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Um Inventário da Adoção da
Região de Piranga-MG
Viçosa
Minas Gerais - Brasil
Agosto/2013
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 2
RESUMO
O desconhecimento da herança cultural transmitida através das obras arquitetônicas ou a falta de interesse e
desconhecimento da sociedade e mesmo por parte das autoridades na preservação dessa forma de acervo tem provocado uma perda
irreparável já que não há nenhum inventário na ampla maioria das cidades brasileiras. Diante deste panorama exige-se uma
ação imediata dos pesquisadores. Essa lacuna é ainda maior quando se trata da produção no interior do país, que pode
impressionar com sua desconhecida extensão, como é observado na Zona da Mata mineira. O desmembramento político-
administrativo da região de Piranga-MG, ocorrido desde o final do século XIX, proporcionou o desenvolvimento de pequenos
núcleos urbanos somando hoje doze municípios. Um crescimento econômico estagnado desde o final do período minerador com a
decadência do ciclo do ouro pode ser percebido principalmente a partir de meados do século passado. Esse processo não
passou imune à construção de novos edifícios coincidindo com o desenvolvimento do Movimento Moderno na arquitetura
brasileira. Todo esse acervo, justamente por se encontrar em locais de difícil acesso, se encontra na periferia dos
interesses de estudos históricos. Neste sentido, tivemos por objetivo analisar e inventariar edifícios com características
de arquitetura moderna na cidade de Piranga e mais onze municípios que apresentam ligação histórico-administrativa e/ou
proximidade geográfica com esta: Alto Rio Doce, Senador Firmino, Cipotânea, Rio Espera, Itaverava, Senhora de Oliveira,
Presidente Bernardes, Brás Pires e Dores do Turvo, Catas Altas da Noruega e Lamim. O presente trabalho visou também
complementar outros projetos de pesquisa desenvolvidos na mesma linha que investigaram cidades nas microrregiões de Ubá,
Viçosa e Ponte Nova, uma vez que a região de Piranga ainda se encontrava sem um levantamento realizado por nossa equipe.
Utilizaram-se metodologias de inventário adotadas pelo DOCOMOMO Internacional e as análises levaram em conta a ficha
técnica da obra; a data de projeto, construção e inauguração, entre outras informações históricas; desenhos técnicos e
acervo fotográfico; a solução formal, espacial e construtiva; o contexto urbano em que o edifício se encontra inserido; a
qualidade técnica e estado de conservação da obra; a importância sociocultural, a qualidade estética e possíveis elementos
decorativos; e a mobilização pró-preservação e recuperação. A partir da análise desses inventários, foram compreendidas as
relações entre a adoção da linguagem arquitetônica moderna e as comunidades locais. A divulgação no meio acadêmico e local
foi feita por meio de apresentação em encontros, fóruns e seminários, de abrangência regional e nacional. Posteriormente,
planeja-se a divulgação destes dados na World Wide Web, para que se abra a consulta a outros pesquisadores, estudantes, e
interessados em geral pela temática.
_____________________________________________________________________ __________________________________________________
Ph. D. Maria Marta dos Santos Camisassa Marcelo André Ferreira Leite
Orientadora Bolsista PIBIC/ CNPq
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 3
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................ 4
2. A ARQUITETURA BRASILEIRA .................................................................................. 6
2.1 Arquitetura Colonial e Oitocentista [1500-1850] ............................................................ 6
2.2 Arquitetura Neoclássica, Eclética e Protomoderna (Art Déco e Neocolonial) [1850-1930] ...................... 7
2.3 Arquitetura Moderna [1930-1980] ........................................................................... 10
3. PROBLEMÁTICA ............................................................................................. 12
4. DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO .......................................................................... 13
5. OBJETIVOS ................................................................................................ 16
6. METODOLOGIA .............................................................................................. 16
7. CARACTERIZAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO ....................................................................... 18
7.1 Primeiras Impressões ...................................................................................... 18
7.2 Evolução Histórica ........................................................................................ 19
8. O PATRIMÔNIO DESCONHECIDO ................................................................................ 28
8.1 Escolas ................................................................................................... 28
8.2 Igrejas e Sedes Paroquiais ................................................................................ 34
8.3 Residências ............................................................................................... 39
8.4 Sedes de Prefeituras Municipais e Fóruns de Comarca ....................................................... 42
8.5 Hospitais e Postos de Saúde ............................................................................... 44
8.6 Edifícios Industriais ..................................................................................... 46
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 48
10. REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS ................................................................................ 50
11. ANEXOS ................................................................................................... 53
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 4
1. INTRODUÇÃO
A ocupação local foi realizada nos sentidos Já na segunda metade do século XIX, a região
norte-sul (partindo de Ouro Preto e de Mariana) e ficou isolada entre duas ferrovias implantadas de sul
oeste-leste (partindo da atual Conselheiro Lafaiete e para norte, que estão com seu trajeto indicado em
de Itaverava). Durante a era colonial e até a vermelho na figura 2 (na página seguinte). A primeira
primeira metade do século XIX, o chamado ‗Sertão do foi a Estrada de Ferro Dom Pedro II (que com a
Leste‘ tinha como limite o Caminho Novo, rota oficial República teve seu nome alterado para Estrada de
pela qual os produtos eram conduzidos da região Ferro Central do Brasil), cujos trilhos seguiram a
mineradora até o porto do Rio de Janeiro e vice- oeste da Zona da Mata mineira (como o Caminho Novo) e
versa. A figura 1 mostra o Caminho Novo em laranja chegaram a Queluz – atual Conselheiro Lafaiete em
(trecho entre Passagem das Congonhas e Mariana), e 1883. A segunda foi a Estrada de Ferro Leopoldina,
algumas localidades (Paróquias – em rosa e Capelas – que percorreu a região a leste de Piranga, alcançando
em amarelo) que são hoje cidades e são abordadas o município de Ponte Nova em 1886. Além dos
nesta pesquisa: Piranga, Calambau (atual Presidente municípios mencionados na figura 1, constam na figura
Bernardes), Tapera (atual Porto Firme), Barra do 2 como Distritos (em rosa ou roxo) as localidades de
Bacalhau (atual Guaraciaba) e Srª do Rozario (atual Itaverava, Catas Altas (atual Catas Altas da
Brás Pires). Noruega), subordinadas ao município limítrofe de
Queluz (atual Conselheiro Lafaiete), assinalado em
vinho; Lamim, Oliveira (atual Senhora de Oliveira),
Conceição do Turvo (atual Senador Firmino), Espera
(atual Rio Espera), São Caetano do Chopotó (atual
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 5
2.2 Arquitetura Neoclássica, Eclética e conhecidas pelo nome de Ecletismo, ditavam as regras
Protomoderna (Art Déco e Neocolonial) artísticas da época, valorizando o ornamento e a
[1850-1930] forma, enquanto que paralelamente, países como
Inglaterra, França, Estados Unidos, entre outros, em
O pensamento arquitetônico característico do
plena segunda revolução industrial, realizavam as
século XIX, que surgiu na Europa e posteriormente se
primeiras experimentações com novos materiais como
espalhou pelo restante do globo, fundamentou-se em um
aço e concreto armado.
revivalismo de antigas linguagens. O primeiro
movimento, o Neoclassicismo, originou-se ainda no No Brasil, os modelos Neoclássicos chegaram
século XVIII, onde os construtores buscavam não primeiro ao Rio de Janeiro, com a missão francesa em
infringir nenhuma das regras do que consideravam ‗bom 1816, que contava com a presença de cientistas,
gosto‘ e se baseavam em compêndios nos quais os artistas e arquitetos, etc. Já no fim do Segundo
arquitetos publicavam seus estudos realizados em Império, a abolição da escravatura constituiu uma
ruínas de construções greco-romanas. Quando Napoleão necessidade de mudança no modo de morar e se
ascendeu ao poder na Europa, a arquitetura construir no país, havendo, por exemplo, a demanda
Neoclássica tornou-se símbolo de seu império. Em por novos ambientes como o banheiro, cuja presença no
seguida, o Neogótico passou a disputar espaço com o interior da casa, ou da mesma possuir energia
puro estilo greco-romano. Atraía em especial elétrica, entre outras inovações, conferia status aos
espíritos românticos desenganados do poder da Razão e proprietários da residência. A construção de
ansiavam por um retorno ao que chamavam de Era de Fé ferrovias pode ser vista como um agente difusor da
(GOMBRICH, 2011). arquitetura de caráter eclético, com a implantação de
estações e casas ‗de gosto europeu‘, às margens dos
Além desse historicismo, existiu ainda a
trilhos (MENEZES, 1982). Muitas edificações passaram
utilização de elementos arquitetônicos de outras
a ser construídas elevadas do nível do chão,
culturas (árabe, hindu, chinês, etc.), que fizeram
permitindo porão, e com novos esquemas de
com que surgissem estéticas como o Neomourisco, ou
implantação, como o afastamento lateral ajardinado
então uma mistura de dois ou mais ‗estilos‘. Com o
(REIS FILHO, 2004). Da mesma forma, tais obras
pensamento romântico, advém o nacionalismo, de modo
contavam naquele momento, com maior utilização de
que países como, por exemplo, o Reino Unido, passaram
materiais como o tijolo maciço, o ferro, o vidro, o
a reconhecer o Neogótico como a arquitetura nacional.
ladrilho hidráulico, etc.
Tal profusão de linguagens, que passaram a ser
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 8
Fig. 8 – Teatro
A presença cada vez maior da fotografia, do Municipal do Rio de
Janeiro. Fonte:
cinema, do telefone, do rádio, etc. são outros http://www.revistamemo.
indícios do nascimento da modernidade. O Ecletismo com.br/arquitetura,
acesso em 26/07/12.
tornou-se uma espécie de expressão do poder político
no período da República Velha, como pode ser
evidenciado em obras como as realizadas na Avenida
Rio Branco, no Rio de Janeiro, então capital federal
(figuras 7 e 8) e na Praça da Liberdade, em Belo Fig. 9 – Praça da
Liberdade em 1934.
Horizonte, nova capital estadual, projetada e Fonte: disponível em
inaugurada em 1897 (figuras 9 e 10). No caso de Minas http://www.defender.org
.br/uploads/Artigo1.pdf
Gerais, estado bastante populoso e relativamente
, acesso em 26/07/12.
enriquecido pelo ciclo do ouro e em especial pela
agropecuária, durante a República Velha, era grande a
efervescência cultural. Na virada do século, os
filhos de grandes fazendeiros estudavam na Europa ou
nas capitais culturais nacionais e tomavam
conhecimento das grandes mudanças culturais e
tecnológicas que estavam em curso (VALVERDE, 1958).
Fig. 10 – Palácio
da Liberdade,
principal
edificação ao
redor da Praça da
Liberdade. Fonte:
disponível em
http://www.governo
.mg.gov.br, acesso
em 21/07/12.
Fig. 7 – Avenida Rio Branco, cerca de 1910. Fonte: KOK, G. Rio de
Janeiro na Época da Avenida Central. São Paulo: Bei Comunicação,
2005, p. 7.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 9
Houve também as chamadas Art Nouveau (no final Fig. 12 – Avenida Rio Branco,
no Rio de Janeiro, tendo ao
do século XIX e primeira década do século posterior) fundo o Edifício A Noite, um
e Art Déco (três primeiras décadas do século XX), que dos primeiros arranha-céus do
Brasil. Fonte: disponível em
antes mesmo da primeira grande guerra apontava na http://www.fotolog.com, acesso
Europa tendo entre suas características mais em 26/07/12.
marcantes uma estilização geometrizada da figuração,
quando não uma definitiva abstração geométrica
(FISCHER, 2012). Assim denominada após a Exposition
Internationale des Arts Décoratifs et Industriels
Modernes, em Paris, a Art Déco (figuras 11, 12 e 13)
inovava com o uso do concreto armado e um início de
racionalização da construção, de certa forma um
protomodernismo, que deu suporte às tipologias
modernas que se tornaram mais comuns a partir da
década de trinta. No Brasil, a Semana de Arte
Moderna, em 1922, afirmou a necessidade de uma
identidade nacional, advindo desse contexto a busca
por uma arquitetura brasileira autêntica, dando Fig. 13 – Edifício Acaiaca, em
Belo Horizonte. Fonte:
origem primeiramente ao movimento Neocolonial, do disponível em
qual participaram arquitetos que posteriormente se http://debidomo.wordpress.com,
acesso em 26/07/12.
afiliariam ao Modernismo. Gradativamente, foi
justamente essa profusão de fontes de inspiração que
gerou um desafio aos arquitetos e artistas na busca
de uma convergência de um ideal contemporâneo de
ordem racionalista com esse ambiente artístico.
Fig. 11 – Biblioteca Mário de
Andrade, em São Paulo. Fonte:
disponível em
http://www.prefeitura.sp.gov.br,
acesso em 21/07/12.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 10
2.3 Arquitetura Moderna [1930-1980] Estados Unidos, com Frank Lloyd Wright teve origem o
organicismo, no qual se objetivava a arquitetura como
O movimento moderno floresceu tanto das se fosse uma construção da natureza. Os espaços
vanguardas artísticas como das novas tecnologias apesar de funcionais, não precisavam seguir uma
compatíveis com uma produção em massa e da demanda disposição ‗regrada‘, mas era fundamental a
criada pelo aumento populacional e consequente integração do interior com o exterior. Afirmava-se
aceleração da urbanização. Ao longo do século XIX, a que a máquina devia construir a casa, mas não era
cidade passou a ser encarada como ‗morada de todas as preciso que a habitação se parecesse com uma. Na
classes‘ – mesmo que existisse também a preocupação Alemanha, Mies van der Rohe iniciou suas experiências
em contar com a tranquilidade da vida no campo, e com a ‗arquitetura em planos‘, considerando o espaço
surgiu de uma forma nunca antes vista grande demanda uno e indiviso, sem predominância do meio interior ou
por equipamentos urbanos, como hospitais, escolas, do meio exterior (VASCONCELLOS, 1960).
terminais de transporte de passageiros e de carga
(estações ferroviárias, de metrô, rodoviárias e Em nosso país, desde o início do século XX,
aeroportos), agências de comunicação (jornais, postos segundo o arquiteto Hugo Segawa (1998), o desejo de
telefônicos, emissoras de rádio), espaços destinados mudança era latente: uma a elite progressista,
ao esporte, ao lazer, a cultura, instalações positivista, cosmopolita, contrapunha-se à sociedade
administrativas do Estado, novas vias para um novo tradicional, de índole agrária e conservadora. O
tipo de transporte cada vez mais popular – o contato com as vanguardas europeias e seus valores
automóvel, além é claro, da necessidade de suprir a começaram a ser discutidos no Brasil. Após um momento
demanda de moradia, com a criação tanto de conjuntos de pioneirismo, no qual se destaca o ucraniano
habitacionais como de residências unifamiliares, e a radicado em São Paulo Gregori Warchavchik, o primeiro
consequente ampliação e especulação do mercado dos ‗grandes momentos‘ da arquitetura moderna
imobiliário. brasileira foi a construção do Ministério da Educação
e Saúde Pública no Rio de Janeiro (figura 14, na
Nesse contexto de intenso desenvolvimento página seguinte), entre 1936 e 1947, obra de autoria
urbano, a arquitetura procura aproveitar os recursos de uma equipe constituída por Lucio Costa, Oscar
oferecidos pelo sistema industrial, numa tentativa de Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, entre outros, além
tornar a construção civil mais próxima do processo da consultoria do franco-suíço Le Corbusier. Existia
produção em massa (REIS FILHO, 2004). Ao longo do desde o início a idéia de uma integração das artes
século XX, surgiram distintas tendências modernas. Na plásticas com a arquitetura, através de nomes hoje
França, surgiu o racionalismo de Le Corbusier, onde o consagrados, como Portinari (pinturas e azulejos),
homem enquanto ser superior à natureza aspira um Ceschiatti (esculturas), Paulo Werneck (mosaicos) e
espaço interno ideal, funcional, regrado e simples, Burle Marx (paisagismo) (MELLO, 1980).
não necessariamente vinculado a um espaço externo. A
casa era vista como uma ‗máquina de morar‘. Já nos
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Em outras instâncias, felizmente, a conservação fluxo de imigrantes para estudar e/ou trabalhar desde
de exemplares arquitetônicos é o grande debate atual. a fundação da Escola Superior de Agricultura e
No caso das obras modernas, por exemplo, o DOCOMOMO Veterinária (ESAV) em 1926. Com a transformação
Internacional (International Working Party for desta em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais
Documentation and Conservation of Buildings, Sites (UREMG) em 1948 e a posterior federalização da
and Neighbourhoods of the Modern Movement) 2 é uma instituição em 1969, passando a ser a Fundação
das principais instituições que contribui para esse Universidade Federal de Viçosa, o crescimento urbano
tipo de trabalho. Criada em 1988 na Holanda, a foi inevitável. Assim, antigas construções –
entidade tem núcleos de trabalho em vários países do residências ou edifícios comerciais de um ou dois
mundo inteiro. O núcleo brasileiro DOCOMOMO | Brasil 3 pavimentos – são vistos como obstáculo ao crescimento
tem recebido o apoio de várias universidades e urbano, passíveis de substituição por edifícios de
agências de fomento à pesquisa além de exercer sua múltiplos andares, ocasionando a perda da memória
atividade-fim com a contribuição, nas duas últimas arquitetônica da cidade.
décadas, para a documentação, a conservação e a
divulgação da produção modernista brasileira. Se em Viçosa há um processo acelerado de
substituição, nos municípios vizinhos, há uma pressão
Em Minas Gerais ainda há muito que se fazer. O pela busca de modernização como forma de acompanhar e
desconhecimento desta herança arquitetônica e, às repercutir os ‗ganhos‘ das cidades vizinhas de maior
vezes, uma falta de interesse mesmo por parte das porte (Viçosa, Ubá, Barbacena, Conselheiro Lafaiete).
autoridades tem provocado uma perda irreparável na Mesmo com uma economia regional estagnada perceptível
ampla maioria das cidades mineiras. Nos 853 nos municípios de pequeno porte da região, o efeito
municípios que compõem o estado, de forma contrária dominó pode se mostrar um risco.
ao que ocorre com exemplares da arquitetura colonial,
o ecletismo e o modernismo ainda sofrem da falta de 4. DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO
uma ação mais eficaz de preservação e estudos
aprofundados, mesmo que haja um acervo visível ao No projeto de pesquisa anterior, intitulado ―A
observador mais atento. E é consenso que a Arquitetura das Sedes dos Três Poderes em Piranga-MG
documentação e o inventário contribuem para a e Municípios Vizinhos‖ (PIBIC/CNPq/UFV 2011-2012) foi
conservação na medida em que dão o devido valor ao feita uma análise dos projetos públicos na cidade de
edifício, conferindo-lhe com propriedade seu caráter Piranga-MG e seus antigos distritos, cujo recorte
histórico e patrimonial. geográfico está delimitado em vermelho na figura 19
(na página seguinte).
Tomando-se como exemplo a cidade de Viçosa, esta
recebeu uma forte influência externa com o constante
2
Site oficial: http://www.docomomo.com.
3
Site oficial: http://www.docomomo.org.br.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 14
Tabela 1 - Municípios na região de estudo. Elaborada pelo autor Além desses municípios, foram incluídos também
com base no mapa da figura 20 e dos relatórios finais das
pesquisas mencionadas, 19/07/13. as seis cidades ainda sem levantamento. Destes
últimos, descobriu-se com base na Enciclopédia dos
A Adoção da Linguagem Municípios (IBGE, 1957), que quatro deles (Alto Rio
Moderna em Edifícios
A Arquitetura das Doce, Cipotânea, Rio Espera e Lamim) também
Públicos e Privados em
Sedes dos Três
Viçosa-MG e Municípios apresentam, inclusive, ligação histórica com a cidade
Poderes em Piranga-MG Municípios ainda sem
Vizinhos
e Municípios Vizinhos levantamento de Piranga 5 . Em seguida levado em consideração a
(Demanda Universal -
(PIBIC/CNPq 2011- distância das cidades selecionadas em relação à
FAPEMIG/
2010-2012 e PIBIC/CNPq
2012) Viçosa (tabela 2), a fim de se verificar a
2010-2011) viabilidade econômica e traçar o cronograma das
Porto Firme Piranga Alto Rio Doce viagens. Os municípios são ainda interligados com
Guaraciaba Senador Firmino Cipotânea Viçosa e entre si por meio das rodovias federais BR-
356 e BR-482, rodovias estaduais MG-124, MG-132 e MG-
Senhora de Oliveira Rio Espera
280, além de estradas municipais (figura 21, na
Presidente Bernardes Itaverava página seguinte).
6. METODOLOGIA
Fig. 21 - Mapa com as rodovias utilizadas no acesso à região de
estudo (em preto). Fonte: MINAS GERAIS. Departamento de Estradas
de Rodagem. Mapa Rodoviário do Estado de Minas Gerais. Belo Nota-se, em grande maioria dos materiais de
Horizonte, 2009. Mapa rodoviário. Escala 1: 1.500.000 [adaptado divulgação de cidades em geral, uma coleção de
pelo autor]. informações apresentadas sempre semelhantes em seu
conteúdo. Fotos dignas de cartões postais de
5. OBJETIVOS cachoeiras, lugares pitorescos e de belezas naturais,
igrejas, museus e grandes obras são usadas para
A pesquisa teve por objetivo geral levantar e valorizar mais as pousadas e hotéis do que o
inventariar o acervo arquitetônico como forma de patrimônio histórico. Em todas essas formas de
documento edificado da história das cidades a partir divulgação, assim como no ideário popular o
da linguagem moderna adotada em diversos edifícios, significado da palavra monumento está defasado, pois
assim como sua confrontação nos traçados urbanos o seu real significado é muito mais amplo como está
delineados em cada um desses municípios. definido na Carta de Veneza, de maio de 1964:
Os objetivos específicos foram o de concluir o A noção de monumento histórico compreende a
levantamento da região delimitada pelo quadrilátero criação arquitetônica isolada, bem como o
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 17
inseridos os fóruns de comarca; HLT, edifícios a importância dessas construções enquanto testemunhas
destinados à saúde e IND; edifício com uso do passado – de modo que com uma análise mais atenta,
relacionado à atividade de produção em escala o observador de tais obras pode descobrir sobre a
industrial. evolução municipal e regional, as influências
recebidas, os costumes, política e economia de
Foram consultadas diversas fontes e arquivos momentos anteriores, etc. Tal realidade pode ser
históricos, como o arquivo das sedes municipais, associada com uma citação do historiador Lucien
secretarias de patrimônio, casas de cultura e Febvre, sobre a necessidade de ampliar a noção de
arquivos particulares, onde foram encontradas documento:
fotografias, livros, projetos arquitetônicos e
estruturais, documentos legais, jornais, etc. As A História faz-se com documentos escritos
[...] Mas pode fazer-se sem documentos
placas oficiais de inauguração fixadas nas próprias escritos, quando não existem. Com tudo que a
obras em estudo revelaram-se de grande utilidade para habilidade do historiador lhe permite
determinar com precisão o contexto histórico de utilizar para fabricar o seu mel, na falta
das flores habituais. [Com] Paisagens e
projeto/construção/inauguração. Além disso, foi telhas. Com as formas do campo e das ervas
grande o número de entrevistas com moradores das daninhas. [...] Com tudo que, pertencendo ao
homem, depende do homem, serve o homem,
cidades – na falta de informações escritas, o exprime o homem, demonstra sua presença, a
testemunho oral foi de fundamental importância para atividade, os gostos e as maneiras de ser do
auxiliar a elaboração das fichas de inventário das homem. (FEBVRE apud LE GOFF, 2003, p.530).
Nos projetos e durante as construções, as Firmino, Dores do Turvo, Alto Rio Doce, Brás Pires,
igrejas e sedes paroquiais contaram com a Senhora de Oliveira e Lamim), de Conselheiro Lafaiete
participação de arquitetos e engenheiros de Barbacena (para Rio Espera), de Barbacena (para Cipotânea) e de
e até mesmo do Rio de Janeiro. As residências eram Piranga (para Presidente Bernardes), percebemos a
quase sempre de autoria de construtores locais, dificuldade de acesso a certas cidades, devido ao
quando não executadas diretamente pelo proprietário, número reduzido de horários de ida e volta e a falta
com auxílio de um mestre de obras. de interligação entre municípios vizinhos, como
Cipotânea e Rio Espera - distantes entre si apenas 15
As sedes de prefeituras municipais foram km e sem conexão de transporte coletivo entre si.
construídas em sua grande maioria com recursos Vale lembrar que as rodovias de acesso aos municípios
próprios, e há menção a atuação de engenheiros de abordados foram asfaltadas apenas bem recentemente,
Ubá. Já os fóruns de comarca – da mesma forma que já na primeira década do século XXI, ainda existindo
grande parte das escolas – seguiam projetos-padrão trechos de terra batida, como os percorridos por esta
elaborados por equipes da capital vinculadas a SEOP – pesquisa entre Cipotânea e Rio Espera e entre Senador
Secretaria de Estado de Obras Públicas 7 e executados Firmino e Paula Cândido, esta última fazendo conexão
em diversos municípios pela CODEURB – Companhia de com a cidade de Viçosa.
Desenvolvimento Urbano do Estado de Minas Gerais.
Essa realidade, além de dificultar o acesso, de
Quanto aos hospitais e postos de saúde certa forma também distancia essas cidades da Zona da
inventariados, registramos um caso de construção por Mata dos eixos Ponte Nova – Juiz de Fora e Barbacena
uma associação local de caridade em Senador Firmino, – Conselheiro Lafaiete (esse último já fora da Zona
e um posto de saúde padrão em Piranga, projetado pelo da Mata, correspondendo às mesorregiões do Campo das
DES – Departamento de Engenharia Sanitária da Vertentes e Metropolitana, respectivamente 8 ). Essa
Secretaria Estadual de Saúde, ambos no período que experiência é importante também para pensar a
vai do fim dos anos 50 ao início dos anos 60. Uma distância física e cultural que existia entre essas
última iniciativa de caráter privado foi a construção cidades no passado, com maiores dificuldades de
em Dores do Turvo, de um posto para recebimento e acesso e sem os meios de comunicação e transporte do
resfriamento de leite, propriedade da Cooproleite - qual dispomos hoje.
Cooperativa de Produtores de Leite de Muriaé Ltda.
7.2 Evolução Histórica
Como o transporte coletivo intermunicipal foi o
meio de transporte mais utilizado para as visitas às
Conforme mencionado na introdução, a região de
cidades, partindo-se de Viçosa (para Piranga, Catas
Piranga compreende cidades que tem suas origens ainda
Altas da Noruega e Itaverava), de Ubá (para Senador
7 8
Nome pelo qual passou a ser denominada a antiga SVOP - Cf. IBGE - Divisão Territorial do Brasil - 2013, disponível em:
Secretaria de Viação e Obras Públicas a partir do decreto 15987, ftp://geoftp.ibge.gov.br/organizacao_territorial/divisao_territor
de 31/12/1973. ial/2013/, acesso em 19/07/2013.
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no século XVIII, portanto com cerca de trezentos anos estabelecimentos da Capitania de Minas Gerais em
de história. A ocupação foi realizada nos sentidos 1724, do ponto de vista demográfico e econômico. Num
norte-sul, partindo de Ouro Preto e de Mariana, e relato anônimo sobre Guarapiranga no Código Matoso, o
oeste-leste, partindo da atual Conselheiro Lafaiete e número de ruas e de casas assobradadas, fornece uma
de Itaverava, que provavelmente é a aglomeração indicação da importância da localidade:
urbana mais antiga dentre os municípios em estudo. As
Compõe-se de duas ruas para a parte do rio e
ocupações eram motivadas inicialmente para extração uma [...] para a parte da estrada, com vinte
de ouro, aprisionamento de índios, ou pontos de pouso e cinco moradas de casas de sobrado,
antes de seguir expedição rumo ao leste ou sul cinquenta e cinco térreas, com capacidade
para se fazer uma povoação muito grande pelo
(tabela 3, na página 21). Quando essas atividades terreno, águas, muita terra para mantimentos
iniciais entravam em decadência, a agricultura se e o rio que passa pelo pé dele, navegável
por toda a freguesia (CÓDICE Costa Matoso
tornava a principal atividade, fixando os homens às apud FONSECA, 2011, p. 368-369).
terras, e comercializando o excedente da produção de
subsistência, que chegava inclusive a abastecer Entre 1753 a 1756, foram inúmeras as sesmarias
regiões de maior contingente populacional ou concedidas, nas quais se mencionam grandes ‗roças de
atividade mineradora ainda expressiva, como Ouro milho, casas de vivenda, paióis, senzalas e
Preto e Mariana. Autores como Ribeiro Filho (2004) bananais‘. Ao final do século XVIII, solicitou o
afirmam que já em 1690 existiam extrações de ouro título de Vila, porém sem sucesso – a autonomia
descobertas por paulistas ou portugueses onde hoje se política só seria concedida meio século depois
situam Itaverava, Catas Altas da Noruega, Piranga e (1841).
Senhora de Oliveira.
No que diz respeito à Guaraciaba, Ribeiro Filho
Segundo o Códice Costa Matoso 9 em 1691, (2004, p.51) aponta que em 1704, os filhos do
Francisco Rodrigues de Siqueira e Manoel Pires bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça
Rodovalho exploraram a região do rio Piranga, e que teriam descoberto uma mina de ouro no lugar onde
uma capela com a invocação de Nossa Senhora da atualmente se encontra o município. Teriam ainda
Conceição foi edificada em 1694, advindo daí a encontrado outra mina onde hoje está situada a cidade
denominação primitiva da cidade de Piranga: Nossa de Senador Firmino, no mesmo ano. A hostilidade por
Senhora da Conceição do Guarapyranga. Segundo a parte dos indígenas nesse último local – que atacavam
arquiteta Cláudia Damasceno Fonseca (2011), o local os brancos, destruindo lhes as casas e as roças, fez
figurava entre os vinte mais importantes com que o povoamento fosse intensificado apenas após
uma série de conflitos que culminaram na expulsão (ou
9
Segundo RIBEIRO FILHO (2004, p.51) o Códice Costa Matoso é uma aniquilação) dos nativos, já em meados do século
coletânea elaborada por Caetano da Costa Matoso, Ouvidor-Geral de XVIII, quando grande número de sesmarias foi
Vila Rica entre 1749 e 1752, que reúne documentos dos séculos concedido. Uma capela a Nossa Senhora da Conceição
XVII e XVIII ―e é hoje fonte de referência para qualquer estudo
da história antiga de Minas‖. Atualmente, o Código Matoso se foi edificada em 1753 (BARBOSA, 1971, p. 483-484).
encontra na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 21
Já próximo do ano de 1710, Ribeiro Filho (2004) Um último dado a ser considerado foi a evolução
dá por iniciada a ocupação nas regiões de Presidente populacional dos municípios selecionados (tabela 5,
Bernardes e Porto Firme, a primeira, com intuito na página 26), onde se verificou uma estagnação no
primordial de aprisionamento de índios, e a segunda, número de habitantes, pelo menos desde anos 1970. Já
como ponto de pouso antes da travessia do Rio a análise das porcentagens de população rural e
Piranga, em direção ao leste. Nesse mesmo ano, a urbana confirmou uma maioria rural em quase todos os
Enciclopédia dos Municípios (IBGE, 1957) dá como municípios12. Essas informações (histórico da ocupação
certa as expedições rumo ao sul, que partindo das e da formação administrativa e o quadro populacional)
aglomerações mais antigas, fizeram pousos onde hoje foram importantes para o melhor entendimento da
se localizam Lamim, Rio Espera10 e Cipotânea11. dinâmica urbana e seu reflexo na construção de novos
edifícios públicos e privados em cada localidade.
Por fim, parecem ter sido ocupadas Brás Pires
(1750, segundo Ribeiro Filho); Alto Rio Doce
(sesmaria concedida em 1759, conforme Barbosa (1971)
e Dores do Turvo, onde uma primeira capela foi
construída apenas em 1783 (BARBOSA, 1971).
10
Assim chamada por ser um ponto de encontro e de pouso das
bandeiras que ali se preparavam para descer o rio denominado de
Espera, até a confluência deste como o Rio Xopotó.
11
Cujo nome primitivo era São Caetano do Xopotó, localizada
12
próxima a já citada confluência entre os rios Espera e Xopotó, As exceções foram as cidades de Senador Firmino e Senhora de
lugar que também se transformou em ponto de pouso que antecedia a Oliveira que apresentam, respectivamente, 65% e 57% da população
travessia do Xopotó em direção ao sul. vivendo na área urbana do município.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 22
Tabela 3 – Informações a respeito da origem de cada núcleo urbano pesquisado. Elaborada pelo autor com base em: RIBEIRO FILHO
(2004); BARBOSA (1971) e IBGE (1957).
Município Nome primitivo Origem segundo RIBEIRO FILHO Origem segundo BARBOSA Origem segundo IBGE (1957)
(2004) (1971)
Itaverava Santo Antônio da Itaberaba 1690, extração de ouro 1726, construção da primeira 1690, extração de ouro
capela de Santo Antônio
Catas Altas Catas Altas da Noruega 1690, extração de ouro 1727, construção da primeira -
da Noruega capela de São Gonçalo
Lamim Divino Espírito Santo do 1760, construção da primeira 1760, construção da primeira 1710
Lamim capela consagrada ao Divino capela consagrada ao Divino
Piranga Nossa Senhora da Conceição 1690, extração de ouro no 1690, extração de ouro no 1704, extração de ouro no
do Guarapyranga Rio Piranga Rio Piranga Rio Piranga
Rio Espera Nossa Senhora da Piedade da - 1760, construção da primeira 1710, pouso das bandeiras
Boa Esperança ou Espera capela de Nossa Senhora da que se preparavam para
Piedade descer até o Rio Xopotó
Senhora de Nossa Senhora da Oliveira 1690, extração de ouro 1758, construção da primeira -
Oliveira capela de Nossa Senhora da
Oliveira
Presidente Santo Antônio do Calambau 1710, aprisionamento de 1733, construção da primeira 1730, extração de ouro no
Bernardes índios capela de Santo Antônio Rio Piranga
Porto Firme Nossa Senhora da Conceição 1710, pouso das bandeiras 1753, construção da primeira -
da Tapera que atravessavam o Rio capela de Nossa Senhora da
Piranga em direção ao leste Conceição
Cipotânea São Caetano do Chopotó - 1703, extração de ouro no 1711, pouso das bandeiras
Rio Xopotó que atravessavam o Rio
Xopotó em direção ao sul
Brás Pires Nossa Senhora do Rozário do 1750 - -
Braz Pires
Guaraciaba Santana de Guaraciaba, 1704, extração de ouro na 1749, construção da primeira -
Santana dos Ferros ou Barra Mina do Bacalhau capela de Santa Ana
do Bacalhau
Alto Rio Doce São José do Chopotó - 1759, concessão de sesmaria 1759, concessão de sesmaria
Senador Nossa Senhora da Conceição 1704, extração de ouro de 1704, extração de ouro de 1704, extração de ouro de
Firmino do Turvo ou Rocha Mina da Rocha Mina da Rocha Mina da Rocha
Dores do Nossa Senhora das Dores do - 1783, construção da primeira 1783, construção da primeira
Turvo Turvo ou Nossa Senhora das capela de Nossa Senhora das capela de Nossa Senhora das
Dores do Pomba Dores Dores
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 23
Tabela 4 - Formação administrativa dos municípios - em cinza, os abordados por esta pesquisa. Elaborada pelo autor com base em: ALMG,
Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais (2012); IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (1957, 2012); BARBOSA,
Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais (1971). *Originaram outros municípios além dos apresentados na tabela.
Fig. 22 – Município de Piranga na década de 1920. Fonte: MINAS GERAIS. Serviço de Estatística Geral da Secretaria de Agricultura. Álbum
Chorográphico Municipal. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1927 [Adaptado pelo autor]. As cidades abordadas pela pesquisa estão indicadas
com setas vermelhas. Na coluna lateral, o nome do antigo distrito, o nome atual do município e o ano de sua emancipação.
Fig. 23 e 24 – Municípios de Alto Rio Doce e Rio Espera na década de 1920. Fonte: MINAS GERAIS. Serviço de Estatística Geral da
Secretaria de Agricultura. Álbum Chorográphico Municipal. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1927 [Adaptado pelo autor]. As cidades
abordadas pela pesquisa estão indicadas com setas vermelhas. Na coluna central, o nome do antigo distrito, o nome atual do município e o
ano de sua emancipação.
São Caetano
Cipotânea
1953
Dores do Turvo
Dores do Turvo
1953
Rio Espera
Rio Espera
1911
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 26
Fig. 25 – Município de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete) na década de 1920. Fonte: MINAS GERAIS. Serviço de Estatística Geral da
Secretaria de Agricultura. Álbum Chorográphico Municipal. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1927 [Adaptado pelo autor]. As cidades
abordadas pela pesquisa estão indicadas com setas vermelhas. Na coluna lateral, o nome do antigo distrito, o nome atual do município e o
ano de sua emancipação.
Itaverava
Itaverava
1962
Cattas Altas
Catas Altas
da Noruega
1962
Lamim
Lamim
1962
Observação: O
distrito de Lamim
foi criado em
1840, subordinado
ao município de
Queluz (conforme
figura neste mapa
dos anos 20). Em
1938 foi
transferido para
o município de
Rio Espera, onde
permaneceu até a
emancipação em
1962.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 27
Tabela 5 - Evolução Populacional dos Municípios. Elaborada pelo autor com base em: 1830 – SOARES, J. M. Das Minas às Gerais: um estudo
sobre as origens do processo de formação da rede urbana da Zona da Mata mineira. 2009. 235f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e
Urbanismo) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009, p. 221. 1920 – MINAS GERAIS. Serviço de Estatística Geral da
Secretaria de Agricultura. Álbum Chorográphico Municipal. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1927. 1950 – IBGE. Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1957. 1970 a 2010 – IBGE. Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística: Séries Históricas e Estatísticas, disponível em: http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.aspx, acesso em:
20/07/2013 e Sinopse do Censo Demográfico de 2010, disponível em: http://www.censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php, acesso em:
20/07/2013.
[A] Arquitetura Moderna Para ser ter uma noção dessa necessidade,
[pode ser vista] como Goldemberg (1993) afirma que em 1950 apenas 36,2 %
propaganda de Estado
das crianças de 7 a 14 anos tinha acesso à escola.
(PEDROSA, 1981, p.
258). Janice Theodoro em seu artigo ―A construção da
cidadania e da escola nas décadas de 1950 e 1960‖
Os edifícios escolares foram as construções do
13
período moderno mais comumente encontradas na região O Ginásio Nossa Senhora do Rosário foi posteriormente
estadualizado em 1988, e teve o nome alterado para Escola
em estudo (nove obras inventariadas) quase todas Estadual Monsenhor Francisco Miguel Fernandes em 1990.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 29
14
Segundo as informações coletadas a Escola Estadual Padre
Vicente Carvalho foi uma iniciativa do então Deputado Federal
Padre Pedro Maciel, natural de Presidente Bernardes, e conforme
comunicações internas do então Departamento Estadual de Obras
Públicas em 1960 (disponíveis no Acervo Setop -
http://www.acervosetop.mg.gov.br), a obra foi realizada apenas
com verba da União, ou seja, sem o intermédio do governo de Minas
Gerais.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 30
Fig. 29 e 30 – Escolas
Estaduais Quinzinho Inácio
em Senhora de Oliveira
(1955) e Maria Aparecida Em 1958, no governo estadual de José Francisco
David em Canaã. Fonte: Bias Fortes, tendo como secretário da educação Abgar
Marcelo Leite, 21/09/12 e Renault é instituída a Campanha de Reparo e
Marta Camisassa, 04/11/11.
Restauração dos Prédios Escolares – CARRPE, que em
seu art. 4° determinava dois critérios básicos para
prioridade nas construções escolares:
Em 1968, sendo governador de Minas Gerais Israel comum nas menores cidades ou em bairros das cidades
Pinheiro e concluída a empreitada das ‗Escolas de maiores (como Viçosa); e o padrão de dois pavimentos,
Lata‘, a Campanha CARRPE, por meio da lei 4817 é implantado nas cidades de pequeno porte que contavam
transformada na Comissão de Construção, Ampliação, com um contingente populacional um pouco mais
Reparo e Conservação dos Prédios Escolares do Estado expressivo, ou em bairros de cidades de maior porte
– CARPE. Eram funções básicas da comissão, conforme o (chegando a ocorrer inclusive em cidades como Ponte
art. 3°: manter índices mínimos de segurança, higiene Nova, Juiz de Fora e Belo Horizonte). As tabelas 7 e
e eficiência em todos os edifícios escolares; 8 informam as escolas CARPE mencionadas pelos
cadastrar todos os prédios da rede estadual, com projetos de Arquitetura Moderna desenvolvidos no
informações sobre o estado de conservação e as Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFV.
facilidades de mão—de-obra, materiais e transporte em
Tabela 7 – Escolas padrão CARPE 1 pavimento identificadas.
todos os municípios; elaborar projetos de novas Elaborada pelo autor.
obras, ampliações e reformas; executar e fiscalizar o
processo construtivo; e projetar, fabricar e zelar Consta na pesquisa
Nome da escola
pelo o mobiliário a ser utilizado nas escolas. de Arquitetura
Cidade estadual
Moderna na região de
(ano inauguração)
(forma)
Em uma época de desenvolvimento do parque
Brás Pires São Luís (1978) Piranga (citada)
industrial nacional, a preocupação em economia para o
Catas Altas da
estado e a necessidade de construção de inúmeras Noruega (fig. 37 e
Gustavo Augusto da Piranga
Silva (1979) (inventariada)
escolas no estado, claramente identificáveis em uma ficha A7)
política reformista, demandavam a criação de um Cipotânea (fig. 38 e José Dias Pedrosa Piranga
sistema modular que pudesse facilitar um processo de ficha A6) (1978) (inventariada)
pré-fabricação in loco de um arcabouço pronto para Coimbra
Arnaldo Dias de
Viçosa (citada)
Andrade Filho
receber elementos padronizados como esquadrias, peças
sanitárias e mobiliário. Desse modo, o grupo de Prof. Biolkino de
Divinésia Ubá (inventariada)
Andrade (1979)
arquitetos e engenheiros da comissão criou projetos
Dores do Turvo Terezinha Pereira Piranga (citada)
padrão, que ficariam conhecidos como padrão CARPE, a
Mariana de Paiva
serem implantados em todo território estadual, Guidoval
(1978)
Ubá (inventariada)
substituindo as instalações provisórias (como as
José Albino Leal Viçosa
provisórias ‗escolas de lata‘, outros imóveis em Pedra do Anta
(1971) (inventariada)
condições inadequadas, imóveis que fossem alugados e Dr. Sólon Ildefonso Viçosa
Porto Firme
não propriedade do governo, etc.). (1982) (inventariada)
Ormindo de Sousa
Na região foram identificadas duas distinções São Geraldo Ubá (inventariada)
Lima (1982)
básicas do padrão CARPE, no que diz ao respeito ao Prof. João Loyola
Tocantins Ubá (inventariada)
número de pavimentos – o padrão de um pavimento, mais (1980)
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 33
Consta na pesquisa
Nome da escola
de Arquitetura
Cidade estadual
Moderna na região
(ano inauguração)
de (forma)
José Ermelindo de Viçosa
Araponga
Souza (inventariada)
Itaverava (fig. 39 Conselheiro Antão Piranga
e ficha A9) (1983) (inventariada)
Otávio Soares
Ponte Nova Viçosa (citada)
(1979)
Senador Firmino
Prof. Cícero Torres Piranga
(fig. 40 e
Galindo (1982) (inventariada)
ficha A8)
aula. No segundo pavimento, ficam dispostas as demais 1987, os novos edifícios destinados ao funcionamento
salas de aula (FERREIRA, 2006). de escolas públicas continuam a ser construídos com
base no padrão CARPE, devido a seu custo
Na concepção original do projeto, os dois blocos relativamente baixo, e uma boa aceitação por parte de
deveriam ser implantados com as maiores fachadas seus usuários.
orientadas para Norte e Sul, sendo a fachada Sul a
das maiores aberturas. A circulação entre as salas 8.2 Igrejas e Sedes Paroquiais
deveria ser feita pela face norte do edifício,
através de varandas que se prolongam por toda a Entre as ocorrências de
extensão do mesmo. Essas varandas são protegidas pela igrejas modernistas
construídas no Brasil
projeção do beiral (com balanço de 2m) e nos segundos
houve diversos casos em
pavimentos, por um guarda-corpo de 1m de altura. O que antigos templos
objetivo de se propor uma circulação aberta era católicos foram
garantir a ventilação cruzada nos diversos ambientes demolidos para dar
da escola (FERREIRA, 2006). As varandas de amplos lugar a novas
edificações (SILVEIRA,
beirais tinham ainda a finalidade de sombrear a face 2011, p. 63).
norte da edificação, mais sujeita a incidência solar,
diminuindo a temperatura interna. Na mesma lógica de Apesar das escolas de estética moderna terem
conforto térmico, eram as fachadas sul, sem sido a tipologia mais identificada nas cidades
incidência solar direta (ou seja, menor calor) que percorridas, as obras mais marcantes no contexto
deviam receber as maiores janelas, responsáveis pela local são sem dúvida as igrejas matrizes – que
iluminação natural no interior. parecem capazes de abrigar toda a população local –
sejam elas oitocentistas, ecléticas ou
O sistema construtivo compunha-se de estrutura inevitavelmente modernas, como ocorre em alguns
aparente, composta por vigas e pilares pré-fabricados municípios visitados.
em concreto armado, e laje pré-fabricada, composta
por vigotas de concreto espaçadas por uma fiada de Por meio da leitura de leitura de Marcus
tijolo cerâmico, armação e uma pequena camada de Gonçalves da Silveira: Templos modernos, templos ao
concreto. A vedação era em alvenaria de tijolo Chão: a trajetória da arquitetura religiosa
cerâmico maciço, também aparente, e a cobertura feita modernista e a demolição de antigos templos católicos
com amplas águas de telhas capa-e-canal. A ausência no Brasil (editora Autêntica, 2011), percebe-se que
de revestimentos, conferindo austeridade a todo o os edifícios religiosos não estiveram imunes a onda
conjunto. Interessante notar, para concluir, que no modernizadora, cujo mais conhecido exemplo é
período que vai desde o princípio dos anos noventa provavelmente a construção do Santuário Nacional de
até os dias de hoje, apesar da demanda ter diminuído Nossa Senhora Aparecida no município homônimo situado
significativamente e da CARPE ter sido extinta em
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 35
17
Cf. BARBOSA (2011).
18
Cf. SANTUÁRIO NACIONAL (2011).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 36
Fig. 63 – Acima, a atual Matriz
de Nossa Senhora da Oliveira, na
Praça Monsenhor José Justiniano Modernos, Templos ao Chão‖. Grande número de
Teixeira. Abaixo, a Antiga Matriz habitantes da cidade ainda se recente pela demolição
de Nossa Senhora da Oliveira,
atual igreja do Sagrado Coração da antiga matriz, edifício com mais de 250 anos na
de Jesus. Fonte: Cedido pela época de sua destruição, com aspetos de arquitetura
Prefeitura Municipal de Senhora
de Oliveira, 26/01/12. colonial, oitocentista e eclética (figura 46), que
parecem ser linguagens mais valorizadas como
―patrimônio‖ do que a arquitetura moderna.
O interior das casas muitas vezes continuava Por meio da tabela 9, verifica-se que todas as
a seguir uma distribuição espacial
residências analisadas incorporam a técnica de
remanescente do século XIX – com quartos se
abrindo para as salas de jantar e áreas construção em concreto armado, apresentando lajes e
molhadas (cozinha e banheiros) localizadas marquises feitas desse material; a despreocupação com
no fundo das residências (LARA, 2008, p.9). a simetria na fachada também é outra unanimidade
encontrada. A maioria confirmou o ‗modernismo de
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 40
Em relação a disposição do setor social nas localizam na mesma rua, onde existe outra obra com
plantas, a residência que mais revelou avanços foi a características modernas (figura 65).
de Custódio Fernandes Cabral em Senador Firmino
(figuras 61 e 62 e ficha C4): apresenta sala de estar
e jantar integrada e cozinha próxima ao setor social, Fig. 63 e 64:
Residências José
características encontradas apenas nessa obra dentre Damasceno Couto Pai
as analisadas. (1962) e Filho (1966)
em Alto Rio Doce. Fig.
65: Vista de outra
residência de estética
moderna, vizinha à
residência José
Damasceno Couto Pai.
Fonte: Marcelo Leite,
23/04/13.
Fig. 61 e 62:
Residência Custódio F.
Cabral em Senador
Firmino (1963):
Fachada frontal e
croqui da planta
baixa. O ambiente n° 9
é a sala de estar-
jantar e o ambiente n°
2 é a cozinha.
Fonte: Marcelo Leite,
10/01/13.
8.4 Sedes de Prefeituras Municipais e Fóruns de paredes externas (à frente destas), sugerindo algum
Comarca tipo de modulação. A obra se destaca por ser uma das
duas obras dentre todo o conjunto catalogado que foi
Foram identificadas e catalogadas três sedes de inventariada pelo poder público local, em 2012 26.
Prefeituras Municipais – em Dores do Turvo, Porto
Firme e Brás Pires, e dois Fóruns - das Comarcas de A sede da Prefeitura Municipal de Brás Pires
Senador Firmino e Piranga. A sede da Prefeitura (figura 69 e ficha D3), construída na década de 1980,
Municipal de Dores do Turvo (figura 66 e ficha D1) já possui três pavimentos (as anteriores possuíam
possui elementos característicos do modernismo, como apenas dois) e o programa de necessidades
marcação das esquadrias sugerindo ritmo e modulação, estabelecido no projeto original buscava integrar à
simetria nas fachadas frontal e lateral direita, o sede da Prefeitura outros serviços públicos, tais
telhado tipo ‗borboleta‘, etc, bem como os materiais como agência bancária, agência de correio, posto
e tecnologias empregados - construção em concreto telefônico, delegacia de polícia e um salão para
armado, esquadrias metálicas, tacos de madeira, pisos cerimônias ou festividades públicas. As
em cerâmica São Caetano, cobogós cerâmicos, etc. características formais também são um pouco
(figura 67). diferentes, neste caso a modulação está expressa no
ritmo entre as áreas de chapisco grosso pintadas de
amarelo e as áreas revestidas com tijolo cerâmico
avermelhado. Janelas metálicas estão centralizadas
nos planos de tijolos. A cobertura é em uma água com
telha de fibrocimento (talvez um novo material no
contexto histórico da construção).
que teve inclusive seu nome adicionado por Carlos 8.5 Hospitais e Postos de Saúde
Krouaner no Dicionário Enciclopédico de Arquitetura
de Nikolaus Pevsner, John Fleming e Hugh Honour, Prosseguindo com o enfoque nas obras de uso
quando da tradução, revisão e ampliação do dicionário público, a presente pesquisa encontrou também
para a língua portuguesa, em 197727. dois exemplares de arquitetura hospitalar, sendo
também nesse ponto uma importante complementação
às pesquisas anteriores da mesma linha, que já
haviam identificado outras obras da área de
saúde. Um resumo das obras identificadas dessa
tipologia é apresentado na tabela 10.
Fig. 75 – Posto de
Saúde Dr. Sólon
Ildefonso em
Piranga. Fonte:
Marta Camisassa,
29/05/12. Fig. 76 -
Posto Médico
Odontológico do
IPSEMG em Ubá.
Fonte: Cedido pelo
Arquivo Histórico
de Ubá, 29/02/12.
Fig. 74 – Hospital Santana em Guaraciaba. Fonte: Tamyres
Silveira, 31/01/11.
Fig. 82 e 83 – Fotografias
Fig. 81 – Antigo mercado do Posto de Recebimento e Resfriamento da inauguração do posto da
da Cooproleite Muriaé em Dores do Turvo, atualmente convertido na Cooproleite em Bicuíba,
sede do ―Clube da Melhor Idade‖. Fonte: Marcelo Leite, 10/01/13.
distrito do município de
Raul Soares, nos dão uma
noção da importância
socioeconômica de tal
O edifício servia como ponto de coleta da atividade no contexto
produção leiteira dos municípios de Dores do histórico local. Fonte:
Turvo, Senador Firmino, Alto Rio Doce, Brás http://professorelizeu-
geografia.blogspot.com.br,
Pires, Cipotânea e Senhora de Oliveira,
acesso em: 01/06/13.
refletindo mais uma proposta de modernização,
desenvolvimento e integração econômica na região
da Zona da Mata mineira. Do posto de Dores do
Turvo, o leite depois de resfriado era Em 1989 a unidade da Cooproleite em Dores do
transferido para Muriaé para ser transformado Turvo foi vendida a SPAM – Sociedade Produtora de
nos produtos Tartaruga (leite, queijo, manteiga, Alimentos Manhuaçu, que em 1993 foi comprada pela
etc.), ou era comercializado com outras empresas Parmalat 31 , que assumiu o controle sobre todas as
como a SPAM 30 . Além de Dores do Turvo, tem-se unidades da antiga empresa. Entretanto, apenas quatro
conhecimento de pelo menos mais outro posto de anos depois (1997) a Parmalat encerrou as atividades
recebimento de leite da empresa, em Bicuíba, da unidade em Dores do Turvo, e o terreno - conforme
distrito do município de Raul Soares (figuras 82 contrato estabelecido entre a Prefeitura Municipal e
e 83). a antiga Cooproleite Muriaé - retornou ao poder
público, que atualmente utiliza a área do galpão e do
bloco principal como garagem da frota municipal. O
mercado e o jardim existente em sua lateral foram
cedidos ao CMI - Clube da Melhor Idade de Dores do
30
A SPAM - Sociedade Produtora de Alimentos Manhuaçu - por sua Turvo.
vez, era conhecida por produzir a manteiga Mimo e o leite Toda
Vida, possuindo diversas unidades nos estados de Minas Gerais,
31
Rio de Janeiro e Espírito Santo. Cf. SERRA (2012). Cf. SERRA (2012).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 48
produção da estrutura em concreto armado in loco, por Tabela 12 – Materiais modernos popularizados e sua ocorrência nas
29 obras catalogadas. Elaborada pelo autor.
exemplo, (figuras 86 a 88) - ainda era (e é) mais
artesanal do que racionalizada. Acabamentos modernos popularizad os N° obras
Janelas metálicas 29
Estrutura em concreto armado 28
Telha metálica ou de fibrocimento 13
Piso em tacos de madeira 11
Azulejo placas 15x15 cm (branco ou amarelo) 11
32
Piso em cerâmica São Caetano (fig. 89) 9
Piso em ladrilho hidráulico 33 (fig. 90) 7
34
Painel de cobogós (fig. 91) 6
Parede c/ pedra São Tomé à vista (fig. 92) 6
Parede c/ placas cerãmicas retangulares 6
Parede em tijolo aparente 5
Figs. 86 a 88: montagem da Piso ‗granilite‘ 5
estrutura de concreto armado Parede revestida c/ pastilhas 35 3
na Escola Estadual Mons. Piso em pedra polida 3
Francisco Fernandes em Rio
Espera (1961-1966), Matriz
do Divino Espírito Santo em
Lamim (1964-1976) e Sede da
Prefeitura Municipal de Brás
32
Pires (1980-1891). Fonte: A Cerâmica São Caetano era a maior e a mais tradicional
Cedido pelas respectivas fabricante de artefatos cerâmicos dos anos 50. Cf. SEGAWA, H.
Oswaldo Arthur Bratke: Vila Serra do Navio e Vila Amazonas. In:
instituições.
GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a história da
arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010,
v. 2, p. 130. Com o tempo, passou a ser um modismo o uso da
cerâmica quebrada em pequenos pedaços de várias cores (mais
Outro ponto a ser destacado é a utilização de comuns vermelho, amarelo e preto) formando verdadeiros mosaicos.
33
Ladrilho hidráulico: placas de cimento decoradas, utilizadas
materiais, que da mesma forma que os elementos para dar acabamento aos pisos que necessitam ser
arquitetônicos, também acabaram se tornando muito impermeabilizados, tais como pátios, copas, cozinhas, banheiros,
etc. Cf. CORONA e LEMOS, 1972, p. 294.
recorrentes nas obras modernas, e que se destacam por 34
Cobogó, combogó ou combogê: tijolo furado ou elemento vazado
uma qualidade considerável, em muitos casos superior feito de cimento empregado na construção de paredes perfuradas,
a dos atuais materiais de acabamento. A tabela 12 cuja função principal seria a de separar o interior do exterior,
sem prejuízo da luz natural e da ventilação. Cf. CORONA e LEMOS,
apresenta esses materiais comuns na arquitetura 1972, p.138.
35
moderna, e sua ocorrência nas obras catalogadas. Pastilha: pequena peça de revestimento, quadrada ou hexagonal,
de cerâmica, porcelana ou vidro, de diminuta espessura. Na
Arquitetura Moderna brasileira, muito empregadas no revestimento
externo de edifícios. Cf. CORONA e LEMOS, 1972, p. 362.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 50
FALECE o arquiteto Hilton Grossi. Barbacena Online, GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a
09/10/2012. Disponível em: história da arquitetura moderna brasileira. São Paulo:
http://www.barbacenaonline.com.br, acesso em 31/01/13. Romano Guerra, 2010.
RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos VASCONCELLOS, S. Arquitetura: Dois Estudos. Porto
e povoamento nos sertões do leste: uma aventura de Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1960.
pioneiros. Viçosa, MG: Centro de Referência do Professor,
2004. ________________. Relato onde se prova que turismo em
Minas não é só Ouro Preto. Estado de Minas, Belo
RODRIGUES, G. T., CAMISASSA, M. M. S. A adoção da Horizonte, 04/08/1967. Turismo, p. 1.
linguagem arquitetônica moderna na microrregião de Ubá-MG:
inventário e análise formal. Viçosa, MG, 2012. VIDIGAL, P. M. Os Antepassados – A Sua Terra. Belo
Horizonte: Imprensa Oficial, v. 1, 1979.
SANTUÁRIO NACIONAL de Nossa Senhora da conceição
Aparecida. Cronologia histórica da Basílica Nova ou
Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição 11. ANEXOS
Aparecida. Disponível em:
http://www.santuarionacional.com.br, acesso em: 25/07/13. O relatório contém sete anexos, organizados da
seguinte maneira:
SERRA,F. A. R. Parmalat no Brasil durante a era
Grisendi. Leiria: Instituto Politécnico, 2012. ANEXO A – Fichas de Inventário – Escolas – página 54
SILVEIRA, M. M. G. Templos modernos, templos ao Chão: ANEXO B – Fichas de Inventário – Igrejas e Sedes
a trajetória da arquitetura religiosa modernista e a
demolição de antigos templos católicos no Brasil. Belo
Paroquiais – página 120
Horizonte: Autêntica, 2011.
ANEXO C – Fichas de Inventário – Residências – página
SILVEIRA, T. V. L., CAMISASSA, M. M. S. A adoção da 166
linguagem moderna nos edifícios públicos e privados em
Viçosa-MG e municípios vizinhos: um inventário e uma ANEXO D – Fichas de Inventário – Sedes de Prefeituras
análise formal. Viçosa, MG, 2011. Municipais e Fóruns de Comarca – página 208
SOARES, J. M. Das Minas às Gerais: um estudo sobre as ANEXO E – Hospitais e Postos de Saúde – página 248
origens do processo de formação da rede urbana da Zona da
Mata mineira. 2009. 235f. Dissertação (Mestrado em ANEXO F – Edifícios Industriais – página 248
Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Minas
Gerais, Belo Horizonte, 2009. ANEXO G - Material Publicado – página 271
THEODORO, J. A construção da cidadania e da escola
nas décadas de 1950 e 1960. Disponível em:
http://www.historia.fflch.usp.br/sites/historia.fflch.usp.
br/files/texto_escolas_paulistas.pdf, acesso em: 22/07/13.
Escolas
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 54
N° ficha - n° página – nome da obra, município, ano de inauguração.
Observação: Para todas as fichas, no item 2 – História do Edifício – será adotada a
seguinte notação após as datas de projeto, construção e inauguração das obras:
(E) – Quando se tratar de uma data exata, proveniente de fontes como placas de
inauguração, projetos, historiografias locais, documentos oficiais, etc.;
(A) – Quando se tratar de uma data aproximada, proveniente de fontes como entrevistas,
documentos não-oficiais, hipóteses, etc.
ANEXO A – Escolas
Fachada Frontal.
Fonte: Marcelo
Leite,
21/09/12.
Praça Monsenhor
Ribeirão OliveiraJosé Justiniano Teixeira
1
Segundo a placa afixada no pátio central da escola, a reforma 2
contou “com a colaboração patriótica do nobre Deputado Cyro Marquise: laje em edifícios, logo acima do andar térreo para
Aguiar Maciel” a mesma figura política mencionada como proteger os pedestres do sol e da chuva. Cf. CORONA e LEMOS,1972,
„incentivadora‟ do Posto de Saúde Dr. Sólon Ildefonso de Piranga, p.315.
inaugurado em 1961.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 57
Contexto: O entorno da Praça Monsenhor José Justiniano Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de
Teixeira apresenta volumetria simples, onde predominam prédios escolares empreendida à época de sua construção,
edificações de apenas um a três pavimentos (embora exista quando muitas escolas do interior do estado ainda não
uma edificação com seis pavimentos), implantadas em possuíam uma sede própria para essa finalidade, estando
terrenos pouco acidentados e com pequenos afastamentos em abrigadas em edifícios provisórios. Apresenta de inovador
relação o limite dos lotes. As calçadas, quando a proposta de um espaço socializante, com atividades que
existentes, são geralmente cimentadas, de aproximadamente incluem o ensino, os esportes, as artes, etc. A história
1 m, e há pouca arborização. As vias são pavimentadas com da escola se encontra desconhecida por grande parte da
bloquetes de concreto hexagonais de concreto. A circulação população de Senhora de Oliveira. Concentra grande parte
de veículos e pedestres é intensa devido aos ônibus do ensino publico do município, possuindo atualmente um
intermunicipais e veículos que fazem os percursos Brás total de 1000 alunos, matriculados no Ensino Fundamental,
Pires - Lamim ou vice-versa. Convivem no entorno imóveis Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos, distribuídos
de linguagem contemporânea, moderna e eclética. Os usos em seus três turnos (matinal, vespertino e noturno).
existentes são o residencial (predominante), o comercial e
o misto, além dos usos institucional (Escola Estadual Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
Quinzinho Inácio), serviços de comunicação (posto da possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
Telemig) e religioso (igreja matriz, salão e casa grandes vãos para aberturas („janelas em fita‟), marcação
paroquial). O prédio de seis andares e a torre da Matriz das esquadrias e dos pilares sugerindo ritmo e modulação,
de Nossa Senhora da Oliveira são os elementos marquise, bem como os materiais e tecnologias empregados –
arquitetônicos mais verticalizados no entorno imediato3. estrutura em concreto armado, esquadrias metálicas, pedra
à vista, etc., que podem ter sido utilizados por questões
4. AVALIAÇÃO de racionalização, padronização4, funcionalidade e
economia.
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns
problemas identificados foram a falta de acessibilidade ao Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
prédio principal, devido ao desnível de 50 cm em relação à associada com o contexto histórico dos anos 50-60 do
rua, e também ao segundo do anexo, já que só existem século XX, no qual o Brasil populista governado por
escadas para circulação vertical; o desbotamento ou Getúlio Vargas (eleito em 1950) e Juscelino Kubitschek
surgimento de manchas de umidade nos materiais de (eleito em 1955), procurava a modernização (o slogan de JK
acabamento; o manchamento da placa metálica de – crescer 50 anos em 5 nos dá um bom exemplo do espírito
inauguração; e a substituição completa do piso original, e desse tempo). Nessa época nas capitais federal e estadual
parcial do teto (forro de PVC no refeitório). o Movimento Moderno Brasileiro florescia, e suas maiores
expressões foram justamente construções estatais:
Ministério de Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro,
Conjunto Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte, e o
auge, a construção de Brasília em 1960. O ano de 1964
3
A presença de um edifício de seis pavimentos na região central marca o fim desta „República Populista‟ estabelecida por
de uma cidade de pequeno porte como Senhora de Oliveira evidencia Vargas e JK, e o início do Regime Militar, com o golpe de
uma acelerada descaracterização. Conforme inventário da atual 31/03/1964, que derrubou João Goulart (vice de Jânio
sede da Casa da Cultura de Senhora de Oliveira, localizada na
Praça São Sebastião, próxima de onde se situa a matriz, os
4
autores afirmam “São consideradas descaracterizantes um posto de O prédio da E. E. Quinzinho Inácio apresenta certa semelhança
gasolina atrás da igreja [antiga matriz] e o prédio da Prefeitura com as sedes da E. E. Maria Aparecida David (Canaã), E. E. Emílio
Municipal” (ASSIS, et alli, 2009, p.2). No próprio inventário da Jardim (Coimbra), em termos de fachada frontal, e com as sedes da
Praça São Sebastião, também consta informação semelhante: “Novos E. E. Napoleão Reis (Lamim) e E. E. José A. Leal (Pedra do Anta),
prédios romperam o singelo jogo do casario colonial e reformas em relação aos pilares retangulares de concreto armado utilizados
afetaram as características tradicionais das antigas edificações, nas circulações externas (como as no entorno dos pátios
trazendo novas cores, elementos e ritmos diferentes. [A centrais). Todas as cidades citadas se localizam Zona da Mata
Prefeitura Municipal] destoa do entorno e descaracteriza o mineira e foram abordadas pelas pesquisas de Arquitetura Moderna
ambiente” (PEREIRA, H. N. et alli, 2003, p.5). do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFV.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 58
Quadros) e instalou junta provisória até a eleição IBGE – Cidades@: Piranga – MG. Disponível em:
indireta do General Castelo Branco, ainda naquele ano. http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=316600.
Foi dentro desse contexto, se efetuou a „modernização‟ das Acesso em: 19/11/2011.
instalações educacionais da região5.
MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício está Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
bem conservado e continua a desempenhar sua função 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
original, entretanto não há nenhuma mobilização pró- Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
preservação. O edifício, com características de linguagem de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
moderna e momento histórico de construção relativamente 55.
recente, dificilmente é encarado pela maioria da população
local como algo passível de preservação, uma vez que o PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
senso comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
períodos mais antigos (como o colonial, o oitocentismo ou Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
o ecletismo) devem ser preservadas ou merecem prioridade
nessa mobilização.
PEREIRA, H. N., ARAÚJO, R. S., MILAGRES, Z. R., SILVA, M.
N. M., SOUZA, J. B. Inventário da Praça São Sebastião.
Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual Quinzinho Senhora de Oliveira: Prefeitura Municipal, 2003.
Inácio pode ser considerado como uma expressão da
„modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no aspecto
educacional) do município diante do contexto histórico de RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
sua construção. povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
2004.
5. DOCUMENTAÇÃO
SOUZA, V. L. Linguagem, oralidade e comunicação local: o
ASSIS, A. P., MARCOLINI, A. R., PEREIRA, H. N. Inventário alto falante na comunidade mineira de Senhora de Oliveira.
do sobrado à Praça São Sebastião, 122. Senhora de 2008. 239 f. Dissertação [Mestrado em Educação,
Oliveira: Adriana Paiva de Assis – Consultoria na Área de Administração e Comunicação] – Universidade São Marcos,
Patrimônio Cultural/Prefeitura Municipal de Senhora de São Paulo, 2008.
Oliveira, 2003-2009.
Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas livre.
Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 486.
Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 09/2012-
CORONA, C; LEMOS, C. Dicionário de Arquitetura Brasileira. 07/2013.
São Paulo: Edart, 1972.
5
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
1981, p. 258).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 59
6. ANEXOS
Rio Piranga
nos demais ambientes); cimentado no pátio interno, na quanto a Ladeira Coronel Feliciano Vidigal são
quadra, na varanda e nos fundos. As janelas são todas pavimentadas com blocos hexagonais de cimento. A
metálicas, do tipo de correr com basculante na bandeira circulação de veículos e pedestres é tranquila,
superior, pintadas na cor azul claro e com cerca de 2 m de intensificada graças à presença da Escola Estadual Padre
altura, todas gradeadas. As paredes externas possuem Vicente Carvalho, da Prefeitura Municipal (localizada a
acabamento em pastilhas5 cerâmicas da cor azul claro, com dois lotes de distância da escola) e do comércio local. A
outros detalhes em alguns planos: na fachada frontal, arborização/vegetação é escassa, existindo pouca
recebe também acabamento em pedra São Tomé, na mureta quantidade de árvores de pequeno porte ao longo da via e
junto à calçada, no térreo e na varanda superior, até 1 m no recuo frontal da escola. Convivem no entorno imóveis
de altura, além de argamassa pintada de vermelho com das linguagens colonial/oitocentista, eclética, moderna e
frisos horizontais na lateral das janelas. Na fachada contemporânea. Os usos existentes são o residencial, o
lateral esquerda, recebe também acabamento em pedra São comercial, o misto e o religioso, além do uso
Tomé, no térreo, até 1 m de altura. Na fachada lateral institucional (administrativo e educacional). A torre da
direita, da mesma forma que no pátio interno e nas Igreja Matriz é o elemento arquitetônico mais
circulações, pintura marrom até altura de 1,5 m e pintura verticalizado do entorno imediato.
creme até o teto. As paredes internas das salas da
administração e da biblioteca são bege até 1,5 m de altura 4. AVALIAÇÃO
e creme até o teto. Nas salas de aula, as paredes são
pintadas de creme do piso ao teto. Banheiros e cozinha tem
paredes com azulejos. O teto é em pintura branca em todos Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns
os ambientes, exceto na cozinha, onde é em forro de problemas identificados foram a falta de acessibilidade
madeira. As portas são de madeira (algumas lisas, outras tanto em relação ao térreo quanto em relação ao segundo
com acabamento almofado), pintadas de marrom. A cobertura pavimento, já que só existem escadas para circulação
é em duas águas invertida („telhado borboleta‟) com telhas vertical; o desbotamento, descascamento ou surgimento de
onduladas de fibrocimento, oculta por platibanda. manchas de umidade nos materiais de acabamento; o
apodrecimento de alguns tacos de madeira; a falta de
algumas placas cerâmicas no piso e na parede; o
Contexto: O volume se encontra inserido num trecho da Rua manchamento da placa metálica de inauguração; e a pichação
São José compreendido entre a Praça Cônego Lopes e a na parede da varanda superior.
Ladeira Coronel Feliciano Vidigal, que faz esquina com a
primeira junto ao lote da escola. O entorno apresenta
volumetria simples, onde predominam edificações de apenas Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de
um ou dois pavimentos implantadas em terrenos com prédios escolares empreendida à época de sua construção,
característica mais plana na região frontal e inclinada quando muitas escolas do interior do estado ainda não
nos fundos. Nos terrenos à esquerda (no sentido de quem possuíam uma sede própria para essa finalidade, estando
parte da Praça Central) os fundos encontram um barranco, abrigadas em edifícios provisórios. Apresenta de inovador
que serve como limite entre esses lotes e os lotes com a proposta de um espaço socializante, com atividades que
frente para a Rua do Cruzeiro (traçada no platô situado na incluem o ensino, os esportes, as artes, etc. A história
parte superior do barranco). Nos terrenos situados à da escola se encontra desconhecida por grande parte da
direita da Matriz os fundos confrontam com o remanescente população de Presidente Bernardes. Concentra grande parte
da mata ciliar do Rio Piranga, situado mais abaixo dos do ensino publico do município, possuindo atualmente um
terrenos. São pequenos os afastamentos em relação ao total de 650 alunos, matriculados no Ensino Fundamental,
limite dos lotes. A maioria das construções possui Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos, distribuídos
cobertura em telha cerâmica „tipo colonial‟, podendo haver em seus três turnos (matinal, vespertino e noturno).
também coberturas feitas com telha de fibrocimento ou
apenas em laje de concreto armado. Tanto a Rua São José Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
5
Pastilha: pequena peça de revestimento, quadrada ou hexagonal, grandes vãos para aberturas („janelas em fita‟), marcação
de cerâmica, porcelana ou vidro, de diminuta espessura. Na das esquadrias sugerindo ritmo e modulação, bem como os
Arquitetura Moderna brasileira, muito empregadas no revestimento materiais e tecnologias empregados – estrutura em concreto
externo de edifícios. Cf. CORONA e LEMOS, 1972, p. 362. armado, esquadrias metálicas, cobogós, pastilhas
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
65
6
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
1981, p. 258).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
66
6. ANEXOS [da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1 e 2: Telegramas enviados (em 01/06/60 de Nova Era-MG e em 03/06/60 de
Ubá-MG) pelo então Deputado Federal Padre Pedro M. Vidigal ao Eng. Antônio C. M. Moura, na época Chefe do Departamento de
Obras Públicas (vinculado à Secretaria de Viação de Obras Públicas de Minas Gerais), solicitando um topógrafo para ir à
Presidente Bernardes realizar o levantamento dos terrenos onde seriam construídas a atual Escola Estadual Padre Vicente
Carvalho e a Sede da Paróquia de Santo Antônio. Fot. 3: Ofício de 10/06/60 delegando ao Eng. Wady Nagem o serviço em
Presidente Bernardes. Fot. 4: Parecer final do Eng. Wady Nagem, 17/06/60, onde se menciona que a obra seria realizada apenas
com verba federal. Crédito das imagens, disponível em: http://www.acervosetop.mg.gov.br/setop/, acesso em: 06/07/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
67
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 5: “O povo assiste a inauguração do „Centro Educacional Padre Vidigal‟” (VIDIGAL,
1979, p.358). Fot. 6: Placa de inauguração. Fot. 7 e 8: Vista parcial da quadra e do pátio, a partir da circulação superior. Fot. 9:
Fachada frontal vista de outro ângulo. Fot. 10: Fachada lateral esquerda. Fot. 11: Pátio interno, com vista para a circulação inferior
e superior. Fot. 12: Circulação inferior, com vista para escada. Fot. 13: Circulação superior. Crédito das imagens, Marcelo Leite,
17/01, 18/04/2012 e 26/01/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
68
Contexto: O volume se encontra inserido na Praça Social: O edifício reflete uma proposta de
Cônego Agostinho José Rezende. O entorno apresenta modernização de prédios escolares empreendida à
volumetria simples, onde predominam edificações de época de sua construção, quando muitas escolas do
apenas um a três pavimentos, implantadas em terrenos interior do estado ainda não possuíam uma sede
relativamente planos e com pequenos afastamentos em própria para essa finalidade, estando abrigadas em
relação o limite dos lotes. A maioria das edifícios provisórios. Apresenta de inovador a
construções possui cobertura em telha cerâmica, proposta de um espaço socializante, com atividades
havendo também coberturas feitas em laje de concreto que incluem o ensino, os esportes, as artes, etc.
armado, telhas metálicas ou de fibrocimento. As vias (fot. 15). A história do antigo ginásio se encontra
que fazem o contorno da Praça são todas asfaltadas. desconhecida por grande parte da população de Dores
A circulação de veículos e pedestres é tranquila, do Turvo. Além de ginásio estadual, o prédio
intensificada pela presença de um Terminal funcionou como sede de uma escola normal e como
Rodoviário localizado na lateral da Praça Cônego salão paroquial, antes de se tornar sede da APAE
Agostinho (próximo à Prefeitura e à Igreja Matriz) Dores do Turvo.
que recebe ônibus da linha Ubá – Dores do Turvo -
Alto Rio Doce. A Praça possui vegetação composta de Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
gramíneas, arbustos e árvores de pequeno e grande possui elementos marcantes do Modernismo na
porte, embora a maior parte de sua área tenha sido Arquitetura – grandes vãos para aberturas, marcação
transformada em piso cimentado. Convivem no entorno das esquadrias sugerindo ritmo e modulação, telhado
imóveis das linguagens colonial/oitocentista, borboleta, bem como os materiais e tecnologias
eclética, moderna e contemporânea, contudo, o empregados – estrutura em concreto armado,
Terminal Rodoviário, principalmente por suas grandes esquadrias metálicas, etc., que podem ter sido
dimensões, além de materiais diferentes dos utilizados por questões de racionalização e
utilizados pelas construções adjacentes, torna-o uma economia, além da intenção estética modernizadora.
edificação de impacto no entorno, bem como a
relativa falta de arborização/área gramada da Praça.
Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica
Os usos existentes são o residencial, o comercial o
está associada com o contexto histórico dos anos 50-
misto e o religioso, além do uso institucional. A
60 do século XX, no qual o Brasil populista
Igreja Matriz, com duas torres laterais e
governado por Getúlio Vargas (eleito em 1950) e
implantação em elevada em relação à Praça, é o
Juscelino Kubitschek (eleito em 1955), procurava a
elemento arquitetônico mais verticalizado do entorno
modernização (o slogan de JK – crescer 50 anos em 5
imediato.
nos dá um bom exemplo do espírito desse tempo).
Nessa época nas capitais federal e estadual o
4. AVALIAÇÃO Movimento Moderno Brasileiro florescia, e suas
maiores expressões foram justamente construções
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. estatais: Ministério de Educação e Saúde Pública no
Alguns problemas identificados foram a falta de Rio de Janeiro, Conjunto Arquitetônico da Pampulha
acessibilidade tanto em relação ao térreo quanto em em Belo Horizonte, e o auge, a construção de
relação ao segundo pavimento, já que só existem Brasília em 1960. O ano de 1964 marca o fim desta
escadas para circulação vertical; o desbotamento, „República Populista‟ estabelecida por Vargas e JK,
descascamento ou surgimento de manchas de umidade e o início do Regime Militar, com o golpe de
nos materiais de acabamento; o apodrecimento de 31/03/1964, que derrubou João Goulart (vice de Jânio
alguns tacos de madeira; e a falta de algumas placas Quadros) e instalou junta provisória até a eleição
cerâmicas no piso. indireta do General Castelo Branco, ainda naquele
ano. Foi dentro desse contexto, se efetuou a
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
73
4
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
1981, p. 258).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
74
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Vista do edifício e seu entorno. Fot. 2 e 3: Fachada lateral direita,
e fachada posterior, vistas do pátio lateral da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Fot. 4: Circulação inferior, vista da
escada. Fot. 5: Circulação de acesso às salas de aula. Na próxima página, fot. 6: Sala de aula. Fot. 7: Fachada lateral
esquerda. Fot. 8: Anexo, no limite dos afastamentos lateral esquerdo e posterior. Fot. 9 e 10: Salão superior. Fot. 11:
Varanda superior. Fot. 12: Ladrilho hidráulico. Créditos das imagens: Marcelo Leite e Graça Calve, 10/01 e 01/02/2013,
disponível em: http://www.facebook.com/groups/doresdoturvo/, acesso em 02/06/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
75
[da esquerda p/ à direita] Fot. 13: Encontro do ladrilho hidráulico, com o taco de madeira e o piso de cimento polido, no salão
superior. Fot. 14: Vista da cobertura. Fot. 15: Vista do Ginásio Estadual durante desfile cívico nos anos 1960. Créditos das
imagens: Marcelo Leite e Graça Calve, 10/01 e 01/02/2013, disponível em: http://www.facebook.com/groups/doresdoturvo/, acesso em
02/06/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
76
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
77
Ribeirão Vassouras
pintura interna e externa na cor creme. O forro original é Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado possui
em madeira de pinus, ainda existente em alguns ambientes elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura – grandes
como a recepção/secretaria (fot. 10). A cobertura é em uma vãos para aberturas („janelas em fita‟), marcação das
água, com inclinação descendente voltada para a parte esquadrias sugerindo ritmo e modulação, bem como os
posterior. O piso, antes todo em tacos de madeira, foi materiais e tecnologias empregados – estrutura, vedação,
substituído por placas cerâmicas em todo o prédio. esquadrias e telhas metálicas e telhas metálicas, que podem
ter sido utilizados por questões padronização e
Contexto: O volume se encontra inserido na Rua Pinto funcionalidade, além de rápida construção no contexto
Paraíso (fot. 11), ao lado da Igreja Matriz de Santo histórico original.
Antônio, tombada pelo IPHAN, de arquitetura
colonial/oitocentista (fot. 12). Na mesma rua se encontra Histórica: A gestão do governador Magalhães Pinto (1961-
um posto telefônico, de linguagem moderna. Nas imediações 1966) proliferou as chamadas „Escolas de Lata‟ em todo o
também se encontram residências e um edifícios comerciais. estado, pela sua facilidade e economia de construção,
O entorno possui volumetria simples, predominando agilizando assim, o desenvolvimento educacional em Minas
edificações de apenas um ou dois pavimentos (salvo a Gerais (ESCOLA, 2010). Em uma escala maior a obra
Matriz, cuja cumeeira e torres laterais atingem três arquitetônica está associada com o contexto histórico do fim
pavimentos de altura), com pouco ou nenhum afastamento em dos anos 50 e início dos anos 60 do século XX, no qual o
relação ao limite dos lotes. As calçadas são cimentadas, Brasil populista governado por Juscelino Kubitschek (eleito
de aproximadamente 1 a 1,5, e no entorno há arborização em 1955) procurava a modernização (o slogan de JK – crescer
apenas nos fundos dos lotes. A via de acesso à Escola é 50 anos em 5 nos dá um bom exemplo do espírito desse tempo).
pavimentada com bloquetes de concreto hexagonais. A Muitos municípios da região foram emancipados nessa data,
circulação de veículos e pedestres é tranquila, entre eles Itaverava (que obteve autonomia em 1962). Nessa
intensificada graças à presença da Câmara/Escola. Convivem época nas capitais federal e estadual a arquitetura moderna
no entorno imóveis das linguagens colonial/oitocentista, era a predominante, sendo as maiores expressões modernas no
eclética, moderna e contemporânea, bem como os usos Brasil justamente construções estatais: Ministério de
institucional, religioso, residencial, misto e comercial Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro (1935-1945),
(com predomínio desse último). Conjunto Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte (1940-
1943), e o auge, a construção de Brasília (1956-1960)
4. AVALIAÇÃO (MELLO, 1982). Em 1964 chega ao fim esta „República
Populista‟ estabelecida por Vargas e JK, e se inicia o
Regime Militar, com o golpe de 31/03/1964, que derrubou João
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns
Goulart (vice de Jânio Quadros) e instalou junta provisória
problemas identificados foram o enferrujamento de algumas
até a eleição indireta do General Castelo Branco, ainda
telhas metálicas na cobertura e no tapamento lateral; o
naquele ano. Características do Movimento Moderno
desbotamento ou descascamento em alguns pontos da pintura
Brasileiro, cujas maiores expressões são justamente
nos fechamentos laterais (metálicos ou em alvenaria) e nas
construções públicas, continuaram a ser difundidas durante
telhas da cobertura.
os anos 60, 70 e 80 e certamente noções e detalhes para
finalidades construtivas/técnicas/funcionais (mesmo que em
Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de caráter provisório, como o caso das Escolas de Lata)
prédios escolares empreendida à época de sua construção, chegaram a diversas regiões de Minas Gerais.
quando muitas escolas do interior do estado ainda não
possuíam uma sede própria para essa finalidade, estando
abrigadas em edifícios provisórios. Apresenta de inovador
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício
proposta de um espaço socializante, com atividades que
apresenta estado de conservação regular e continua a
incluem o ensino, os esportes, as artes, etc. A história
desempenhar sua função original, juntamente com uma nova
da escola se encontra desconhecida por grande parte da
função, entretanto não há nenhuma mobilização pró-
população de Itaverava. Concentra parte do ensino publico
preservação. O edifício, com suas características de
do município, possuindo atualmente um total de 100 alunos,
linguagem moderna e momento histórico de construção
matriculados no Ensino Infantil - maternal (vespertino) e
relativamente recente, dificilmente é encarado pela
na educação de Jovens e Adultos (noturno).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
80
maioria da população local como algo passível de IBGE – Cidades@: Itaverava – MG. Disponível em:
preservação, uma vez que o senso comum geralmente nos leva http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=313390.
a crer que apenas obras de períodos mais antigos (como o Acesso em: 13/05/2012.
colonial, o oitocentismo ou o ecletismo) devem ser
preservadas ou merecem prioridade nessa mobilização. MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
Avaliação geral: O edifício da antiga Escola Estadual 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
Conselheiro Antão pode ser considerado como uma expressão Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
da „modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no aspecto de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
educacional) do município diante do contexto histórico de 55.
sua construção.
PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
5. DOCUMENTAÇÃO Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
ACERVO Setop. Grupos escolares em Minas Gerais. Disponível
em: http://www.acervosetop.mg.gov.br, acesso em: RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
13/07/2013. povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas 2004.
Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 362-
363. Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
livre
ESCOLA de lata é tombada pelo Patrimônio Cultural em
Cachoeira Dourada. Disponível em: Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 09/2012-
http://www.jornaldopontal.com.br/index.php?ac=news&id=3097 07/2013.
. Acesso em 23/02/2013.
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Plenário da Câmara. Fot. 2: Sala da contabilidade da Câmara. Ao fundo à
esquerda, acesso ao gabinete do Presidente. Fot. 3: Vista do acesso envidraçado da sala da contabilidade da Câmara, em contraste com
a estrutura metálica pintada em azul. Fot. 4 e 5: Corredor criado após a construção de mais três salas de aula, utilizando-se com
fechamento lateral divisórias de madeira branca (à direita). Na parte superior da imagem 5, é possível visualizar o encontro entre o
antigo beiral da escola de lata, e a cobertura metálica criada para o acréscimo. Fot. 6: Jardim na lateral direita, atualmente sem
manutenção. Créditos das imagens: Marcelo Leite, 28/02/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
82
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 7: Vista parcial da fachada frontal. À esquerda, acesso principal à escola. À
direita, acesso principal à Câmara. Fot. 8: Vista do pátio interno/ refeitório. Na parte superior, também é possível visualizar o
encontro entre o antigo beiral da escola de lata (à direita) e a cobertura metálica criada para o acréscimo (à esquerda). Fot 9:
Posta metálica com ventilação na bandeira superior, aparentemente o padrão de portas empregado em toda edificação original, hoje
existe apenas essa. Fot. 10: Vista do forro em madeira de pinus, que provavelmente era o material de forro original também para as
salas de aula. Fot. 11 e 12, entorno imediato, destacando-se a Matriz de Santo Antônio, bem tombado pelo IPHAN. Créditos das imagens:
Marcelo Leite, 28/02/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
83
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 84
Praça da Piedade
Rio Espera
Praça do Rosário
Construção: Para o bloco original, o sistema construtivo torre da Igreja do Rosário é o elemento arquitetônico mais
utilizado compõe-se de estrutura em pilares, vigas e lajes verticalizado do entorno imediato.
de concreto armado, permitindo grandes vãos para aberturas
(„janelas em fita‟) e vedação em tijolos cerâmicos. O piso 4. AVALIAÇÃO
é em granilite, na circulação; e cerâmico nos demais
ambientes (sendo que as diversas salas o piso original era
em tacos de madeira, e onde se situa atualmente o Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Um
auditório, havia antes um pátio cimentado). Com exceção do problema identificado foi a dificuldade de acessibilidade
granilite original, todos os pisos cerâmicos foram tanto em relação ao térreo quanto em relação ao segundo
assentados durante a última reforma (2010-2011). As pavimento, já que no prédio principal só existem escadas
janelas são todas metálicas, do tipo de basculante, para circulação vertical (dependendo do edifício anexo e
pintadas na cor amarelo e com cerca de 2 m de altura. As sua rampa para tornar o edifício principal acessível).
paredes externas são pintadas de amarelo, com brises6,
horizontais e verticais, no entorno das janelas, que são Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de
pintados em vermelho. As paredes internas são creme até prédios escolares empreendida à época de sua construção,
1,5 m de altura e branco até o teto, também branco. Nos quando muitas escolas do interior do estado ainda não
banheiros e cozinha, paredes azulejadas. As portas possuíam uma sede própria para essa finalidade. Apresenta
externas são metálicas, pintadas de amarelo. As portas de inovador a proposta de um espaço socializante, com
internas são de madeira, algumas envernizadas, outras atividades que incluem o ensino, os esportes, as artes,
pintadas de amarelo. A cobertura é quatro águas com telha etc. A história da escola se encontra desconhecida por
cerâmica. grande parte da população de Rio Espera. Concentra grande
parte do ensino publico do município, possuindo atualmente
Contexto: O volume se encontra inserido num trecho da Rua um total de 760 alunos, matriculados no Ensino
São José que se abre conformando a Praça do Rosário (fot. Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos,
12). O entorno apresenta volumetria simples, onde distribuídos em seus três turnos (matinal, vespertino e
predominam edificações de apenas um ou dois pavimentos noturno).
implantadas em terrenos planos e com pequenos afastamentos
em relação ao limite dos lotes. A maioria das construções Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
possui cobertura em telha cerâmica „tipo colonial‟, possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
podendo haver também coberturas feitas com telha de grandes vãos para aberturas („janelas em fita‟), marcação
fibrocimento ou apenas em laje de concreto armado. Tanto a das esquadrias sugerindo ritmo e modulação, uso de brises,
Rua São José quanto a Praça do Rosário são pavimentadas bem como os materiais e tecnologias empregados – estrutura
com blocos hexagonais de cimento. A circulação de veículos em concreto armado, esquadrias metálicas, piso granilite,
e pedestres é tranquila, intensificada graças à presença tacos de madeira, etc., que podem ter sido utilizados por
da Escola Estadual Mons. Francisco Miguel Fernandes e da questões de racionalização, padronização, funcionalidade e
Igreja do Rosário. A arborização/vegetação é escassa, economia.
existindo pouca quantidade de árvores de pequeno porte ao
longo da via, na praça e nos pequenos recuos que tem os
Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
lotes. Convivem no entorno imóveis das linguagens
associada com o contexto histórico dos anos 50-60 do
colonial/oitocentista, eclética, moderna e contemporânea.
século XX, no qual o Brasil populista governado por
Os usos existentes são o residencial, o comercial, o misto
Getúlio Vargas (eleito em 1950) e Juscelino Kubitschek
e o religioso, além do uso institucional (educacional). A
(eleito em 1955), procurava a modernização (o slogan de JK
– crescer 50 anos em 5 nos dá um bom exemplo do espírito
desse tempo). Nessa época nas capitais federal e estadual
6
Brise: elemento arquitetônico de proteção com a finalidade o Movimento Moderno Brasileiro florescia, e suas maiores
principal de interceptar os raios solares, quando estes forem expressões foram justamente construções estatais:
inconvenientes. Cf. CORONA e LEMOS, 1972, p.81. Com a Ministério de Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro,
popularização da arquitetura moderna, o brise passou a ser Conjunto Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte, e o
utilizado apenas com a finalidade estética de compor as fachadas, auge, a construção de Brasília em 1960. O ano de 1964
e não mais por sua finalidade técnica.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 87
marca o fim desta „República Populista‟ estabelecida por IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Vargas e JK, e o início do Regime Militar, com o golpe de Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro:
31/03/1964, que derrubou João Goulart (vice de Jânio IBGE, 1957, v.27, p. 46-50.
Quadros) e instalou junta provisória até a eleição
indireta do General Castelo Branco, ainda naquele ano. IBGE – Cidades@: Rio Espera – MG. Disponível em:
Foi dentro desse contexto, se efetuou a „modernização‟ das http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=315520.
instalações educacionais da região7. Acesso em: 13/11/2011.
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício está JORNAL "por dentro da escola". Rio Espera: E. E. Mons.
muito bem conservado em termos físicos, devido Francisco M. Fernandes, n. 3, 08 abr. 2011.
pincipalmente a sua última reforma. Entretanto, as
reformas pelas quais passou acabaram por descaracterizar
certos aspectos originais, com substituição tanto de MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
materiais de acabamento, quanto de ambientes e funções, Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
motivo pelo qual se considera o estado de conservação – 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
enquanto exemplar da arquitetura do período moderno – Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
regular. Ainda desempenha sua função original, entretanto de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
não há nenhuma mobilização pró-preservação. O edifício, 55.
com características de linguagem moderna e momento
histórico de construção relativamente recente, PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
dificilmente é encarado pela maioria da população local Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
como algo passível de preservação, uma vez que o senso Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de
períodos mais antigos (como o colonial, o oitocentismo ou
REGIMENTO interno
o ecletismo) devem ser preservadas ou merecem prioridade
nessa mobilização.
RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual Monsenhor
pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
Francisco Miguel Fernandes pode ser considerado como uma
2004.
expressão da „modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo
no aspecto educacional) do município diante do contexto
histórico de sua construção. Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
livre.
5. DOCUMENTAÇÃO
Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 08/2012-
07/2013.
BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas
Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 407.
7
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
1981, p. 258).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 88
6. ANEXOS
[da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Imagem da construção do prédio principal, entre 1961 e 1966. Fot. 2: Imagem área
do conjunto. Ao fundo à esquerda, em cinza, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Ao fundo formando um volume em „L‟, o edifício
principal, construído e inaugurado nos anos 1960. A frente, três volumes anexos, construídos durante a ampliação 2010-2011. Em
primeiro plano, a quadra poliesportiva. Fot. 3: Vista do largo e fachada frontal da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, e parte da
fachada posterior da escola. Fot. 4: Fachada frontal, voltada para a Praça do Rosário, e parte da fachada lateral direita. Fot. 5:
Parte da fachada frontal, vista de outro ângulo, focalizando apenas o edifício principal. A porta à extrema esquerda é o acesso
direto à biblioteca. Fot. 6: Detalhe dos antigos acessos e comunicações com da escola com a igreja. Crédito das Imagens: 1: JORNAL
"por dentro da escola". Rio Espera: E. E. Mons. Francisco M. Fernandes, n. 3, 08 abr. 2011. 2: Disponível em:
http://monsenhorfrancisco.webnode.com.br, acesso em: 12/07/13. 3 a 6: Marcelo Leite, 24/08/12 e 15/03/13.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 89
[da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 7: Detalhe dos antigos acessos e comunicações com da escola com a igreja. Fot. 8:
Auditório (antigo pátio coberto). Fot. 9: Sala de aula. Fot. 10: Uma das salas da Supervisão. Fo.11: Hall superior da antiga escadaria
de acesso principal. Fot. 12: Fachadas frontal e lateral direita, conformando a esquina entra a Praça do Rosário e a Rua São Jose.
Crédito das Imagens: Marcelo Leite, 24/08/12 e 15/03/13.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 90
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 91
Pátio Interno.
Fonte: Marcelo Leite, 18/07/13.
Rio Xopotó
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício está Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
bem conservado e continua a desempenhar sua função de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
original, entretanto não há nenhuma mobilização pró- 55.
preservação. O edifício, com características de linguagem
moderna e momento histórico de construção relativamente PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
recente, dificilmente é encarado pela maioria da população Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
local como algo passível de preservação, uma vez que o Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
senso comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de
períodos mais antigos (como o colonial, o oitocentismo ou
o ecletismo) devem ser preservadas ou merecem prioridade RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
nessa mobilização. povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
2004.
Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual José Dias
Pedrosa pode ser considerado como uma expressão da
„modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no aspecto Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
educacional) do município diante do contexto histórico de livre
sua construção.
Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 04/2013-
5. DOCUMENTAÇÃO 07/2013.
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Placa de inauguração. Fot. 2: Placa da ampliação de 1998. Fot. 3: Placa da
ampliação de 2008. Fot. 4 e 5: Entorno imediato, rua de acesso à escola. Fot. 6: Vista parcial do bloco inferior original. Créditos
das imagens: Marcelo Leite, 18/07/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 96
Pátio Interno.
Fonte: Marcelo Leite, 07/03/13.
Nome do edifício: Escola Estadual Gustavo Augusto da Silva Descrição geral: três edifícios de um pavimento, de
Variante ou nome anterior: linguagem moderna, com volumetria simples e sendo o
Endereço: Rua 29 de Julho, n° 237 – Centro partido original (com apenas dois edifícios) implantado em
Cidade: Catas Altas da Noruega „H‟ em um grande lote de 5433 m2 no alto de um morro
Estado: MG (croquis de volumetria e implantação). O terceiro edifício
CEP: 36450-000 foi implantado em um platô abaixo do volume principal em
País: Brasil „H‟ (cerca de 1,5 m) e mais próximo ao limite lateral
Coordenadas geográficas: 20.69°S 43.49°W direito do terreno (fot. 2 e 3). A quadra se encontra a
Classificação/tipologia: Educacional – EDC esquerda dos volumes principais, num platô elevado em
Estado de proteção e data: Nenhum. cerca de 1,5 m (fot. 4). Existem grandes afastamentos
aproveitados como jardim (fot. 5). A calçada em frente é
2. HISTÓRIA DO EDIFÍCIO estreita em se tratando de um local de grande circulação e
aglomeração, possuindo cerca de 1 m de largura. O acesso
principal se faz por meio de um portão para pedestres com
Proposta original: Sede definitiva para a Escola Estadual 3 m de largura na testada (fot. 6), existindo à esquerda
Gustavo Augusto da Silva, fundada em 1900 e que desde 1920 do portão principal um portão secundário, com cerca 1 m de
funcionou em diversos locais cedidos até a construção do largura. A circulação vertical (entre os três platôs) é
prédio atual feita apenas por meio de escadas externas. Os blocos
Datas: Projeto e construção em 1978(A); inauguração em originais possuem juntos oito salas de aula, biblioteca,
13/03/1979 (E) (fot. 1) refeitório (fot. 7) e instalações administrativas e de
Autor do projeto e colaboradores: CARPE - Comissão apoio. O anexo funciona atualmente como mais quatro salas
[Estadual] de Construção, Ampliação e Reconstrução de de aula (croqui planta baixa).
Prédios Escolares
Outros associados ao projeto: Mário Lobo Neiva, Prefeito
Municipal à época da inauguração da obra1 Construção: O sistema construtivo utilizado compõe-se de
Alterações significativas: Uma reforma e a construção de estrutura em pilares, vigas e lajes de concreto armado,
mais um bloco (não constante no projeto original, mas permitindo grandes vãos para aberturas e vedação em
mantendo uma volumetria semelhante), denominado “Auditório tijolos cerâmicos aparentes (fot. 8). A estrutura de
Nair de Rezende Gonçalves de Araújo”, com mais duas salas concreto se destaca nos prédios principais por meio de
de aula além do auditório propriamente dito, foi realizada pintura na cor amarelo (externa) ou branca (interna). O
entre abril de 2001 e outubro de 2002, tendo sido piso é todo em cerâmica São Caetano 2 vermelha, com exceção
reinaugurada a escola em 14/11/2003. Atualmente, o dos banheiros, do refeitório e do bloco do auditório, que
auditório foi convertido em duas salas de aula, com uso de possuem piso cerâmico, e das áreas externas, onde o piso é
uma parede divisória de madeira. Outra reforma e a cimentado. As janelas são todas metálicas, do tipo de
construção de uma quadra poliesportiva descoberta foi correr com basculante na bandeira superior, pintadas na
realizada entre 08/04 e 31/08/2009. Atualmente, existe cor cinza e com cerca de 2 m de altura, todas com grades.
também um projeto datado de 07/2012 (ainda não executado)
que prevê uma ampliação da escola com a construção de um
novo bloco e a reforma e cobrimento da quadra.
Uso atual: Escola Estadual Gustavo Augusto da Silva 2
A Cerâmica São Caetano era a maior e a mais tradicional
Estado de conservação: Bom. fabricante de artefatos cerâmicos dos anos 50. Cf. SEGAWA, H.
Oswaldo Arthur Bratke: Vila Serra do Navio e Vila Amazonas. In:
GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a história da
arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010,
v. 2, p. 130. Para mais informações sobre a Cerâmica São Caetano,
ver referência HISTÓRIA... no item 5.
1
Cf. Placa de inauguração.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
100
Nos blocos principais, nas paredes voltadas para o pátio principais e auditório), já que existem apenas escadas
coberto ou corredores, existem aberturas basculantes no como forma de circulação vertical.
alto, cerca de 40 cm antes do encontro com as vigas (fot.
9). As janelas da fachada frontal do bloco do auditório e Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de
as janelas do antigo „camarim‟ são do tipo basculante. As prédios escolares empreendida à época de sua construção,
paredes internas são em tijolo cerâmico aparente, de tons quando muitas escolas do interior do estado ainda não
avermelhados, e as paredes externas alternam entre vãos possuíam uma sede própria para essa finalidade, estando
com tijolos aparentes e vãos com janelas e pintura na cor abrigadas em edifícios provisórios. Apresenta de inovador
amarelo (fot. 10). No bloco do auditório, as paredes a proposta de um espaço socializante, com atividades que
externas e internas recebem apenas pintura na cor amarelo. incluem o ensino, os esportes, as artes, etc. A história
Nos blocos principais, as laterais das lousas, da mesma da Escola se encontra desconhecida por grande parte da
forma recebem azulejo branco, da mesma forma que nos população de Catas Altas na Noruega. Concentra grande
banheiros, onde seguem até 2 m de altura, no encontro com parte do ensino publico do município, possuindo atualmente
uma camada de 40 cm de parede pintada até o encontro com a um total de 780 alunos matriculados no Ensino Fundamental,
viga. As portas são de madeira almofada envernizada. O Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos e Curso Normal
teto recebe tinta branca. A cobertura dos blocos é em duas (magistério), distribuídos em seus três turnos (matinal,
águas de telhas cerâmicas, com estrutura de madeira vespertino e noturno).
aparente e oitão vedado com muxarabi nos blocos principais
(fot. 11) e estrutura oculta por oitão de alvenaria no
bloco do auditório. Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
grandes vãos para aberturas, marcação das esquadrias
Contexto: O entorno possui volumetria simples, sugerindo ritmo e modulação, bem como os materiais e
predominando edificações de apenas um ou dois pavimentos, tecnologias empregados – estrutura em concreto armado,
salvo a cumeeira da Igreja de São Gonçalo do Amarante - esquadrias metálicas, tijolos aparentes, etc., que podem
tombada pelo IPHAN - com altura equivalente a três ter sido utilizados por questões de racionalização,
pavimentos (fot. 12) e a torre central da Igreja Matriz de padronização, funcionalidade e economia. Entretanto, o
Nossa Senhora das Graças (ao final da Avenida Nossa bloco do auditório (mais recente) apesar da volumetria
Senhora das Graças) com altura equivalente a quatro parecida, não dialoga com os blocos originais devido
pavimentos, que podem ser avistadas da escola. De maneira principalmente aos materiais utilizados no acabamento.
geral, as construções apresentam pouco ou nenhum
afastamento em relação o limite dos lotes. As calçadas são
geralmente cimentadas, de aproximadamente 1 a 1,5m, e no Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
entorno há arborização apenas numa pequena praça em frente associada com o contexto histórico dos inicio dos anos 80
à escola e nos fundos dos lotes. A via em frente à escola do século XX, no qual o Brasil o Brasil dominado pela
e a Avenida Nossa Senhora das Graças são asfaltadas, ditadura militar possuía eleições indiretas para os cargos
possuindo esta última via um pequeno canteiro central públicos, politicamente estava reduzido a apenas dois
gramado (cerca de 50 cm de largura). A circulação de partidos (ARENA – Aliança Renovadora Nacional) e MDB
veículos e pedestres é tranquila, intensificada apenas no (Movimento Democrático Brasileiro), social e culturalmente
início e fim de cada turno escolar. Convivem no entorno estava sujeito à intervenção dos órgãos governamentais de
imóveis das linguagens eclética, moderna e contemporânea censura e economicamente vivia o chamado „milagre
(com predomínio dessa última), bem como os usos econômico‟. Este último esteve diretamente ligado às obras
institucional, comercial, misto e residencial (com de infraestrutura produzidas pelo Estado – construção da
predomínio desse último). Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia Transamazônica, bem
como a construção de edifícios públicos, iniciada
primeiramente pelas esferas de governo Federal e Estadual,
4. AVALIAÇÃO não apenas nas regiões metropolitanas das capitais, mas
também no interior dos estados, tais como sedes dos Poder
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns Judiciário. Vivencia-se nos anos 80 a transição do Regime
problemas identificados foram a falta de acessibilidade em Militar para o Regime Democrático. Em 1985 Tancredo Neves
relação aos diferentes níveis da obra (quadra, blocos foi eleito (mesmo que indiretamente) o primeiro civil para
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
101
o cargo de Presidente da República após cerca de 20 anos da „modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no aspecto
de ditadura. Antes dele, já haviam sido restauradas educacional) do município diante do contexto histórico de
eleições para outros cargos, como o de Governador de sua construção.
Estado e Prefeito de Capitais, entretanto, a população
também ansiava pela volta das eleições diretas para 5. DOCUMENTAÇÃO
Presidência, fato que voltaria a ocorrer apenas em 1989.
Foi dentro desse contexto de „renovação política‟ que se
efetuou a „renovação física‟ das instalações educacionais BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas
da região 3 . Características do Movimento Moderno Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 121.
Brasileiro, cujas maiores expressões são justamente
construções estatais (como o Ministério de Educação e HISTÓRIA do piso de caquinhos das casas paulistas.
Saúde Pública no Rio de Janeiro e o Conjunto Arquitetônico Disponível em:
da Pampulha em Belo Horizonte) (MELLO, 1982) e que tem http://eleganciadascoisas.wordpress.com/2011/06/21/a-
como ápice a construção de Brasília em 1960, continuaram a historia-do-piso-de-caquinhos-das-casas-paulistas-2/.
ser difundidas durante os anos 70 e 80 e certamente noções Acesso em: 06/02/2013.
e detalhes (para finalidades
construtivas/técnicas/funcionais) chegaram a diversas
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
regiões de Minas Gerais4.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro:
IBGE, 1957, v.24, p. 500-509.
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício está
bem conservado e continua a desempenhar sua função
IBGE – Cidades@: Catas Altas da Noruega – MG. Disponível
original, entretanto não há nenhuma mobilização pró-
em:
preservação. O edifício, com características de linguagem
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=311540.
moderna e momento histórico de construção relativamente
Acesso em: 05/11/2011.
recente, dificilmente é encarado pela maioria da população
local como algo passível de preservação, uma vez que o
senso comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
períodos mais antigos (como o colonial, o oitocentismo ou Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
o ecletismo) devem ser preservadas ou merecem prioridade 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
nessa mobilização. Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
55.
Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual Gustavo
Augusto da Silva pode ser considerado como uma expressão
PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
3
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
1981, p. 258). RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
4
Projetos estatais como os da CARPE frequentemente eram povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
padronizados, de modo a facilitar sua implantação nas mais pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
diversas localidades do estado. Um exemplo é que o projeto da 2004.
Escola Estadual Gustavo A. da Silva é o mesmo executado em Brás
Pires (E. E. São Luís), Cipotânea (E. E. José D. Pedrosa), Dores
Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
do Turvo (E. E. Terezinha Pereira), Divinésia (E. E. Prof.
livre
Biolkino de A. Campomizzi Filho), Porto Firme (E. E. Dr. Sólon
Ildefonso), São Geraldo (E. E. Ormindo de S. Lima), Guidoval (E.
E. Mariana de Paiva) e Tocantins (E. E. Prof. João Loyola), Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 08/2012-
cidades da Zona da Mata mineira abordadas pelas pesquisas de 07/2013.
Arquitetura Moderna do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da
UFV.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
102
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 7: Refeitório. Fot. 8: Sala de aula, vista para as janelas. Fot. 9: Sala de aula,
detalhe da ventilação superior. Fot. 10: Parte da fachada o bloco original maior, voltada para o pátio interno, evidenciando-se a
modulação e os materiais de acabamento. Fot. 11: Vista do bloco original menor, evidenciando-se o oitão em muxarabi, a cobertura
cerâmica em duas águas e fachada voltada para o pátio interno. Fot. 12: Igreja de São Gonçalo do Amarante, bem tombado pelo IPHAN,
localizada nas proximidades da Escola Estadual Gustavo Augusto da Silva. Créditos das imagens: Marcelo Leite, 03/08/2012 e
07/03/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
104
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
105
Rio Turvo
Situação. Fonte: Googlemaps, acesso em
MG-280 sentido Dores do Turvo, Alto Rio Doce, 16/01/13. Adaptado pelo autor.
Cipotânea.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
106
1
Segundo informações encontradas na Escola Estadual Prof. Cícero 3
Cobogó, combogó ou combogê: tijolo furado ou elemento vazado
Torres Galindo e também na Escola Estadual Conselheiro Antão em feito de cimento empregado na construção de paredes perfuradas,
Itaverava-MG, cujo prédio possui grande semelhança com o edifício cuja função principal seria a de separar o interior do exterior,
da Escola Estadual Prof. Cícero Torres Galindo. sem prejuízo da luz natural e da ventilação. Cf. CORONA e LEMOS,
2
Idem nota 1. 1972, p.138.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
107
aula, refeitório e cozinha. No pavimento superior, Contexto: O volume se insere no fim da Rua João
se situam a sala de informática, a secretaria e mais Custódio de Moura (rua sem saída com cerca de 100 m
oito salas de aula (ver croquis plantas baixas). de comprimento) junto a uma área aberta que serve
tanto para conter um número considerável de pessoas
Construção: O sistema construtivo utilizado compõe- aglomeradas (visto que se trata de uma escola, o
se de estrutura em pilares, vigas e lajes de fluxo no início e fim de cada turno tende a ser
concreto armado (fot.11), permitindo grandes vãos intenso) quanto como rotatória de veículos (fot.15).
para aberturas („janelas em fita‟) (fot.12) e O entorno apresenta volumetria simples, onde
vedação em tijolos cerâmicos. A estrutura de predominam edificações de apenas um ou dois
concreto se destaca em todo o prédio por meio de pavimentos implantadas em terrenos relativamente
pintura na cor bege. O piso é todo em cerâmica São planos e com pequenos afastamentos em relação o
Caetano4 vermelha, com exceção dos banheiros, que limite dos lotes. A maioria das construções possui
possuem piso cerâmico branco, do pátio coberto, em cobertura em telha cerâmica, havendo também
placas cimentícias de 40x40 cm, dos corredores e do coberturas feitas com telha de fibrocimento/metálica
pátio interno, cimentados. O pátio interno possui ou laje de concreto. Alguns imóveis transformaram a
canteiros com vegetação de médio porte em suas cobertura em terceiro pavimento através da
laterais, próximas aos edifícios. As janelas são instalação de cobertura descolada sustentada por
todas metálicas, do tipo de correr com basculante na estrutura metálica. Todas as vias próximas à Escola
bandeira superior, pintadas na cor azul escuro e com são pavimentadas com paralelepípedos de pedra. A
cerca de 2 m de altura, sendo as do térreo com circulação de veículos e pedestres é tranquila na
grades. Nas paredes voltadas para o pátio coberto ou Rua João Custódio de Moura, porém mais intensa nas
corredores, existem aberturas basculantes no alto, ruas vizinhas devido ao trânsito de veículos
cerca de 40 cm antes do encontro com as vigas (incluindo ônibus intermunicipais) que fazem os
(fot.13). As paredes são em tijolo cerâmico percursos no sentido Divinésia – Brás Pires e vice-
aparente, de tons avermelhados, tanto externa quanto versa, ou Divinésia – Dores do Turvo e vice-versa.
internamente, exceto os banheiros, com azulejo Nas proximidades, se encontra o Hospital São João de
branco até 2 m de altura, seguidos por uma camada de Deus, também em linguagem moderna, e a Praça
40 cm de parede pintada de azul claro até o encontro Raimundo Carneiro, núcleo central do município.
com a viga. As portas são de madeira almofadada Convivem no entorno imóveis das linguagens eclética,
envernizada. O teto recebe tinta branca sobre um moderna e contemporânea. Os usos existentes são o
chapisco grosso. A cobertura dos blocos é em duas comercial, o misto, o institucional e o residencial
águas com telhas cerâmicas, estrutura de madeira (este último o predominante). A torre da Igreja
aparente e oitão vedado com muxarabi (fot.14). Matriz de Nossa Senhora da Conceição é o elemento
arquitetônico mais verticalizado que pode ser visto
do entorno imediato.
4. AVALIAÇÃO
4
A Cerâmica São Caetano era a maior e a mais tradicional Técnica: A obra mantém integridade física no geral.
fabricante de artefatos cerâmicos dos anos 50. Cf. SEGAWA, H.
Existem vigas e lajes com balanços de 1,5 m que
Oswaldo Arthur Bratke: Vila Serra do Navio e Vila Amazonas. In:
GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a história da formam as circulações nos piso superior de todos os
arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010, blocos, além do patamar das escadas, o que
v. 2, p. 130. Para mais informações sobre a Cerâmica São possivelmente constituía uma inovação no momento de
Caetano, ver referência HISTÓRIA... no item 5. sua construção, em relação ao modo de construir
local. Alguns problemas identificados foram a falta
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
108
características de linguagem moderna e momento IBGE – Cidades@: Senador Firmino – MG. Disponível
histórico de construção relativamente recente, em:
dificilmente é encarado pela maioria da população http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=316
local como algo passível de preservação, uma vez que 570. Acesso em: 05/11/2011.
o senso comum geralmente nos leva a crer que apenas
obras de períodos mais antigos (como o colonial, o MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
oitocentismo ou o ecletismo) devem ser preservadas Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período
ou merecem prioridade nessa mobilização. Contemporâneo, 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre
a Cultura Mineira – Período Contemporâneo. Belo
Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual Prof. Horizonte: Conselho Estadual de Cultura de Minas
Cícero Torres Galindo pode ser considerado como uma Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-55.
expressão da „modernização‟ e desenvolvimento
(sobretudo no aspecto educacional) do município PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
diante do contexto histórico de sua construção. Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org.
Aracy Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-
5. DOCUMENTAÇÃO 264.
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1 a 3: Projeto padrão arquitetônico (rótulo CARPE, planta baixa do térreo e do
pavimento superior). Fot. 4: Sala de aula. Fot. 5: Pátio coberto utilizado como refeitório, com a entrada para a cozinha ao fundo.
Fot. 6 e 7: Quadra poliesportiva, vista interna e placa de inauguração (na próxima página). Fot. 8: Afastamento frontal. Fot. 9 e 10:
Escada, vista do patamar em balanço e dos cobogós. Fot. 11: Pátio interno, destacando-se as lajes e vigas em balanço das circulações
superiores. Fot. 12: abertura basculante superior das salas de aula. Fot. 13: Vista do pátio interno, destacando-se as janelas amplas
e a modulação. Fot. 14: Cobertura em duas águas, com empena do telhado em muxarabi. Fot. 15: Espaço de aglomeração em frente ao
portão da escola. Créditos das imagens: 1 a 3: Cedido pela E. E. Prof. Cícero T. Galindo, 22/04/2013. 4 a 15: Marcelo Leite, 10/01 e
22/04/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
111
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
112
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
113
Construção: O sistema construtivo utilizado compõe-se de circulações no piso superior de todos os blocos (fot. 13),
estrutura em pilares, vigas e lajes de concreto armado, além do patamar das escadas, o que possivelmente
permitindo grandes vãos para aberturas („janelas em fita‟) constituía uma inovação no momento de sua construção, em
e vedação em blocos cerâmicos. O piso é cimentado em quase relação ao modo de construir local. Um problema
todo o prédio, com exceção de alguns ambientes como a identificado foi a falta de acessibilidade tanto ao térreo
secretaria, a diretoria e a sala dos professores, que dos edifícios (que possui um desnível de cerca de 2,30 m
possui pavimentação em ladrilho hidráulico (fot. 11) e em relação ao nível da rua) quanto aos segundos pavimentos
salas do bloco construído mais recentemente, que são em de todos os blocos, já que as escadas são o único modo de
piso cerâmico. As janelas são todas metálicas, do tipo circulação vertical.
basculante, pintadas na cor cinza escuro e com cerca de 2
m de altura. Nas paredes voltadas para o pátio coberto ou Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de
corredores, existem aberturas basculantes no alto, cerca prédios escolares empreendida à época de sua construção,
de 40 cm antes do encontro com as vigas. O revestimento quando muitas escolas do interior do estado ainda não
externo é feito com pintura branca, destacando-se os possuíam uma sede própria para essa finalidade, estando
pilares, vigas e lajes da estrutura, bem como o entorno abrigadas em edifícios provisórios (como a escolas de
das janelas com pintura laranja escuro. A pintura interna lata, no caso de Itaverava). Apresenta de inovador a
nas paredes é branca, destacando-se as paredes das janelas proposta de um espaço socializante, com atividades que
com pintura laranja-claro. Nos banheiros, as paredes tem incluem o ensino, os esportes, as artes, etc. A história
azulejo branco até 2 m de altura, seguidos por camada de da Escola se encontra desconhecida por grande parte da
40 cm de parede pintada até o encontro com a viga. As população de Itaverava. Concentra grande parte do ensino
portas são de madeira envernizada. O teto recebe tinta publico do município, possuindo atualmente um total de
branca sobre um chapisco grosso. A cobertura dos blocos é 810, matriculados no Ensino Fundamental, Ensino Médio e
quatro águas com telhas cerâmicas sobre laje, nos blocos Educação de Jovens e Adultos, distribuídos em seus três
mais antigos, e em duas águas com telhas cerâmicas e turnos (matinal, vespertino e noturno).
estrutura de madeira aparente, no bloco de construção mais
recente.
Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
Contexto: O entorno possui volumetria simples, grandes vãos para aberturas („janelas em fita‟), marcação
predominando edificações de apenas um ou dois pavimentos, das esquadrias sugerindo ritmo e modulação, bem como os
com exceção da cumeeira e das torres laterais da Igreja materiais e tecnologias empregados – estrutura em concreto
Matriz de Santo Antônio, tombada pelo IPHAN (fot. 12) que armado, esquadrias metálicas, etc., que podem ter sido
pode ser avistada da escola e que atinge três pavimentos utilizados por questões de racionalização, padronização,
de altura. De uma forma geral é pequeno ou inexistente o funcionalidade e economia. O paisagismo se encontra
afastamento em relação o limite dos lotes. As calçadas são integrado à arquitetura, uma vez que o projeto de
geralmente cimentadas, de aproximadamente 1 a 1,5 m, e no implantação contém diretrizes para colocação de certas
entorno há arborização apenas nos fundos dos lotes. A via espécies nativas como ipê-amarelo, ipê-vermelho,
em frente à Escola é asfaltada. A circulação de veículos e quaresmeira-roxa, quaresmeira-rosa e flamboyant vermelho
pedestres é intensa devido ao fato da Rua Francisco Coleta (não foi executado).
ser trecho da BR-482, interligando Itaverava com as
cidades vizinhas de Conselheiro Lafaiete e Catas Altas da
Noruega. Convivem no entorno imóveis das linguagens Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
eclética, moderna e contemporânea (com predomínio dessa associada com o contexto histórico dos inicio dos anos 80
última), bem como os usos institucional, comercial, misto do século XX, no qual o Brasil o Brasil dominado pela
e residencial (com predomínio desse último). ditadura militar possuía eleições indiretas para os cargos
públicos, politicamente estava reduzido a apenas dois
partidos (ARENA – Aliança Renovadora Nacional) e MDB
4. AVALIAÇÃO (Movimento Democrático Brasileiro), social e culturalmente
estava sujeito à intervenção dos órgãos governamentais de
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. censura e economicamente vivia o chamado „milagre
Existem vigas e lajes com balanços de 1,5 m que formam as econômico‟. Este último esteve diretamente ligado às obras
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
116
de infraestrutura produzidas pelo Estado – construção da Avaliação geral: O edifício da Escola Estadual Conselheiro
Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia Transamazônica, bem Antão pode ser considerado como uma expressão da
como a construção de edifícios públicos, iniciada „modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no aspecto
primeiramente pelas esferas de governo Federal e Estadual, educacional) do município diante do contexto histórico de
não apenas nas regiões metropolitanas das capitais, mas sua construção.
também no interior dos estados, tais como sedes dos Poder
Judiciário. Vivencia-se nos anos 80 a transição do Regime 5. DOCUMENTAÇÃO
Militar para o Regime Democrático. Em 1985 Tancredo Neves
foi eleito (mesmo que indiretamente) o primeiro civil para
o cargo de Presidente da República após cerca de 20 anos BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas
de ditadura. Antes dele, já haviam sido restauradas Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 362-
eleições para outros cargos, como o de Governador de 363.
Estado e Prefeito de Capitais, entretanto, a população
também ansiava pela volta das eleições diretas para CARPE, Comissão [Estadual] e de Ampliação e Reforma de
Presidência, fato que voltaria a ocorrer apenas em 1989. Prédios Escolares. Projeto padrão de colégio estadual com
Foi dentro desse contexto de „renovação política‟ que se nove salas. 1974-1980. Pranchas tamanho A1, preto e
efetuou a „renovação física‟ das instalações educacionais branco.
de Itaverava e região5. Características do Movimento
Moderno Brasileiro, cujas maiores expressões são
CORONA, C; LEMOS, C. Dicionário de Arquitetura Brasileira.
justamente construções estatais (como o Ministério de
São Paulo: Edart, 1972.
Educação e Saúde Pública no Rio de Janeiro e o Conjunto
Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte) (MELLO, 1982)
e que tem como ápice a construção de Brasília em 1960, IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
continuaram a ser difundidas durante os anos 70 e 80 e Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro:
certamente noções e detalhes (para finalidades IBGE, 1957, v.24, p. 500-509.
construtivas/técnicas/funcionais) chegaram a diversas
regiões de Minas Gerais6 (fot. 14). IBGE – Cidades@: Itaverava – MG. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=313390.
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício está Acesso em: 13/05/2012.
bem conservado e continua a desempenhar sua função
original, entretanto não há nenhuma mobilização pró- MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
preservação. O edifício, com características de linguagem Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
moderna e momento histórico de construção relativamente 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
recente, dificilmente é encarado pela maioria da população Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
local como algo passível de preservação, uma vez que o de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
senso comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de 55.
períodos mais antigos (como o colonial, o oitocentismo ou
o ecletismo) devem ser preservadas ou merecem prioridade
nessa mobilização. PEDROSA, M. A Arquitetura Moderna no Brasil. In: Dos
Murais de Portinari aos Espaços de Brasília. Org. Aracy
5
Amaral. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 255-264.
O crítico de arte Mário Pedrosa afirma: “[A] arquitetura
moderna [pode ser vista] como propaganda de Estado” (PEDROSA,
RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
1981, p. 258).
6 povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
Projetos estatais como os da CARPE eram padronizados de modo a
pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
facilitar sua implantação nas mais diversas localidades do
2004.
estado. Um exemplo é o projeto de edifício escolar construído em
Itaverava, também executado em Senador Firmino (E. E. Prof.
Cícero T. Galindo) e Araponga (E. E. José E. de Souza), cidades Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
da Zona da Mata mineira abordadas pelas pesquisas de Arquitetura livre. Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite /
Moderna do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFV. 09/2012-07/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
117
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1 e 2: Projeto padrão arquitetônico (rótulo CARPE e planta baixa do
térreo). Fot. 3: Placa de inauguração. Fot. 4: Blocos originais, vista a partir do limite posterior do terreno. Fot. 5: À
6. ANEXOS
esquerda, vista parcial do pátio interno. À direita, vista da escada de acesso à escola (o nível da rua é mais alto que o
da edificação). Créditos das imagens: 1 e 2: Cedido pela E. E. Conselheiro Antão. 3 a 5: Marcelo Leite, 28/02/2013.
[da esquerda p/ à
direita] Fot. 6: Vista
dos blocos originais,
destacando-se o volume
da caixa de escada
(vedada com cobogós
cerâmicos) ao centro.
Fot. 7: Sala de aula.
Créditos das imagens:
Marcelo Leite,
28/02/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
118
Ribeirão Oliveira
MG-124 sentido Brás Pires, Senador Firmino, Divinésia.
Igreja do Sagrado Coração de Jesus (antiga Matriz)
Coordenadas geográficas: 20.79°S 43.34°W 3), e na lateral direita, mais três entradas para a
Classificação/tipologia: Religioso–REL nave (fot. 4 e 5), acessadas por meio de escadas com
Estado de proteção e data: Nenhum. 7 degraus. Além de nave (fot. 6 e 7) e altar (fot. 8
e 9), existe o coro na parte superior frontal (fot.
2. HISTÓRIA DO EDIFÍCIO 10); a capela do Santíssimo (fot. 11) e a sacristia
nos fundos do altar; e na lateral esquerda à nave
uma arcada semiaberta, o memorial Monsenhor José
Proposta original: Nova Matriz para a Paróquia de
Justiniano Teixeira, a pia batismal (fot. 12) e o
Nossa Senhora da Oliveira
acesso à torre sineira (croqui planta baixa). A área
Datas: Projeto e construção em 1971 (A); inauguração
construída é de aproximadamente 1000 m2.
em 01/08/1971 (E) 1
Autor do projeto e colaboradores:
Outros associados ao projeto: Monsenhor José Construção: O sistema construtivo utilizado compõe-
Justiniano Teixeira, pároco de Senhora de Oliveira se de estrutura em pilares, vigas e lajes de
entre 1947 e 2002; Dom Oscar de Oliveira, arcebispo concreto armado, permitindo grandes vãos, amplas
de Mariana entre 1960 e 1988. aberturas e vedação em tijolos cerâmicos. O piso é
Alterações significativas: 2003 (A): construção do predominantemente em granito (fot. 13), com exceção
memorial Monsenhor José Justiniano Teixeira; 2005- do altar, em mármore, dos corredores centrais da
2007 (A): modificações no altar; 2009-2011 (A): nave, em porcelanato negro (fot. 14), e da pia
troca do piso de toda a nave. batismal e do memorial José Justiniano Teixeira, em
Uso atual: Matriz da Paróquia de Nossa Senhora da um piso cerâmico aparentemente mais antigo2 (fot.
Oliveira 15). As janelas são todas metálicas, do tipo
Estado de conservação: Bom. basculante, pintadas de branco, com as frontais e as
primeiras laterais fixas, formando um vitral em cruz
com vidros azuis. A pintura externa é branca, e as
3. DESCRIÇÃO
paredes internas são recobertas com madeira até 2 m
de altura, recebendo pintura branca até o teto,
Descrição geral: edifício térreo de pé direito também branco, com o vigamento em destaque. As
equivalente a três pavimentos, mais torre lateral portas são de madeira almofadada pintadas de cinza
esquerda com cinco pavimentos, em linguagem moderna, escuro. A cobertura é em duas águas com telhas
volumetria simples e implantado em lote plano cerâmicas, exceto a torre, que é coberta com laje de
(provavelmente houve obras de terraplanagem) com concreto armado.
frente para a Praça Monsenhor José Justiniano
Teixeira e fundos para o Salão Paroquial e a Escola
Contexto: O entorno da Praça Monsenhor José
Estadual Quinzinho Inácio (ver croquis volumetria e
Justiniano Teixeira apresenta volumetria simples,
implantação). Existem afastamentos laterais
onde predominam edificações de apenas um a três
aproveitados como jardim. A praça em frente é ampla,
pavimentos (embora exista uma edificação com seis
uma vez que se trata de um local de aglomeração,
pavimentos), implantadas em terrenos pouco
possuindo cerca de 50 m de comprimento e 25 m de
acidentados e com pequenos afastamentos em relação o
largura. O acesso principal se faz por meio de três
limite dos lotes. As calçadas, quando existentes,
portas frontais com cerca de 3m de largura cada uma,
são geralmente cimentadas, de aproximadamente 1 m, e
centralizadas em relação à fachada frontal, que
há pouca arborização. As vias são pavimentadas com
conduzem a nave. Existem ainda na fachada lateral
esquerda mais duas entradas para a nave (fot. 1 a
2
O piso cerâmico encontrado é bastante semelhante com o piso
cerâmico que recobre as áreas externas da Escola Estadual Padre
1
Cf. SOUZA (2008) e ENCONTRO... (2013). Vicente Carvalho, em Presidente Bernardes.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
123
Social: O edifício reflete uma proposta de Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica
modernização de edifícios religiosos empreendida à está associada com o contexto histórico dos anos 70
época de sua construção, e que na região de estudo do século XX, no qual o Brasil dominado pela
também ocorre em Piranga, Brás Pires e Lamim4. ditadura militar possuía eleições indiretas para os
cargos públicos, politicamente estava reduzido a
apenas dois partidos (ARENA – Aliança Renovadora
3
A presença de um edifício de seis pavimentos na região central Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro),
de uma cidade de pequeno porte como Senhora de Oliveira evidencia social e culturalmente estava sujeito à intervenção
uma acelerada descaracterização. Conforme inventário da atual dos órgãos governamentais de censura e
sede da Casa da Cultura de Senhora de Oliveira, localizada na economicamente vivia o chamado „milagre econômico‟.
Praça São Sebastião, próxima de onde se situa a matriz, os Este último esteve diretamente ligado às obras de
autores afirmam “São consideradas descaracterizantes um posto de infraestrutura produzidas pelo Estado – construção
gasolina atrás da igreja [antiga matriz] e o prédio da Prefeitura da Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia
Municipal” (ASSIS, et alli, 2009, p.2). No próprio inventário da Transamazônica, bem como a construção de edifícios
Praça São Sebastião, também consta informação semelhante: “Novos
públicos, iniciada primeiramente pelas esferas de
prédios romperam o singelo jogo do casario colonial e reformas
afetaram as características tradicionais das antigas edificações, governo Federal e Estadual, não apenas nas regiões
trazendo novas cores, elementos e ritmos diferentes. [A metropolitanas das capitais, mas também no interior
Prefeitura Municipal] destoa do entorno e descaracteriza o dos estados. Características do Movimento Moderno
ambiente” (PEREIRA, H. N. et alli, 2003, p.5). Brasileiro, cujas maiores expressões foram
4
Cf. SILVEIRA (2011, p. 63), “Entre as ocorrências de igrejas construções estatais (como o Ministério de Educação
modernistas construídas no Brasil [...] houve – assim como no
caso da cidade mineira de Ferros – diversos casos em que antigos de outras cidades, escapou da demolição, mas a cidade não ficou
templos católicos foram demolidos para dar lugar às novas ilesa dessa onda modernizadora dos templos católicos.
edificações [...] um processo que parece ter alcançado proporções
5
bem maiores”. A antiga matriz de Senhora de Oliveira, diferente É bastante nítido o uso de uma modulação de 4x4 m no edifício.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
124
6. ANEXOS
[da esquerda p/ à direita e de cima p/ baixo] Fot. 1 e 2: Fachada lateral esquerda. Fot. 3: Vista interna da lateral esquerda.
Fot. 4: Fachada lateral direita. Fot. 5: Vista interna da lateral direita. Fot. 6: Nave, vista para a entrada principal e o
coro. Crédito das imagens, Marcelo Leite, 21/09/2012 e 07/03/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
126
[da esquerda p/ à
direita e de cima p/
baixo] Fot. 7 e 8:
Nave, vista para o
altar. Fot. 9:
Detalhe da imagem de
Cristo no altar.
Fot. 10: Entrada
principal e parte
inferior do Coro,
com vista para os
acessos à Torre, a
Pia Batismal e ao
Memorial Monsenhor
José Justiniano
Teixeira. Fot. 11:
Capa do Santíssimo.
Fot. 12: Vista do
acesso a Pia
Batismal. Crédito
das imagens, Marcelo
Leite, 18/09/2012 e
07/03/2013.
[da esquerda p/ à direita] Fot. 13 a 15: Pisos: Granito, Porcelanato Negro e Cerâmico. Crédito das imagens, Marcelo Leite, 18/09/2012 e
07/03/2013.
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Rio Piranga
4
3 Cf. SILVEIRA (2011, p. 33) “igrejas modernistas incrustadas em
Pierre Cardin (n. em 1922) é um conhecido designer ítalo-
francês, em atividade desde os anos 1940. Apesar de especializado típicas praças do interior foram realmente capazes de produzir
no ramo de moda e vestuário, chegou a cursar Arquitetura em sua inquietação”. Inclusive o caso da matriz moderna de Piranga é
juventude e também trabalha com azulejos e mobiliários Cf. mencionado em seu livro “Templos Modernos, Templos ao Chão”.
PIERRE... (2013).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
131
CZAJKOVSKI, J. Guia da Arquitetura Moderna no Rio de PIERRE Cardin. Site oficial. Disponível em:
Janeiro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2001. http://www.pierrecardin.com/, acesso em 08/06/2013.
FALECE o arquiteto Hilton Grossi. Barbacena Online, PREFEITURA MUNICIPAL DE PIRANGA. Mapa da Área Urbana
09/10/2012. Disponível em: do Município. Piranga.
http://www.barbacenaonline.com.br/noticias.php?c=960
8&inf=11, acesso em 31/01/2013. RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos
e povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
GOMES, M. A. Piranga, viajando pela história - a pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do
primeira paróquia de minas, 2ª parte: A galeria dos Professor, 2004.
padres 1900-1999. Mariana: Gráfica Mariana, 1999.
SILVEIRA, M. M. G. Templos modernos, templos ao
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Chão: a trajetória da arquitetura religiosa
Estatística. Enciclopédia dos Municípios modernista e a demolição de antigos templos
Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, 1957, v.26, p. católicos no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica,
355-360. 2011.
IBGE – Cidades@: Piranga – MG. Disponível em: Material visual anexado: Fotografias e desenhos à
http://www.ibge.gov.br/cidadesat/link.php?codmun=315 mão livre.
080. Acesso em: 20/08/2011.
Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite /
MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In: 08/2012-07/2013.
Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período
Contemporâneo, 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
133
6. ANEXOS
Nome do edifício: Matriz do Divino Espírito Santo Descrição geral: edifício térreo de pé direito equivalente
Variante ou nome anterior: a três pavimentos, mais torre central com altura
Endereço: Praça Divino Espírito Santo, s/n – Centro equivalente a seis pavimentos (culminando em um mirante de
Cidade: Lamim planta oitavada), em linguagem moderna, volumetria simples
Estado: MG e implantado em lote plano com frente para a Praça do
CEP: 36455-000 Divino Espírito Santo2 (ver fot. 2 a 5 e croquis volumetria
País: Brasil e implantação). Existem consideráveis afastamentos
Coordenadas geográficas: 20.79°S 43.47°W laterais, frontais e de fundos. A praça em frente é ampla,
Classificação/tipologia: Religioso – REL uma vez que se trata de um local de aglomeração,
Estado de proteção e data: Edifício inventariado em 2010 e entretanto se encontra em aclive no sentido da via em
entorno (Praça Divino Espírito Santo) inventariado em direção a porta principal. O acesso principal se faz por
2012. meio de uma porta frontal com cerca de 3m de largura,
centralizadas em relação à fachada frontal, que conduz à
2. HISTÓRIA DO EDIFÍCIO nave. Existem ainda na fachada lateral esquerda mais duas
entradas para a nave e uma entrada para a sacristia, e na
lateral direita, mais duas entradas para a nave. Além de
Proposta original: Nova matriz para a paróquia do Divino nave e altar (fot. 6 e 7), existe o coro na parte superior
Espírito Santo de Lamim frontal (fot. 8), e sob o coro, o acesso à torre e uma
Datas: Projeto arquitetônico/estrutural de 1962 (A); sala utilizada para catequese; ao lado do altar, se
construção de 14/04/1964 a 02/10/1976 (E); projeto de encontram a capela do Santíssimo (fot. 9) e a sacristia.
acabamento interno de 1971 (A); inauguração em 02/10/1976 Nos fundos do altar, uma capela dedicada a Nossa Senhora
(E) 1 (fot. 1) das Dores, atualmente convertida em sala da catequese, e
Autor do projeto e colaboradores: Eng. Humberto Wilke um banheiro (croqui planta baixa).
Boratto (Barbacena-MG), projeto arquitetônico/estrutural;
Arq. Celestino Artigas (Pouso Alegre-MG), projeto de
acabamento interno, estátuas do Cristo e do Divino Construção: O sistema construtivo utilizado compõe-se de
Outros associados ao projeto: Padre Newton Henriques estrutura em pilares, vigas e lajes de concreto armado,
Malta, pároco de Lamim entre 1960 e 1978; Dom Oscar de permitindo grandes vãos, amplas aberturas e vedação em
Oliveira, arcebispo de Mariana entre 1960 e 1988; tijolos cerâmicos. O piso é predominantemente em ladrilho
Construtora Boratto e Cia. (Barbacena), provável hidráulico (fot. 10), com exceção do altar e dos degraus
responsável pela execução; Francisco Franklin da Fonseca, em mármore. As janelas são todas metálicas, do tipo
construtor; José de Paula Ferreira e Vicente Gomes Silva, basculante, pintadas de cinza, existindo na fachada
mestres de obras; Manoel Santiago de Oliveira, armador; frontal um vitral em arco, com acesso a uma sacada. A
Thierson (Belo Horizonte-MG), serviço de sonorização e pintura externa é creme, com detalhes (como pilares,
iluminação à mercúrio; Dari/Davi Pinolati (Barbacena-MG), calhas, etc.) pintados em ocre. As paredes internas são
ladrilho hidráulico; Zanatta (Três Rios-RJ), altar de recobertas com madeira até 2 m de altura, recebendo
mármore; José Assis Nogueira, bancos de madeira; João pintura branca atém o teto, também branco, com vigamento
Gonçalves Pereira, armário da sacristia;
Alterações significativas: 2
Ainda segundo o Livro do Tombo e o acervo fotográfico da
Uso atual: Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo de
paróquia, tem-se conhecimento de obras de terraplanagem, onde o
Lamim
morro atrás da antiga matriz foi parcialmente desmontado para
Estado de conservação: Bom.
implantar o novo edifício, e parte do volume de terra escavado
foi deslocado para a esquerda, a fim de construir um platô
elevado que deixasse a sede paroquial no mesmo nível da igreja a
ser construída. O local a frente da nova matriz, onde se situava
a antiga igreja, foi transformado na atual Praça do Divino
1 Espírito Santo.
Cf. a placa de inauguração e o Livro do Tombo da Paróquia do
Divino Espírito Santo de Lamim.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
138
em destaque. A exceção é a capela do Santíssimo, onde a Piranga, Senhora de Oliveira e Brás Pires3. Contudo, a
madeira é substituída por placas de mármore, revestindo história da Matriz do Divino Espírito Santo se encontra
toda parede do altar e até 2m de altura nas demais desconhecida por grande parte da população local.
paredes. As portas são de madeira almofadada pintadas de
cinza escuro. A cobertura é duas águas com telhas Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
cerâmicas (fot. 11 e 12). possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
grandes vãos internos, grandes vãos para aberturas,
Contexto: O volume se encontra inserido na Praça do Divino marcação sugerindo ritmo e modulação, bem como os
Espírito Santo, que no passado já foi parcialmente ocupada materiais e tecnologias empregados – estrutura em concreto
pela antiga matriz, demolida em 1967 após três anos do armado (fot. 13 a 15), esquadrias metálicas, que podem ter
início da construção na nova igreja. A parte defronte a sido utilizados por questões de racionalização e economia,
atual matriz se apresenta em aclive na direção da igreja, além da intenção estética modernizadora. A semelhança da
enquanto que a parte defronte a casa paroquial é plana e Matriz do Divino Espírito Santo de Lamim e da Igreja de
rebaixada em relação ao volume mencionado. O entorno São João Batista em Conselheiro Lafaiete (cidades
apresenta volumetria simples, onde predominam edificações distantes entre si 50 km) se revela muito considerável, o
de apenas um a dois pavimentos, implantadas em terrenos que levanta uma hipótese de que possa ter se utilizado o
relativamente planos e com pequenos afastamentos em mesmo projeto para as duas obras, ou ser essa uma
relação o limite dos lotes. A maioria das construções semelhança estética intencional.
possui cobertura em telha cerâmica, havendo também
coberturas feitas em laje de concreto armado, telhas Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
metálicas ou de fibrocimento. Essa praça, bem como as vias associada com o contexto histórico do fim dos anos 60 e
próximas, são todas pavimentadas com pedra fincada. A início dos anos 70 do século XX, no qual o Brasil dominado
circulação de veículos e pedestres é tranquila, pela ditadura militar possuía eleições indiretas para os
intensificada pela presença de ônibus intermunicipais, cargos públicos, politicamente estava reduzido a apenas
caminhões e outros veículos que fazem os percursos Senhora dois partidos (ARENA – Aliança Renovadora Nacional) e MDB
de Oliveira – Catas Altas da Noruega e vice-versa. (Movimento Democrático Brasileiro), social e culturalmente
Convivem no entorno imóveis das linguagens estava sujeito à intervenção dos órgãos governamentais de
colonial/oitocentista, eclética, moderna e contemporânea. censura e economicamente vivia o chamado „milagre
A arborização e vegetação rasteira urbana existente se econômico‟. Este último esteve diretamente ligado às obras
concentram apenas na praça mencionada. Os usos existentes de infraestrutura produzidas pelo Estado – construção da
são o residencial, o comercial o misto, o religioso e o Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia Transamazônica, bem
institucional. A Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, como a construção de edifícios públicos, iniciada
com sua torre central, é o elemento arquitetônico mais primeiramente pelas esferas de governo Federal e Estadual,
verticalizado do entorno imediato. não apenas nas regiões metropolitanas das capitais, mas
também no interior dos estados. Características do
4. AVALIAÇÃO Movimento Moderno Brasileiro, cujas maiores expressões
foram construções estatais (como o Ministério de Educação
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Um e Saúde Pública no Rio de Janeiro e o Conjunto
problema identificado foi de acessibilidade, visto que
para se atingir qualquer das portas da igreja, é preciso 3
Cf. SILVEIRA (2011, p. 63), “Entre as ocorrências de igrejas
subir a escadaria e a rampa frontal ou então subir pela
rua pavimentada com pedra fincada e depois as rampas modernistas construídas no Brasil [...] houve – assim como no
laterais. caso da cidade mineira de Ferros – diversos casos em que antigos
templos católicos foram demolidos para dar lugar às novas
Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de edificações [...] um processo que parece ter alcançado proporções
edifícios religiosos empreendida à época de sua bem maiores”. A antiga matriz de Lamim, da mesma forma que
construção, e que na região de estudo também ocorre em ocorrido em outras cidades, não escapou da demolição e da onda
modernizadora dos templos católicos.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
139
Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte) (MELLO, 1982) LIVRO do Tombo da Paróquia do Divino Espírito Santo de
e que tem como ápice a construção de Brasília em 1960, Lamim.
continuaram a ser difundidas durante os anos 70 e 80 e
certamente noções e detalhes (para finalidades MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
construtivas/técnicas/funcionais) chegaram a diversas Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
regiões de Minas Gerais. 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
possui bom estado de conservação, continua a desempenhar a 55.
sua função original e foi em inventariado em 2010 (e a
praça defronte em 2012), revelando que existe uma RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
significativa identificação da obra com a identidade povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
local. pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
2004.
Avaliação geral: O edifício da Matriz do Divino Espírito
Santo pode ser considerado como uma expressão da SILVA, L. M. Construção da Matriz do Divino Espírito
„modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no campo Santo. [Lamim]: Sede da Paróquia do Divino Espírito Santo,
religioso) do município diante do contexto histórico de 15/03/2013. Entrevista concedida a Marcelo Leite.
sua construção.
SILVEIRA, M. M. G. Templos modernos, templos ao Chão: a
5. DOCUMENTAÇÃO trajetória da arquitetura religiosa modernista e a
demolição de antigos templos católicos no Brasil. Belo
BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Horizonte: Autêntica, 2011.
Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 262-
263. VILELA, C. Inventário da Igreja Matriz do Divino Espírito
Santo. Lamim: Adriana Paiva de Assis – Consultoria na Área
CUNHA, E. J. R; ASSIS, A. P. Inventário da Praça do Divino de Patrimônio Cultural/Prefeitura Municipal de Lamim,
Espírito Santo. Lamim: Adriana Paiva de Assis – 2010.
Consultoria na Área de Patrimônio Cultural/Prefeitura
Municipal de Lamim, 2011-2012. Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
livre.
IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 08/2012-
IBGE, 1957, v.27, p. 46-50. 07/2013.
6. ANEXOS
[Da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Placa de inauguração. Fot. 2: Imagem tirada entre 1964 e 1967 mostrando a igreja
antiga (oitocentista, a frente) e a igreja nova (moderna, atrás). Fot. 3: Da mesma época, essa imagem mostra que a diferença de nível
entre a praça e o lote onde atualmente se implanta a sede da paróquia (esquerda da matriz) era bem menor que a existente hoje. Isso
se deve ao fato que o morro atrás da antiga matriz foi parcialmente desmontado para implantar o novo edifício, e parte do volume de
terra escavado foi deslocado para a esquerda, a fim de construir um platô elevado que deixasse a sede paroquial no mesmo nível da
igreja a ser construída. As Fot. 4 mostra esse morro apenas parcialmente desmontado, de modo que o mesmo ainda auxiliava na
construção, como na Fot. 5, que registra a execução do telhado. Fot. 6: Nave, com altar ao fundo. Fot. 7: Detalhe das imagens de
Cristo, do Divino e de Maria, junto ao altar em mármore. Fot. 8: Nave, com porta principal e coro ao fundo. Crédito das imagens:
Cedidas pela Sede da Paróquia do Divino Espírito Santo, 15/03/2013; Marcelo Leite, 15/03/13.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
141
[Da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 9: Capela do Santíssimo. Fot. 10: Ladrilho
hidráulico. Fot. 11 e 12: Vista da cobertura, tirada do lato do morro remanescente na posterior
da atual igreja. Fot. 13 a 15: Fotos tiradas durante a execução da obra, utilizando-se estrutura
em concreto armado (construção da nave, construção da torre e acabamentos). Crédito das imagens:
Cedidas pela Sede da Paróquia do Divino Espírito Santo, 15/03/2013; Marcelo Leite, 15/03/13.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
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Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
143
acidentados e com pequenos afastamentos em relação o grandes vãos internos, grandes vãos para aberturas,
limite dos lotes. Algumas construções transformaram a marcação sugerindo ritmo e modulação5, bem como os
cobertura em terceiro pavimento através da instalação de materiais e tecnologias empregados – estrutura em concreto
cobertura descolada sustentada por estrutura metálica. As armado, esquadrias metálicas, que podem ter sido
vias de automóveis que circundam a Praça Capitão Vilela utilizados por questões de racionalização e economia, além
são pavimentadas com paralelepípedos de pedra. A da intenção estética modernizadora. A semelhança das
circulação de veículos e pedestres é tranquila, igrejas de Brás Pires e Senhora de Oliveira (cidades
intensificada graças à presença da Matriz, da Prefeitura e distantes entre si 17 km) se revela muito considerável, o
da Câmara Municipal, e periodicamente pelos ônibus que levanta uma hipótese de que possa ter se utilizado o
intermunicipais e outros veículos que fazem os percursos mesmo projeto para as duas obras, ou ser essa uma
no sentido Senador Firmino - Senhora de Oliveira ou vice- semelhança estética intencional. É notável também o painel
versa. A Praça possui vegetação composta de gramíneas, decorativo na fachada frontal (fot. 16) - uma tentativa de
pequenos arbustos e árvores de menor porte. Convivem no integrar as artes plásticas com a arquitetura, da mesma
entorno imóveis das linguagens colonial/oitocentista, forma que diversas obras modernas de renome6.
eclética, moderna e contemporânea (fot. 15). Os usos
existentes são o residencial, o comercial, o misto, o Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica da
religioso e o nstitucional. A torre da Igreja Matriz de está associada com o contexto histórico dos anos 70 do
Nossa Senhora do Rosário é o elemento arquitetônico mais século XX, no qual o Brasil dominado pela ditadura militar
verticalizado do entorno imediato. possuía eleições indiretas para os cargos públicos,
politicamente estava reduzido a apenas dois partidos
4. AVALIAÇÃO (ARENA – Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento
Democrático Brasileiro), social e culturalmente estava
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns sujeito à intervenção dos órgãos governamentais de censura
problemas identificados foram o descascamento da pintura e e economicamente vivia o chamado „milagre econômico‟. Este
o surgimento de manchas de umidade em alguns pontos das último esteve diretamente ligado às obras de
fachadas; e internamente, danificação em alguns pontos do infraestrutura produzidas pelo Estado – construção da
piso, ao longo do corredor central da nave. Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia Transamazônica, bem
como a construção de edifícios públicos, iniciada
primeiramente pelas esferas de governo Federal e Estadual,
Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de não apenas nas regiões metropolitanas das capitais, mas
edifícios religiosos empreendida à época de sua também no interior dos estados. Características do
construção, e que na região de estudo também ocorre em Movimento Moderno Brasileiro, cujas maiores expressões
Piranga, Senhora de Oliveira e Lamim4. Contudo, a história foram construções estatais (como o Ministério de Educação
da Matriz de Nossa Senhora do Rosário se encontra e Saúde Pública no Rio de Janeiro e o Conjunto
desconhecida por grande parte da população local. Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte) (MELLO, 1982)
e que tem como ápice a construção de Brasília em 1960,
Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado continuaram a ser difundidas durante os anos 70 e 80 e
possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura – certamente noções e detalhes (para finalidades
construtivas/técnicas/funcionais) chegaram a diversas
regiões de Minas Gerais.
4
Cf. SILVEIRA (2011, p. 63), “Entre as ocorrências de igrejas
modernistas construídas no Brasil [...] houve – assim como no
5
caso da cidade mineira de Ferros – diversos casos em que antigos É bastante nítido o uso de uma modulação de 3x3 m no edifício.
6
templos católicos foram demolidos para dar lugar às novas Um exemplo clássico são os painéis pintados por Portinari no
edificações [...] um processo que parece ter alcançado proporções edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública no Rio de
Janeiro, atual Palácio Gustavo Capanema, e na Capela de São
bem maiores”. A antiga matriz de Brás Pires, da mesma forma que Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte. Na Zona da Mata
outras cidades, não escapou da demolição e dessa onda mineira, podemos citar também o painel elaborado por Djanira para
modernizadora dos templos católicos. a fachada da Matriz de Santa Rita de Cássia em Cataguases-MG (Cf.
ALONSO, 2009).
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
146
Mobilização pró-preservação e recuperação: O edifício MELLO, S. Arquitetura Moderna em Minas Gerais. In:
possui bom estado de conservação e continua a desempenhar Seminário Sobre a Cultura Mineira – Período Contemporâneo,
a função original, entretanto não há nenhuma mobilização 2., 1980. Anais do II Seminário Sobre a Cultura Mineira –
pró-preservação. O edifício, com características de Período Contemporâneo. Belo Horizonte: Conselho Estadual
linguagem moderna e momento histórico de construção de Cultura de Minas Gerais/Imprensa Oficial, 1980, p. 39-
relativamente recente, dificilmente é encarado pela 55.
maioria da população local como algo passível de
preservação, uma vez que o senso comum geralmente nos leva PEREIRA, M. D. G. Tramas populares: rebelião religiosa na
a crer que apenas obras de períodos mais antigos (como o construção da devoção à escrava Anastácia. Disponível em:
colonial, o oitocentismo ou o ecletismo) devem ser http://www.naya.org.ar/religion/XJornadas/pdf/1/1-
preservadas ou merecem prioridade nessa mobilização. dias.pdf. Acesso em: 30/06/2013.
Avaliação geral: O edifício da Matriz de Nossa Senhora do RIBEIRO FILHO, A. B. Desbravamento, caminhos antigos e
Rosário pode ser considerado como uma expressão da povoamento nos sertões do leste: uma aventura de
„modernização‟ e desenvolvimento (sobretudo no campo pioneiros. Viçosa: Centro de Referência do Professor,
religioso) do município diante do contexto histórico de 2004.
sua construção.
SILVEIRA, M. M. G. Templos modernos, templos ao Chão: a
5. DOCUMENTAÇÃO trajetória da arquitetura religiosa modernista e a
demolição de antigos templos católicos no Brasil. Belo
ALONSO, P. H. (Org.). Cataguases - arquitetura modernista: Horizonte: Autêntica, 2011.
guia do patrimônio cultural. Cataguases: IEDS, 2009.
Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas livre.
Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família, 1971, p. 82.
Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 09/2012-
FERREIRA, R. S; BOTELHO, M. I. V. Entre o projeto 07/2013.
romanizador e o Vaticano II: a congada no município de
Brás Pires-MG. Revista de Ciências Humanas, Viçosa, v. 11,
n. 2, p. 344-358, jul./dez. 2011.
6. ANEXOS
[Da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Imagem da antiga matriz de Nossa Senhora do
Rosário, demolida em 1973. Fot. 2: Fachada posterior, onde é possível ver o desnível de cerca
de 2 m da frente para os fundos do terreno (aproveitado como porão sob a sacristia e a capela
do Santíssimo). Fot. 3 e 4: Fachada frontal: marquise de entrada, acessos. Fot. 5: Fachadas
frontal e lateral direita. Fot. 6: Fachada lateral esquerda. Fot. 7 e 8: Nave com vistas para o
altar e as portas principais, respectivamente. Crédito das imagens: 1: disponível em:
http://www.facebook.com/bras.pires?fref=ts, acesso em: 03/07/2013. 2 a 8: Marcelo Leite,
28/06/2013.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
148
1. IDENTIDADE DO EDIFÍCIO
3. DESCRIÇÃO
Nome do edifício: Sede da Paróquia do Divino
Espírito Santo Descrição geral: edifício com dois pavimentos, de
Variante ou nome anterior: linguagem moderna, com volumetria simples e
Endereço: Praça Divino Espírito Santo, n° 3 – Centro implantado em um lote em declive nos sentidos
Cidade: Lamim fundos-testada3 (ver fot. 2 e croquis implantação e
Estado: MG volumetria). Existem afastamentos na frente e na
CEP: 36455-000 lateral direita do terreno - aproveitados como
País: Brasil jardim (fot. 3), na lateral esquerda e nos fundos –
Coordenadas geográficas: 20.79°S 43.47°W edícula, fogão de lenha e horta (fot. 4),
Classificação/tipologia: Religioso – REL construídas junto aos limites do lote. A calçada em
Estado de proteção e data: Entorno (Praça Divino frente ao terreno é estreita, possuindo entre 1,0 a
Espírito Santo) inventariado em 2012. 1,5 m de largura. O acesso principal se faz por meio
de dois portões com 1,5 m de largura na lateral
2. HISTÓRIA DO EDIFÍCIO direita, que conduzem respectivamente, a varanda
frontal e ao hall inferior. Além desse acesso,
existe uma garagem semienterrada sob o pavimento
Proposta original: Nova sede para a paróquia do
térreo, cujo portão se encontra voltado para a Praça
Divino Espírito Santo de Lamim
Divino Espírito Santo. A circulação vertical
Datas: Projeto de 06/1967 (A); construção de
interna é feita apenas por meio de escada. O
19/06/1964 a 27/11/1968 (A); inauguração em
pavimento inferior contém o escritório paroquial,
27/11/1968 (E) 1 (fot. 1)
sala de estar, uma suíte, um dormitório, dois
Autor do projeto e colaboradores: Eng. Humberto
banheiros sociais, copa, sala de jantar, cozinha com
Wilke Boratto (Barbacena-MG), projeto
despensa, e numa cobertura anexa junto à fachada
arquitetônico/estrutural2
posterior, outra cozinha com fogão a lenha e outra
Outros associados ao projeto: Padre Newton Henriques
despensa. O pavimento superior possui uma suíte,
Malta, pároco de Lamim entre 1960 e 1988; Dom Oscar
três dormitórios, banheiro social, capela, um quarto
de Oliveira, arcebispo de Mariana entre 1960 e 1988
menor, utilizado para passar e armazenar a roupa
Alterações significativas: Substituição do piso
limpa e duas varandas – a frontal, coberta (fot. 5)
original em quase todos os ambientes; construção de
– e a posterior originalmente descoberta, mas hoje
cozinha anexa à fachada posterior; transformação de
coberta (croquis plantas baixas).
um dos dormitórios superiores em capela
Uso atual: Sede da Paróquia do Divino Espírito Santo
de Lamim Construção: O sistema construtivo utilizado compõe-
Estado de conservação: Bom. se de estrutura em pilares, vigas e lajes de
concreto armado e vedação em tijolos cerâmicos. O
3
Ainda segundo o Livro do Tombo e o acervo fotográfico da
1
Cf. Livro do Tombo e acervo fotográfico da Paróquia do Divino paróquia, tem-se conhecimento de obras de terraplanagem, onde o
Espírito Santo de Lamim. A sede paroquial foi oficialmente morro atrás da antiga matriz foi parcialmente desmontado para
inaugurada mesmo estando ainda em fase de acabamento. implantar o novo edifício, e parte do volume de terra escavado
2
O mais provável, uma vez que é de sua autoria o projeto da foi deslocado para a esquerda, a fim de construir um platô
Matriz, e considerando-se que as duas obras foram executadas elevado que deixasse a sede paroquial no mesmo nível da igreja a
simultaneamente. ser construída.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
152
piso externo inferior é em cerâmica São Caetano4 volumetria simples, onde predominam edificações de
vermelha na varanda e no passeio lateral esquerdo. A apenas um a dois pavimentos, implantadas em terrenos
varanda superior frontal possui piso em ladrilho relativamente planos e com pequenos afastamentos em
hidráulico (fot. 6), o mesmo utilizado na nave relação o limite dos lotes (fot. 10). A maioria das
central da igreja matriz. As áreas sociais e íntimas construções possui cobertura em telha cerâmica,
eram todas revestidas com tacos de madeira e as havendo também coberturas feitas em laje de concreto
áreas de apoio e serviços (copa, cozinha) armado, telhas metálicas ou de fibrocimento. Essa
provavelmente eram revestidas com cerâmica São praça, bem como as vias próximas, são todas
Caetano, contudo, quase todo o piso interno foi pavimentadas com pedra fincada. A circulação de
substituído por um piso cerâmico bem mais recente. A veículos e pedestres é tranquila, intensificada pela
única exceção é o piso da suíte superior, que ainda presença de ônibus intermunicipais, caminhões e
mantém uma cerâmica São Caetano hexagonal original, outros veículos que fazem os percursos Senhora de
de coloração amarelo-canário (fot. 7). A parede Oliveira – Catas Altas da Noruega e vice-versa.
externa frontal inferior é revestida com pedra São Convivem no entorno imóveis das linguagens
Tomé à vista; as demais paredes externas recebem colonial/oitocentista, eclética, moderna e
pintura creme. As paredes internas e tetos são contemporânea. A arborização e vegetação rasteira
pintadas de creme, sendo nas áreas de apoio e urbana existente se concentra apenas na praça
serviço (copa, cozinha e banheiros) revestidas mencionada. Os usos existentes são o residencial, o
também, até 1,5 m de altura, com azulejo comercial o misto, o religioso e o institucional. A
branco/amarelo claro (fot. 8), placas de 15x15 cm; Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, com sua
As janelas são todas metálicas, dos tipos de correr torre central, é o elemento arquitetônico mais
e basculante (no térreo gradeadas), enquanto as verticalizado do entorno imediato (fot. 11).
portas são todas em madeira, todas as esquadrias
pintadas de cinza. A cobertura é duas águas 4. AVALIAÇÃO
invertida (telhado borboleta) com telhas de
fibrocimento (fot. 9).
Técnica: A obra mantém integridade física no geral.
Alguns problemas identificados foram o surgimento de
Contexto: O volume se encontra inserido na Praça do manchas de umidade em alguns pontos das fachadas.
Divino Espírito Santo, que no passado já foi
parcialmente ocupada pela antiga matriz, demolida em
Social: O edifício reflete uma proposta de
1967 após três anos do início da construção na nova
modernização de edifícios destinados ao uso
igreja. A parte defronte a atual matriz se apresenta
religioso que foi empreendida à época de sua
em aclive na direção da igreja, enquanto que a parte
construção, e que na região de estudo também ocorre
defronte a casa paroquial é plana e rebaixada em
em Piranga, Senhora de Oliveira, Brás Pires e Catas
relação ao volume mencionado. O entorno apresenta
Altas da Noruega. Contudo, a história da Matriz do
Divino Espírito Santo e da Sede Paroquial se
encontra desconhecida por grande parte da população
4
A Cerâmica São Caetano era a maior e a mais tradicional local. Ao mesmo tempo, uma vez que se trata também
fabricante de artefatos cerâmicos dos anos 50. Cf. SEGAWA, H. uma forma de habitação, o edifício também evidencia
Oswaldo Arthur Bratke: Vila Serra do Navio e Vila Amazonas. In: uma modernização de residências (e em última análise
GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a história da de seus próprios moradores) de caráter mais popular,
arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010, uma vez que neste período (e de certa forma até os
v. 2, p. 130. Para mais informações sobre a Cerâmica São dias de hoje) a grande maioria das casas brasileiras
Caetano, ver referência HISTÓRIA... no item 5. não eram projetadas por arquitetos, mas construídas
por seus próprios proprietários com a ajuda de um
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG
153
mestre de obras e outros trabalhadores ‘não governado por Getúlio Vargas (eleito em 1950) e
qualificados’. Outro ponto a ser destacado é o fato Juscelino Kubitschek (eleito em 1955), procurava a
de que essa modernização era muito mais de caráter modernização (o slogan de JK – crescer 50 anos em 5
estético, e ‘de fachada’ do que propriamente uma nos dá um bom exemplo do espírito desse tempo).
modernização de caráter funcional ou ‘na planta’. O Nessa época nas capitais federal e estadual o
interior das casas muitas vezes continuava a seguir Movimento Moderno Brasileiro florescia, e suas
uma distribuição espacial remanescente do século XIX maiores expressões foram construções estatais:
– com áreas molhadas (cozinha e banheiros) Ministério de Educação e Saúde Pública no Rio de
localizadas no fundo das residências (LARA, 2008). Janeiro, Conjunto Arquitetônico da Pampulha em Belo
Aos fundos do terreno, era muito comum também a Horizonte, e o auge, a construção de Brasília em
presença de uma edícula, onde se encontrariam mais 1960. O ano de 1964 marca o fim desta ‘República
dependências de apoio e serviços, e o tradicional Populista’ estabelecida por Vargas e JK, e o início
fogão a lenha, que já não poderia ficar no interior do Regime Militar, com o golpe de 31/03/1964, que
de uma ‘residência moderna’. derrubou João Goulart (vice de Jânio Quadros) e
instalou junta provisória até a eleição indireta do
Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado General Castelo Branco, ainda naquele ano. Foi
possui elementos marcantes do Modernismo na dentro desse contexto, se efetuou a ‘modernização’
Arquitetura – grandes vãos para aberturas, telhado arquitetônica na região.
borboleta, uso do pilar metálico em ‘V’, brises5,
pequenas marquises6 (fot. 12), bem como os materiais Mobilização pró-preservação e recuperação: O
e tecnologias empregados – estrutura em concreto edifício está bem conservado, ainda desempenhando
armado, esquadrias metálicas, Cerâmica São Caetano, sua função original, porém não há nenhuma
tacos de madeira, pedra à vista, etc., utilizados mobilização pró-preservação. O edifício, com
para promover além de uma nova arquitetura um novo características de linguagem moderna e momento
modo de vida, dentro de seu contexto histórico histórico de construção relativamente recente,
local. Como causas para a disseminação e dificilmente é encarado pela população local como
popularização da estética moderna, LARA (2008, p. algo passível de preservação, uma vez que o senso
62), aponta quatro grandes fontes: os grandes comum geralmente nos leva a crer que apenas obras de
edifícios públicos modernos; as mídias; as redes períodos mais antigos (como o colonial, o
pessoais de amigos e parentes; e a imitação de oitocentismo ou o ecletismo) devem ser preservadas
construções vizinhas. ou merecem prioridade nessa mobilização.
Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica Avaliação geral: O edifício-sede da Paróquia do
está associada com o contexto histórico dos anos 50- Divino Espírito Santo pode ser considerado como uma
60 do século XX, no qual o Brasil populista expressão da ‘modernização’ e desenvolvimento
(sobretudo nos campos religioso e habitacional) do
município diante do contexto histórico de sua
5
Brise: elemento arquitetônico de proteção com a finalidade construção.
principal de interceptar os raios solares, quando estes forem
inconvenientes. Cf. CORONA e LEMOS, 1972, p.81. Com a
popularização da arquitetura moderna, o brise passou a ser 5. DOCUMENTAÇÃO
utilizado apenas com a finalidade estética de compor as fachadas,
e não mais por sua finalidade técnica. BARBOSA, W. A. Dicionário Histórico e Geográfico de
6
Marquise: Laje em balanço em edifícios, logo acima do andar Minas Gerais. Belo Horizonte: Promoção da Família,
térreo para proteger os pedestres do sol e da chuva. Cf. CORONA e 1971, p. 262-263.
LEMOS, 1972, p.315.
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6. ANEXOS
[Da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 1: Foto da inauguração da sede paroquial. Fot. 2: Foto tirada entre 1964 (início da
construção da matriz) e 1968 (inauguração da sede paroquial), que mostra a antiga ocupação do lote e a velha configuração urbana,
modificada com os empreendimentos religiosos modernos durante os anos 60 e 70. Fot. 3: Fachadas frontal e lateral direita. Fot. 4:
Vista lateral direita, com destaque em primeiro plano para edícula (aparentemente outra garagem). Fot. 5: Varanda frontal. Fot. 6:
Detalhe do pilar em ‘V’ e do ladrilho hidráulico na varanda frontal superior. Crédito das imagens: Cedidas pela Sede da Paróquia do
Divino Espírito Santo, 15/03/2013; Marcelo Leite, 15/03/13.
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[Da esquerda p/ direita e de cima p/ baixo] Fot. 7: Banheiro da suíte superior. Fot. 8: Detalhe do azulejo branco com faixa
ornamental em azul, na copa. À direita, vista da sala de jantar. Fot. 9: Vista da cobertura, da via entre a sede paroquial e a igreja
matriz e de parte do entorno. Fot. 10: Vista lateral esquerda, evidenciando pouco afastamento em relação ao limite dos lotes. Fot.
11: Vista frontal da Matriz do Divino Espírito Santo, com a sede paroquial à esquerda. Fot. 12: Detalhe das marquises frontal e
lateral direita, ao fundo. Crédito das imagens: Cedidas pela Sede da Paróquia do Divino Espírito Santo, 15/03/2013; Marcelo Leite,
15/03/13.
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3. DESCRIÇÃO
2
A Cerâmica São Caetano era a maior e a mais tradicional
Descrição geral: edifício com um pavimento, de linguagem fabricante de artefatos cerâmicos dos anos 50. Cf. SEGAWA, H.
moderna, com volumetria simples e implantado em um lote em Oswaldo Arthur Bratke: Vila Serra do Navio e Vila Amazonas. In:
declive no sentido fundos-testada (fot. 2 e 3 e croquis GUERRA, A. (Org.). Textos fundamentais sobre a história da
implantação e volumetria). Existem afastamentos apenas em arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano Guerra, 2010,
relação ao limite posterior do terreno, cerca de 5 m, v. 2, p. 130. Para mais informações sobre a Cerâmica São
aproveitado como jardim. A calçada em frente ao terreno é Caetano, ver referência HISTÓRIA... no item 5.
estreita, possuindo entre 1,0 a 1,5 m de largura. O acesso
principal se faz por meio um portão com 1,5 m de largura à 3
Cobogó, combogó ou combogê: tijolo furado ou elemento vazado
esquerda na testada do lote, onde há uma escada (único
feito de cimento empregado na construção de paredes perfuradas,
cuja função principal seria a de separar o interior do exterior,
1
Cf. Placa de inauguração, que atualmente se encontra no Museu e sem prejuízo da luz natural e da ventilação. Cf. CORONA e LEMOS,
Arquivo Histórico Padre Luiz Gonzaga Pinheiro. 1972, p.138.
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almofadada envernizada. A cobertura é em quatro águas com destacado é o fato de que essa modernização era muito mais
telhas cerâmicas. de caráter estético, e ‘de fachada’ do que propriamente
uma modernização de caráter funcional ou ‘na planta’. O
Contexto: O entorno possui volumetria simples, interior das casas muitas vezes continuava a seguir uma
predominando edificações de apenas um ou dois pavimentos, distribuição espacial remanescente do século XIX – com
salvo a cumeeira da Igreja de São Gonçalo do Amarante - áreas molhadas (cozinha e banheiros) localizadas no fundo
tombada pelo IPHAN - com altura equivalente a três das residências (LARA, 2008).
pavimentos (fot. 14) e a torre central da Igreja Matriz de
Nossa Senhora das Graças (ao final da Avenida Nossa Cultural e estética: O partido arquitetônico adotado
Senhora das Graças) com altura equivalente a quatro possui elementos marcantes do Modernismo na Arquitetura –
pavimentos, que podem ser avistadas da escola. De maneira grandes vãos para aberturas, marquise curva4 (fot. 16), bem
geral, as construções apresentam pouco ou nenhum como os materiais e tecnologias empregados – estrutura em
afastamento em relação o limite dos lotes. As calçadas são concreto armado, esquadrias metálicas, Cerâmica São
geralmente cimentadas, de aproximadamente 1 a 1,5m, e no Caetano, tacos de madeira, pedra à vista, cobogó cerâmico,
entorno há arborização apenas numa pequena praça em frente etc., utilizados para promover além de uma nova
à Escola Estadual Gustavo A. da Silva (fot. 15), também em arquitetura um novo modo de vida, dentro de seu contexto
linguagem moderna, e nos fundos dos lotes. A Avenida Nossa histórico local. Como causas para a disseminação e
Senhora das Graças é asfaltada, possuindo um pequeno popularização da estética moderna, LARA (2008, p. 62),
canteiro central gramado (cerca de 50 cm de largura). A aponta quatro grandes fontes: os grandes edifícios
circulação de veículos e pedestres é tranquila, públicos modernos; as mídias; as redes pessoais de amigos
intensificada apenas no início e fim de cada turno da e parentes; e a imitação de construções vizinhas.
escola citada. Convivem no entorno imóveis das linguagens
eclética, moderna e contemporânea (com predomínio dessa Histórica: Em uma escala maior a obra arquitetônica está
última), bem como os usos institucional, comercial, misto associada com o contexto histórico do início dos anos 70
e residencial (com predomínio desse último). do século XX, no qual o Brasil dominado pela ditadura
militar possuía eleições indiretas para os cargos
4. AVALIAÇÃO públicos, politicamente estava reduzido a apenas dois
partidos (ARENA – Aliança Renovadora Nacional) e MDB
Técnica: A obra mantém integridade física no geral. Alguns (Movimento Democrático Brasileiro), social e culturalmente
problemas identificados foram o surgimento de manchas de estava sujeito à intervenção dos órgãos governamentais de
umidade em alguns pontos das fachadas e a falta de censura e economicamente vivia o chamado ‘milagre
acessibilidade, uma vez que só existe uma escada como meio econômico’. Este último esteve diretamente ligado às obras
de acesso à sede paroquial. de infraestrutura produzidas pelo Estado – construção da
Ponte Rio-Niterói, abertura da Rodovia Transamazônica, bem
como a construção de edifícios públicos, iniciada
Social: O edifício reflete uma proposta de modernização de primeiramente pelas esferas de governo Federal e Estadual,
edifícios destinados ao uso religioso que foi empreendida não apenas nas regiões metropolitanas das capitais, mas
à época de sua construção, e que na região de estudo também no interior dos estados. Características do
também ocorre em Piranga, Senhora de Oliveira, Brás Pires Movimento Moderno Brasileiro, cujas maiores expressões
e Lamim. Contudo, a história da Sede Paroquial se encontra foram construções estatais (como o Ministério de Educação
desconhecida por grande parte da população local. Ao mesmo e Saúde Pública no Rio de Janeiro e o Conjunto
tempo, uma vez que se trata também uma forma de habitação, Arquitetônico da Pampulha em Belo Horizonte) (MELLO, 1982)
o edifício também evidencia uma modernização de e que tem como ápice a construção de Brasília em 1960,
residências (e em última análise de seus próprios continuaram a ser difundidas durante os anos 70 e 80 e
moradores) de caráter mais popular, uma vez que neste certamente noções e detalhes (para finalidades
período (e de certa forma até os dias de hoje) a grande
maioria das casas brasileiras não eram projetadas por
arquitetos, mas construídas por seus próprios 4
Marquise: Laje em balanço em edifícios, logo acima do andar
proprietários com a ajuda de um mestre de obras e outros térreo para proteger os pedestres do sol e da chuva. Cf. CORONA e
trabalhadores ‘não qualificados’. Outro ponto a ser LEMOS, 1972, p.315.
Um Inventário da Adoção da Linguagem Arquitetônica Moderna na Região de Piranga – MG 161
HISTÓRIA do piso de caquinhos das casas paulistas. Material visual anexado: Fotografias e desenhos à mão
Disponível em: livre
http://eleganciadascoisas.wordpress.com/2011/06/21/a-
historia-do-piso-de-caquinhos-das-casas-paulistas-2/. Pesquisador/data: Marcelo André Ferreira Leite / 08/2012-
Acesso em: 06/02/2013. 07/2013.
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6. ANEXOS