Sociologia Da Juventude
Sociologia Da Juventude
Sociologia Da Juventude
simplesmente por uma rebeldia tpica da juventude, sem se ter em conta factores de classe, gnero ou educao. A
presente obra pretende redireccionar esses conceitos que dominaram a sociologia nos ltimos 30 ou 40 anos,
procurando avaliar diversas experincias que caracterizaram os estilos de vida da juventude actual.
Steven Miles, socilogo da Universidade de Playmouth, comea por abordar a natureza das relaes entre os
jovens e as mudanas sociais, particularmente as tenses causadas pela diviso que existe na sociologia da
juventude no que respeita s aproximaes estruturais e culturais s mudanas de vida da juventude. A experincia
da vida social da juventude fundada na interseco do estrutural com o cultural e esse o tema deste livro. O estilo
de vida dos jovens representa um significado inquestionvel para a sociedade com a sua prpria relao com as
mudanas sociais, estruturais e culturais. Nesse sentido a construo da identidade dos jovens deve ser
particularmente observada pelos socilogos.
O autor considera que durante anos a sociologia negligenciou aquilo a que chama de juventude mainstream,
em prol de uma sociologia do melodrama, centrando-se em aspectos como o desemprego, o consumo de drogas, a
gravidez na adolescncia, partindo da para uma concepo estrutural da juventude baseada em generalizaes
sobre a sua natureza.
A sociologia da juventude est embrenhada nas contestadas noes de transio, cultura juvenil e
subcultura. A noo de subcultura juvenil alvo ainda de maior ateno. Muitos estudiosos reconhecem que foi
dada prioridade noo de subcultura, precisamente porque ela representa o aspecto mais visvel da experincia
juvenil, pois as subculturas juvenis foram desde sempre mais facilmente identificadas como indicadoras de mudana
social (e particularmente das doenas sociais, acrescenta o autor). No entanto, as subculturas juvenis podem
oferecer aos jovens uma identidade diferente daquela que lhes atribuda na escola, trabalho ou classe. O estilo da
pessoa, o estilo de vida, a imagem, os valores e a ideologia, providenciam fontes simblicas atravs das quais as
identidades podem ser construdas. Considerando que facilmente se esquece que a vida cultural dos jovens reflecte a
sua relao com as poderosas estruturas dominantes, o autor sugere que a natureza dessas estruturas e a sua
expresso cultural mudou tanto que hoje em dia a noo de estilos de vida da juventude mais adequada do que a
de subcultura juvenil.
No captulo 2 o autor demonstra como os estilos de vida da juventude no operam independentemente da
mudana poltica e social mas so potencialmente menos determinantes e de menor carga poltica do que os que se
haviam adoptado numa perspectiva subcultural. A crtica de Steven Miles aproximao cultural sociologia da
juventude prende-se com o pressuposto que olha a juventude como algo essencialmente problemtico e rebelde
quando na maioria dos casos essa definio limitativa.
No captulo 3 o autor reitera o seu argumento de que os estilos de vida da juventude no podem ser
compreendidos sem referncia aos contextos estruturais em que operam. Aqui, fica a educao e o emprego como
sendo as mais importantes arenas, nas quais as pessoas lutam para se estabelecerem como cidados num mundo
onde, na opinio do socilogo, continuam a ser marginalizados. Acrescenta que as influncias estruturais na vida dos
jovens s podem ser completamente entendidas se os contextos culturais nos quais esto contextualizadas, forem
activamente notados.
No captulo 4 o autor sugere que a aparente marginalizao dos jovens no pode ser entendida sem uma
profunda compreenso da mudana social e dos contextos culturais nos quais os jovens interpretam esses contextos.
Steven Miles d prioridade s discusses sobre a fragmentao ps-moderna, a sociedade de risco e a globalizao.
Estes aspectos afectam as experincias dos jovens atravs de processos de individualizao que, por sua vez,
serviram para minimizar a natureza tradicional das atitudes e prticas juvenis, enquanto ameaavam os meios
ortodoxos nos quais os socilogos tendiam, no passado, a colocar estas questes.
Nos dois captulos seguintes o autor examina os aspectos particulares da vida dos jovens. No captulo 5
considera a natureza da relao dos jovens com o consumo dos mass media. Coloca a questo: ser que os jovens
so controlados por eles ou sero os jovens que os moldam nas suas mos? O autor tenta identificar a forma como
os jovens usam os media electrnicos, como um aspecto especialmente importante dos seus estilos de vida,
particularmente nas relaes com as representaes de uma cultura de consumo. No captulo 6 discute
detalhadamente o mundo das festas rave, que considera ser uma das mais importantes formas de expresso da
mudana da natureza da cultura juvenil. Considera que a rave simplesmente representa a aceitao por parte dos
jovens dos cdigos ideologicamente dominantes e mais propriamente o do consumismo como estilo de vida. E
questiona: a rave ser mais do que uma celebrao de hedonismo, uma janela temporria de escape de uma cultura
que os jovens esto activamente a desenvolver?
Tomando como ponto de partida esta discusso sobre o hedonismo, o captulo 7 foca a emergncia dos jovens
como consumidores, refora o argumento de que o consumo o primeiro palco de luta no qual os jovens se
correlacionam e no qual reproduzem a mudana social. O autor questiona-se se o consumo juvenil pode ser autntico
e qual o papel que tem na construo da identidade dos jovens.
A obra pretende apresentar uma nova perspectiva da relao dos jovens com a mudana social. Apesar de
considerar os jovens barmetros da mudana social, relembra que eles no representam apenas essa mudana,
pois os jovens participam activa e conscientemente no funcionamento e reproduo do sistema social.
Com uma postura muito crtica sobre o papel da sociologia da juventude, o autor sugere que devem ser feitos
trabalhos especficos adaptando os estudos s prprias mudanas sociais.
que sinto em mim todas as idades da vida. Sou permanentemente a sede de uma dialgica
entre infncia / adolescncia / maturidade / velhice. Evolu, variei, sempre segundo esta
dialgica. Em mim, unem-se, mas tambm se opem, os segredos da maturidade e os da
adolescncia. Nessa outra forma de refletir e lidar com os tempos da vida supera-se a
sucesso linear e fechada de cada uma das suas etapas. Significa ver e viver as experincias
articuladas, com a possibilidade de mltiplas respostas, de forma que uma idade no elimina
a outra, mas a contm. Significa assumir o direito de jogar, em cada situao, com todas e
cada uma das cartas da experincia acumulada, seja ela grande ou pequena, de tal maneira
que, em cada itinerrio pessoal, o tempo fosse nosso amigo, e no crcere, permitindo,
assim, uma identidade flexvel e diversificada. Essas concepes interferem diretamente na
forma como geralmente se elabora uma compreenso e define-se uma postura diante da
infncia, da juventude e tambm da velhice. Nos deparamos no cotidiano com uma srie de
imagens socialmente construdas a respeito da juventude que interferem na nossa maneira
de compreender os jovens. Uma das mais arraigadas a juventude vista na sua condio de
transitoriedade, onde o jovem um vir a ser, tendo, no futuro, na passagem para a vida
adulta, o sentido das suas aes no presente. Sob essa tica, h uma tendncia de encarar a
juventude na sua negatividade, o que ainda no se chegou a ser. negando o presente vivido.
Essa imagem convive com outra: a juventude vista como problema, ganhando visibilidade
quando associada ao crescimento alarmante dos ndices de violncia, ao consumo e trfico de
drogas ou mesmo expanso da AIDS e da gravidez precoce, entre outros. No que estes
aspectos da realidade no sejam importantes e estejam demandando aes urgentes para
serem equacionados. A questo : ao conceber o jovem de uma maneira reducionista, vendoo apenas sob a tica do problema, as aes em prol da juventude passam a ser focadas na
busca de superao do suposto problema e, nesse sentido, voltam-se somente para os
setores juvenis considerados pela sociedade, pela escola e pela mdia como em situao de
risco. Tal postura inibe o investimento em aes baseadas na perspectiva dos direitos e que
desencadeiem polticas e prticas que focalizam a juventude nas suas potencialidades e
possibilidades. Uma outra imagem presente uma viso romntica da juventude, que veio se
cristalizando a partir dos anos sessenta, resultado entre outros, do florescimento da indstria
cultural e de um mercado de consumo dirigido aos jovens (Abramo,1994). Nessa viso a
juventude seria um tempo de liberdade, de prazer, de expresso de comportamentos
exticos. A essa idia se alia a noo de moratria, como um tempo para o ensaio e erro, para
experimentaes, um perodo marcado pelo hedonismo e pela irresponsabilidade, com uma
relativizao da aplicao de sanes sobre o comportamento juvenil. Mais recentemente,
acrescenta-se uma outra tendncia em perceber o jovem reduzido apenas ao campo da
cultura, como se ele s expressasse a sua condio juvenil nos finais de semana ou quando
envolvido em atividades culturais. Na perspectiva da sociologia da juventude, necessrio
colocar em questo essas imagens, pois, quando arraigados nesses modelos socialmente
construdos, corremos o risco de analisar os jovens de forma negativa, enfatizando as
caractersticas que lhes faltariam para corresponder a um determinado modelo de ser
jovem, ou mesmo projetarmos nas novas geraes as lembranas, idealizaes e valores da
juventude de uma outra poca. Agindo dessa forma, no conseguimos apreender os modos
pelos quais os jovens reais constroem a sua experincia como tais, muito menos apreender as
suas demandas. Como nos lembra a antropologia: para compreender necessrio
conhecer.
Mas, afinal, como compreender a juventude?
Temos de partir da idia que os tempos da vida, e neles a juventude, so constitutivos
da produo e reproduo da vida social. Significa dizer que em qualquer sociedade humana
existe uma forma prpria de categorizar os tempos da vida, atribuindo significados culturais a
cada uma das etapas biolgicas do desenvolvimento humano. (Debert, 2000). Em grande
parte das sociedades indgenas, por exemplo, a passagem da infncia para a juventude se
dava (e ainda se d) atravs dos chamados ritos de passagem. Eram e so provas difceis,
nas quais tanto o menino quanto a menina tinham de provar que podiam assumir uma nova
identidade social, definindo assim a passagem para o mundo adulto. So provas quase
sempre duras, dolorosas: os meninos tm de mostrar que sabem usar armas, reconhecer
plantas e animais, a sentir medo e a experimentar as dificuldades de sobrevivncia. As
meninas, por sua parte, tm de mostrar que esto familiarizadas com os segredos da
gestao da vida. a partir dessas provas que eles podem dizer: sou membro deste coletivo,
perteno a este grupo, sou tal pessoa. Ou seja, assumem uma determinada identidade. Mas
uma identidade que era dada de fora, respondida pelos outros, pela famlia, pela comunidade.
tanto uma juventude e sim jovens, enquanto sujeitos que a experimentam e sentem segundo
determinado contexto sociocultural onde se inserem.