Ariel Álvarez Valdés - Que Sabemos Sobre A Bíblia Vol 1 PDF
Ariel Álvarez Valdés - Que Sabemos Sobre A Bíblia Vol 1 PDF
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Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) lvarez Valds, Ariel Que sabemos sobre a Bblia? Ariel lvarez Valds; | traduo Afonso Paschotte |. Aparecida, SP: Editora Santurio, 1997. Ttulo original: Qu sabemos de la Biblia? Obra em 3 v. ISBN 85-7200-481-5 (v. 1) ISBN 85-7200-482-3 (v. 2) ISBN 85-7200-483-1 (v. 3) 1. Bblia - Estudo e ensino 2. Bblia - Leitura I. Ttulo. 97-2253 ndices para catlogo sistemtico: 1. Bblia: Estudo e ensino 220.07 CDD-220.07
Ttulo original: Qu sabemos de la Biblia? (I) Editorial LUMEN, Argentina, 1992 ISBN 950-724-214-7
Todos os direitos em lngua portuguesa reservados EDITORA SANTURIO - 1997 Composio, impresso e acabamento: EDITORA SANTURIO - Rua Padre Claro Monteiro, 342 Fone: (012) 565-2140 12570-000 Aparecida-SP.
PRLOGO
No dia em que entrei pela primeira vez na biblioteca do Estudo Bblico Franciscano de Jerusalm, onde fora realizar meus estudos bblicos, fiquei pasmado. Mais de trinta mil volumes cobriam as paredes e os pisos da biblioteca. Estavam divididos em salas distintas, conforme os temas. Mas o extraordinrio no era a quantidade, e sim que todos tinham sido escritos unicamente com o objetivo de explicar e comentar um s livro: a Bblia. Numa seo parte achavam-se as trezentas e noventa revistas que o Instituto recebe regularmente, referentes a questes de arqueologia, patrstica, oriente antigo, judasmo, mas sempre com o mesmo intuito: fazer a Bblia mais compreensvel. Todos os anos aparecem centenas de novos livros, revistas, artigos, monografias, teses, atlas, mapas, dicionrios e um sem-nmero de ferramentas que procuram esclarecer o sentido das Escrituras Sagradas. E a publicao prosseguir porque o Esprito Santo, como dizia Jesus, vai nos levando pouco a pouco compreenso total de sua Palavra (cf. Jo 16,13), a que no entanto no chegamos ainda. Neste sentido cada gerao tem sempre algo novo a acrescentar, graas ao que ela vai compreendendo melhor o sentido de sua prpria salvao. Assim esta nova contribuio converte-se em algo vital para todos os homens que vivem neste tempo.
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Contaram-se todos os seus captulos, versculos, palavras e at mesmo cada letra do Antigo e do Novo Testamento j est enumerada e sabe-se quantas so. Todos os temas que se possam imaginar sobre ela j foram tratados, estudados e investigados e tm uma resposta, a melhor que podemos oferecer altura das investigaes atuais. Todas as dificuldades, os enigmas, as aparentes contradies, as questes inslitas, os desafios histricos e geogrficos j foram, na medida do possvel, tratados e resolvidos. No entanto, apesar desta produo profcua, o povo, a gente simples, os leigos, os catequistas, os membros dos grupos de orao ou de estudos bblicos no se inteiraram, no tiveram acesso s novas descobertas e desconhecem grande parte do muito que se escreveu. Muitos catlicos, por exemplo, no sabem que h cinqenta anos o Papa Pio XII, em sua encclica Divino afflante Spiritu, permitiu aos exegetas considerar os primeiros captulos do Gnesis como gneros literrios especiais. Eles, no entanto, continuam acreditando na existncia histrica de Ado e Eva, na serpente e na lista de castigos, por terem comido uma fruta. Alguns, porm, seguem ensinando que os cinco primeiros livros da Bblia, o Pentateuco, foram escritos por Moiss tal como os lemos na Bblia, quando desde o sculo passado se vem provando, com suficientes argumentos, que na realidade trata-se de um conjunto formado por quatro narrativas de autores distintos. Por que continuam ainda ignorados por tanta gente, se estes e outros assuntos j esto amplamente discutidos, analisados, escritos, publicados?
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Vrios so os motivos. Em primeiro lugar, porque a maioria no tem acesso a esta literatura especial, que se publica em grossos e custosos volumes, que muitas vezes dormem nas prateleiras das grandes bibliotecas e livrarias. Em segundo lugar, porque se trata de livros especializados, que por isso mesmo no so muito difundidos. Em terceiro lugar, porque muitas das obras esto escritas numa linguagem difcil, demasiado tcnica, exclusiva de certos crculos de estudiosos. Isto gerou uma distncia cada vez maior entre os estudiosos que fazem avanar o conhecimento da Palavra de Deus com suas pesquisas e o comum do povo que ficou relegado s velhas interpretaes, sem quase se inteirar dos avanos bblicos. O presente livro no diz nada de novo. Pretende apenas divulgar algumas questes, esclarecidas pelos modernos estudiosos bblicos, e, ao mesmo tempo, fazer chegar at as pessoas as novas contribuies da atual exegese catlica, algumas no to novas, mas pouco difundidas. Busca assim preencher este vazio e estabelecer uma ponte entre os exegetas e o povo de Deus, para trazer-lhe as investigaes dos estudiosos. O nico mrito que tem este livro tentar expor as questes exegticas, filosficas, arqueolgicas e teolgicas que outros autores j propuseram, mas numa linguagem acessvel, simples e compreensvel para os iniciados. Meu desejo que os leitores, tendo aprendido um pouco mais sobre a Palavra de Deus e entusiasmando-se com ela, animem-se a aprofund-la, lendo outros livros. O autor
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Os Setenta
Ao mesmo tempo, existia nesta poca na cidade egpcia de Alexandria, na costa mediterrnea, uma colnia ju10
daica, a mais numerosa fora da Palestina, pois contava com mais de 100.000 israelitas que, por no mais entenderem o hebraico, usavam na liturgia de suas sinagogas uma famosssima traduo grega. Chamavam-na de Setenta porque, segundo uma antiga tradio, tinha sido feita quase milagrosamente por 70 sbios. Esta verso dos Setenta, alm dos 39 livros que compunham o cnon hebraico, conservava, em grego, alguns textos dos que se tinham perdido no original hebraico e alm disso acrescentava outros textos novos, escritos diretamente em grego. Os judeus da Palestina nunca viram com bons olhos estas diferenas de seus irmos alexandrinos e rejeitaram aquelas novidades. Desde a mais alta antigidade existiram, portanto, duas listas oficiais ou cnones das Escrituras ligeiramente distintos: o palestinense e o alexandrino.
Em ateno ao destinatrio
Os primeiros cristos que tinham ouvido dizer que Jesus no viera para suprimir o Antigo Testamento, mas para plenific-lo e complet-lo (cf. Mt 5,17), reconheceram igualmente como parte de sua Bblia os livros usados pelos judeus. Mas se viram em dificuldades. Deviam usar o cnon breve da Palestina ou o amplo de Alexandria? De fato, os cristos, espalhados pelo imprio e que j no sabiam mais falar o hebraico porque em todo o Oriente Prximo, h trezentos anos, era o grego o idioma comum, decidiram-se pela verso grega. Isto respondia ao fato que os prprios destinatrios aos quais deviam levar a Palavra de Deus tambm falavam o grego.
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Por isso, ao usar a verso grega da Bblia, deviam forosamente empregar os 7 livros em questo.
breve, contrariamente tradio quinze vezes centenria que vinha mantendo a Igreja Catlica. Desgostavam-no de modo especial estes 7 livros a mais, que por outro lado estavam escritos em lngua grega e no na lngua religiosa judaica. Diante desta situao, os bispos do mundo inteiro reuniram-se no famoso Conclio de Trento. Foi o mais longo da histria da Igreja, durando 18 anos (1545-1563), e todo ele esteve ocupado em pontualizar e precisar a doutrina catlica que, em alguns aspectos, como no bblico, no tinha sido definida. E no dia 8 de abril de 1546, atravs do decreto De Canonicis Scripturis, fixou definitivamente o cnon das Escrituras em 46 livros para o Antigo Testamento, ou seja, incluram terminantemente os 7 livros proscritos pelos protestantes.
Um nome difcil
Desde ento as Igrejas protestantes e as seitas delas nascidas caminharam na histria com esta lacuna. Para os catlicos, portanto, o Antigo Testamento consta de 46 livros, 39 escritos em hebraico e 7 em grego. Esses ltimos, por terem sido objeto de discusses e tendo em conta que entraram na lista oficial da Igreja bem mais tarde, receberam o nome de deuterocannicos, do grego deuteros (segundo), para significar que passaram, num segundo momento, a fazer parte do cnon. Os primeiros, ao contrrio, por nunca terem sido colocados em discusso, so chamados de protocannicos, do grego protos (primeiro), j que desde o primeiro momento integram o cnon.
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Graas aos atuais descobrimentos arqueolgicos, dentre eles o de Qumrn, confirmou-se que nem todos os deuterocannicos foram originariamente escritos em grego. Sabemos, por exemplo, que o livro de Tobias foi anteriormente composto em aramaico, enquanto que os de Judite, Baruc, Eclesistico e o 1 Macabeus foram escritos em hebraico. Podemos dizer que somente 2 Macabeus e Sabedoria foram redigidos em grego.
A to desejada unidade
Desde que Lutero traduziu sua Bblia para o alemo, em 1534, e tirou os deuterocannicos do elenco oficial da Bblia, as Igrejas protestantes adotaram igual medida. Nos ltimos anos surgem sintomas de um retorno a uma atitude mais moderada em relao a estes escritos, que eles preferem chamar de apcrifos. Com efeito, eles tm compreendido que certas doutrinas bblicas, como a ressurreio dos mortos, o tema dos anjos, o conceito da retribuio, a noo de purgatrio, j comeam a aparecer nestes 7 livros tardios. Suprimindo-os, tira-se um elo precioso na progressividade e unidade da Revelao, e d-se um salto muito abrupto at o Novo Testamento. Por este motivo, j se vem algumas Bblias protestantes que finalmente, ainda que com um valor secundrio, incluem os livros que faltam. Queira Deus que chegue logo o dia em que dem um passo a mais e aceitem-nos definitivamente, com a importncia prpria da Palavra de Deus, para poder voltar unidade que um dia perdemos.
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A ARCA DE NO EXISTIU?
L no Ararat
Existe uma montanha que tem o ditoso privilgio de ser a mais visitada, a mais escalada, a mais investigada e divulgada pelos meios de comunicao. Trata-se do clebre monte Ararat. Toda sua importncia advm do fato de ter sido, segundo a Bblia, o lugar onde a arca tripulada por No e seus trs filhos ficou encalhada, logo depois do famoso Dilvio universal, que acabou com a vida de homens, animais e plantas da terra. O Ararat uma pequena cadeia de montanhas com 13 km de largura, localizada entre a Turquia e Armnia atuais. Tem dois cumes principais: o Ararat Maior, ao norte, com 5.165 metros de altura, coberto de neves eternas, e o Ararat Menor, ao sul, com seus 4.300 metros. Segundo a tradio, a arca de No com seu zoolgico especial teria chegado primeira, na ladeira sudoeste que pertence Turquia, e encalhado a uma altura de 2.000 metros. Assim, desde muito o monte se viu envolto numa aura de fascnio e tem gozado de particular venerao.
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episdios mais marcantes em torno da arca. Num caloroso dia de agosto, enquanto pilotava seu avio nas proximidades do Ararat, pde divisar a gigantesca nave. Ao regressar base comunicou seu sensacional achado e imediatamente o czar Nicolau II enviou uma expedio de cento e cinqenta homens que asseguraram ter podido estud-la, fotografla, medi-la e desenhar suas partes durante um ms. Mas no ano seguinte, ao explodir a revoluo russa, desapareceram todos os documentos e as provas! Trinta anos mais tarde, no dia 20 de janeiro de 1945, a imprensa australiana publicou as declaraes da jovem Arleene Deihar, de Sidney, que afirmava que seu noivo, tambm piloto, mas da Royal Air Force, tinha-lhe mostrado duas fotos onde se viam claramente os restos da arca de No, tiradas numa das encostas do monte. Mas j no era possvel v-las, pois ele fora abatido durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto voava sobre a Turquia!
No. Mas desta vez trazia consigo uma prova: um pedao de madeira negra calafetada com breu, tal como a Bblia disse que foi preparada. Quando, enfim, se cria ter encontrado restos da nave, foi submetido prova do carbono 14 e demonstrou remontar-se ao sculo VI... depois de Cristo! Como podemos ver, o fato de que cada vez que se obtm algumas provas elas se perdem ou resultam insubstanciais j gera certa desconfiana sobre sua seriedade, alm das discrepncias. De fato, enquanto a expedio do czar russo se defrontou com a arca no sul da montanha, Greene afirmava t-la fotografado na ladeira norte.
A arca existiu?
Mas a pergunta que se impe diante do episdio do Gnesis esta: a Bblia pretende narrar um fato que aconteceu realmente, ou trata-se de um relato didtico? Pelo modo de narr-lo e pelos detalhes que nos d, tudo parece supor o segundo. Vejamos. Em primeiro lugar, No recebeu ordens de Deus para construir uma nave de 150 metros de comprimento, 25 de largura e 15 de altura, com 3 pisos de cinco metros cada. Estas medidas mostram-se exorbitantes, pois so as medidas de um transatlntico moderno, nunca conseguido pela engenharia naval at o sculo XIX. O relato est localizado na pr-histria, quando ainda no se conhecia o uso dos metais. Como se podia fazer um navio to grande sem instrumentos metlicos? Precisar-se-ia, alm do mais, da ajuda de centenas de pessoas. Como foi construdo s com a ajuda de No, de seus quatro filhos e de suas esposas?
987 de rpteis e aproximadamente 1.200.000 espcies de insetos. Para piorar, calcula-se que nesta poca eram 15.000 as espcies de mamferos, 25.000 as espcies de aves, 6.000 as de rpteis, 2.500 as de anfbios e mais de 10 milhes as espcies de insetos. Mais ainda. Os zologos julgam que em nosso planeta pode haver entre 5 a 10 milhes de espcies animais ainda sem identificao, ocultas aos olhos da cincia, nos gelos polares, nas densas selvas tropicais ou sob as areias do deserto. Carregar a arca com esta bagagem teria sido um trabalho impossvel aos viageiros. E como fizeram oito pessoas para alimentar, dar de beber, limpar e cuidar de tamanha quantidade de animais? Mais ainda, como pde No com os seus criar o ambiente adequado para cada par, com suas respectivas exigncias de dietas, climas e outras necessidades, quando hoje os zoolgicos, com todas as tcnicas modernas, tm dificuldades para manter vivas algumas espcies em cativeiro? Finalmente, os ecologistas sustentam que uma espcie est extinta quando sobram poucas centenas de exemplares. Por exemplo, os ursos pandas so considerados em extino porque somente uns mil sobrevivem, nmero demasiado pequeno para recuperar outra vez a espcie em estado selvagem. Como se pde repovoar o planeta s com um par de cada espcie?
Em relao chuva
Conforme a Bblia, choveu durante 40 dias e 40 noites, sem parar (Gn 7,17). Sabemos, contudo, que o ciclo hidrolgico de evaporao que provoca as chuvas mostra-se incapaz de prover semelhante quantidade de gua.
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Assim mesmo diz que a massa dgua cobriu toda a terra. Isto se mostra inimaginvel numa poca em que se pensava a terra como um disco plano de dimenses reduzidas e que a abbada que a recobria, isto , o firmamento, permitia acumular mais rapidamente as guas. Mas, podemos continuar pensando que em 40 dias de chuva todo o planeta ficou coberto, quando sabemos hoje que o planeta tem uma superfcie de 509.880.000 km2? Afirma igualmente que as guas subiram sete metros acima dos montes mais altos da terra (Gn 7,19-20). Pois bem, o monte mais alto do planeta o Everest, com 8.846 metros. Portanto, para que as guas alcanassem esta altura de quase 9 km, seria preciso que os mares subissem em mdia 222 metros por dia. Mas qualquer meteorologista confirmaria o fato de que, se as nuvens que atualmente esto em nossa atmosfera se precipitassem de repente sobre todo o mundo, o globo permaneceria encoberto apenas por menos de cinco centmetros de gua.
S uma permanente cadeia de milagres tornaria possveis todos estes fatos. Coisa improvvel, porque na Bblia os milagres servem para aumentar a f das pessoas, no para extermin-las.
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seno: Deus o ordenou. coisa dele. Eu obedeo. Mostra-nos a f e a submisso deste homem incrvel, obediente em tudo, e que ao longo dos quatro captulos do relato jamais pronuncia uma nica palavra. Nunca se contou tanto de um personagem bblico e foi visto falar to pouco. Deus logo lhe revela seu segredo: Dentro de sete dias vou fazer chover sobre a terra 40 dias e 40 noites. Exterminarei da face da terra todos os seres vivos que fiz. No fez tudo o que Deus lhe havia mandado (Gn 7,4). A mensagem , pois, clarssima, mesmo quando contada com a linguagem do Antigo Testamento. Deus d uma ordem. Se o homem desobedece, se autodestri. Se obedece, como faz No, se salva. No mais Deus que indica as medidas da arca, o material que se deve empregar e at o modo de constru-la. Ou seja, aquele que constri sua vida com as medidas de Deus sempre sobreviver a qualquer tempestade. Aquele que deixa de ouvir sua voz afogar-se-. Estar atento a isto muito mais importante do que saber se houve ou no houve a chuva de quarenta dias e em que lugar encalhou a arca. a leitura que deveramos fazer de Gn 6-9. Desta forma haveria menos gente interessada em escalar o monte Ararat em busca da arca e mais gente procurando mergulhar na Palavra de Deus, buscando viver sua mensagem.
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avistou uma hospedaria. A se conseguiria seguramente alojamento. Mas grande foi sua decepo quando o hospedeiro lhe informou que no havia mais lugar disponvel. Enfim Jos, com Maria, que se movia com dificuldade e que j sentia as dores do parto, dirigiu-se a uma gruta que servia de estbulo para os animais e a se refugiaram. No silncio daquela gruta Maria deu luz seu primognito e o colocou logo num prespio, ou seja, no recipiente onde se coloca a palha para alimento dos animais, que, por sua forma alongada, serviu-lhe de bero. O Filho de Deus nasceu num estbulo porque os homens que ele viera salvar lhe fecharam suas portas.
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lho que foi mal traduzida e que criou, assim, confuso e estimulou a fantasia de geraes de leitores. Trata-se da palavra grega katlyma, que a maioria das Bblias traduz por hospedaria, albergue, pousada. Traduzida desta forma, a frase do Evangelho soaria assim: no havia lugar para eles na hospedaria. Mas no grego bblico esta palavra contm outro significado, o de cmodo, quarto, sala, isto , uma parte especial da casa mais discreta, reservada. Que era de fato a katlyma, onde no havia lugar para eles?
A katlyma
Para entendermos bem o que Lucas quer dizer em seu Evangelho temos de situar-nos no ambiente da Palestina, onde as casas no tinham vrios cmodos, como podem ter as nossas hoje. Devido precariedade das construes, as moradias tinham to-somente um cmodo central, onde havia de tudo: armrios, ferramentas, assentos, despensa, cozinha, e onde, ao anoitecer, estendiam-se as esteiras para o repouso noturno, cada qual em seu lugar preferido. O cmodo central era, pois, o pequeno mundo domstico em torno do qual girava toda a vida do lar e o movimento das pessoas, mais ou menos como os quartos de muitas de nossas casas de campo. Mas alm da sala principal as casas tinham ao lado algum compartimento menor reservado, com separaes para maior privacidade, s vezes usado como depsito ou para eventuais hspedes.
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Comecemos, pois, a ler agora todo o relato do Evangelho luz desta nova explicao, sem interpretaes arbitrrias e sem acrscimos esprios.
para eles. O que indica que para os outros teria havido um lugar qualquer para descansar, j que na Palestina as camas no so seno uma esteira estendida no cho. Mas para eles que deviam obedecer s prescries da Lei judaica referentes impureza legal, para eles no. Poderamos acrescentar ainda: para eles, to renitentes em no molestar, to delicados e persuadidos do Mistrio que ciosamente guardavam, para eles no havia lugar em meio ao vaivm, ao rudo e promiscuidade que reinavam na parte superior da casa. Ou seja, foi numa das grutas da casa da famlia de Jos em Belm, destinadas ao estbulo, que se deu o nascimento do Messias.
quando Lucas usa a palavra katlyma nunca pensa numa hospedaria. Muito menos, pois, quando se refere a Maria e Jos.
Mais provas
Tambm So Mateus est de acordo com esta interpretao. Quando menciona a chegada dos Magos, buscando o recm-nascido, diz que a estrela os conduziu at uma casa (cf. Mt 2,11), isto , no at uma gruta qualquer onde se refugiara a Sagrada Famlia por falta de hospedagem, mas sim para a prpria casa de Jos, em Belm. Um ltimo argumento nos trazem as picaretas e ps da arqueologia. De fato, em Belm ainda hoje existe a gruta que a tradio identifica com a do nascimento de Jesus. E todos os estudos arqueolgicos que se fizeram a seu respeito revelam que no se trata de uma gruta qualquer, perdida na curva de algum estrada palestinense, mas sim incorporada a uma moradia como recinto estvel. No local daquela casa, construiu-se hoje uma majestosa baslica comemorativa.
de um pobre Jos inconsciente, que se comporta com negligncia e cuja estupidez quase lhe vale um parto infeliz de sua esposa. Trata-se, porm, de uma triste distoro. Jos de Belm foi um verdadeiro pai para Jesus e um autntico esposo para Maria e seu papel foi essencial para o plano de Deus.
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personagens famosos da antigidade, como Mitrdates, rei do Ponto, e o imperador Augusto, havia sido precedido pelo surgimento de um cometa. Dentre os mil e quinhentos que hoje conhecemos, o mais espetacular o cometa Halley, que alcana uma longitude aparente de cento e cinqenta graus e uma extenso linear de uns trinta milhes de quilmetros. Detectado desde antigamente, j o clebre pintor florentino, Giotto, que contemplou sua imponente apario, pintou-o em seu famoso leo da Adorao dos Magos como a estrela de Belm. Ele voltou a aparecer em 1682, quando o astrlogo ingls Edmond Halley pde estud-lo atentamente. Depois foi visto em 1785, em 1910 e finalmente em 1986. Segundo os clculos dos astrnomos ocidentais o cometa Halley apareceu em fins de agosto do ano 12 antes de Cristo, o que nos aproximaria bastante de seu nascimento. Esta data, porm, nos obrigaria a retroceder muito a data do nascimento de Cristo. Alm disso h outro dado contra: segundo as antigas crenas populares, a apario de um cometa anuncia algum acontecimento nefasto: terremoto, seca, guerra ou peste. Dificilmente poderia ser considerado como um sinal divino do Messias.
cristo do batismo). Esta conjuno que volta a acontecer a cada oitocentos e cinco anos teria se verificado no ano 7 antes de Cristo. Foi uma conjuno visvel nos cus da Palestina. Ambos os astros teriam aparecido como um s, muito luminoso, coisa rara aos olhos humanos. Por este motivo teria sido considerada como um sinal especial da divindade, principalmente tendo em conta que se repetiu mais duas vezes naquele ano, em outubro e em dezembro. Pois bem, hoje sabemos que o rei Herodes morreu no ano 4 antes de Cristo. Por esta razo Jesus no pode ter nascido no ano 1, como normalmente se cr. Mas sim no ano 4 antes do incio de nossa era para poder vir ao mundo durante o governo de Herodes. Quantos anos antes? Talvez um ou dois, ou seja, no ano 5 ou 6 antes da era crist. Portanto, um fenmeno celeste acontecido no ano 7 a.C. o faz coincidir perfeitamente com estas novas precises. De fato, esta hiptese a que goza de maior aceitao entre os que interpretam literalmente o relato evanglico.
Pois bem, para que pudessem seguir tal estrela do Oriente at Jerusalm, os magos deveriam ter atravessado de cheio o feroz e trrido deserto da Arbia, caminho este que ningum jamais ousara fazer. As caravanas chegavam sempre, seja do norte, seguindo a meia lua frtil, seja do sul, pela regio chamada Arab. H mais ainda. Uma vez chegados a Jerusalm, a estrela continuou guiando-os at Belm, cidade que se encontra a 8 quilmetros ao sul. Que estranho corpo celeste este que viaja do leste para o oeste e do norte para o sul? Os astros no podem ficar ziguezagueando pelo cu. Mais adiante o Evangelho conta que a estrela, que ia adiante dos Magos, chegou ao destino e se deteve no lugar exato onde se achava o Menino Jesus. Pode uma estrela desenvolver semelhante acrobacia? Aqueles que querem a todo custo salvar a estrela como realidade lanam mo do argumento supremo do milagre. Deus, que todo-poderoso, pode certamente fazer com que um astro trace no cu a rbita que ele quiser. Mas dever explicar ento uma ltima dificuldade: a estrela comete um engano. Em vez de guiar os Magos diretamente a Belm, os conduz a Jerusalm. Sem tal erro Herodes no ficaria sabendo do nascimento de Jesus e teria sido evitado todo o drama da morte dos inocentes. Pode um sinal guiado por Deus cometer to macabro deslize? Quando escreveu estas coisas Mateus pensava mesmo numa estrela?
A estrela, smbolo da f
Se a estrela do relato no era um fenmeno celeste, ento um smbolo com algum significado. Isto leva os auto39
res a se perguntarem pelo verdadeiro sentido da estrela e de todo o relato. E uma das explicaes mais lgicas e coerentes supe que Mateus comps esta passagem para expor a tese da universalidade da salvao. Assim cada elemento da narrativa simbolizaria uma realidade distinta: os magos representariam os pagos; Herodes, os judeus, e a estrela, a f. Portanto, o que Mateus pretende dizer-nos que Jesus, uma vez nascido em Belm como um menino judeu e para salvar os judeus, quis tambm ofertar ao paganismo, j desde o bero, a possibilidade de um encontro, para o qual envia a luz da f (estrela), cuja misso guiar os gentios (magos) at o lugar onde se encontra o Salvador (Jesus). Mas Mateus est consciente que o povo judeu o povo eleito e que tem um privilgio acima de todas as demais naes. Por isso a estrela (f) no pode guiar os Magos (paganismo) diretamente a Jesus. Enquanto o judasmo conservar sua posio de privilgio, s por intermdio dele possvel chegar at o Salvador. assim que no relato a estrela no guia os Magos at Belm, mas at Jerusalm, para que seja o judasmo (Herodes) que lhe d acesso a Jesus. A estrela, pois, no aparece equivocando-se, mas cumprindo sua misso, levando os pagos a confrontar suas inquietudes com os judeus.
Um privilgio recusado
Somente quando o judasmo rejeita Jesus, fica livre o caminho para que os pagos possam ir guiados pela estrela (f) at o lugar onde se acha o Salvador.
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Todo o privilgio tem sua correspondente obrigao. E o evangelista recorda que Israel estava muito mais obrigado a receber o Messias. Tinha as luzes necessrias para descobri-lo no menino Jesus. Inclusive seu nascimento em Belm anunciava aos quatro cantos da terra que o reino messinico havia chegado. Mas o relato dos Magos nos ensina como o judasmo renuncia voluntariamente a sua posio especial. No pode ir ao encontro do Messias. Ele o rejeita. Mais ainda, o tem como um usurpador e um perigo. E recusando conduzir o mundo gentio at o lugar onde se encontrava Jesus, renuncia voluntariamente aos privilgios que sua situao de povo escolhido lhe dava. E ento, s ento, que se abrem as portas ao paganismo para aproximar-se diretamente de Jesus. J no precisa mais achegar-se a ele atravs do judasmo. O antigo povo d lugar ao novo. Esta realidade, que do ponto de vista histrico s se realiza com a ressurreio de Jesus, quando Israel renuncia definitivamente sua situao de privilgio e Jesus abre a Igreja para todos os povos, Mateus a retrocede at o nascimento de Jesus e a conta como se todos os povos j se beneficiassem com a vinda do Messias. A estrela dos Magos, no relato de Mateus, no , pois, nenhum fenmeno celeste que teria aparecido realmente no firmamento, mas o smbolo da luz da f que brilha nas trevas do pecado quando o Salvador aparece no mundo. Mateus cria assim uma tese nova. Jesus, embora judeu e descendente de Davi, um Messias com fora para afugentar do mundo inteiro as trevas do pecado, por mais distante que se ache o homem e no deserto que esteja. Para ele este deve cumprir uma s coisa: deixar-se guiar pela luz da f.
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que seria admitir que Jesus colocou de propsito um homem numa situao em que lhe seria inevitvel cometer o delito da traio, o que significa desconhecer o projeto de Cristo, que quer a salvao de todos.
Por avareza
A maioria dos comentaristas est inclinada a pensar que foi a cobia o motivo que levou Judas a cometer sua
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traio, j que isto parece ser o mais bvio. Para isto baseiam-se em trs argumentos, tirados do prprio Evangelho: ele o vendeu por dinheiro (cf. Mt 26,15), a que era excessivamente apegado, como nos mostra o episdio da mulher que unge os ps de Jesus, sob a censura de Judas (cf. Jo 12,4); e o Evangelho acusa-o de ladro (cf. Jo 12,6). Se analisarmos, porm, com mais ateno, os textos evanglicos, podemos perceber que deles no se tiram concluses to evidentes. Mateus o nico que fala da venda por trinta moedas de prata. Isto porque manifesta permanente esforo para mostrar a realizao das antigas profecias em Jesus e assim v cumprir-se nele uma profecia de Zacarias (cf. 11,12). Por outro lado, Marcos conta que Judas foi entreg-lo de graa, sem pedir nada em troca, e que foram os sacerdotes que, contentes, lhe prometeram dinheiro (cf. 14,10-11). De qualquer modo, mesmo supondo a venda por trinta moedas de prata, isso fora um preo muito baixo, j que era o preo fixado pela lei para pagar a indenizao pela morte acidental de um escravo (cf. x 21,32). Pela vida de um mestre da Lei, um homem ambicioso teria pedido muito mais. Judas realizara um negcio pouco vantajoso, que revelava pouca ambio. Em relao ao protesto pelo esbanjamento do perfume, Mateus nos diz que a reprovao no foi s de Judas, mas de todos (cf. Mt 26,8). Por que, ento, s Judas seria o ambicioso? E por fim, a acusao de ladro. Ser que quando se escreveu o evangelho de So Joo, uns sessenta anos aps a morte de Jesus, a tradio, que j lhe era adversa, no teria acrescentado, alm do pecado de traidor, tambm o de latrocnio? Muitos telogos pensam assim.
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Por dio
Alguns exegetas pensam que Judas era um nacionalista, fantico e violento e que pertencia a um grupo da poca chamado de sicrios, cujo objetivo era expulsar, de qualquer forma, os romanos da Palestina. Judas teria visto em Jesus um lder influente e poderoso que poderia encabear, com sua palavra e poderes milagrosos, uma grande rebelio judaica contra os estrangeiros que subjugavam seu povo. Ao comprovar, no entanto, que Jesus seguia outro caminho, o do amor e o da no-violncia, e que inclusive fazia favores e milagres aos prprios soldados romanos, sua devoo converteu-se primeiramente em amarga desiluso e logo depois em profundo dio, que o levou a buscar a morte daquele de quem havia esperado tantas coisas e que terminara por engan-lo. Quem sabe Judas acabou odiando a Jesus por no ter sido o Cristo que ele, como muitos judeus, queria que fosse. Este argumento, no entanto, mostra-se pouco convincente. Por exemplo: durante o julgamento de Jesus os sumos sacerdotes e o Sindrio buscavam com af testemunhas contra o Senhor e no as encontravam (cf. Mt 26,59-60). Por que Judas no se apresentou para prestar declarao? Que testemunho teria sido mais eficiente do que o de algum que estava mais prximo do Mestre? E por que, a partir da traio no Jardim de Getsmani, Judas desaparece de cena, em vez de usufruir, como teria sido lgico, do espetculo da paixo? Enfim, o suicdio, smbolo inequvoco de desespero, no concorda muito com a hiptese de seu dio contra Jesus.
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Judas era, sim, um homem nacionalista, fantico e violento, talvez partidrio dos sicrios, mas no entregou Jesus, movido pelo dio.
Por amor
H uma terceira razo pela qual Judas pode ter trado Jesus e, talvez, a mais provvel de todas. Talvez Judas jamais tenha desejado a morte de Jesus, porque o amava. Havia, sem dvida, entre ele e Jesus uma especial e personalssima relao que no s se expressava no fato de ter sido nomeado administrador econmico do grupo, mas em alguns detalhes da ltima ceia. Lendo o Evangelho, parece claro que Jesus, colocado no centro da mesa, t-lo-ia provavelmente feito assentar-se a seu lado, no lugar de honra, com quem poderia falar em particular, sem ser ouvido pelos demais. S assim se explica que, quando Judas lhe perguntou se era ele quem iria tra-lo, Jesus pde responder afirmativamente: Tu o disseste! (Mt 26,25), sem despertar a reao dos onze contra ele. H, no entanto, mais uma prova de especial afeto entre Jesus e Judas. Na cultura oriental um gesto de particular estima oferecer um bocado a um convidado. Se vamos dar crdito ao que nos conta o Evangelho, Jesus o fez quando molhou o po zimo na comida e o deu a Judas (cf. Jo 13,26). Revela-se, inclusive, uma inslita intimidade entre ambos o fato de que Jesus pde transmitir a Judas mensagens que s ele e ningum mais compreende, sem chamar a ateno dos outros, como quando lhe diz: O que tens a fazer, faze-o depressa! (Jo 13,27). Judas no queria a morte do Senhor. Amava-o, mas de uma forma equivocada.
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tre fosse crucificado. Pensava somente em criar uma situao em que Jesus se visse forado a usar seu poder. Pensou que ao se ver encurralado pelos soldados romanos, entre a espada e a parede, faria um magnfico milagre, acabaria com a ocupao estrangeira e instauraria, por fim, o reino sobre o qual o ouvira muitas vezes pregar. Judas sonhava. Mas se equivocava.
Judas se condenou?
Orgenes escreveu uma das mais belas coisas que j se disseram sobre este apstolo. Ele afirma que quando Judas se deu conta do que acabara de fazer apressou-se em suicidar-se, esperando encontrar-se com Jesus no mundo dos mortos e ali, com a alma a descoberto, implorar-lhe o perdo.
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A Igreja nunca ensinou a condenao de Judas. Nem o poderia fazer, j que sua misso consiste em salvar e em declarar os que j esto salvos, isto , os santos, mas nunca os condenados. Nem sequer as palavras de Jesus sobre Judas, Melhor seria para este homem se no tivesse nascido (Mc 14,21), implicam uma condenao eterna. Esta resulta menos provvel ainda, se levamos em conta que o arrependimento do mal ocasionado a outra pessoa supe amor. Judas amava a Jesus e, ao v-lo diante daquela morte ignominiosa, tornou a sentir mais forte aquele amor. A vida de todo homem tem suas luzes e sombras e s pertence a Deus saber quem pecou mais. Conta-se que um dia o Senhor apareceu a Santa Teresa de Jesus a quem costumava tratar com amorosa confiana. Santa Teresa, mulher enfim, tinha curiosidade de saber se Salomo estava no cu ou no inferno e perguntou assim: Senhor, Salomo se salvou? O Senhor respondeu-lhe desta forma enigmtica: Idolatrou! A santa, espantada, voltou a perguntar-lhe: Ento ele se condenou? E o Senhor lhe respondeu: Edificou o Templo! Com isso Teresa aprendeu a lio: h assuntos que esto reservados aos arcanos desgnios de Deus. Queremos saber os caminhos de Judas aps sua morte? Por tais caminhos s Deus pode segui-lo.
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Os passos na noite
Por que a adorao e as visitas da Quinta-feira Santa tm estas estranhas caractersticas? Por que devem ser sete as igrejas a serem visitadas? Tudo isto tem sua origem na ltima noite que Jesus passou neste mundo e que uma antiga tradio desenhou nestes ritos. De fato, os Evangelhos relatam cuidadosamente os tormentos da penosa noite de quinta-feira, na qual Jesus foi preso, manietado, golpeado, flagelado, coroado de espinhos, ridicularizado com falsas adoraes e reverncias e tudo isto na mais absoluta solido, uma vez que seus amigos fugiram temerosos na escurido do monte das Oliveiras. Desde tempos bem antigos, os cristos quiseram imitar os passos de Jesus naquela ltima noite e, seguindo o relato da paixo oferecido pelos Evangelhos, descobriram que o Senhor tinha sido levado perante sete tribunais e comparecido a sete sesses, entre a meia-noite de Quinta-feira Santa e a manh de sexta, durante as quais foi escarnecido e maltratado.
O Evangelho em concordncia
Contudo, se tomarmos qualquer um dos quatro evangelhos, verificaremos que nenhum deles enumera os sete tribunais na paixo de Cristo. Pelo contrrio, seus relatos no coincidem. Por exemplo: Lucas o nico que diz que Jesus foi julgado por Herodes Antipas. Atravs de Joo ficamos sabendo que o levaram casa de Ans, como tambm ficamos cientes do interrogatrio do Sumo Sacerdote Caifs.
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Somente Mateus e Marcos falam-nos de um julgamento noturno do Sindrio, o mais alto organismo judicial do povo judaico. Na antigidade, porm, era costume fazer uma leitura em concordncia dos Evangelhos. Isto , no se tomava cada um dos evangelhos separadamente, como hoje fazemos para ver qual a perspectiva teolgica do evangelista, mas os quatro eram misturados e colocados em concordncia. Procurase, assim, obter dentre eles um s relato unitrio e supostamente mais completo. Desta maneira, juntando as quatro paixes, conclui-se que Jesus tinha comparecido diante de sete instncias judiciais, algumas privadas, outras pblicas, antes de seu doloroso fim.
As sesses noturnas
O primeiro lugar para onde levaram Jesus logo aps sua priso no monte das Oliveiras foi a casa de Caifs (cf. Jo 18,13). No se diz a ns que trato lhe deram a. Sabemos somente que mais tarde o levaram casa do Sumo Sacerdote, em exerccio naquele ano, chamado Caifs (cf. Jo 18,24) e genro de Ans, que provavelmente vivia nas imediaes, onde Jesus fora interrogado e esbofeteado. Todo o interrogatrio narrado por Joo 18,19-24 deve ser colocado na casa de Caifs e no na casa de Ans, como parece deduzir-se do contexto, porque o mesmo evangelista diz que quem o fez foi o Sumo Sacerdote, portanto, Caifs. Marcos e Mateus nos do notcia de uma terceira sesso, nesta mesma noite, na qual fizeram comparecer Jesus: a do Sindrio, a suprema corte dos judeus (cf. Mt 26,57-66).
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Fizeram-no comparecer a uma reunio noturna, s pressas. Presidia o tribunal o Sumo Sacerdote e interrogavam-no setenta e um membros, entre os quais estavam saduceus, fariseus e escribas, todos peritos em questes de leis. Estes ouviram as falsas testemunhas que de improviso conseguiram reunir na ltima hora. Mas, para infelicidade deles, havia divergncia nos testemunhos e portanto no conseguiam chegar a um acordo nas acusaes.
A ltima manh
Quando amanheceu, s Lucas nos relata, o Sindrio reuniu-se de novo para um ltimo interrogatrio (cf. Lc 22,26), o quarto a que Jesus se submeteu. Durante este interrogatrio Jesus se declarou Filho de Deus. Isto foi suficiente para que o Sindrio tivesse as provas definitivas para poder conden-lo morte. Naquele tempo, porm, a Palestina estava sob o domnio do Imprio Romano. E Roma, embora tivesse permitido aos judeus que continuassem regendo-se por suas prprias leis e tribunais, tinha privado o Sindrio da faculdade de aplicar a pena de morte. Poderia decretar qualquer outra pena; a capital, porm, estava reservada aos tribunais romanos. E assim os chefes dos judeus, no querendo contentar-se com nenhum castigo para Jesus inferior ao da morte, prepararam a acusao formal para que o ru pudesse ser julgado pelo governador romano. Este no vivia em Jerusalm, mas em Cesaria Martima, cidade situada cerca de cento e vinte quilmetros a noroeste de Jerusalm. Mas ele estava por acaso naquele dia em Jerusalm para presenciar os festejos da Pscoa.
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Querer e no poder
Pncio Pilatos, com o ttulo de Prefeito, governava ento a Judia em nome de Roma e perante ele levaram Jesus (cf. Lc 23,1). Os quatro evangelistas preocuparam-se em relatar este episdio. Foi o quinto interrogatrio a que expuseram o Senhor, e na primeira instncia Pilatos o declarou inocente (cf. Jo 18,38). Os sacerdotes e alguns do povo, sublevados por estes, insistiam em sua condenao. Ento, no querendo comprometer-se no processo e ouvindo que Jesus era natural de Nazar, ou seja, da jurisdio galilia, encontrou uma sada. Encaminhou-o para que fosse julgado pelo governador da Galilia, Herodes Antipas, que por acaso tambm estava, neste dia, de passagem por Jerusalm para presenciar a festa pascal dos judeus. S Lucas relata o que ocorreu neste encontro (cf. Lc 23, 6-12). Jesus foi interrogado pela sexta vez (cf. Lc 23,9), mas desta vez nada respondeu. Guardou absoluto silncio, de tal forma que causou estranheza ao prprio Herodes que o julgou louco. Por isso, depois de desprez-lo e ridicularizlo como louco, mandou-o de volta a Pilatos.
mas sem sucesso. Ento, pela segunda vez, o declarou inocente em meio a uma gritaria geral (cf. Jo 19,4). Mas, temendo perder o cargo, depois de declarar, pela terceira vez, a inocncia de Jesus, terminou por ceder s presses dos sacerdotes e dos magistrados judeus. E lavando as mos, fazendo-se de desentendido, entregou-o para que o crucificassem.
Seguir o Mestre
Em memria daqueles sete interrogatrios e apresentaes de Jesus diante das autoridades da poca, os cristos, segundo uma antiga tradio, quiseram recordar a solido do Mestre, precisamente na noite de quinta-feira, na qual foi submetido a todos estes ultrajes. E para acompanh-lo e segui-lo neste trajeto que terminou levando-o morte, peregrinam, visitando sete igrejas para evocar os sete tribunais pelos quais passou o Senhor. O Evangelho conta tambm que um dos apstolos de Jesus, Pedro, seguia-o distncia (cf. Lc 22,54), com receio de ser reconhecido como partidrio de Jesus e por este motivo ser preso. Por isso a adorao nas igrejas se faz distncia, sem que nos seja permitido achegar-nos ao sacrrio, para que sintamos o sofrimento da distncia em que tantas vezes nos colocamos quando temos medo de comprometer-nos com seus ensinamentos. Da a simplicidade com que nesta noite se apresenta o sacrrio, uma vez que aqueles tribunais perante os quais arrastaram Jesus no foram lugares de honra, seno de humilhao e vergonha. Oxal todos os cristos, que nesta noite seguem de longe o Senhor durante sua paixo, possam segui-lo de perto em sua doutrina durante todo o ano.
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O lugar da desesperana
Em sua Divina Comdia, Dante nos conta que, ao chegar um dia, durante uma viso, porta do Inferno, viu um grande cartaz com uma inscrio pavorosa que anunciava a todos quantos ali entravam: Aqueles que aqui entrarem abandonem de fora toda esperana. que de fato, e tal como ensina a Igreja, o Inferno um estado definitivo, e uma vez que algum ali entrou nunca mais pode deix-lo. Jesus Cristo, quando subiu aos cus, teria violado esta lei eterna? E, se o Inferno o destino dos condenados, isto , daqueles que durante sua vida recusaram a Deus com uma vida de pecado, como Jesus poderia ter estado ali, se, como afirma Hebreus 4,15, ele nunca cometeu um pecado? No mais, a teologia ensina que o Inferno a ausncia total de Deus. Jesus Cristo, que era o prprio Deus, no pode ter ido at l, porque, ao chegar, o Inferno se converteria em cu. Ento, Jesus Cristo desceu aos Infernos? Devemos responder inevitavelmente que sim, j que se trata de um dogma de f proposto pela Igreja. Entendemos, no entanto, que mais importante que saber de cor as verdades de nossa f entender seu significado.
porm, poderiam explicar que fato a Igreja comemora no Sbado Santo. Sabero que liturgicamente um dia vazio em que no se pode celebrar missa, nem batismos, nem casamentos. Em sntese, diro que um dia de luto pela morte e pelo sepultamento de Cristo. Nada mais, porm. E no obstante, a Igreja coloca neste dia o dogma da descida de Cristo aos Infernos. Trata-se de uma verdade esquecida, que hoje no desperta interesse na pregao e na catequese, a tal ponto que muitos cristos, inclusive, o desconhecem e at o acham estranho. Constitui-se, no entanto, um pilar fundamental de nossa f. Com ela a Igreja quer expressar duas realidades que so base para a compreenso de toda a doutrina crist.
para separ-la das guas inferiores. Desta cpula pendiam o sol, a lua e as estrelas. Para chover abriam-se as comportas de cima e ento as guas caam sobre a terra. O terceiro estrato deste cosmo era o lugar chamado em hebraico sheol, a morada dos mortos, o mundo subterrneo, colocado debaixo da terra. Para ali desciam todos os defuntos, sem exceo. Quando a palavra sheol teve de ser traduzida para o grego, usou-se o vocbulo hades. Mais tarde, ao passar para o latim, traduziu-se por infernus, que significa exatamente isto: lugar inferior, subterrneo. Estas trs palavras, pois, indicam a mesma realidade.
indolente. Nada faziam, em nada pensavam. No gozavam de nada, nem sabiam o que se passava na terra. No podiam louvar a Deus, nem ter contato com ele. Eram sombras viventes.
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A Bblia o afirma
O mesmo Pedro escreve sobre isto em sua primeira carta, embora de forma velada e confusa, ao relatar: Pois tambm Cristo morreu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para vos conduzir a Deus. Sofreu a morte em sua carne, mas voltou vida pelo Esprito. E neste mesmo Esprito foi pregar aos espritos que estavam na priso... (1Pd 3,18-19). E mais adiante acrescenta: Pois, para isso foi anunciada a boa nova aos mortos, a fim de que, julgados como homens na carne, vivam segundo Deus no esprito (1Pd 4,6).
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Mateus tambm se refere a esta libertao, entre a morte e ressurreio de Cristo, quando conta que, ao expirar Jesus, abriram-se os tmulos e muitos corpos de santos ressuscitaram e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreio de Jesus, vieram cidade santa (escatolgica, isto , o cu) e apareceram a muitos (Mt 27,52-53). Assim tambm Joo, no Apocalipse, apresenta Jesus como o vivente: Estive morto, mas eis que vivo pelos sculos dos sculos. Tenho as chaves da morte e do inferno (1,18).
A lenda de Ado
Em Jerusalm, entrada da Igreja do Santo Sepulcro, h uma grande gruta chamada gruta de Ado. Os prprios cristos, que gostavam de comemorar as verdades da f de um modo enftico e popular, criaram uma lenda em torno dela. Diziam que ali viveram e estavam enterrados Ado e Eva. Pois bem, esta gruta encontra-se exatamente sob a rocha do Calvrio, onde plantaram o madeiro no qual foi crucificado Jesus. Conforme esta lenda, quando Cristo morreu na cruz, seu sangue, deslizando-se pelas fendas da rocha partida pelo tremor, caiu sobre os restos de Ado, ali sepultado, e banhou seus ossos. Com este relato ensinavam como Ado, que representa o primeiro homem que pecou, quem quer que tenha sido, tinha tambm salvao. Com ele comeava a redeno. Por isso em muitos crucifixos antigos se v uma caveira aos ps de Cristo: a caveira de Ado, que recebe as primeiras gotas de redeno.
importa a poca em que tenha vivido, que fique fora da salvao de Cristo. Perante Cristo ningum tem privilgios cronolgicos. Nem os que nasceram antes, nem os que chegaram depois, nem os que viveram com ele. Todas as etapas da histria, desde que apareceu a centelha de humanidade no homem primitivo, h dois milhes de anos, at a ltima que atravessar nosso universo, todas ficaram santificadas. Quando Clvis I, rei brbaro dos francos, converteuse ao cristianismo, em 496, costumava receber o bispo so Remgio para ensinamentos catequticos. Um dia, ouvindo o relato da priso e da paixo de Jesus, exclamou com o mpeto prprio de um neo-convertido: Ah! Senhor! Se eu tivesse estado a com os meus francos, isto no teria acontecido! Mas a pretenso de Clvis era v. No faz mal no ter nascido em sua poca. Sempre estaremos a tempo de prestar-lhe ajuda, de escut-lo, ou de nos comprometer com sua causa, assim como aqueles que pisaram este mundo antes dele. Podemos nascer em qualquer sculo. A descida de Cristo aos Infernos santificou a todos os homens de todos os tempos.
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Adiantando o final
Em diversos momentos do livro do Apocalipse aparece a Besta, assim como a descrio de sua atividade, contrria aos cristos e Igreja de Jesus. Mas dois so os lugares
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para podermos decifrar o mistrio que ela contm: os captulos 13 e 17. Nestes dois captulos o autor traz os dados suficientes para que o leitor que no conhece o sentido deste smbolo possa descrev-lo. No captulo 17 Joo diz expressamente que vai explicar o mistrio escondido na Besta (v. 7) porque, como se trata de um dos personagens centrais do livro, no queria que as pessoas tirassem concluses errneas sobre ela. E, a seguir, dedica todo o captulo 17 para expor o significado da viso e de cada um de seus detalhes. Por isso, se quisermos saber a quem Joo se refere quando fala da Besta, se quisermos decifrar o enigma que oculta esta imagem, devemos recorrer a todas as pistas que o autor foi semeando nestes dois captulos. Por no seguir estas indicaes, muitos leitores desprevenidos perderam-se na bruma deste arcano. Adiantamos o final: no Apocalipse a Besta nada mais que o Imprio romano.
A natureza incontrolvel e catica do mar fez com que, pouco a pouco, ele se convertesse na encarnao das esferas infernais, hostis a Deus. Por isso, na Bblia, os inimigos de Deus saem sempre do mar. Neste caso, que a Besta tenha sua morada no mar significa que pertence ao mundo do diablico, do oposto a Deus. Mais concretamente, porm, o mar representa aqui o mar por excelncia para os judeus, isto , o Mediterrneo, do outro lado do qual se encontrava a sede do Imprio romano. Portanto, o inimigo que vem do mar para fazer guerra aos fiis no pode ser outro seno Roma que, precisamente na poca em que se escreve o Apocalipse, cerca do ano 90, sob o reinado do imperador Domiciano, acaba de deslanchar uma sangrenta perseguio contra os cristos.
os que tinham feito mal Igreja. As seitas, contudo, tratam de identificar este nmero com o nome ou ttulos de algum papa e da concluem que a Roma a que se refere o Apocalipse, e que deve ser destruda a Igreja Catlica. Pouco tempo antes de Reagan ser eleito presidente dos Estados Unidos, muitos ergueram a voz dizendo que estvamos nos ltimos tempos e que o Anticristo havia aparecido na pessoa deste presidente, uma vez que em cada um de seus nomes, Ronald Wilson Reagan, havia 6 letras, o que dava exatamente 666. E no faltam aqueles que crem encontrar o fatdico nmero em etiquetas, rtulos e at em marcas de xampus. Mas esta forma de interpretao carece de todo fundamento e no tem nada a ver com a inteno real do autor do livro.
Como vemos, o autor convida os inteligentes a calcular. Portanto, no se trata de algo que acontecer no futuro e que ento no se conhecia. Pelo contrrio, algo que se podia calcular com um pouco de inteligncia.
A chave a gematria
O texto logo acrescenta que o nmero de um homem. O que a cifra de um homem? Parece-nos estranho, mas trata-se de uma particularidade tanto da lngua grega, a lngua usada pelo autor, como da hebraica, que, sem dvida, conhecia. Enquanto em nossa lngua usamos certos sinais para escrever as letras (a, b, c) e outros sinais diferentes para escrever os nmeros (1, 2, 3), em hebraico e grego os nmeros so as letras do alfabeto. Assim, para escrever o nmero 1 usa-se a letra a; para o 2, a letra b, e assim por diante. Muito bem. Somando, ento, as letras de qualquer nome, obtm-se um nmero que o nmero do homem. Este procedimento de substituir letras de um nome por seu valor numrico chama-se gematria e era muito comum na antigidade. A Bblia, inclusive, a emprega vrias vezes. Voltando ao nosso caso, se Joo diz que este nmero o nmero de uma pessoa e que o inteligente deve calcul-lo, porque havia alguma pessoa conhecida dos leitores do Apocalipse, cujo nome escrito em hebraico ou em grego comportava esta soma. Joo, que se encontrava prisioneiro dos romanos quando escreveu este livro e cuja vida corria perigo, decide advertir os cristos de uma maneira velada, que poucos haveriam de entender, justamente para
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evitar que a polcia imperial pudesse fazer represlias contra ele. Com toda probabilidade trata-se aqui do imperador Nero, pois, se escrevemos seu nome em hebraico, o resultado ser o seguinte: N = 50 + R = 200 + W = 6 + N = 50 + Q = 100 + S = 60 + R = 200 = 666. Com as letras indicadas (NRWNQSR) escreve-se o nome e o ttulo do imperador Nero Csar. Os primeiros cristos, que se escondiam e ocultavam todas as suas coisas por causa dos perseguidores romanos, teriam conhecido perfeitamente a chave.
E parecia to difcil!
O texto do Apocalipse diz que os cinco primeiros j passaram. Foram Augusto, Tibrio, Calgula, Cludio e Nero. Significa que Nero j havia morrido. Agora est o sexto, que Vespasiano. Logo vir o stimo, que durar pouco tempo (Tito que no durou dois anos). E com este completa-se a lista dos sete. Pouco depois acrescenta um oitavo (Domiciano), do qual diz que um dos sete, porque a Besta s tem sete cabeas. O que tem Domiciano, para dizer que ele e um dos sete anteriores so um s? Simplesmente que o imperador Domiciano, ento reinante, tinha desfechado uma feroz perseguio contra os cristos, como Nero em seu tempo. Por isso o autor do Apocalipse o v como um segundo Nero, um Nero redivivo. Por isso diz que a Besta (Nero) existia e j no existe mais (porque morto), mas que faz o oitavo, (porque como se tivesse voltado depois de morto, na pessoa de outro perseguidor, mais cruel ainda, Domiciano). E por isso o oitavo imperador um dos sete.
que o profeta Daniel viu numa apario, dos quais os trs primeiros se assemelhavam ao leo, ao urso e ao leopardo (cf. Dn 7,1-8). Estes quatro animais somavam sete cabeas e dez chifres. Por isso a Besta do Apocalipse tambm tem estas caractersticas. E por que Joo, para referir-se ao Imprio romano, tomou justamente este smbolo? Porque a partir do tempo de Cristo o judasmo comeara a interpretar a quarta besta de Daniel como figura deste reino, j que o general romano Pompeu havia invadido Jerusalm, em 64 a.C., ganhando o dio de todos os judeus. Com efeito, chegaram at ns muitos escritos antigos, onde se fala dos romanos como uma besta feroz, inimiga de Deus. Joo, ao compor seu livro em forma de vises, recorre a uma metfora facilmente deduzvel pelos seus ouvintes. No era tanto mistrio, portanto.
A resposta que Joo oferece s suas comunidades de esperana: o poder opressor (o Imprio romano) vai desaparecer e o poder de Cristo triunfar. Por isso temos de estar a seu lado. a mesma mensagem que tem para os cristos de hoje, submetidos a tantas injustias pelo poder dos mais fortes, dos corruptos. No esperamos nenhuma Besta para o futuro, porque Bestas sempre existiro. So todos os poderes polticos que de alguma forma se opem, com suas ideologias, a Deus e aos mais pobres e fracos. Por isso, para conservar renovadas as esperanas, sempre ser preciso ler o Apocalipse.
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pelo nmero 666, que aparecer no final dos tempos e que, com seu poder, tentar dominar e destruir todos os fiis de Cristo. De fato, o curioso de tudo isso que o Apocalipse jamais nomeia o Anticristo. Nem os Evangelhos, nem as Epstolas de So Paulo. As nicas vezes que aparece em toda a Bblia esto nas duas primeiras cartas de So Joo e justamente para esclarecer esta crena que, como hoje, se tivera de idias esprias j em sua poca.
este tema. E, tomando esta idia, acrescenta: Eis que j h muitos anticristos. Com isto o autor das cartas esclarece-nos vrias coisas. Em primeiro lugar, o que se tecia em torno da vinda do Anticristo eram simples tapeaes e invenes do povo, que, como hoje, gostavam de construir fices especialmente sobre temas misteriosos e vigorosos. Em segundo lugar, que no verdade que existiria somente um Anticristo, mas que sero muitos. E, por ltimo, que eles no viro no fim do mundo, mas que j na poca de Joo estavam atuando na comunidade. Mas Joo no se contenta com esta referncia genrica, mas identifica os Anticristos e acrescenta: Quem mentiroso seno aquele que nega que Jesus o Cristo? o Anticristo que nega o Pai e o Filho (1Jo 2,22). E para que no haja nenhuma dvida, repete mais adiante: Todo o esprito que no confessar Jesus no de Deus, do anticristo (1Jo 4,3).
que, com suas idias extraviadas, destri a doutrina da Igreja sobre Cristo, todo herege que induz os homens a serem infiis ao Senhor, este ser um Anticristo, ou seja, verdadeiramente um adversrio de Cristo. Essas so as nicas quatro vezes em toda a Bblia que se fala do Anticristo e precisamente para esclarecer sua realidade. Em nenhuma outra parte volta-se a falar disto.
homens de todos os tempos. So todos os que atuam dirigidos e apoiados pelo poder misterioso do mal. O prprio Jesus fala, embora no do Anticristo, mas dos falsos Cristos, no plural, que apareceriam realizando prodgios com a finalidade de enganar seus discpulos. E logo os adverte: Ficai, pois, de sobreaviso. Eis que vos preveni de tudo (Mc 13,23). Isto , se os convida a viver vigilantes porque tambm vo aparecer na vida de seus apstolos.
So Pio X e o Anticristo
Pouco tempo depois de ser eleito papa, Pio X, em sua primeira encclica de 4 de outubro de 1903, expe a desoladora situao religiosa de sua poca. Nela ele diz: Talvez comecem os males reservados para os ltimos tempos, como se j existisse no mundo o filho da perdio de que fala So Paulo. Tamanha, com efeito, a audcia com que se persegue a religio em todas as partes, com que se combatem os dogmas da f e se empenha brutalmente em extirpar toda relao do homem com a divindade. E de modo especial, caracterstica prpria do Anticristo, segundo o mesmo apstolo, o homem mesmo, com infinita temeridade, colocou-se no lugar de Deus, levantando-se contra tudo o que se chama Deus. Com estas palavras autorizadas, o mesmo Papa, ao referir-se ao Anticristo, parece identific-lo mais que com um homem, com uma doutrina. Neste caso, com o laicismo imperante que pretendia desterrar Deus da legislao e fazer-se adorar em seu lugar.
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Contudo, h um livro da Bblia que fixa exatamente duas vezes o nmero dos que alcanaro salvao. o Apocalipse. No captulo 7 o autor tem uma viso na qual lhe permitido contemplar a todos os marcados com o selo salvfico na fronte e seu nmero de cento e quarenta e quatro mil (7,4). Ratificando este dado, mais adiante aparecem outra vez os cento e quarenta e quatro mil, agora junto a Jesus Cristo, que os resgata dentre todos os homens (cf. 14,1). possvel que o autor do livro tenha desobedecido ao desejo de Jesus de no dar informaes sobre este assunto?
Nmero inalcanvel
Se tomarmos ao p da letra estes nmeros do xodo, ento temos de calcular que os que iniciaram a peregrinao pelo deserto eram entre dois ou trs milhes de pessoas, quantidade exorbitante, provavelmente jamais alcanada pela populao de Israel em toda a sua histria e, alm do mais,
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impossvel de se movimentar numa s noite para cruzar o mar Vermelho e fugir. Por outro lado, um exrcito assim, nunca reunido pela Assria, nem por Babilnia, nem sequer por Alexandre Magno, colocado em marcha no deserto com dez filas em profundidade, moda antiga, formaria sessenta mil e trezentas e cinqentas fileiras, que distncia de um metro uma da outra ocupariam uma extenso de sessenta quilmetros. Posta em movimento a primeira fila, as ltimas s o fariam dois dias depois. E se acrescentarmos toda a populao sada, cobririam, em fila, a distncia total do Egito ao Sinai. Assim mesmo, sabendo hoje que a populao total de Cana de ento no chegava a dois milhes de pessoas, como se pode repetir continuamente que os israelitas eram poucos para tomar suas cidades? (cf. Dt 4,38; 7,7; 17,22). Enfim, se estes nmeros expressam quantidades reais, os setenta homens que primeiramente chegaram ao Egito deveriam ter tido, nos quatrocentos e trinta anos que permaneceram escravos, conforme os clculos do crescimento da populao do Egito de ento, uns 10.363 descendentes.
Portanto, quando o autor diz que saram do Egito seiscentos e trs mil e quinhentos e cinqenta, quer unicamente dizer que saram todos os filhos de Israel, como se dissesse que todo Israel estava a, j que sem o xodo Israel nunca teria existido. O nmero dos que participaram da fuga seguramente no ultrapassava seis ou oito mil pessoas.
ningum podia contar, de todas as naes, tribos, povos e lnguas. Estavam diante do trono e do Cordeiro, vestidos de tnicas brancas e com palmas nas mos (Ap 7,9). Isto quer dizer que no so somente os cento e quarenta e quatro mil os salvos, mas que formam um povo incalculvel, impossvel de se contar e provenientes dos mais diferentes lugares. Que os salvos integram este grupo inumervel podemos ver por trs elementos: a) tm as vestes brancas, que no Apocalipse sempre simbolizam a salvao; b) tm palmas em suas mos, que o atributo dos vencedores; c) j esto todos diante de Deus e do Cordeiro. E quando o autor volta a dar, mais adiante, a cifra 144.000 (Ap 14,1), para evitar um novo equvoco, acrescenta: Foram resgatados dentre os homens, como primcias para Deus e para o Cordeiro (Ap 14,4). E se os chama de primcias porque so os primeiros a serem salvos e que ainda faltam muitos para vir. Isto , no pretende dar um nmero exato.
Deste modo, Deus teria sido o maior frustrado da histria. Cristo, o Salvador mais ridculo, e o Esprito Santo, a fora mais impotente que existiu. O plano de salvao de Deus transformar-se-ia assim no maior fracasso jamais programado. Interpretar literalmente a cifra 144.000 implica no s desconhecer a Bblia, mas tambm, e o que mais grave, desconhecer e menosprezar o poder salvador de Deus.
A Arca de No existiu?
1) Ao ler este tema, sentiu-se desiludido em saber que o relato de No no foi um fato literalmente histrico? Por qu? 2) Que vantagens traz saber que se trata de um relato didtico e no histrico? 3) Como agimos quando a Palavra de Deus nos pede, como a No, para vivermos e nos comportamos em sentido contrrio ao da realidade que nos rodeia?
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3) Quais so os valores que a sociedade pretende impor e que de algum modo implicam querer mudar os planos de Deus para o homem?
2) Que elementos da vida social atual nos pressionam a perder a f em Jesus Cristo? 3) Como podemos manter a esperana em meio a uma sociedade em que as tentaes anticrists so fortes e fica difcil para ns enfrent-las?
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NDICE
Prlogo ...................................................................................... 5 Quantos livros tem a Bblia? ................................................... 9 Problema cristo, razes judaicas .................................... 9 O Antigo Testamento palestinense ................................ 10 Os Setenta ...................................................................... 10 Em ateno ao destinatrio ............................................ 11 Para no serem confundidos .......................................... 12 A fagulha que inflamou Lutero ..................................... 12 Um nome difcil ............................................................ 13 A to desejada unidade .................................................. 14 A Arca de No existiu? .......................................................... 15 L no Ararat ................................................................... 15 Em busca da arca perdida .............................................. 16 Muitos xitos, mas sem provas ..................................... 16 Outra vez os fracassos ................................................... 17 A montanha pelo pas .................................................... 18 A arca existiu? ............................................................... 19 Em relao aos animais ................................................. 19 Em relao chuva ....................................................... 20 Mais sobre a gua .......................................................... 21 Por que no nos disseram isto antes? ............................ 22 O que ensina o Dilvio .................................................. 23 O patriarca mudo capaz de instruir ............................... 23 No havia lugar para Maria na hospedaria? ...................... 25 A histria que nos contaram .......................................... 25 O Evangelho relata isto? ............................................... 26 Que imprudente este Jos! ............................................ 27 E tudo por causa de uma palavra ................................... 27 A katlyma .................................................................... 28
O aposento das parturientes .......................................... 29 Assim tudo fica mais claro ............................................ 29 Com uma mulher prestes a dar luz ............................. 30 Na gruta, mais intimidade ............................................. 31 No havia lugar para eles ........................................... 31 Uma parbola confirma isto .......................................... 32 Mais provas ................................................................... 33 Um Jos como Deus manda .......................................... 33 O ensinamento que ficou ............................................... 34 A estrela de Belm era uma estrela? .................................... 35 s voltas com uma estrela ............................................. 35 Foi uma estrela nova? .................................................... 36 Foi o cometa Halley? .................................................... 36 Foi uma conjuno de planetas? .................................... 37 Os caprichos de uma estrela .......................................... 38 A estrela, smbolo da f ................................................. 39 Um privilgio recusado ................................................. 40 A estrela surge para todos ............................................. 42 Por que Judas traiu Jesus? ................................................... 43 O retrato de um traidor .................................................. 43 Escolheu-o para que estivesse com ele ......................... 44 Por avareza .................................................................... 44 Por dio ......................................................................... 46 Por amor ........................................................................ 47 O homem que quis mudar Deus .................................... 48 Com um beijo de amor .................................................. 49 Um final como Deus manda .......................................... 50 Judas se condenou? ....................................................... 50 Por que se visitam sete igrejas na Quinta-feira Santa? ...... 53 O dia do Sacrrio humilde ............................................. 53 Os passos na noite ......................................................... 54 O Evangelho em concordncia ...................................... 54 As sesses noturnas ....................................................... 55 A ltima manh ............................................................. 56
Querer e no poder ........................................................ 57 Trs vezes inocente ....................................................... 57 Seguir o Mestre ............................................................. 58 Jesus Cristo desceu aos infernos? ........................................ 59 Um dogma dominical .................................................... 59 O lugar da desesperana ................................................ 60 As recordaes do Sbado Santo .................................. 60 Quando a terra era plana................................................ 61 O sheol, morada dos mortos .......................................... 62 Certo, mas difcil de acreditar ....................................... 63 Um morto bem morto .................................................... 64 O rudo de cadeias rompidas ......................................... 65 A Bblia o afirma ........................................................... 65 Na morada dos mortos, a vida ....................................... 66 A lenda de Ado ............................................................ 67 Dogma envelhecido na forma, mas rico no contedo ............................................... 67 Quem a Besta do Apocalipse? ............................................ 69 A galeria de personagens............................................... 69 possvel saber algo? ................................................... 70 Adiantando o final ......................................................... 70 Por que a Besta vivia no mar? ....................................... 71 Uns ttulos que ofendem ................................................ 72 A lenda de Nero redivivo .............................................. 73 Que significa o nmero 666? ........................................ 73 Algo que pode ser calculado ......................................... 74 A chave a gematria ..................................................... 75 Por que tinha sete cabeas? ........................................... 76 E parecia to difcil! ...................................................... 77 Por que o Imprio uma Besta? ................................... 77 No esperamos nenhuma Besta ..................................... 78 Que diz a Bblia sobre o Anticristo?..................................... 81 O Anticristo, um problema ............................................ 81 De onde nasceu esta idia? ............................................ 82
Sua passagem para o cristianismo ................................. 83 Tinha de esclarecer as coisas ......................................... 83 Por causa das dvidas, outra carta ................................. 84 So Paulo fala do Anticristo? ........................................ 85 So Pio X e o Anticristo ................................................ 86 Que gente que sabe coisas! ............................................ 87 verdade que s cento e quarenta e quatro mil se salvaro? ....................................................................... 89 A pergunta sem resposta ............................................... 89 Este livro destoa? .......................................................... 89 Contas que no contam ................................................. 90 A exemplo dos velhos salvos ........................................ 91 Nmero inalcanvel ..................................................... 91 No tantos, mas sim todos ............................................. 92 Algo assim para os novos .............................................. 93 O plus dos convidados ................................................ 93 Estatsticas que doeriam ................................................ 94 Que pensas, Senhor? ..................................................... 95 Vem, Senhor Jesus! ....................................................... 96 Perguntas para refletir e discutir em grupo sobre os temas bblicos tratados ...................................... 97