Confecção e Liberação de Laudos
Confecção e Liberação de Laudos
Confecção e Liberação de Laudos
liberação de laudos
Helem Ferreira Ribeiro
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Introdução
Os métodos diagnósticos são distintos, mas se complementam. O diagnóstico
clínico é feito pela análise dos sinais e sintomas apresentados por um paciente,
e o diagnóstico epidemiológico avalia a ocorrência de determinadas doenças
em uma população ou em um determinado período. Tangenciando essas duas
formas de diagnóstico, encontramos o diagnóstico laboratorial, no qual exames
complementares de análises clínicas fornecem informações sobre um indivíduo
ou uma população.
A análise laboratorial é parte fundamental do atendimento de saúde, e os
dados fornecidos pelos exames executados são cruciais para a avaliação do estado
geral de saúde de um indivíduo, bem como para afastar ou confirmar suspeitas
diagnósticas baseadas na investigação clínica apresentada por um paciente.
Um exame bem solicitado e bem orientado é um diferencial importante para um
bom atendimento em saúde.
Para que a análise correta de um exame laboratorial possa ser realizada por um
profissional de saúde, é fundamental que a forma pela qual os resultados serão
apresentados sejam claras e contenham informações suficientes para a tomada de
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hematologia;
bioquímica;
urinálise;
parasitologia;
imunologia;
microbiologia;
biologia molecular.
Exames hematológicos
O setor de hematologia de um laboratório é responsável por análises
quantitativas e qualitativas de células e outros componentes sanguíneos;
as análises quantitativas incluem a contagem total e diferencial de eritrócitos,
leucócitos e plaquetas, bem como a avaliação do hematócrito e da dosagem
de hemoglobina, enquanto as análises qualitativas avaliam parâmetros como
tamanho e forma das células, além do grau de maturação das células presentes
(HOFFBRAND; MOSS, 2018).
As análises de coagulação do sangue também são responsabilidade do
setor de hematologia. Em laboratórios menores, as provas de tipagem san-
guínea e os testes de Coombs também são realizados por este setor.
A hematologia é uma parte do laboratório em que a automação está muito
presente e os principais aparelhos utilizam a citometria de fluxo para análise
do padrão de tamanho e complexidade interna das células, separando as
populações hematológicas em diferentes subgrupos, incluindo a contagem
diferencial de populações de leucócitos. Há, ainda, a possibilidade da utiliza-
ção de impedância elétrica, o que permite a medição da concentração total de
hemoglobina, bem como a concentração de hemoglobina corpuscular média
(CHCM), e a difração de luz possibilita a análise dos granulócitos (BACALL, 2009).
Caso a análise automatizada sugira alterações, é necessária, ainda,
a confecção de lâminas hematológicas para análise microscópica pós-co-
loração, sendo útil especialmente na detecção de populações anormais de
leucócitos ou de alterações no formato das hemácias (HOFFBRAND; MOSS,
2018). No Quadro 1, confira alguns exames hematológicos acompanhados de
comentários sobre as informações que devem constar nos laudos.
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Exame Comentário
Fonte: Adaptado de Xavier, Dora e Barros (2016); McPherson e Pincus (2012); Williamson e Snyder
(2016).
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Bioquímica e hormônios
O setor de bioquímica de um laboratório geralmente é o maior e com maior
quantidade de exames, realizando análises no soro, mas também na urina e
em outros líquidos corporais, conforme necessário. As análises desse setor
incluem glicose, colesterol, triglicerídeos e outros que avaliam a função
cardíaca, hepática, renal, pancreática, entre outros, além de eletrólitos
(WILLIAMSON; SNYDER, 2016).
Os exames realizados nesse setor são extremamente sensíveis a varia-
ções pré-analíticas intrínsecas e extrínsecas ao paciente. Assim, os laudos
devem contar com campos para designar medicações que o paciente esteja
ingerindo que possam interferir nos resultados. Como são várias as drogas
capazes de alterar o resultado de exames, é recomendado que sempre se
pergunte ao paciente se faz uso de algum medicamento e que, se possível,
essa informação conste no laudo diagnóstico.
Fatores como hemólise e lipemia interferem diretamente no resultado de
dosagens bioquímicas e devem ser reportados. A presença de lipemia, além
de interferir nas análises feitas na amostra, é de importância clínica e deve
constar obrigatoriamente no laudo diagnóstico, quando presente (SOCIEDADE
BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL, 2018).
As dosagens hormonais apresentam intensa variação pré-analítica,
incluindo ritmo circadiano, fase do ciclo menstrual, idade do paciente, entre
outras, além do uso de medicamentos. No Quadro 2, você confere exames
bioquímicos e hormonais e as possíveis variações que podem constar neles de
acordo com o uso de fármacos ou outros fatores pré-analíticos que precisam
ser considerados nos laudos diagnósticos.
Exame Comentário
(Continuação)
Exame Comentário
Urinálise
O setor de urinálise realiza avaliações físicas, bioquímicas e microscópicas em
amostras de urina e outros líquidos corporais, quando necessário, incluindo
amostras de urinas rotineiras ou coletadas ao longo de 24 horas. Essas análises
podem ser manuais ou automatizadas, e o laudo analítico precisa ser claro
quanto ao tipo de método utilizado (ESTRIDGE; REYNOLDS, 2011).
O exame rotineiro de urina é chamado de urina EAS (elementos anormais
e sedimentos) e geralmente utiliza uma combinação de tiras reagentes para
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Imunologia
O setor de imunologia é responsável pelo diagnóstico de doenças infecciosas
a partir da detecção de antígenos e anticorpos específicos, além de testes
de gravidez e outras doenças autoimunes. Preconiza-se a utilização dos ter-
mos reagente/não reagente ou presente/ausente ao reportar os resultados
dos exames produzidos por esse departamento (SOCIEDADE BRASILEIRA DE
PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL, 2018).
No setor de imunologia, ao se utilizar exames quantitativos, como dosa-
gens de anticorpos contra doenças infecciosas, que apresentem resultado
indeterminado, é imprescindível que as análises sejam repetidas. Resultados
indeterminados podem ocorrer, pois algumas amostras apresentam resul-
tado alterado, mas não o suficiente para ultrapassar o limiar de reatividade
definido para o teste e, nessas condições, é recomendado que o laudo seja
liberado como indeterminado e que uma nova amostra seja colhida para
repetição do exame ou para realização de método mais específico, como os
testes de biologia molecular (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/
MEDICINA LABORATORIAL, 2020).
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Parasitologia
Este setor geralmente lida com a detecção de parasitas a partir de amostras
de fezes, que são investigadas para a presença de ovos, cistos e larvas de
organismos como amebas, tênias, giárdias, entre outros — a pesquisa de para-
sitas sanguíneos normalmente é realizada no setor de hematologia (ESTRIDGE;
REYNOLDS, 2011). Nos laudos desse setor, devem constar informações como o
método utilizado e a intensidade da parasitose encontrada, preferencialmente
na forma de quantidade de material encontrado por cada campo (SOCIEDADE
BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL, 2020).
Microbiologia
É o setor responsável pelo cultivo e pela identificação de microrganismos
patogênicos, incluindo vírus, fungos e bactérias, a partir de amostras como
escarro, pontas de cateter, fezes, urina, sangue, raspados de feridas e di-
ferentes fluidos corporais, que são expostos a diferentes métodos de en-
riquecimento e meios de cultura específicos para o isolamento e para a
identificação desses microrganismos (ESTRIDGE; REYNOLDS, 2011). Por lidar
com organismos patogênicos vivos, é importante que os funcionários desse
setor tomem medidas rígidas de biossegurança para evitar a contaminação
ambiental e dos funcionários deste setor.
Além da identificação de microrganismos patogênicos, uma das principais
funções desse setor é a determinação do perfil de sensibilidade desses
patógenos a drogas antimicrobianas, um exame conhecido como antibio-
grama (Figura 2). Em muitas situações, o resultado desse exame é ainda mais
importante que a identificação do organismo causador da doença, pois é
essa análise que definirá o curso de tratamento possível para o paciente
(SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL,
2015). Dessa forma, os laudos produzidos por esse setor precisam ser precisos
e facilmente interpretáveis. O antibiograma auxilia a definir não só a droga
a ser utilizada para tratamento, mas também a dose recomendada. O teste
de sensibilidade a antibióticos (TSA) não deve ser utilizado para organismos
integrantes da microbiota normal humana.
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Amicacina <=8 S
Ampicilina <=4 S
Cefazolina <=2 S
Cefepima <=1 S
Cefoxitina <=4 S
Ceftazidina <=1 S
Ciprofloxacina 0,25 S
Gentamicina <2 S
Levofloxacina <1 S
Nitrofurantoína < 16 S
Norfloxacina <2 S
Biologia molecular
Este é um setor cada vez mais comum em laboratórios e que requer alta
tecnologia em equipamentos e profissionais extremamente bem treinados.
O setor de biologia molecular é responsável pela manipulação de material
genético para fins diagnósticos, realizando análises como testes de paterni-
dade, determinação de carga viral, detecção de patógenos, identificação de
mutações associadas a doenças, entre outros (MCPHERSON PINCUS, 2012).
Exames de determinação de paternidade apresentam resultados que po-
dem mudar a vida dos envolvidos, com consequências inclusive jurídicas. Por
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conta disso, o cuidado com essas análises começa ainda na fase pré-analítica,
inclusive recomendando-se que as amostras sejam colhidas somente se todas
as partes comparecerem no mesmo horário — alguns laboratórios requerem
a assinatura das partes interessadas confirmando a presença uma da outra
e autorizando a coleta de material e o registro em fotografia. O material
utilizado pode ser o sangue, mas também é possível usar um suabe oral para
a retirada das células da mucosa.
O laudo desse exame requer as seguintes informações (SANTA RITA, 2013):
Referências
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