
4.2. Saliva
O fluido salivar é secretado por três pares de glândulas principais: parótida,
submandibular e sublingual, que contribuem com o volume da secreção e de eletrólitos.
Glândulas menores localizadas em varias regiões da mucosa bucal como lábios, língua,
bochecha, palato e faringe também secretam saliva e, embora sejam responsáveis por um
pequeno volume da secreção, são importantes, pois estão relacionadas a substâncias
provenientes do sangue.
A composição da saliva é de 99% de água e 1% de sólidos (proteínas e
eletrólitos). As proteínas presentes na saliva possuem funções biológicas diversas como
atividade antibacteriana, lubrificação e digestão. Pesquisas bioquímicas e moleculares por
meio do estudo de genes e proteínas têm analisado a estrutura e a função de algumas
proteínas salivares de interesse científico. Uma análise global dessas proteínas pode
contribuir para o entendimento do perfil protéico da saliva.
O proteoma salivar humano (HSP), utilizando a eletroforese de gel 2D
acoplado a espectrometria de massa, é capaz de identificar, aproximadamente, 100
diferentes proteínas salivares (GHAFOURI et al., 2003). Um número significativo de spots
em um gel 2-DE típico pode captar fragmentos de proteínas salivares abundantes como
amilases, cistatinas e imunoglobulinas (HIRTZ et al., 2005). Para a identificação de
proteínas salivares menos abundantes, a análise feita por técnicas avançadas de
espectrometria de massa garante um aumento significativo na resolução, quando
comparado a eletroforese em gel bidimensional (MESSANA, 2004). Geralmente, um pré
fracionamento de proteínas salivares intactas empregando técnicas de separação de alta
resolução, é necessário para alcançar uma ampla cobertura no proteoma salivar humano
(XIE, 2005).
Manchas de saliva humana podem ser encontradas em cenas de crimes,
isoladas ou misturadas com outros fluidos biológicos. Os locais de ocorrência mais comuns
são: na superfície de objetos como envelopes (FRIDEZ et al., 1996), bitucas de cigarro
(HOCHMEISTER, 1991), tecidos, copos, locais próximos a mordidas e freqüentemente,
em vítimas de estupro (BARNI, 2006).
Para a identificação de manchas de saliva, diferentes métodos são utilizados,
sendo o mais comum a detecção da enzima alfa-amilase, seja por métodos químicos ou
imunológicos (GAENSSLEN, 1983).
O grupo das a-amilases se caracteriza por enzimas monoméricas, produzidas e
estocadas nas glândulas salivares, estando, por essa razão, presentes em abundância em
suas secreções. Constituem-se dos principais biomarcadores salivares, sendo encontradas
na saliva em concentrações relativamente altas quando comparadas a outros fluidos
corporais como suor, lágrima, leite materno e urina (AUVDEL, 1986).
4.3. Sêmen
No Brasil, estima-se, em média, que de todos os crimes sexuais existentes
apenas 10 a 20% são registrados em delegacias (BEDONE & FAÚNDES, 2007). Vários
fatores contribuem para o baixo conhecimento das autoridades acerca da violência sexual
dentre eles o preconceito, o julgamento, e a intolerância em relação às vitimas,
principalmente, mulheres jovens em idade reprodutiva (CAMARGO, 2000).
A identificação do sêmen é de extrema importância nos casos de violência
sexual. Nesses casos, o procedimento comumente utilizado é a detecção citológica do
espermatozóide. Além dessa técnica, um biomarcador denominado fosfatase ácida
prostática (FAP) foi amplamente utilizado na prática forense. Sua especificidade e
sensibilidade, porém, foram consideradas limitadas e por isso, esse método de identificação
foi abandonado após a descoberta do antígeno prostático específico (PSA) (OESTERLING
et al, 1987). A PSA ou P30 foi primeiramente descrita por Hara (1971) que a batizou de
gama-semiproteína. Li e Schulman (1971) descreveram a mesma proteína, denominada de
E1, com peso molecular correspondente a 31 kD supondo que ela seria uma proteína
específica do esperma humano. Uma análise bioquímica mais profunda acerca desta
proteína foi feita por Sensabaugh (1978) utilizando métodos eletroforéticos na análise de
proteínas do sêmen. A proteína finalmente ficou conhecida por p30, pois possuía peso
molecular de aproximadamente 30 kDa. Ela apresentava reatividade com o anti-soro
preparado contra a proteína E1. Em 1979, descreveu uma proteína com peso molecular
entre 33-34 kDa como sendo específica da glândula prostática, que denominou PSA
( antígeno prostático específico). Em trabalhos publicados por Wang (1982), Graves
(1990), Sensabaugh e Blake (1990) e Johnson e Kotowski (1993) evidências bioquímicas
sugerem a identidade entre a PSA e a p30. A detecção e análise de proteínas como a p30,
um biomarcador na prática forense, é muito relevante, pois permite a identificação do
fluído seminal em evidências criminais deixadas por indivíduos vasectomizados,
azoospérmicos ou oligospérmicos, casos onde pode não ser possível detectar a presença de
espermatozóides por avaliação microscópica (HOCHMEISTER et al., 1999).
O PSA também está presente em fluídos extra prostáticos, como no soro de
mulheres e crianças, urina de mulheres, líquido amniótico, leite materno, saliva e líquido
encefaloraquidiano (LAUX & CUSTIS, 2003). Apesar disso, a concentração desse
antígeno no sêmen varia de 0,2 até 5,5 x 106 ng/mL sendo, portanto, um milhão de vezes
mais concentrada do que no soro sangüíneo de indivíduos saudáveis (SAWAYA & ROLIM,
2003).
Estes reduzidos níveis de PSA existentes em fluídos extra prostáticos não
interferem nas investigações de PSA do líquido seminal em perícias criminais, permitindo
seu uso como marcador na determinação dos vestígios de esperma coletados das vítimas,
preservativos e a partir de manchas obtidas em peças de vestuário.
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