Metarromantismo
Metarromantismo
Metarromantismo
ISSN 2236-7403
- Do texto poético, do discurso crítico e do N. 29, Vol. 13, 2023
diálogo com o mundo
RESUMO: Este artigo discute textos escritos em verso e em prosa, publicados nos Ensaios literários, um dos mais
importantes periódicos que circularam na Faculdade de Direito de São Paulo, no contexto do Romantismo. A
partir de reflexões acerca do metarromantismo, o estudo procura compreender os usos e significados dos textos
metaliterários, em função do cenário literário paulista e nacional.
ABSTRACT: This article discusses texts written in verse and prose, published in the Ensaios literários, one of the
most important newspapers that circulated in São Paulo Law College, in the context of Romanticism. Based on
reflection about metaromanticism, the study searches to understand the uses and meanings of metaliterary texts,
in function of the local and national literary scenario.
Introdução
Desde a sua fundação, em 1827, e durante todo o século XIX, a Faculdade de Direito do
Largo de São Francisco, conhecida como Academia de Ciências Sociais e Jurídicas, ocupou um
lugar central no cenário literário brasileiro, circunscrevendo, sobretudo, aquilo que se conhece
como segunda geração romântica. Nesse período, em especial entre os decênios de 1840 e 1860,
propagou-se, no dizer de Brito Broca (1979), a “mania da literatura” entre os jovens bacharéis,
despertada por diversas razões. Entre elas, estavam o desejo de se expressar e de se integrar a
uma comunidade altamente literária e o fato de que a literatura indicava uma espécie de termô-
metro civilizacional. O seu cultivo significava o desenvolvimento intelectual do país, concreti-
zando, no plano simbólico, aquilo que havia sido conquistado no plano político, em 1822.
Os poetas-estudantes inundaram as páginas periódicas dos jornais acadêmicos e mesmo
os de circulação mais ampla com uma enxurrada de versos e de narrativas curtas ou seriadas.
Se, em meio a essas publicações, sobrenadam versos de um Álvares de Azevedo, em publicação
1. Este artigo é parte de uma pesquisa maior, intitulada “Entre poetas e críticos: metarromantismo nos periódicos
acadêmicos de São Paulo (1847-1869)”, que conta com apoio do CNPq e dois estudantes de graduação: Luiz Henrique Diniz
Filho e Maria Clara Barbosa Bernardo.
2. Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada. Professora no Departamento de Letras da Universidade Federal de
Viçosa, Minas Gerais, Brasil. E-mail: natalia.g.santos@ufv.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4679-0963.
Recebido em 30/01/2023
Aprovado em 19/03/2023
https://doi.org/10.51951/ti.v13i29.p43-60
Travessias Interativas / São Cristóvão (SE), N. 29 (Vol. 13), p. 43–60, maio/2023. 43
METARROMANTISMO EM VERSO E PROSA NOS
Natália Gonçalves de Souza SANTOS
ENSAIOS LITERÁRIOS (1847-1850)
É incrível o frenesi literário que se tem notado este ano, na mocidade, já na tribuna
de diversas associações, e já na arena do jornalismo. – De um lado, se encontra jovens
dotados de inteligência, modestamente caminhando em busca dos louros que lhes devem
um dia engrinaldar a fronte; de um outro lado, se observa uma sucia de entes microscó-
picos, perfeitas estátuas [...].
Representam muitas vezes o papel de censores, ridicularizando o primeiro escrito que lhe
vem às unhas! (1859, v. 157, p. 2).
A poesia romântica é uma poesia universal progressiva. Seu objetivo não é meramente
reunir todos os gêneros separados da poesia e pôr em contato poesia, filosofia e retórica.
Ela quer e deve também fundir poesia e prosa, inspiração e crítica, poesia de arte e poesia
da natureza, tornar a poesia viva e sociável, e a sociedade e a vida poéticas, tornar poético o
humor e encher e saturar as formas da arte com todo tipo de assunto sólido para a cultura,
animando-os com as pulsações do humor (apud LOBO, 1987, p. 55, grifos nossos).
O projeto de poetização da vida encetado por F. Schlegel, com fito de abarcar a cisão su-
jeito/objeto experienciada pelo indivíduo moderno, pressupõe a dissolução das antigas divisões
entre gêneros literários e mesmo entre criação poética e crítica literária, o que significa uma
transgressão jamais vista no âmbito da literatura. Essa nova configuração, que admite a presen-
ça da poesia na crítica e da crítica na poesia, justamente pelo seu caráter revolucionário, requer
uma constante teorização e grande volume de explicações e autoexplicações dos autores ao seu
público, uma vez que o padrão de julgamento se rearticula.
Se antes do advento romântico as obras poderiam ser gestadas e julgadas a partir dos
pressupostos das poéticas clássicas, a postura de ruptura acentuada em fins do século XVIII deu
margem à liberdade e a um exercício de reflexão constante. Essa instabilidade é um dos cernes
da nova escola, como se vê em trecho seguinte do fragmento 116: “O gênero da poesia românti-
ca ainda está em estado de formação, e é de fato sua verdadeira essência, o eterno devenir, sem
jamais se dar por acabado. Nenhuma teoria pode exauri-lo e apenas uma crítica divinatória
ousaria se arriscar a caracterizar seu ideal” (apud LOBO, 1987, p. 56, grifos nossos).
Tendo em vista essa problemática estética e considerando a configuração circunstancial
existente na Faculdade de Direito no período romântico, este artigo pretende analisar os textos
literários em verso e em prosa que discutem, no bojo de sua execução, o próprio fazer literário.
O artigo pretende discutir que tipo de discussão crítica e teórica tais textos literários poderiam
trazer, tendo em vista o cenário literário no Brasil do século XIX, de uma maneira mais ampla.
Num primeiro momento, apresentamos, ainda que de forma sumária, algumas noções sobre
metaliteratura, na sequência, retomamos aspectos da literatura produzida pela segunda geração
romântica para, finalmente, analisarmos três poemas e dois textos em prosa que têm como prin-
cipal objetivo pensar a própria arte literária.
Questões da metaliteratura
A discussão proposta por este artigo parte de noções nem sempre evidentes: metalin-
guagem, metaliteratura, metapoesia, metarromantismo etc. Não se tem a pretensão de debater
todas aqui, mas de instrumentar a linha de raciocínio que enseja esta reflexão. De início, vale
pontuar que o prefixo metá significa, de acordo com a sua etimologia grega, no Novo dicionário
de língua portuguesa: “mudança”, “posteridade”, “além”, “transcendência”, “reflexão”, “crítica
sobre” (CHALHUB, 1988, p. 7). Parece ser essa última acepção a que mais correntemente se liga
ao nosso entendimento da metalinguagem, uma linguagem relacional a outra.
Sabe-se, então, que existem diversas metalinguagens e, mesmo dentro dos estudos literá-
rios, mais de uma maneira de compreendê-las. Vítor Aguiar e Silva chama a atenção para o fato
de haver estudos que buscam comentar “as convenções, as regras, os mecanismos semióticos que
subjazem aos processos de produção, estruturação e recepção dos textos literários” (1982, p. 110-
111), os quais poderiam ser designados como crítica e teoria literária e possuem cunho metalin-
guístico. Outra coisa é deslocar esses processos para o interior do texto recebido como literário,
propiciando a emergência de vocábulos como “metapoesia” e “metaliteratura” ou “metaficção”.
Na definição de Maria Bochicchio:
Teria sido essa postura vigilante com relação ao código poético uma decorrência da
modernidade literária? Não há consenso quanto a isso. De um lado, há aqueles que acreditam
que ela sempre existiu, citando como exemplo as relações entre a Ilíada e a Odisseia, de Ho-
mero ou obras relativamente mais recentes, como Dom Quixote, de Cervantes. Já pensadores
como Octávio Paz a concebem como fenômeno moderno. Para ele, “a poesia moderna também
é teoria da poesia. Movido pela necessidade de fundamentar sua atividade em princípios que a
filosofia lhe recusa e a teologia só lhe concede em parte, o poeta se desdobra em crítico.” (PAZ,
2012, p. 239-240). De todo modo, cabe pontuar que, a partir dos desdobramentos advindos da
revolução romântica, as questões que ativam a metapoesia não são sempre as mesmas. A crise
da qual ela é sintoma se aprofunda, sobretudo a partir de Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud e,
talvez por isso, esse seja um fenômeno da linguagem mais pensado em função dos escritores
da segunda metade do século XIX e, no Brasil, sobretudo a partir do Modernismo.
Porém, Bochicchio identifica a sua presença entre os escritores românticos, justa-
mente porque:
[...] a partir do Romantismo, ou logo que surge uma ruptura com ele, e entrando pelo século
XX dentro, cada poeta é livre de engendrar os próprios princípios de configuração da sua
arte, combinando-os ou não com modelos anteriores e procedendo, em muitos casos, a
uma autorreflexão metaliterária que lança mão desse princípio como material temático e/
ou estruturante do poema (2012, p. 164).
Analisar a reflexão da poesia sobre si mesma significa analisar uma necessidade ontológi-
ca, epistemológica e existencial, afinal concomitante com o próprio acto da escrita. [...] De
facto, a metapoesia representa um instrumento de autoconhecimento do sujeito poético e
da sua linguagem no poema, tanto quanto uma maneira de entender o mundo através das
instâncias de uma auto-referencialidade da palavra poética (2012, p. 169).
[...] muito ao contrário do que se pensa, no entanto, seus poemas adotam quase sempre
como assunto a própria poesia e, como não podia deixar de ser em se tratando de roman-
tismo, a dor provocada pela atividade poética numa sociedade cuja literatura se encontrava
ainda em “seus momentos iniciais” (CUNHA, 1998, p. 26, aspas da autora).
À luz dessa afirmação, ao longo d’O belo e o disforme (1998), a autora analisa diversas
partes da obra do poeta paulista, evidenciando sua autoconsciência poética. Desse trabalho,
elencamos dois exemplos, a fim de ilustrar textos prototípicos do que se entende por metalitera-
tura, a partir da obra icônica de Azevedo. No campo da poesia, destacamos uma estrofe de “Um
cadáver de poeta”, texto da segunda parte do livro Lira dos vinte anos (1853), na qual o eu lírico
reproduz, ironicamente, a opinião da sociedade com relação à atividade poética:
Por não se prestar a esses trocadilhos fáceis, o poeta Tancredo, protagonista desta espé-
cie de conto metrificado, acaba morrendo de fome e seu corpo perece na estrada, sendo ignora-
do por todos que passam. Como se vê, o poema presta-se a uma reflexão sobre os tipos de poesia
que agradam ou não ao público e o lugar que o seu produtor pode ocupar na sociedade.
Já no campo da prosa, cumpre destacar a célebre discussão entre os personagens Penseroso e
Macário, na peça Macário (1855). Nela, os dois estudantes discutem um livro de poemas considerado
cético e que já foi apontado como sendo do próprio Álvares de Azevedo. No debate em torno da obra,
no qual o primeiro a rechaça e o segundo a defende, entram em cena posições ideológicas em torno
de como deveria se construir a literatura brasileira naquele momento. Para Penseroso, o autor da-
quele livro presta um desserviço à pátria: “E esse americano não sente que ele é o filho de uma nação
nova, não a sente o maldito cheia de sangue, de mocidade e verdor?” (AZEVEDO, 2000, p. 549).
A essa defesa apaixonada do nacionalismo literário, Macário responde, manifestando
sua visão byroniana: “Muito bem, Penseroso. Agora cala-te: falas como esses oradores de lugares
comuns que não sabem o que dizem. [...] Não sabeis da vida. Acende esse charuto, Penseroso,
fuma e conversamos.” (AZEVEDO, 2000, p. 549). Com a morte desse último ao final da peça,
pode-se dizer que um dos estilos literários prepondera sobre o outro, indicando as predileções
literárias do autor e seu posicionamento em relação ao panorama literário de então. Segundo
Samira Chalhub, numa discussão mais ampla sobre esse fenômeno de reflexão no interior das
obras literárias, “essa consciência da história literária traz o código exposto e, semanticamente,
expõe também a questão do que é poesia.” (1988, p. 55).
Considerando a importância da obra de Álvares de Azevedo e a calorosa recepção dela
pelos pares acadêmicos, a partir da sua publicação póstuma, em 1853, seria possível pensar que a
postura metaliterária do autor pode ter contribuído para outras manifestações dessa cepa, tanto
em verso quanto em prosa. Para além disso, como se pode ver a partir do fragmento 116 de F.
Schlegel, citado na introdução, a propensão à reflexão e à fusão das instâncias criativa e crítica
fez parte do programa revolucionário do romantismo, a qual outros frequentadores da Faculda-
de de Direito poderiam ter tido acesso. Suas diferentes configurações sugerem os variados usos
que a reflexão sobre a literatura poderia atingir dentro da produção literária acadêmica.
E uma das esferas de saber mais tocadas pelos bacharéis foi, como se sabe, a da literatura.
No que tange à metaliteratura, iniciaremos nosso percurso pelos escritos em verso que são, a
princípio, mais abundantes nas páginas do jornal em questão.
Ao longo de seus quatro anos irregulares de publicação, os Ensaios literários estamparam
quarenta e quatro poemas, em sua maioria, de autoria de seus próprios colaboradores, incluindo
algumas imitações e traduções de autores estrangeiros. Considerando, de maneira ampla, a tipolo-
gia poética anteriormente mencionada, a qual, em nosso estudo, foi desmembrada em alguns tipos
mais precisos, foram encontrados treze poemas de cunho sentimental, cinco indianistas e/ou na-
cionalistas, onze de cunho byroniano, oito de temas variados e sete metapoemas. São eles: “Minha
esperança”, de O.O.A.A; “Vers écrits sur mon album par Mademoiselle L.G”, de O. A; “Réverie”, de
No entanto, não só de compromisso com a cor local vive a metapoesia nos Ensaios literá-
rios. Passamos ao comentário do poema “O destino do vate”, assinado por B. Silva Guimarães,
mais conhecido por Bernardo Guimarães que, posteriormente, recolheu a composição, com al-
gumas alterações nos Cantos da solidão (1852). Nele, podemos observar outros tipos de conexão
com a literatura. De início, é preciso esclarecer a quem ele dedica o poema: Dutra e Melo o qual,
segundo Antonio Candido (2006a, p. 396), fez parte do grupo da revista Minerva Brasiliense.
Ainda de acordo com o crítico, o que mais chamou a atenção dos contemporâneos não foram
os parcos versos que deixou, ainda de sabor neoclássico, mas a sua morte prematura, perecendo
em 1846, aos 23 anos, o que lhe rendeu uma série de homenagens como essa de Guimarães. A
epígrafe em si, creditada a Dutra e Melo, já traz essa antevisão da morte, que tanto alvoroço
provocava entre os críticos e leitores da época: “Entretanto não me alveja a fronte, nem minha
cabeça pende ainda para a terra, e contudo sinto que hei pouco de vida.” (1850, v. 2, p. 20). Tal
homenagem faz parte da sociabilidade romântica, conforme Broca (1979), e contribui também
para a constituição de uma memória à nascente literatura brasileira.
Essa interlocução, mesmo entre poetas vivos, mostrava-se relativamente frequente en-
tre os acadêmicos, como pode-se ver em “Poesias a um amigo” (Imprensa acadêmica, v. 38, p.
3, 1864), de Carneiro da Silva Braga, dirigindo-se a Fagundes Varela, ou o poema “Junqueira
Freire” (Imprensa acadêmica, v. 25, p. 2-3, 1864), assinado por Derviz, o qual, além de discutir
a poesia e biografia de Freire, menciona também Álvares de Azevedo, na sua décima primei-
ra estrofe: “Embora, triste vate! Além dos astros / Essa já murcha palma que mirrou-se / Nas
mãos debilitadas de Azevedo, / Reverdeceu mais bela [...]”. A recorrência dessas menções pode
apontar para uma tentativa de fortalecimento da literatura ali produzida. E, consequentemente,
a constituição de um cânone literário que pudesse talvez dar azo a outros intentos que não os
mais eminentes para a intelectualidade de então que perpassavam, como se sabe, a construção
da nacionalidade literária a partir das especificidades brasileiras.
No poema “O destino do vate”, composição relativamente longa, de onze blocos de ex-
tensão e métrica variadas, o eu lírico reporta-se diretamente a Dutra, textualmente referido na
última parte. Ao caracterizar o poeta como cisne que canta ou exilado em terra ingrata, Gui-
marães não faz mais do que mobilizar os lugares-comuns do tempo para cantar a morte de um
poeta. Porém, vale destacar a perseverança que se espera do vate que, mesmo melancólico, deve
cantar a natureza e o amor, pois disso depende a glória. Apesar de exortá-lo ao canto, o poema
adverte sobre seu destino:
A que se deve esse triste destino? Estendendo a fala Cilaine Alves Cunha (1998) sobre
Álvares de Azevedo ao presente caso, temos que essa situação pode se dever ao fato de haver
pouco espaço às artes e à literatura num país escravocrata, onde elas se encontravam em seu
nascedouro. Dessa forma, vemos que esse elogio fúnebre, comum na sociabilidade romântica,
serve também à denúncia do lugar da arte em nossa sociedade.
Das buscas realizadas para embasar o projeto ainda em desenvolvimento e o presente
artigo, vemos que essa atitude algo pessimista e elegíaca por parte do sujeito poético é bastante
frequente nas poesias que se prestam à discussão do código literário. Tem-se aí a crença numa
poesia superior aos interesses básicos da sociedade burguesa que, em geral, despreza a arte li-
terária. Não temos aí ainda o hermetismo do poeta moderno que valoriza ao extremo o culto
da palavra, mas um poeta que luta pelo reconhecimento, numa atitude que poderia, de certa
maneira, aproximar-se da vertente sentimental do romantismo.
Com o intuito de demonstrar uma composição lírica que se configura de maneira um
pouco distinta à do tom elegíaco, encerramos essa apresentação com o poema “O estro”, assi-
nado por Andrada e Silva, conhecido por José Bonifácio, o moço, por ser neto do Patriarca da
Independência. Como o próprio título adianta, o assunto do texto é a inspiração poética em si,
e não o poeta, que foi a temática escolhida por Bernardo Guimarães. Ao tratar desse elemento
transcendental, o sujeito lírico constrói imagens a partir de um “mistério sublime”, para reto-
mar os seus termos, cuja força e amplitude sugerem constância e potência. Delas, destacamos, a
“procela tremente”, o “azul firmamento”, o “fogoso corcel”. Unidas à regularidade do hendecas-
sílabo, presente nas oito quadras do poema, tem-se que a inspiração não desaparece, cabendo ao
transitório elemento humano apenas indagar acerca dela:
Todo o poder da inspiração, capaz de destruir reinos não pela força, mas pelo trovão,
só encontra lastro na terra por meio da figura do poeta fato que, ao fim, garante-lhe um lugar
também imponente, minimizando a descrença das turbas. Se, de acordo com a historiografia
(BOSI, 2015; CANDIDO, 2006a), apenas a poesia que Bonifácio produziu a partir da década de
1860 será considerada engajada, antevemos aqui, em comparação à de Guimarães, certa positi-
vidade que avança em relação ao tom elegíaco do ultrarromantismo.
Algumas posturas algo distintas podem ser encontradas na prosa metalinguística loca-
lizada nos Ensaios literários. A título de balanço, encontramos nesse jornal doze textos, entre
ficcionais e outros, de cunho mais reflexivo, filosófico, que não são exatamente estudos científi-
cos ou crítica literária. Essa indefinição deve-se a alguns fatores, entre eles o fato de as frontei-
ras entre as áreas do conhecimento não estarem ainda tão claras como hoje e ao próprio gosto
romântico pelo hibridismo de gêneros que culmina, por vezes, na prosa poética. De todo modo,
enfocamos aqui textos mais perceptíveis como ficcionais.
Desse total, cinco textos foram classificados como sendo metaliterários. São eles: “Fan-
tasia”, de O. A. (1847); “Conversas entre um pintor e um poeta”, de A.P. F. (1848); “Traços da
minha vida de estudante”, sem assinatura (1848); “As duas coroas de espinho”, S.[Samuel] Henry
Berthoud, que se apresenta como tradução (1850); “Os dois poetas ou A primeira hora do dia”,
de J. d’Almeida Pereira Filho (1850) e “Folhas de minha carteira”, de Andrada e Silva (1850).
O que mais chama a atenção na prosa, quando comparada à metapoesia anteriormente
comentada, é a centralidade que a literatura assume em todas essas narrativas, em geral, estru-
turando o enredo e delineando as personagens. Não são, portanto, textos pontualmente, mas
essencialmente metaliterários. Por meio deles, tendo em vista a possibilidade de descrições e
desdobramentos propiciados pela prosa, temos acesso a uma gama de crenças e funções impu-
tadas à literatura.
A referida centralidade se avulta desde os títulos dos textos: há referência direta ao poe-
ta, ao estudante que é, quase sempre poeta, à folha que receberá o escrito, a outros artistas. Essa
referência deixa entrever quem se ocupa da atividade literária: em geral, um indivíduo de um
estrato social de certa forma privilegiado, como o reverendo-versejador de “As duas coroas de
espinho”, ou os jovens estudantes de “Traços de minha vida de estudante”, jamais mulheres,
comerciantes, escravizados. Embora haja alguns anciões entre os produtores da arte, sobretudo
nas “Conversas entre um pintor e um poeta”, a personagem mais frequente que comporta o
poeta é o jovem, imbuído de um sentido de missão, inconformado com seu entorno, ora pauta-
do por uma aura mais dramática em relação ao seu deslocamento em relação à sociedade, ora
francamente humorístico.
Para ilustrar essas questões, destacamos dois textos, a começar pelo de 1850. “Os dois
poetas ou a primeira hora do dia”, de Almeida Pereira, subintitula-se “fragmento”, de fato, não
temos acesso ao texto na sua integralidade, talvez, mais por descontinuidade na produção da
narrativa e/ou do periódico que por programa estético. O texto abre-se com o seguinte quadro:
Meia noite havia dado o relógio da velha ermida; e dois moços conversavam sentados no
tronco secular de velho carvalho, que a tempestade havia derribado: em suas faces lia-se
essa expressão característica do gênio, que muitas vezes se desenha nas linhas do rosto, e
que o olhar do atilado observador compreende logo.
[...]
Eis os fragmentos que pudemos colher de suas conversas nessa hora dos feiticeiros, como
diria a credulidade do povo, ou nesse tempo, em que se erguem do sepulcro fantasmas ne-
gros, e vagam pelo cemitério, como se exprimiria um conto fantástico.
1ª noite
ELEAZAR: Não vês Hermann a Lua que lá vem a raiar nas orlas do horizonte?
HERMANN: Sim; milhões de vezes ela mostrou essa face pálida que coa no fundo d’alma
santas emoções (PEREIRA FILHO, 1850, v. 2, p. 13-14).
Esse narrador testemunha, que observa os dois poetas na calada da noite, representa-os
com as características consagradas do sujeito poético romântico: a juventude e a marca do gênio
na face, a qual, não raro, leva o seu portador ao infortúnio. Destaca-se o lugar e a hora na qual se
desenvolvem as conversas entre Eleazar e Hermann: à meia-noite, num cemitério, sendo que cada
uma dessas noites de diálogo e vigília vem catalogada como “noite”. Considerando esses elemen-
tos, podemos entrever possível intertextualidade com as Noites (1742), do escritor inglês Edward
Young, que tanto impacto causou naquilo que se chama de pré-romantismo. Essa ambientação de
“conto fantástico” observada pelo próprio narrador e a origem europeia dos nomes, sobretudo o
nome Hermann, também presente na Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, parece ir ao en-
contro das expectativas construídas em torno da literatura produzida pela nossa segunda geração
romântica. Mas ouçamos, qual Satã convida Macário, a conversa entre os dois poetas:
Não temos acesso as outras conversações, mas nessa o que figura é a clara tentativa de
abarcar a vertente nacionalista do romantismo, enxertando-a num cenário sombrio. A discus-
são do que deve ocupar nossos autores está no centro das atenções das personagens, que deixam
suas outras preocupações de lado, lembrando o remorso que Antonio Candido (2006a) afirmou
ter existo entre os dessa geração, mobilizados pelo seu “drama íntimo”. Aqui, de forma mais ou
menos análoga ao poema em francês, temos a reflexão sobre o caminho a ser seguido pela nas-
cente literatura, trazendo os preceitos críticos para falarem dentro da obra literária.
É interessante também refletir acerca de qual vertente do indianismo encontramos na
discussão travada pelos nossos poetas. De acordo com Roberto Acízelo de Souza, podemos pen-
sar em duas diretivas básicas para o indianismo brasileiro:
[...] ei-lo acusado de ter traído a causa portuguesa, por que fora reclamar a mulher e os
filhos, que tinham caído nas mãos dos Batavos, [...] encerrando-se numa prisão sem ver
durante oito anos mudarem as árvores de folhas [...], ei-lo finalmente despido dos grilhões
por aqueles contra quem combatera, e iludindo as suas presunções – voltar ao seio dos seus
antigos amigos, para auxiliá-los contra seus libertadores, porque a lealdade é a sua primei-
ra virtude [...] (PEREIRA FILHO, 1850, v. 2, p. 16).
Filosofia!.. Asneira!.. Que me importa a mim se tudo no homem se reduz a ver, ouvir,
gostar, tocar, cheirar, ou não? O que tenho eu com o Sr. Rousseau (na frase do Pedrinho)
a revolucionar o mundo inteiro com as suas ideias esquisitas, Voltaire a escarnecer até de
Deus!.. Cousin – o nebuloso – a escrever um imbróglio, muitas vezes de todo ininteligível –
e os papalvos, todos, a admirá-lo!... por que não o entendem? (ANÔNIMO, 1848, v. 3, p. 63).
Em outro momento, deixa entrever certos companheiros de leitura, quando nos des-
creve a preparação da mesa para o carteado: “E veio o cobertor para cima da mesa intitulada
de estudo, desterrei George Sand e Alexandre Dumas, meus constantes e diletos companheiros
[...] e desencaixotei o meu baralhinho...” (1848, v. 3, p. 64). O que importa, ao fim, é a tentativa
de tomada de distância, entre tantos manifestos, prefácios e autoexplicações publicados pelos
autores românticos os quais, ao proporem romper poéticas, convertiam-se em novas poéticas.
Essa distância permite a crítica, mesmo dentro da obra de arte. Acompanhando esse estudante
boêmio até o final de seu dia, não chegamos a conclusões, a não aquela que o afasta da visão
poética ostentada em “O destino do vate” e “O estro”.
Considerações finais
Dessa forma, podemos pensar que a metaliteratura nos Ensaios literários atua em dois sen-
tidos: seja para reforçar o nacionalismo literário, não só performando-o, mas debatendo-o no in-
terior da obra literária, seja para garantir um espaço de reflexão poética livre desse compromisso,
na poesia e na prosa. Resta saber se essa tendência se repete em outros periódicos que circularam
na São Paulo romântica, questão que a continuidade desta pesquisa pretende deslindar.
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