Meira Et Al (2023) - Avaliação Do Potencial Geoturístico Do Parque Nacional de Ubajara, Ceará, Brasil
Meira Et Al (2023) - Avaliação Do Potencial Geoturístico Do Parque Nacional de Ubajara, Ceará, Brasil
Meira Et Al (2023) - Avaliação Do Potencial Geoturístico Do Parque Nacional de Ubajara, Ceará, Brasil
RESUMO
O turismo é uma das mais importantes atividades econômicas da atualidade e tem passado por mudanças no anseio de
integrar a sustentabilidade em suas práticas. Tal ação permitiu a gênese e consolidação de novas atividades turísticas,
dentre as quais o geoturismo que se trata de um segmento que visa integrar as atividades socioeconômicas com a
valorização cultural e conservação ambiental. Assim, há necessidade de inventariar, classificar e promover novos destinos
geoturísticos no Brasil. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo avaliar quantitativamente o potencial
geoturístico do Parque Nacional de Ubajara (Parna Ubajara). A metodologia partiu do uso de geossítios e sítios da
geodiversidade previamente inventariados para o Parna Ubajara e pelo emprego de duas metodologias para a avaliação
quantitativa. Com a aplicação das metodologias foi possível chegar ao valor turístico, potencial geoturístico e ao índice
de aproveitamento geoturístico. Dos onze locais avaliados, sete se destacaram no potencial turístico e geoturístico, sendo
que no índice de aproveitamento geoturístico seis sobressaíram e devem ser alvo de medidas de promoção pelos gestores
do território e agentes do trade turístico local. A comparação dos resultados mostrou significativa diferença, a qual é fruto,
especialmente, da presença do critério beleza cênica na metodologia formulada pelo Serviço Geológico Brasileiro. Dessa
forma, o presente estudo retifica o potencial do Parna Ubajara como espaço propício para práticas relacionados ao
geoturismo, sendo que ações próprias dessa atividade podem ser praticadas em harmonia às práticas ecoturísticas já
consolidadas no local.
ABSTRACT
Tourism is an important economic area that is changing to integrate sustainability in its practices. That action allowed the
genesis and consolidation of new activities, including geotourism. We have, thus, the necessity of inventory, classification
of new geotouristic destinations in Brazil. In this context, the present article aims to quantitatively evaluate the touristic
potential of the Ubajara National Park in Brazil. The methodology begins with the use of geosites and biodiversity sites
previously inventoried to the Ubajara National Park and the use of two methodologies for the quantitative evaluation.
Applying the methodologies, we can assign the tourist and geotouristic value and the index of geotouristic use. Among
the eleven sites evaluated, seven showed relevant in the touristic and geotouristic potential. Concerning the index of
touristic use, six sites presented are highlighted and should be targets of promotion activities by the territory managers
and local touristic trade agents. Applying both methodologies, it was possible to compare the results, which showed
important differences, the are the result, specially, of the scenic beauty criterion in the methodology created by the
Brazilian geological service. Thus, we could update the Ubajara National Park potential as a space suitable for geotourism
practices in harmony with ecotouristic practices already consolidated in the local.
1. INTRODUÇÃO
Como nasce e se consolida uma atividade turística? Essa é uma pergunta em que a resposta
só pode ser dada por um arranjo complexo de variáveis, entretanto, é possível pontuar alguns
elementos que se destacam, dentre eles: a mudança de perspectiva da sociedade (entendida no turismo
enquanto consumidores); a viabilidade econômica; e, a existência de produtos turísticos e de público
disposto a consumi-los.
O anseio da humanidade em conhecer novos lugares é muito anterior à consolidação do
turismo enquanto prática econômica. Tomando por base locais de grande interesse geomorfológico e
geológico é possível identificar viagens por recreação e questões de saúde desde a Grécia Antiga,
onde locais com fontes termais eram o destino (HOSE, 2008).
Essas viagens, realizadas no começo sem planejamento e fins econômicos, foram evoluindo
e chegaram ao que temos hoje como turismo comercial. Brandão (2009) aponta o turismo atual como
uma prática capitalista, que nasce da exploração monetária do tempo livre do trabalhador. Dessa
forma, a lógica é que com o estabelecimento dos direitos trabalhistas, sobretudo no século XX e XXI,
há uma destinação de tempo para o “fazer nada”, onde o trabalhador pouco colabora para a
manutenção e crescimento da economia capitalista. Cabe então desenvolver estratégias para que o
trabalhador passe a consumir com maior intensidade nesse período e uma das táticas foi a
popularização do turismo, o qual deixou de ser uma atividade de “ricos” e passou a ser um anseio da
classe média, influenciada, especialmente, por estratégias massivas de marketing.
Como uma atividade capitalista e com fim econômico o turismo é uma prática extremamente
mutável. Novos planos, destinos e produtos surgem (e são “fabricados”) a todo momento, visando
acompanhar as mudanças de pensamento e perspectivas da sociedade. Já houve momentos em que o
único tipo de turismo incentivado, pelos Estados e pelo trade turístico1, era o turismo de massa, o
qual tinha como pilar a padronização das experiências turísticas e dos consumidores. Hoje os turistas
buscam cada vez mais experiências únicas e adaptadas, e nesse anseio por novidades é que surgem
serviços especializados que sustentam modernas atividades turísticas (COUTINHO et al., 2019).
Tinoco (2009) define esse movimento, inserido na lógica da pós-modernidade, como a consolidação
do “turismo adjetivado”, dentre os quais podemos pontuar o ecoturismo, o enoturismo, turismo rural
e o geoturismo, fruto de análise desse estudo.
Assim, o geoturismo é uma atividade turística que nasce da emergência por novas
experiências, sendo pautada no contato com a natureza e as comunidades humanas em uma
perspectiva sustentável. O geoturismo ainda é uma atividade jovem que passa pelo aumento dos seus
produtos turísticos e de público ao redor do globo. Entretanto, apesar de ser uma atividade recente há
uma diversidade de conceitos para geoturismo, alguns com enfoque geológico (HOSE, 1995;
DOWLING; NEWSOME, 2010) e outros com enfoques geográficos, como o estabelecido pela
National Geography Society (BENTO; FARIAS; NASCIMENTO, 2020).
1
Entende por trade turístico o “conjunto de agentes, operadores, hoteleiros e prestadores de serviços turísticos”
(BRASIL, 2018, p. 29)
3. METODOLOGIA
A metodologia construída por Ziemann e Figueiró (2017) configura uma junção e adaptação
de diferentes métodos comumente aplicados na literatura. O método divide a avaliação quantitativa
do geopatrimônio em duas categorias, seis critérios e 28 subcritérios. Os dois critérios são o Potencial
Geoturístico e o Risco de Degradação, mostrando que a proposta está em acordo com outras a nível
internacional que balizam os potenciais de uso com as vulnerabilidades ambientais e sociais da área.
A categoria Potencial Geoturístico (PGtur) é formado pela ponderação dos critérios: valor
geocientífico (sete subcritérios); valor cultural (dois subcritérios); valor estético (cinco subcritérios);
e, valor de uso VUso (sete subcritérios). É dado um maior peso na ponderação ao critério valor
estético, 40%, e os demais são representados com 20% cada (ZIEMANN; FIGUEIRÓ, 2017).
A categoria Risco de Degradação (RD) apresenta dois critérios com pesos iguais na
ponderação, sendo eles: risco associado (com seis subcritérios); e, estado de conservação (com um
subcritério). A metodologia permite definir o Índice de Aproveitamento Geoturístico (IAGtur) por
meio da subtração do valor obtido no Risco de Degradação no valor obtido no Potencial Geoturístico
(ZIEMANN; FIGUEIRÓ, 2017). Dessa forma, segundo a metodologia de Ziemann e Figueiró (2017,
p. 141), chegamos à equação (1):
IAGtur = PGtur – RD
IAGtur = PGtur [VG (20%) + VCult (20%) + VEst (40%) + VUso (20%)] – RD [R (50%) + C (50%)] (1)
A escolha das duas metodologias parte do esforço em comparar um método mais abrangente,
compreendido pelo GEOSSIT, e um formulado, especificamente, para a definição de potencial
geoturístico. Busca-se com isso identificar divergências entre os resultados quantitativos e apontar
possíveis fragilidades presentes na metodologia que é adotada em escala nacional, mas entendendo
que a mesma apresenta um foco mais generalista em sua abordagem (uma vez que realiza a análise
do potencial de uso “turístico” e não “geoturístico” em sua avaliação).
O Parna Ubajara dispõe de uma boa estrutura física e institucional (Figura 2), sendo o
turismo a principal atividade desenvolvida no seu interior, onde muito dos produtos turísticos são de
natureza geomorfológica e geológica, mesmo que a prática vigente esteja orientada ao ecoturismo.
Parece-nos válido, nesse momento, elencar dados e o contexto da atividade turística desenvolvida.
Antes de expor os dados turísticos é válido expor que durante boa parte de sua existência o
Parna Ubajara foi um dos menores parques nacionais do país, com apenas 563 hectares (ICMbio,
2002). Contudo, no dia 13 de dezembro de 2002 foi assinado o decreto que determinou a ampliação
para 6.288 hectares. A área expandida ainda não foi alvo do processo de desapropriação, o que resulta
que alguns espaços ainda apresentam o uso direto dos recursos ambientais, inclusive por práticas
turísticas e recreativas não planejadas. Na parte expandida, há poucas trilhas definidas e passíveis de
utilização pelo turismo organizado, o que torna latente o desenvolvimento de estratégias para
viabilizar a expansão sustentável do turismo para essas novas áreas.
O Parna Ubajara é um importante meio de atração de pessoas da região da Ibiapaba, o que
reflete ativamente na economia dos municípios inseridos. Segundo dados disponibilizados pela
gestão, entre os anos de 1990 e 2017 o Parna Ubajara foi visitado por 1.800.158 pessoas (Tabela 1),
uma média de 66.710 visitantes ao ano. Quando contabilizado apenas o período após a expansão da
UC, entre os anos de 2002 e 2017, a média anual de visitação foi de 74.121 pessoas. Um dado
interessante é que, quando isolado o intervalo entre 2010 e 2015, anterior à paralização do teleférico2
2
O teleférico do Parque Nacional de Ubajara foi idealizado no ano de 1971 pelo engenheiro Orlando Siqueira, sendo a
sua construção finalizada no ano de 1976, três anos antes da instituição do Regulamento dos Parque Nacionais, (decreto
8.417/1979) que proíbe a instalação de equipamentos do tipo (ICMBio, 2002a). O teleférico configura um dos principais
atrativos turísticos do Parna Ubajara, uma vez que permite o fácil acesso à Gruta de Ubajara.
(bondinho) da Gruta de Ubajara realizada de forma preventiva para a reformas e melhorias, a média
anual foi de 100.770 visitantes (Tabela 1), sendo o ano de 2014 o ápice de visitação, com 108.580.
a) Sede administrativa (antiga sede do Horto Florestal). b) Estrutura de apoio ao turista próximo ao Teleférico de
Ubajara. c) Sinalização de trilhas. d) Estrutura para prática de arborismo na trilha da Gameleira. As figuras b, c e d estão
localizadas na área do antigo perímetro do Parna Ubajara.
Fonte: Fotos do acervo pessoal de Suedio Alves Meira.
Tabela 1: Balanço do número de visitantes do Parna Ubajara entre os anos de 1990 e 2017
Ano Número de Visitantes Ano Número de Visitantes
1990 15.477 2004 47.852
1991 63.870 2005 42.089
1992 62.604 2006 51.440
1993 50.604 2007 53.796
1994 58.094 2008 72.310
1995 58.323 2009 78.214
1996 68.500 2010 96.667
1997 55.753 2011 87.616
1998 47.311 2012 98.817
1999 46.858 2013 108.503
2000 44.757 2014 108.580
2001 43.076 2015 104.434
2002 41.777 2016 70.765
2003 48.297 2017 74.774
Esses dados contrastam com a reduzida população das cidades que compõem o Parna
Ubajara, que, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o
ano de 2021, era de 77.111 habitantes para o município de Tianguá, 35.295 para Ubajara e 14.195
para Frecheirinha. Dessa forma, grande parte dos visitantes do Parna Ubajara são turistas oriundos de
outras cidades, especialmente do estado do Ceará e do Piauí, que se hospedam, prioritariamente, nas
sedes municipais de Ubajara e Tianguá. Esses turistas ajudam a dinamizar a economia local,
possibilitando a implantação de estabelecimentos de suporte ao turista, compostos por opções
variadas de hospedagem e restaurantes.
O elevado número de visitantes ratifica a necessidade de aprimorar e ampliar ferramentas,
roteiros e atrativos turísticos, de cunho sustentável, que auxiliem na fidelização dos turistas e
popularização do destino. A avaliação do potencial geoturístico pode ser elencada como uma das
medidas passíveis, uma vez que deixa claro aos agentes gestores do território e do trade turístico a
capacidade do Parna Ubajara em ser um polo de desenvolvimento dessa nova atividade.
O inventário de LIGs do Parna Ubajara revelou onze sítios (MEIRA, 2020) com potencial
para o desenvolvimento de práticas geoturísticas, especialmente devido a componente
geomorfológica. São quatro locais que se destacam devido a presença de mirantes excepcionais para
o contato entre o Glint da Ibiapaba e a Depressão Sertaneja (Figura 3), permitindo a discussão de
toda a evolução geomorfológica regional, sendo eles o Mirante da Gameleira, o Mirante do
Pendurado, o Sítio do Bosco (MEIRA; ARNEDO; NASCIMENTO; SILVA, 2020) e a Cachoeira do
Pinguruta.
Figura 3: Mirante da Gameleira, um dos importantes mirantes entre a Depressão Sertaneja e o Glint
da Ibiapaba disponíveis para visitação no Parna Ubajara
Ainda há dois sítios em relevo cárstico com expressivas feições endocársticas e exocársticas,
sendo eles a Gruta de Ubajara e as Furnas de Araticum. São três locais representados por cachoeiras,
os quais são chamados de Cachoeira do Pinga, Circuito das Cachoeiras e Cachoeira do Pajé. Um sítio
traz a singularidade de ser composto por fendas estruturais em meio ao arenito do Grupo Serra
Grande, sendo ele os Paredões de Janeiro (MEIRA; NASCIMENTO; SILVA, 2019). O último local
inventariado configura um resumo da estratigrafia do Parna Ubajara e conta a história geológica local
com precisão (MEIRA; DANTAS, NASCIMENTO; SILVA, 2019).
Avaliando o valor turístico segundo a metodologia do Programa GEOSSIT, foram
alcançados valores entre 220 e 315 pontos (Quadro 2). A todos os locais inventariados foram
atribuídos a relevância nacional, tornando-se notória a importância e o potencial do geopatrimônio
do Parna Ubajara para a efetivação de atividades turísticas na Ibiapaba.
Quadro 2: Valor turístico dos locais inventariados no Parna Ubajara segundo o GEOSSIT
Classificação Valor Turístico
Gruta de Ubajara Geossítio de Relevância Nacional 315 (Relevância Nacional)
Mirante da Gameleira Geossítio de Relevância Nacional 300 (Relevância Nacional)
Circuito das Cachoeiras Geossítio de Relevância Nacional 300 (Relevância Nacional)
Trilha Ubajara-Araticum Geossítio de Relevância Nacional 230 (Relevância Nacional)
Mirante do Pendurado Geossítio de Relevância Nacional 290 (Relevância Nacional)
Sítio do Bosco Sítio da Geodiversidade (SG) de Relevância Nacional 265 (Relevância Nacional)
Paredões de Janeiro Geossítio de Relevância Nacional 255 (Relevância Nacional)
Furnas de Araticum Sítio da Geodiversidade (SG) de Relevância Nacional 250 (Relevância Nacional)
Cachoeira do Pinga Geossítio de Relevância Nacional 240 (Relevância Nacional)
Cachoeira do Pinguruta Sítio da Geodiversidade (SG) de Relevância Nacional 230 (Relevância Nacional)
Cachoeira do Pajé Geossítio de Relevância Nacional 220 (Relevância Nacional)
Fonte: elaborado pelos autores com base em Meira (2020).
Tabela 2: Resultado do Valor Geocientífico (VG) para os locais inventariados no Parna Ubajara
VG1 VG2 VG3 VG4 VG5 VG6 VG7
Geossítio ou
Local Grau de conhecimento Relevância Associação de Média
SG Raridade Integridade Acessibilidade
Tipo científico didática elementos
Trilha Ubajara-
5 5 5 10 5 10 10 7,14
Araticum
Sítio do
1 0 5 10 10 10 5 5,85
Bosco
Paredões de
5 10 5 10 10 10 10 8,57
Janeiro
Cachoeira do
1 1 5 10 10 10 5 6
Pinga
Mirante da
5 0 5 10 10 10 10 7,14
Gameleira
Mirante do
1 0 5 10 10 10 1 5,28
Pendurado
Circuito das
1 1 5 10 10 10 10 6,71
Cachoeiras
Cachoeira do
0 1 5 10 10 10 10 6,57
Pinguruta
Cachoeira do
0 1 5 10 10 10 10 6,57
Pajé
Gruta de
10 1 5 10 10 10 10 8
Ubajara
Furnas de
1 1 5 5 5 10 0 3,85
Araticum
Fonte: elaborado pelos autores (2022).
O Valor Cultural (VCult) tem por objetivo inferir como a geodiversidade auxilia na
construção da identidade das comunidades e como essas se relacionam com esses componentes
abióticos da paisagem. Esse valor é definido por dois critérios, sendo que o resultado final mostrou
que a Gruta de Ubajara dispõe da maior relevância com 3 pontos (Tabela 3), uma vez que esse espaço,
antes do processo de desapropriação do Parna Ubajara era utilizado por práticas religiosas, além de
ser o principal elemento paisagístico regional.
O Valor Estético (VEst) é o de maior peso para o resultado final do Potencial Geoturístico,
representando 40%. Alguns locais apresentaram o valor máximo (10), sendo eles os geossítios Trilha
Ubajara-Araticum, Paredões de Janeiro, Mirante da Gameleira e Circuito das Cachoeiras (Tabela 4).
A espetacularidade das feições geomorfológica dos geossítios supracitados resultam em elevados
índices de coerência, complexidade, cores, legibilidade e bacia visual. Em contrapartida, o Geossítio
Cachoeira do Pajé e o SG Furnas de Araticum alcançaram apenas 5,2, especialmente devido ao baixo
desempenho no subcritério bacia visual (Tabela 4).
O Valor de Uso (VUso) teve uma variação elevada, indo de 9,28 pontos no Geossítio Mirante
do Pendurado até 3,71 pontos no Geossítio Paredões de Janeiro (Tabela 5). Apesar de ter se destacado
nos demais valores, os Paredões de Janeiro apresentam limitações no acesso e nos serviços de
interpretação, por ser um local que ainda não passou por estratégias de valorização, outros locais com
baixo valor nesses subcritérios também estão no mesmo contexto. Por sua vez, o Geossítio Mirante
do Pendurado chegou próximo à nota máxima por estar inserido muito próximo ao centro de recepção
ao turista da UC e com diversas ações de valorização e divulgação.
Calculado os critérios é possível definir o valor do Potencial Geoturístico (PGTur), o qual
variou entre 7,098 pontos no Geossítio Mirante da Gameleira e 4,378 no Geossítio Cachoeira do Pajé
(Tabela 6). O Mirante da Gameleira, apesar de ter tido a maior valoração apenas no valor estético,
apresentou bons resultados nos demais. Por sua vez, o Geossítio Cachoeira do Pajé não teve destaque
no valor estético, que apresenta o maior peso na ponderação.
Outros locais que obtiveram destaque no PGTur foram os geossítios Mirante do Pendurado
e os Paredões de Janeiro (Tabela 6). Esses dois espaços se sobressaem pelos os seus elementos
geomorfológicos, sendo que o Mirante do Pendurado alcançou um resultado elevado no VUso e os
Paredões de Janeiro no VG.
O geossítio que mais apresentou mudança positiva foi os Paredões de Janeiros que partiu da
sétima colocação para a terceira. O resultado foi impulsionado pelo seu Valor Geocientífico, uma vez
que esse critério não faz parte da abordagem do GEOSSIT. Outro destaque foi o Geossítio Mirante
do Pendurado que subiu três posições, chegando ao segundo melhor resultado. O excelente VUso foi
responsável por esse avanço, uma vez que subcritérios relacionados a serviços interpretativos e
básicos também não estavam presentes no outro método avaliativo.
Na outra ponta, o geossítio que apresentou a meio depreciação quando comparada as
metodologias foi a Gruta de Ubajara, que saiu da primeira para a quinta colocação. Apesar de
apresentar bons resultados em todos os critérios e estar muito próximo do quarto e terceiro colocado,
a Gruta de Ubajara no valor estético do que os seus pares, especialmente nos subcritérios cores, uma
vez que há uma homogeneidade, e bacia visual, por estar inserida em um contexto fechado.
O Geossítio Circuito das Cachoeiras também teve a sua classificação diminuída, saindo do
terceiro para o sexto lugar. O baixo VCult e VUso, quando comparado aos de melhor classificação,
influenciaram no resultado, sendo que esses critérios também não são avaliados no Valor Turístico
do GEOSSIT.
O Geossítio Mirante da Gameleira e o SG Sitio do Bosco apresentaram a variação de uma
posição, o primeiro positivamente, chegando ao primeiro lugar, já o segundo de forma negativa. Essas
variações não são expressivas a ponto de requerer uma avaliação específica, o mesmo ocorre para as
Furnas de Araticum e Cachoeira do Pinga que tiveram uma mudança de classificação em duas
posições.
Para chegar ao Índice de Aproveitamento Geoturístico é necessário balizar o potencial
geoturístico com o risco de degradação da área, sendo assim é necessário pontuar os critérios que
compreendem essa categoria. O Risco Associado (R), composto por seis subcritérios, variou entre
0,33 e 6,83 pontos, em um total possível de 10 (Tabela 8).
O Geossítio Trilha Ubajara-Araticum alcançou o menor risco associado devido as dimensões
e baixa vulnerabilidade natural e antrópica dos seus elementos de interesse. Por sua vez, o SG Furnas
de Araticum obteve um valor elevado, 6,43, demonstrando sua vulnerabilidade devido ao uso
antrópico e a ausência de um regime de proteção legal vigente (MEIRA, 2020). Os demais níveis de
risco associado foram baixos, estando abaixo de 2 pontos, com exceção do Geossítio Cachoeira do
Pajé que ficou próximo com 2,16 pontos.
O Estado de Conservação (C) dos locais inventariados demonstrou que oito dos onze
apresentam o melhor nível possível, não pontuando no critério (Tabela 9). Os geossítios Cachoeira
do Pinga e Cachoeira do Pajé não alcançaram a melhor avaliação devido a presença de lixo ou
pichações. Por sua vez, o SG Furnas de Araticum apresentou o pior estado de conservação, dispondo
de um ambiente poluído e carente de iniciativas públicas de melhorias para o seu futuro uso.
Tabela 9: Estado de Conservação (C) e Risco de Degradação (RD) dos LIGs do Parna Ubajara
VG1
Geossítio ou SG C RD (R + C) Posição do RD
Situação Atual
Trilha Ubajara-Araticum 0 0 0,165 8
Sítio do Bosco 0 0 0,83 4
Paredões de Janeiro 0 0 0,33 6
Cachoeira do Pinga 1 1 1,25 3
Mirante da Gameleira 0 0 0,415 5
Mirante do Pendurado 0 0 0,415 5
Circuito das Cachoeiras 0 0 0,415 5
Cachoeira do Pinguruta 0 0 0,33 6
Cachoeira do Pajé 1 1 1,58 2
Gruta de Ubajara 0 0 0,25 7
Furnas de Araticum 5 5 5,915 1
Fonte: elaborado pelos autores (2022).
O Risco de Degradação apresentou uma grande variação, estando a maioria dos locais com
notas inferiores a um ponto (Tabela 9). O SG Furnas de Araticum foi o pior avaliado, com 5,915
pontos, uma vez que nesses últimos critérios quanto maior o valor nominal resultante pior o nível de
conservação e risco a degradação. Posteriormente, estão os geossítios Cachoeira do Pajé e Cachoeira
do Pinga.
O Índice de Aproveitamento Geoturístico (IAGtur) relaciona o potencial com o risco de
degradação, entendendo que em quaisquer práticas turísticas devem levadas em consideração as
características ambientais do local receptor. Nesse contexto, um local de alta vulnerabilidade e baixo
nível de conservação, mesmo apresentando elementos da geodiversidade espetaculares, não devem
ser foco principal de promoção. O geoturismo, mesmo sendo uma prática de cunho sustentável, pode
resultar em impactos negativos porque envolve o aspecto econômico e o fluxo de pessoas, tais
resultados acontecem, especialmente, quando realizado sem o devido planejamento.
Tabela 10: Índice de Aproveitamento Geoturístico (IAGtur) dos LIGs do Parna Ubajara
Geossítio ou SG PGTur RD IAGtur (PGTur – RD) Posição
Trilha Ubajara-Araticum 6,842 0,165 6,677 2
Sítio do Bosco 6,326 0,83 5,496 8
Paredões de Janeiro 6,956 0,33 6,626 3
Cachoeira do Pinga 5,67 1,25 4,42 9
Mirante da Gameleira 7,098 0,415 6,683 1
Mirante do Pendurado 7,012 0,415 6,597 4
Circuito das Cachoeiras 6,756 0,415 6,341 6
Cachoeira do Pinguruta 5,898 0,33 5,568 7
Cachoeira do Pajé 4,378 1,58 2,798 10
Gruta de Ubajara 6,828 0,25 6,578 5
Furnas de Araticum 4,492 5,915 -1,423 11
Fonte: elaborado pelos autores (2022).
Outros geossítios também apresentaram resultados acima dos seis pontos (Tabela 10),
sendo eles: Mirante do Pendurado (6,597 pontos); Gruta de Ubajara (6,578 pontos); e, Circuito das
Cachoeiras (6,341 pontos). Esses seis geossítios melhores avaliados devem ser entendidos pelos
agentes gestores do território e pelo trade turísticos como os espaços prioritários para a proposição de
estratégias de valorização e divulgação geoturística no contexto do Parna Ubajara.
É possível avaliar locais de aproveitamento intermediário no âmbito do Parna de Ubajara,
os quais apresentam pontuação entre 4,42 e 5,568 pontos (Tabela 10), sendo eles: Cachoeira da
Pinguruta; Sítio do Bosco; e, Cachoeira do Pinga. Por sua vez, o Geossítio Cachoeira do Pajé
apresentou apenas 2,798 pontos e o SG Furnas de Araticum obteve avaliação negativa, uma vez que
o seu RD foi maior que o seu PGTur (Tabela 10).
5. CONCLUSÃO
disponham de elementos da geodiversidade espetaculares e que apresentam alto potencial para o uso
geoturístico. O melhor exemplo no Parna Ubajara é o Geossítio Paredões de Janeiro, que dispõe de
elementos de alta raridade e apelo, mas que, por ser um atrativo em construção, ainda não está
presente em campanhas turísticas, não pontuando assim no critério beleza cênica.
Por sua vez, o critério “valor estético” que representa 40% do potencial geoturístico segundo
o método de Ziemann e Figueiró (2017) dispõe de subcritérios mais abrangentes e que realizam uma
análise da qualidade paisagística da paisagem quanto a coerência, complexidade, cores e bacia visual
dos elementos de interesse. Dessa forma, a metodologia dispõe de um potencial para avaliar espaços
recém descobertos ou que ainda não passaram por estratégias de promoção turística, uma vez que
atribui o maior peso aos elementos presentes.
Independente da metodologia, as análises realizadas confirmaram a aptidão geoturística do
Parna Ubajara, uma vez que houve espaços com um elevado potencial para a realização de atividades
ligadas a essa nova atividade turística. Percebe-se que as práticas turísticas vigentes na unidade de
conservação estão atreladas ao ecoturismo, tendo a biodiversidade como principal foco, mesmo que
os atrativos mais expressivos sejam de natureza abiótica. Cabe então incentivar o geoturismo, não no
sentido de substituir o ecoturismo já consolidado, mas de expandir a oferta de produtos turísticos, em
espacial daqueles com caráter sustentável.
Salienta-se que as atividades e as ações de planejamento e gestão no âmbito do geoturismo
devem ser orientadas tanto à geodiversidade quanto à biodiversidade e à comunidade, possibilitando
que os turistas tenham uma experiência prazerosa e produtiva, que possibilite a consolidação de uma
consciência ambiental, entrando, consequentemente, em consonância com os objetivos de um Parque
Nacional.
REFERÊNCIAS
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Geoheritage, [s.l], v. 8, n. 2, p. 119-134, 2016.
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and sustainable economic development. Episodes, [s.l], v. 27, n. 3, p. 162-164, 2004.
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MORE. Mecanismo online para referências, versão 2.0. Florianópolis: UFSC: Rexlab, 2013.
Disponível em: http://www.more.ufsc.br/. Acesso em: 08 de maio de 2023.
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