Mestranda em Teoria Literária e Crítica Da Cultura Pela Universidade Federal de São João del-Rei/MG
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ISSN 1980-4504
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RESUMO:
A proposta deste artigo de revisão é abordar questões e aspectos de alguns textos
referentes à Corrente Crítica Literária denominada Estética da Recepção. Serão usadas
teorias e concepções de autores como Hans Robert Jauss, Hans Ulrich Gumbrecht,
Wolfgang Iser e Regina Zilberman, a fim de embasarem o enfoque dado por essa
corrente crítica à relevância do leitor no processo da recepção da obra literária. Com
base nesses, haverá uma abordagem acerca dos conceitos de ouvintes e performance de
Paul Zumthor. Esse autor estuda, além de outros aspectos, a voz poética, ou seja, a
literatura oral e os elos entre os produtores das poesias e seus receptores. Finalmente,
será traçada uma comparação entre a relevância dada ao leitor, no âmbito dos estudos da
Estética da Recepção, e o enfoque dado por Paul Zumthor, um dos grandes estudiosos
da voz poética, aos papéis dos ouvintes e ao contexto geral do momento em que a
poesia é lida. Será discutido se o papel da recepção no ato da leitura de um texto é igual
à atitude do ouvinte quando em contato com a audição de um poema. Para explicar essa
comparação, será imprescindível explicitar o conceito de performance, de Zumthor.
ABSTRACT:
The proposal of this review article is to address issues and aspects of some texts
referring to critical literary theory called Reader Response Criticism literary theory or
Aesthetics of Reception. Will be used theories and concepts of authors such as Hans
Robert Jauss, Hans Ulrich Gumbrecht, Wolfgang Iser and Regina Zilberman, in order to
base the approach taken by this critical conception to the relevance of the reader in the
process of reception and perception of the literary work. Based on these, there will be an
approach on the concepts of audience and performance of Paul Zumthor. This author
studies, among other things, the poetic voice, i.e. the oral literature and the links
between producers of poetry and their receptors. Finally, a comparison is drawn
between the importance given to the reader, in the studies of the Aesthetics of
Reception, and the focus given by Paul Zumthor, one of the great scholars of the poetic
voice, to the roles of listeners and the general context of the moment when the poetry is
read. Will be discussed the role of reception in the act of reading a text is equal to the
attitude of the listener when in contact with the hearing of a poem. To explain this
comparison, it will be essential to explicit the concept of performance of Zumthor.
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Mestranda em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei/MG.
E-mail: rcmp.jf@gmail.com
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Jauss acredita, portanto, no texto como produto do leitor, em que o sentido passa
a equivaler a um evento que ocorre durante a leitura, pois o texto não é uma estrutura
fechada e se encontra aberto para infinitas e distintas interpretações e intenções das
recepções. Assim, o texto perde sua objetividade, pois se submete à experiência
proporcionada pela leitura do receptor. Apesar de a questão da “experiência do leitor”,
que deveria ser a matéria central dessa corrente voltada para a análise da recepção,
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Essa subjetividade única de cada leitor confirma a ideia de que, segundo Jauss, a
obra de arte não tem um valor imutável e sacralizado; sua temporalidade só é expressa
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através das respostas dadas por cada novo público que se depara com ela. O autor, em
sua famosa Conferência de 1967, promove justamente a inversão do que era feito até
então: evidencia a relevância de se focar o leitor e a recepção, ao passo que a própria
produção da obra é relegada a outro plano. Portanto, leva ao rompimento gradual da
atitude sacralizadora da arte que impõe a essa apenas um significado, o qual deveria ser
internalizado, igualmente, por todos que teriam acesso a ela. Jauss, diferentemente do
que é defendido por Adorno, um dos principais defensores da Escola de Frankfurt,
afirma que a obra deve se libertar do sistema de respostas pré-estabelecido para ser
compreendida efetiva e plenamente por seu destinatário.
O relacionamento entre texto e recepção propõe que se passe a entender que as
interpretações são instáveis e mudam ao longo do tempo, podendo, então, parar de
provocar as reações que causara anteriormente. As mudanças de valor atribuídas aos
textos são, na maioria das vezes, consequências das ideologias de certa época e se
tornam ultrapassadas a partir das mudanças também efetuadas na classe dos leitores,
pois as recepções se condicionam à estrutura formal, à temática do texto e às
disposições variadas do público. Sobre o conteúdo do texto (ou objetivo estético), como
é afirmado por Gumbrecht (1983, p. 429), “receptores distintos poderão relacioná-lo a
referências distintas e somente essas possíveis ligações explicam a multiplicidade de
sentido atribuído a textos de ficção [...] no decorrer da história de sua recepção”.
Finalmente, a partir do que foi brevemente exposto aqui, pode-se confirmar que,
para a Estética da Recepção, o leitor não é um mero reprodutor. Em poucas e simples
palavras, os estudiosos da corrente crítica literária discorrida aqui defendem o
destinatário da obra como alguém que não recebe de forma passível e pronta o que é
apreendido e, sim, um indivíduo que, a partir de seus possíveis questionamentos,
transforma, completamente, o objeto recebido. Leitor e texto correspondem a uma troca
de experiências, a um intercâmbio produtivo em que um depende do outro para se
realizar. Embora a teoria dessa corrente crítica seja muito ampla e envolva diversos
fatores que não foram explicitados nesse artigo de revisão, pode-se compreender a
relevância de tal projeto e a dificuldade em pô-lo em prática, uma vez que a gama de
receptores de uma determinada obra, por ser vasta e distinta, não facilita a compreensão
total das características da recepção. Além disso, outros aspectos devem ser
considerados no processo de produção da obra que acarretam, diretamente, na
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A partir dos conceitos e expressões utilizados nos textos dos teóricos estudados neste trabalho, torna-se
possível usar a palavra percepção como um termo com significado próximo ao de recepção. Como afirma
Jauss (1983), “a compreensão estética, no texto poético, está orientada principalmente para o processo da
percepção” (p. 308), alegando que a percepção, ou seja, a recepção ou apreensão do leitor, é
imprescindível para o conhecimento completo do teor da poesia. Assim como Jauss, Zumthor (2007)
utiliza os termos como correspondentes, conforme fica explícito na passagem em que ele disserta sobre a
temporalidade poética: “esses diversos caracteres discursivos não existem em si próprios, mas em uma
certa disposição de textos, na intenção dos autores, na percepção dos ouvintes, espectadores, leitores. O
que me interessa é essa percepção, bem como as reações que ela gera em performance: perspectiva geral
próxima (aparentemente) daquela da ‘recepção’, no sentido em que essa palavra foi colocada em moda há
uma vintena de anos por críticos alemães” (p. 50).
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Vale ressaltar que o presente trabalho se refere ao ouvinte que se encontra frente a frente com o
intérprete, e não especificamente às relações mediadas corriqueiras nos tempos atuais. Atualmente, apesar
de ainda existir relações diretas entre ouvinte e poeta, grande parte dos ouvintes tem perdido parte da sua
possibilidade de co-autoria, já que o posicionamento que deve assumir já vem, em algumas
circunstâncias, pré-estabelecido pela mídia ou outros instrumentos mediadores.
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A literatura de cordel é uma das mais recorrentes representações do gênero da literatura oral no Brasil.
Embora sua difusão seja mais eminente na região Nordeste do país, os versos de cordel não se limitam a
uma cultura específica, possuindo as marcas da tradição do local onde aqueles foram produzidos. Esse
tipo de literatura se caracteriza, principalmente, por conter, principalmente, aspectos da espontaneidade
contidos nas comunicações orais, constituindo-se como uma escrita com essência de linguagem oral.
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Viu-se, nesse momento do trabalho, que o ouvinte é uma das principais peças da
performance oral das poesias, pois cabe a ele o papel de interferir e, de acordo com seu
horizonte de expectativas, inferir significado ao que ouve. Para tal, a circunstância da
performance mostra-se imprescindível, pois modifica, inteiramente, o todo envolvido na
voz poética de um determinado momento. Até o presente momento, é possível notar as
semelhanças entre a importância dada ao leitor nos estudos da Estética da Recepção e o
papel do ouvinte na literatura oral, embora, nessa última, sejam ainda muito importantes
outros fatores, como o da performance. Em seguida, será traçado um paralelo entre a
corrente crítica e a definição de Paul Zumthor, relacionando suas semelhanças e
apontando suas diferenças.
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performance, o qual amplia o papel desempenhado pelo receptor para todos os aspectos
envolvidos no ato do qual é participante de importância maior ou igual que a do
intérprete.
Pode-se notar e afirmar que, no viés da recepção, embora haja diferenças entre os
que ouvem e os que leem, as semelhanças são notórias: “o poema assim se ‘joga’: em
cena (é a performance) ou no interior de um corpo e de um espírito (a leitura)”
(ZUMTHOR, 2007, p.61), pois, como a performance, que deve ser entendida a partir da
identificação de uma série de circunstâncias, já relatadas anteriormente, a leitura não
constitui um ato isolado ou fechado em si. Como o ouvinte, que participa inteira e
direitamente do jogo performático, não resta ao leitor outra alternativa que não seja a de
entrar no jogo também, passando a fazer parte, embora não tenha a presença direta do
seu corpo, do universo construído pela leitura, pois “ao ato de ler integra-se um desejo
de restabelecer a unidade da performance” (idem, p.67).
A diferença essencial que separa os modelos de comunicação oral e escrito, no
que tange à recepção de cada um, se realiza no fato de que, para os ouvintes, as funções
da percepção (os sentidos, como ouvido, vista e tato) e a emoção são misturadas
simultaneamente na performance, provocando a total interação entre emissor da voz e
receptor. Já para o leitor, esses fatores referentes à situação externa são eliminados e
passa-se a exigir mais interatividade, esforço e constância desse (idem, p.66). Portanto,
a diferenciação básica entre ambos refere-se, principalmente, à situação performancial,
pois nela a presença corporal do ouvinte e do intérprete é plena, visível, intensa e, na
leitura, essa presença está implícita, invisível: “entre o consumo [...] de um texto poético
escrito e de um texto transmitido oralmente, a diferença só reside na intensidade da
presença”, segundo Zumthor (2007, p.69); é o mesmo que dizer que para o ouvinte a
situação de enunciação é fornecida e, já o leitor, tem a função de restituí-la, tentar
construí-la.
Assim, da forma que é estudada e defendida pelos críticos da estética da recepção
e como é analisada por Zumthor, o meio natural da obra poética consiste desde o
momento em foi criada até o instante em que foi recebida, independentemente da série
de características envolvidas no caminho entre o que escreve e o que a recebe. Tentou-
se mostrar, nesse trabalho, que a voz e a escrita se misturam quando se fala em sujeitos
da percepção, demonstrando, através de exemplos dos autores trabalhados aqui, que
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ISER, W. Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional. In: LIMA, Luiz Costa.
Teoria da literatura em suas fontes. 2ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983 . p. 384
– p. 416.
PROENÇA, I. C. A ideologia do cordel. Rio de Janeiro: Ed. Imago; Brasília: Ed. INL,
1979.
___________. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia
Diniz Pochat e Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.
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