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RESUMO
Tendo em vista o heterogêneo quadro teórico-metodológico que atualmente circunda as
chamadas narrativas do eu no campo dos estudos literários, este artigo1 tem como
objetivo rastrear os pontos centrais dos conceitos de autobiografia e autoficção, com
foco nas teorizações pioneiras de Philippe Lejeune e de Serge Doubrovsky, e com o
aporte de pesquisas recentes sobre o assunto, sobretudo as elaboradas pela pesquisadora
Anna Faedrich. Dessa forma, sem pretender atingir conclusões definitivas, o estudo abre
caminhos fecundos a novas discussões sobre a potência do embate teórico entre os
conceitos estudados, na literatura e na crítica literária contemporâneas.
ABSTRACT
Considering the diverse theoretical and methodological framework that currently
surrounds the so-called self-narratives in the field of literary studies, this paper aims to
investigate the concepts of autobiography and autofiction, with a focus on the
pioneering theories of Philippe Lejeune and Serge Doubrovsky, supplemented by recent
research on the subject, particularly those elaborated by Anna Faedrich. Thus, without
claiming to reach definitive conclusions, this study paves the way for new discussions
on the critical potential of the theoretical dialogue between the studied concepts, in
contemporary literature and literary criticism.
1
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
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Juliana Gama de Brito Assumpção
INTRODUÇÃO
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Autobiografia e autoficção: instrumentos teórico-metodológicos para o estudo das narrativas do eu
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Juliana Gama de Brito Assumpção
Após a proposição dessa definição inicial, o autor relativiza alguns dos fatores
em que ela se embasa, como a perspectiva temporal retrospectiva e a forma narrativa em
prosa; e afirma que, em certa medida, seria possível que um texto classificado como
autobiografia apresentasse algumas nuances de outros gêneros da “literatura íntima”,
desde que isso ocorra moderadamente:
[...] certas condições podem não ser preenchidas totalmente. O texto deve ser
principalmente uma narrativa, mas sabe-se a importância do discurso na
narração autobiográfica; a perspectiva, principalmente retrospectiva [...]; o
assunto deve ser principalmente a vida individual, a gênese da personalidade:
mas a crônica e a história social ou política podem também ocupar um certo
espaço. Trata-se de uma questão de proporção ou, antes, de hierarquia:
estabelecem-se naturalmente transições com os outros gêneros da literatura
íntima (memórias, diário, ensaio) e uma certa latitude é dada ao classificador
no exame de casos particulares (Lejeune, 2008, p. 15).
[...] duas dessas condições não comportam graus – é tudo ou nada –, e são
elas, é claro, que opõem a autobiografia (mas também as outras formas de
literatura íntima) à biografia e ao romance pessoal: as condições (3)
[identidade do autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e do narrador] e (4
a) [identidade do narrador e do personagem principal]. Nesse caso, não há
transição nem latitude. Uma identidade existe ou não existe. Não há gradação
possível e toda e qualquer dúvida leva a uma conclusão negativa.
Para que haja autobiografia (e, numa perspectiva mais geral, literatura
íntima), é preciso que haja relação de identidade entre o autor, o narrador e o
personagem (Lejeune, 2008, p. 15).
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Autobiografia e autoficção: instrumentos teórico-metodológicos para o estudo das narrativas do eu
Nome do
personagem
→ ≠ nome do autor =0 = nome do autor
Pacto ↓
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Com isso, Lejeune pontua que qualquer tentativa de elaborar uma teoria
totalizante do gênero autobiográfico tenderia ao fracasso; e conclui o ensaio com o
seguinte parágrafo:
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2
No original: “Autobiographie? Non, c’est un privilège réservé aux importants de ce monde, au soir de
leur vie, et dans un beau style. Fiction d’événements et de faits strictement réels; si l’on veut,
autofictiond’avoir confié le langage d’une aventure à l’aventure du langage, hors sagesse et hors syntaxe
du roman traditionnel ou nouveau. Rencontre, fils de mots, allitérations, assonances, dissonances, écriture
d’avant ou d’après littérature, concrète, comme on dit en musique. Ou encore, autofriction patiemment
onaniste, que espère faire maintenant partager son plaisir” (Doubrovsky, 1977, capa).
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Resolvi também retomar sob novas bases o problema que tentei levantar
construindo um quadro de dupla entrada, na página 28 de “O pacto
autobiográfico” [cf. Quadro 1 deste trabalho]. [...]
Esse quadro teve a sorte de cair nas mãos e inspirar um romancista (que
também é professor universitário), Serge Doubrovsky, que decidiu preencher
uma das casas vazias, combinando o pacto romanesco e o emprego do
próprio nome. Seu romance Fils (1977) se apresenta como uma “autoficção”
que, por sua vez, me inspirou. [...] Desse modo, pude observar um fenômeno
mais amplo: nos últimos 10 anos, da “mentira verdadeira” à “autoficção”, o
romance autobiográfico literário aproximou-se da autobiografia a ponto de
tornar mais indecisa do que nunca a fronteira entre esses dois campos. Essa
indecisão é estimulante para a reflexão teórica: em que condições o nome
próprio do autor pode ser percebido por um leitor como “fictício” ou
ambíguo? Como se articulam, nesses textos, o uso referencial da linguagem,
no qual as categorias de verdade (que se opõe a mentira) e realidade (que se
opõe a ficção) permanecem pertinentes, e a prática da escrita literária, na
qual essas categorias se esvanecem? (Lejeune, 2008, p. 58-59, grifo meu).
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Diante disso, nota-se que o atual panorama teórico da autoficção, de fato, não
forma um quadro homogêneo. Por essa razão, na apresentação da coletânea de
Ensaios..., a própria Jovita Noronha pontua que “tanto a fortuna crítica da autoficção
quanto sua apropriação pelos autores para designar suas obras deixam antes a impressão
de um debate vertiginoso, à maneira de Pirandello” (Noronha, 2014, p. 8). Assim, para
acessar esse “debate vertiginoso” de forma mais objetiva, retomo os já citados estudos
recentes em que a pesquisadora Anna Faedrich (2015; 2016) busca estabelecer diretrizes
mais nítidas para o entendimento da autoficção no campo da literatura contemporânea,
tendo em vista o desenvolvimento do conceito da década de 1970 até meados dos anos
2010.
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À GUISA DE CONCLUSÃO
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Autobiografia e autoficção: instrumentos teórico-metodológicos para o estudo das narrativas do eu
A meu ver, a identificação desses aspectos fornece uma via de acesso profícua
ao entendimento menos vertiginoso das obras literárias autoficcionais no vasto
panorama das “narrativas do eu” contemporâneas, mas não é suficiente para a fixação
de uma definição enrijecida à autoficção, termo que tende a desestabilizar fronteiras, na
teoria e na prática, desde o seu surgimento. Do mesmo modo, os caminhos teóricos
percorridos neste artigo não encerram as discussões sobre a permeabilidade crescente
entre os escritos autobiográficos e autoficcionais. Em vez disso, este estudo demonstra
que o embate teórico entre o autobiográfico e o autoficcional, longe de terminar,
constitui um terreno fértil para novas explorações na literatura e na crítica literária
atuais.
REFERÊNCIAS
DOUBROVSKY, Serge. O último eu. In: NORONHA, Jovita Maria Gerheim. (Org.).
Ensaios sobre a autoficção. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês
Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. p. 111-125.
FAEDRICH, Anna. Autoficção: um percurso teórico. Revista Criação & Crítica, São
Paulo, n. 17, p. 30-46, dez. 2016. DOI: 10.11606/issn.1984-1124.v0i17p30-46.
Disponível em: www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/120842. Acesso em: 15
ago. 2023.
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Juliana Gama de Brito Assumpção
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução: Johannes
Kreschmer. São Paulo: Editora 34, 1996.
LEJEUNE, Philippe. Autoficções & Cia. In: NORONHA, Jovita Maria Gerheim.
(Org.). Ensaios sobre a autoficção. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria
Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. p. 21-37.
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