Cultura Patriarcal e Poder Judiciário: Os Limites para A Eficácia Da Lei Maria Da Penha
Cultura Patriarcal e Poder Judiciário: Os Limites para A Eficácia Da Lei Maria Da Penha
Cultura Patriarcal e Poder Judiciário: Os Limites para A Eficácia Da Lei Maria Da Penha
Resumo: A Lei Maria da Penha (11.340/2006) é reconhecida pela Organização das Nações
Unidas (ONU) como a terceira melhor legislação do mundo no combate à violência
doméstica contra a mulher. O Brasil é o quinto país no mundo que mais mata mulheres.
Frente à contradição numérica e material apresentada, entre o que se pretende com a sansão
de legislações para o enfrentamento de questões sociais como a violência doméstica, e o que
é alcançado em mudança social nas vias de fato, este trabalho tem por objetivo construir
considerações a respeito da atuação do Poder Judiciário brasileiro sobre a Lei Maria da
Penha. Abordaremos a cultura patriarcal e os papéis de gênero para compreender as raízes
da violência contra a mulher, bem como a repercussão dessa cultura nos processos jurídicos
que envolvem a Lei Maria da Penha. Somando-se a isso, analisaremos o relatório produzido
pela Comissão Nacional de Justiça (CNJ) este ano (2019), intitulado “O poder judiciário no
enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres”. O relatório apresenta
uma análise ampla sobre o tema, contribuindo para o conhecimento e problematização da
situação real em que se encontra o Brasil na luta contra a violência doméstica contra a mulher
pela aplicação da Lei Maria da Penha. Em suma, o trabalho irá expor alguns dos limites e
obstáculos que se apresentam no decorrer dos processos de enfrentamento à violência contra
a mulher, bem como apresentar e propor caminhos a seguir para que o tema discutido possa
avançar no âmbito da vida prática e do debate acadêmico.
Introdução
A iniciativa de construção deste trabalho parte de nosso contato constate com o tema
Lei Maria da Penha e violência doméstica, em razão da atuação como bolsistas no projeto
NUMAPE – Núcleo Maria da Penha da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus
de Marechal Cândido Rondon. Em conjunto com os estudos requeridos sobre o tema as
experiências concretas com os casos de violência doméstica e os atendimentos na
comunidade realizados pelo projeto nos levam a identificar e refletir sobre os avanços
permitidos pela Lei 11.340/2006 no enfrentamento à violência contra a mulher, mas também
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Graduada em Direito pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus Marechal Cândido Rondon.
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Graduada em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus Marechal Cândido Rondon.
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nos permitem refletir sobre as estruturas sociais historicamente construídas que limitam a
efetividade da mesma.
Compreendemos que as leis por si só não são autossuficientes para gerar alterações
na sociedade, mas que sua efetiva aplicação age como um fator de impulso para os processos
de alterações sociais. Nesse sentido, o Estado e mais diretamente o Poder Judiciário, exercem
um papel primordial no que tange a potencialidade transformadora das leis para a sociedade.
Contudo vale pontuar que essas instituições são compostas e geridas por sujeitos sociais e
históricos com especificidades e subjetividades, herdeiros de uma cultura patriarcal. Isso nos
leva a compreender que a atuação dos profissionais diretamente envolvidos nos espaços de
aplicação concreta das leis e suas posturas, são substanciais para o efeito que as mesmas
exercerão, ou não, na completude da sociedade. Esse cenário impõe variadas limitações à
busca por justiça de vítimas pertencentes as minorias representativas na sociedade, como as
mulheres em situação de violência doméstica.
Analisaremos o relatório produzido pela Comissão Nacional de Justiça (CNJ) no ano
de 2019, intitulado “O poder judiciário no enfrentamento à violência doméstica e familiar
contra as mulheres” afim construirmos considerações a respeito da permanência da cultura
patriarcal na atuação dos juízes do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra
Mulheres. É válido pontuar que o documento analisado não receberá a característica de fonte
histórica neste trabalho, consideramos que a pesquisa que apresenta fundamenta discussões
teóricas há muito tempo sendo constituídas sobre o tema, servindo como parâmetro para
trabalhos tais quais este.
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vivemos ainda hoje, o Estado e o Poder Judiciário, uma vez que constituídos por sujeitos
filhos de seu tempo, acaba por reproduzir e exercer a manutenção dessas estruturas ao passo
que para além das especificidades de casa ambiente, o privado e o público estão entrelaçados
uma vez que se constituem por pessoas.
A naturalização da violência doméstica tem raízes historicamente construídas e suas
consequências são mortais. Os altos índices de feminicídios no país e no mundo comprovam
esse risco. Contudo, a naturalização da violência doméstica presente no Poder Judiciário tem
consequências ainda mais fortes uma vez que “A má compreensão da natureza das relações
gênero e a decisão judicial baseada no patriarcado ‘naturalizado’ ferem de morte toda a
legislação de proteção aos direitos humanos das mulheres” ainda segundo Passos e Sauaia,
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aplicação de penas mais brandas, consequentemente não havia uma punição à altura da
gravidade do crime.
Assim, houve a necessidade do Supremo Tribunal Federal (STF) julgar em 2012 pela
declaração de constitucionalidade do referido dispositivo legal, através da Ação Direta de
Constitucionalidade (ADC) n. 19/DF, afastando a aplicação da Lei 9.099/95 aos casos de
violência doméstica e familiar. O Ministro Gilmar Mendes (apud BAKER, 2015, p. 242)
argumenta que “o princípio da igualdade contém uma proibição de discriminar e impõe
legislador a proteção da pessoa mais frágil no quadro social”, ou seja, há de se proteger a
mulher das manifestações de desigualdade de gênero.
Diante disso, resta comprovado que a entrada em vigor de uma norma jurídica per si
não possui poder de mudar a realidade social, sendo imprescindível a atuação dos agentes
estatais na interpretação e aplicação da lei, afim de assegurar a vontade do legislador,
combatendo as manifestações da desigualdade de gênero e todas as formas de violência
contra a mulher (PASSOS; SAUAIA, 2016).
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buscou compreender quais os valores e crenças dos juízes que julgam a partir da Lei
11.340/06 (PORTO; COSTA, 2010, p. 482).
A pesquisa proporcionou a divisão das sentenças em duas categorias semânticas
principais: o contexto da situação de violência e a violência contra as mulheres. A primeira
categoria se refere como os juízes entendem o contexto da violência contra as mulheres,
sendo as constatações divididas em subcategorias: a) reconciliação – em que a reconciliação
da vítima com o réu descaracteriza o crime, afastando a possibilidade de imputação de pena;
b) idealização da família – a mulher tem seu direito de viver uma vida sem violência
minimizado em nome da união familiar; c) ambiguidade quanto à prova material do crime –
apesar de comprovada a materialidade do crime, a palavra do réu é tomada como verdade,
em detrimento da palavra da vítima; e, d) negação da violência conjugal como crime – as
violências cometidas no “calor” do litígio conjugal não caracterizam crime (PORTO;
COSTA, 2010, p. 483-485).
Na segunda categoria, observou-se a forma com que os juízes significam e
caracterizam a violência vivida pelas mulheres: a) justificativa à agressão pelo uso de
álcool/drogas – os magistrados entendem que alguém alcoolizado ou dependente químico
não tem condições de discernimento, logo, há inexistência de dolo e tal ato não deve ser
enquadrado na Lei Maria da Penha; b) inconformismo/não aceitação da separação – a
violência é esperada e justificada devido ao inconformismo do homem pelo fim do
relacionamento amoroso; e, c) proteção da mulher contra privações econômicas – o
magistrado supõe que eventual condenação do réu traria maiores transtornos para a mulher
e família, acreditando estar protegendo a mulher de dificuldades mais graves (PORTO;
COSTA, 2010, p. 485- 486).
O relatório “O Poder Judiciário no Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar
contra as Mulheres”, desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria
com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o qual analisa o atendimento
prestado pelo Poder Judiciário às mulheres em situação de violência doméstica e familiar,
verificou que a aplicação da Lei Maria da Penha não é padronizada nas unidades judiciárias
e os magistrado apresenta distintas compreensões sobre os casos de violência doméstica e
familiar (CNJ, 2019, p. 25-27).
A presente pesquisa analisou os tipos de juízes/as e sua forma de atuação, a estrutura
das unidades judiciais, aspectos processuais observados, atenção direcionada às mulheres,
responsabilização dos agressores e a interação do sistema de justiça e a rede especializada.
No tocante aos perfis de juízes/as, houve a divisão em três tipologias: comprometidos/as,
moderados/as e resistentes, conforme imagem abaixo:
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Os perfis traçados pela pesquisa possuem relação com a motivação que levaram os
magistrados a assumirem varas e juizados responsáveis pelos feitos de violência doméstica
e familiar contra mulher. Os “comprometidos/as” são aqueles que identificam a questão
como relevante, com a qual gostariam de contribuir. Em tal perfil constatou-se parcela de
operadores de direito que se identificam com a matéria e que, inclusive, realizaram cursos
sobre a temática. Por outro lado, os magistrados tidos como “resistentes” configuram juízes
que não possuíam interesse em trabalhar com a matéria ou fizeram por motivos pragmáticos,
tais como o desejo ser transferido para determinada cidade ou reduzir sua carga de trabalho,
por exemplo. Dentre os entrevistados, destaca-se um magistrado que “aplica a Lei Maria da
Penha apenas para casos de relacionamentos conjugais – excluindo outras relações íntimo-
afetivas, domésticas e familiares – e apresenta muitas reservas à concessão de medidas
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protetivas de urgência, exigindo, para tanto, provas “concretas” de violência”. (CNJ, 2019,
p. 28)
O estudo também aborda a falta de estrutura das unidades judiciárias, sendo os espaços
insuficientes para atender as especificidades dos conflitos no âmbito doméstico e familiar.
Há ausência ou inutilização de salas para atendimento às vítimas nas unidades judiciais; falta
de acessibilidade – em que as unidades judiciárias podem ser classificadas como a) com
nenhuma acessibilidade, b) com acessibilidade incompleta e c) com acessibilidade
semiplena; e, precariedade em algumas das estruturas.
No tocante aos aspectos processuais observados, há unidades judiciárias que,
independentemente de solicitação da vítima, realizam a audiência prevista no artigo 16 da
Lei 11.340/06 para todas as ações condicionadas à representação criminal da vítima,
divergindo do disposto em Lei. Não obstante, há audiências que são conduzidas por
servidores, sem a presença do juiz. Há também as divergências entre os operadores do direito
sobre o peso do depoimento da vítima.
Quanto à atenção às mulheres em situação de violência nas unidades judiciais, o sexto
capítulo do relatório detalha que as informações fornecidas às mulheres não são suficientes
e é comum elas afirmarem que ninguém lhes explica sobre a Lei Maria da Penha. Há casos
em que a mulher chega desavisada quanto à finalidade da audiência. O relatório também
dispõe sobre a responsabilização dos agressores. Parte dos atores jurídicos entrevistados
diferenciam os agressores de violência doméstica e familiar de criminosos comuns, pois os
primeiros têm possibilidade de serem recuperados já que não têm experiências criminais.
Segundo uma defensora pública entrevistada, as penas costumam não serem altas e o juiz
costuma sempre dar o mínimo.
Por fim, o último capítulo destina-se ao estudo da interação com o sistema de justiça e
a rede especializada. Os juízes tidos como resistentes acham que o trabalho das
Coordenadorias Estaduais de Violência Doméstica e Familiar contra Mulher dos Tribunais
de Justiça está suficiente e já é bem extenso, enquanto os juízes enquadrados no perfil
comprometido são amis críticos e acreditam que as coordenadorias estaduais poderiam fazer
mais. Além disso, verificou-se que as unidades judiciais situadas no interior, sobretudo as
não especializadas, tem menos integração com esses órgãos. O relatório apresenta que há
atores jurídicos que não têm contato com a rede de atendimento, tampouco reconhece o
Judiciário como parte desta.
Diante dos estudos de caso apresentados e dos resultados do relatório elaborado pelo
CNJ, resta evidente que a política judiciária de enfrentamento à violência doméstica e
familiar opera em um cenário heterogêneo de condutas dos agentes estatais, sendo que a
resposta do Poder Judiciário ao fenômeno social de desigualdade de gênero depende de
fatores pessoais e institucionais.
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Um dos maiores desafios à efetividade da Lei Maria da Penha está dentro do próprio
Judiciário, havendo necessidade de capacitação dos servidores sobre questões de gênero e
garantir que as vítimas não sejam atendidas por alguém que repita os padrões da sociedade
machista, mas sim acolhidas. Além disso, a complexidade do fenômeno social da violência
contra a mulher requer não apenas um sistema especial de proteção, mas também a
mobilização de instrumentos educativos, que alterem o modo de pensar e agir em relação às
mulheres.
Considerações Finais
Referências bibliográficas:
BAKER, Milena Gordon. A tutela da mulher no direito penal brasileiro: a violência física
contra o gênero feminino. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.
CHAI, Cássius Guimarães; SANTOS, Jéssica Pereira dos; CHAVES, Denisson Gonçalves.
Violência institucional contra a mulher: o Poder Judiciário, de pretenso protetor a efetivo
agressor. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM, Santa Maria, RS, v. 13, n. 2,
p. 640-665, ago. 2018. ISSN 1981-3694. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/revista
direito/article/view/29538/pdf>. Acesso em 22 set. 2019.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Relatório “O Poder Judiciário no
Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra as Mulheres”. Brasília, 2019.
PASSOS, Kennya Regyna Mesquita; SAUAIA, Artenira da Silva e Silva. A violência
simbólica no Poder Judiciário: desafios à efetividade da Lei Maria da Penha. Revista da
Faculdade de Direito da UFRGS, Porto Alegre, n. 35, p. 137-154, dez. 2016. Disponível
em: <https://seer. ufrgs.br/revfacdir/article/view/67560/39971>. Acesso em 22 set. 2019.
PORTO, Madge. COSTA, Francisco Pereira. Lei Maria da Penha: as representações do
judiciário sobre a violência contra as mulheres. Revista de Estudos de Psicologia,
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