Livro-Texto - Unidade I
Livro-Texto - Unidade I
Livro-Texto - Unidade I
Doutora e mestra em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP/USP). Graduada
em Letras pela USP e em Psicologia pela Universidade Paulista (UNIP). Possui especialização em Avaliação do Ensino
Superior pela Universidade de Brasília (UnB) e em Ensino a Distância pela UNIP. É uma das autoras do livro Da cultura
de provas para a cultura de avaliação e conteudista de livros-textos. Atualmente, é professora titular da UNIP.
CDU 343.95
U517.62 – 23
© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
permissão escrita da Universidade Paulista.
Profa. Sandra Miessa
Reitora
UNIP EaD
Profa. Elisabete Brihy
Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto
Prof. M. Ivan Daliberto Frugoli
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Material Didático
Comissão editorial:
Profa. Dra. Christiane Mazur Doi
Profa. Dra. Ronilda Ribeiro
Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista
Profa. M. Deise Alcantara Carreiro
Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes
APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................8
Unidade I
1 TEORIAS PSICOLÓGICAS................................................................................................................................ 13
1.1 Psicanálise................................................................................................................................................ 14
1.2 Behaviorismo.......................................................................................................................................... 18
1.3 Gestalt........................................................................................................................................................ 20
1.4 Teoria do desenvolvimento psicossocial de Erikson................................................................ 22
2 ÁREAS DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO JURÍDICO.................................................................................. 23
3 PSICOPATOLOGIA E PERSONALIDADE...................................................................................................... 29
3.1 Psicopatologia........................................................................................................................................ 29
3.2 Personalidade.......................................................................................................................................... 34
3.3 Transtornos de personalidade.......................................................................................................... 36
4 PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO E VITIMOLOGIA.................................................................................. 39
4.1 Psicologia do testemunho................................................................................................................. 39
4.2 Vitimologia............................................................................................................................................... 42
Unidade II
5 A FAMÍLIA E A LEI............................................................................................................................................. 49
5.1 Lei Maria da Penha............................................................................................................................... 58
5.2 Feminicídio............................................................................................................................................... 62
5.3 Violência.................................................................................................................................................... 64
5.4 Separações litigiosas e guarda dos filhos.................................................................................... 69
6 ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE........................................................................................ 74
6.1 Adoção....................................................................................................................................................... 79
6.2 Pedofilia e abuso sexual...................................................................................................................... 85
6.3 O adolescente infrator........................................................................................................................ 89
Unidade III
7 CRIME E EXECUÇÃO PENAL......................................................................................................................... 96
7.1 Crime: história e conceito.................................................................................................................. 96
7.2 Execução penal.....................................................................................................................................106
8 PERÍCIA PSICOLÓGICA E MEDIAÇÃO......................................................................................................114
8.1 Perícia psicológica...............................................................................................................................114
8.2 Métodos de solução de conflitos..................................................................................................116
APRESENTAÇÃO
O objetivo geral desta disciplina é apresentar aos alunos as noções mais importantes da área
de psicologia, preparando-os para obter um conhecimento teórico que permita uma percepção
interdisciplinar entre as questões psicológicas e jurídicas.
A partir desse conhecimento, busca-se propiciar a identificação e a descrição das várias competências
e funções do psicólogo jurídico inserido nas diversas instituições jurídicas, como varas de família, varas
da infância e juventude, varas especiais, conselhos tutelares, abrigos, prisões e delegacias.
A disciplina visa ainda possibilitar o reconhecimento dos elementos presentes nas medidas jurídicas
sob o ponto de vista psicológico, com o intuito de discriminar suas causas e os possíveis efeitos na vida
dos sujeitos envolvidos.
• Compreender a importância da psicologia para o futuro advogado nas relações com o seu cliente,
com os juízes, com os promotores, com os seus interlocutores e nas relações humanas dos
profissionais do direito.
• A partir do conteúdo teórico, discutir e analisar a prática jurídica no Brasil em suas diversas
áreas: no sistema de justiça (penal, cível, família e sucessões e infância e juventude); no sistema
prisional (prisões, hospital de custódia, acompanhamento de egressos); nos serviços e programas
de atendimento à criança, ao adolescente e à família (conselhos municipais de direitos da criança
e do adolescente, conselhos tutelares, abrigos temporários e famílias de apoio).
• Ter conhecimento da legislação nacional e suas implicações para a prática do psicólogo jurídico.
7
INTRODUÇÃO
A psicologia jurídica, enquanto área específica da psicologia como ciência, pode ser entendida como
uma aplicação do conhecimento psicológico às questões relacionadas ao direito.
Nesse sentido, Leal (2008) (apud MESSA, 2010) mostra como ocorre essa aplicação apresentando
uma tipologia de atuações:
No entanto, Sabaté (1980) (apud LAGO et al., 2009) estabelece três caminhos para a área psicojurídica:
• Psicologia no direito: o foco está na estrutura das normas jurídicas, com o intuito de produzir
ou evitar determinados comportamentos. Nesse caso, a psicologia seria uma disciplina aplicada
e prática.
• Psicologia para o direito: nesse caso, a psicologia funciona como ciência auxiliar ao direito.
Cabe destacar que a primeira aproximação entre a psicologia e o direito ocorreu no final do século XIX,
quando surgiu a psicologia do testemunho. Essa área da psicologia objetivou verificar a confiança
do relato do sujeito envolvido em um processo jurídico, realizando uma análise de seus processos
psicológicos. Posteriormente, veremos mais informações a esse respeito.
A partir do momento em que ambas as áreas se encontram, elas passam a compartilhar o mesmo
objeto de estudo: o homem e seu comportamento.
Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 21) trazem um questionamento sobre a diversidade de objetos de
estudo da psicologia:
8
No entanto, os autores destacam a subjetividade (constituída de ideias, significados, emoções,
afetos e comportamentos) como um estudo importante para que possamos entender o homem na
sua totalidade:
O objetivo dessa cooperação é a obtenção da verdade judicial, ajudando, por exemplo, na fase
executória da pena.
9
Ainda, segundo os autores:
Dessa forma:
Observação
10
Segundo a mesma autora:
Observação
11
PSICOLOGIA JURÍDICA
Unidade I
1 TEORIAS PSICOLÓGICAS
Figura 1 – Psicologia
A psicologia como área de conhecimento científico se desenvolveu por volta do século XIX. As suas
primeiras descobertas ocorreram com a observação dos comportamentos observáveis e suas primeiras
pesquisas foram feitas em laboratório. Inúmeras teorias foram surgindo com o objetivo de entender o
comportamento humano.
Saiba mais
13
Unidade I
Nos tópicos a seguir, vamos destacar quatro dessas teorias com o intuito de demonstrar como os
seus conceitos podem ser aplicados na área do direito.
1.1 Psicanálise
Figura 2 – Freud
“Se fosse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana, essa palavra seria incontestavelmente
inconsciente” (BOCK, FURTADO; TEIXEIRA, 2002, p. 70).
Freud era médico neurologista e, no final do século XIX, ao iniciar seus atendimentos com os primeiros
pacientes percebeu que alguns deles apresentavam sintomas para os quais a medicina não tinha
explicação. Eram pacientes, por exemplo, que tinham dores no corpo ou comportamentos estranhos
que o procuravam muitas vezes porque não tinham encontrado a cura pelos métodos convencionais
da medicina.
Depois da Primeira Guerra Mundial, Freud passou a atender pessoas traumatizadas pelas cenas
violentas da guerra e se questionava porque os seres humanos, que aparentemente deveriam buscar
prazer, se envolviam em guerras. Ele, a partir disso, chegou à conclusão de que o ser humano obedecia
inconscientemente a duas pulsões (energias psíquicas que direcionam as ações para um fim, são
impulsos): a pulsão de vida e de morte. A pulsão de vida está ligada à sexualidade e à reprodução,
enquanto a de morte está ligada à agressividade e à destruição. Portanto, para a psicanálise, o ser
humano busca repetir experiências prazerosas e também experiências desprazerosas numa tentativa de
resolver um conflito inconsciente.
A partir disso, ele começou a ser defensor do conceito da existência de processos mentais
inconscientes, que passaram a ser o alicerce da psicanálise, teoria fundada por ele.
14
PSICOLOGIA JURÍDICA
Para Freud, existem basicamente quatro maneiras como o inconsciente se manifesta, ou seja, quatro
formações do inconsciente: os atos falhos (erros na fala, na memória, na escrita ou uma ação física), os
sonhos, os chistes (piadas) e os sintomas. Essas maneiras são mecanismos do psiquismo responsáveis
pela passagem de conteúdos inconscientes à consciência. Essa passagem é favorecida pelo estado
emocional de forma disfarçada.
Mais tarde, no século XX, Freud apresenta a composição do aparelho psíquico, constituído por
três instâncias:
• Id: é o núcleo primitivo da personalidade em que há o domínio dos instintos e impulsos primitivos.
É uma parte menos acessível à personalidade, caracterizada por apresentar conteúdos sem lógica
de organização ou juízo de valor. Constituído de conteúdos inconscientes, inatos ou adquiridos que
buscam contínua gratificação, sob predominância do que Freud denominou princípio do prazer,
ou seja, nessa instância tudo é permitido, não há censura, algo sobre o qual não temos controle.
• Ego: responsável pelo contato do psiquismo com a realidade externa contendo elementos
conscientes e inconscientes. Atua guiado pelo princípio da realidade. Essa instância faz a conciliação
das reinvindicações do id (sem controle) e do superego (controlador) com o mundo externo,
harmonizando tais exigências. Diferentemente do id, é uma instância controlada, realista e lógica.
• Superego: responsável pela formação dos ideais, é a força moral, a lei no inconsciente. Ele
se forma pela internalização de regras sociais, valores, crenças e mecanismos de contenção.
As contribuições mais importantes para o seu desenvolvimento são incialmente os pais e
posteriormente a sociedade. Falhas nesta estrutura podem gerar problemas de conduta. A partir
dessa estruturação podemos dizer que quando o senso de realidade encontra-se prejudicado o
indivíduo pode ser dominado pelo id e pelo superego, resultando em comportamentos criminosos
e delitosos. Ao fazermos uma aplicação com a área do direito, podemos afirmar que a justiça atua
como um superego externo exigindo o cumprimento de normas éticas e morais dos indivíduos.
15
Unidade I
Observação
Os mecanismos de defesa são responsáveis por diminuir a angústia provocada pelos conflitos
internos. A diminuição ocorre a partir de uma distorção da realidade para que o indivíduo se adapte
e enfrente situações estressantes pois, do contrário, ele enlouqueceria, ficaria doente. Sua utilização
é normal (se forem utilizados em grau moderado, em que a pessoa oscila momentos de contato com a
realidade), e não patológica. A seguir, destacamos alguns deles:
• Distração: a atenção é desfocada. Exemplo: assistir a uma aula focando a atenção em outros
pensamentos.
• Fantasia: criação de um mundo próprio, imaginário. Exemplo: uma mulher fantasia o casamento
perfeito.
• Negação da realidade: por exemplo, a pessoa que se recusa a acreditar na morte de um amigo.
• Racionalização: a pessoa busca apresentar uma explicação coerente, lógica e moralmente aceita
para um comportamento, uma ideia ou um sentimento. Exemplo: a pessoa que explica não
conseguir se estabilizar no trabalho por culpa dos chefes.
• Regressão: comum em pessoas que não assumem a responsabilidade ou consequência por seus
atos. Exemplo: o adolescente que se comporta como uma criança quando deseja algo.
16
PSICOLOGIA JURÍDICA
Outra contribuição importante trazida por Freud diz respeito ao desenvolvimento da personalidade,
que se dá através de estágios (determinados por estímulos internos e externos) psicossexuais. Os respectivos
estágios são:
• Fase oral (até 1 ano de idade): o prazer deriva essencialmente da região da boca. Se houver
fixação, podem ocorrer comportamentos de dependência, passividade e gula, vícios de fumar ou
comer em excesso.
• Fase anal (de 1 a 3 anos): prazer oriundo da região anal. Se houver fixação, adultos demonstrarão
comportamentos hostis, obstinação, mesquinhez e desafio.
• Fase fálica (de 3 a 6 anos): é a descoberta infantil de que os órgãos genitais proporcionam
prazer e também a descoberta das diferenças sexuais. Nessa fase, ocorre o que Freud denominou
complexo de Édipo: a criança sente atração pelo progenitor do sexo oposto e se rivaliza com
o progenitor do mesmo sexo. A superação ocorre a partir da identificação da criança com o
progenitor de mesmo sexo, que resulta na identidade sexual. Nas meninas, é conhecido como
complexo de Eletra.
• Fase de latência (de 6 a 12 anos): as necessidades sexuais saem de foco e a criança passa a se
interessar por questões sociais: grupos de pessoas do mesmo sexo. Ocorre o fortalecimento do
ego e do superego.
• Fase genital: da puberdade à maturidade. Os interesses sexuais estão centrados no próprio corpo
e depois direcionados para outras pessoas.
De acordo com Cunha (apud LAGO et al., 2009), com o surgimento da psicanálise, o entendimento
de doença mental passa a considerar o sujeito de forma mais compreensiva. Assim, o enfoque médico
incluiu o psicodiagnóstico, trazendo aspectos psicológicos para a análise.
Observação
17
Unidade I
Saiba mais
1.2 Behaviorismo
Figura 3 – Skinner
Teoria psicológica conhecida como teoria de comportamento ou teoria comportamental. Seu principal
representante é Skinner.
O aprendizado de uma resposta condicionada passa a ser controlado por suas consequências, devido
ao que o autor denominou reforços ou estímulos. Para o behaviorismo, há dois tipos de reforço:
• Reforço positivo: é definido pelo resultado que produz no comportamento, ou seja, qualquer
evento que promova o aumento da frequência de um comportamento. Ele é entendido como uma
“recompensa” que aumenta a probabilidade de ocorrência de um comportamento. Exemplo: a
delação premiada é um reforço positivo na legislação brasileira, pois é um benefício legal (reforço
positivo) concedido a um réu em uma ação penal que aceite colaborar em uma investigação
criminal ou entregar outras pessoas.
• Reforço negativo: é usado para aumentar a probabilidade de ocorrência de uma resposta que
promova a extinção ou o afastamento de um evento aversivo. O negativo é usado para caracterizar
o tipo de estímulo, e não o efeito no comportamento. Exemplo: um juiz, em vez de fazer uso da
delação premiada (reforço positivo), pode garantir a colaboração do réu apresentando um reforço
negativo (aumentar a pena do réu se ele não colaborar). Vale deixar claro que esse exemplo é
apenas hipotético. O reforço negativo pode acontecer por duas vias:
— Fuga: a pessoa emite um comportamento que permite terminar com o evento aversivo.
Observação
19
Unidade I
1.3 Gestalt
Saiba mais
20
PSICOLOGIA JURÍDICA
Saiba mais
A gestalt é entendida como a teoria da forma, que tem como objetivo explicar como percebemos a
nós mesmos, as outras pessoas e o ambiente em que vivemos. O todo de uma percepção é diferente da
soma de suas partes, ou seja, a totalidade da percepção de um objeto ou de uma situação não se reduz
à soma de suas partes.
Conforme salientam Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 61): “A gestalt encontra nesses fenômenos da
percepção as condições para a compreensão do comportamento humano. A maneira como percebemos
um determinado estímulo irá desencadear nosso comportamento”.
A teoria estudou, dessa forma, o fenômeno denominado ilusão de óptica. São imagens que enganam
a nossa visão, fazendo-nos ver coisas que não estão presentes ou nos fazendo ver coisas de forma
inadequada. Por exemplo: um filme é uma ilusão de óptica, pois é composto de imagens estáticas que
parecem ter movimento quando são apresentadas rapidamente.
A gestalt estudou a relação entre figura e fundo. A figura é constituída pelos aspectos da experiência
eleitos como dominantes, sobressaindo ao fundo. O fundo é o panorama composto de experiências anteriores.
Dessa forma, o ambiente é fator importante para uma percepção.
Observação
21
Unidade I
22
PSICOLOGIA JURÍDICA
ambiente físico e social. A partir dessa relação, o ser humano necessita fazer diversas adaptações. Para
explicar esse desenvolvimento, ele apresenta o que chamou de oito fases ou conflitos. As oito fases são:
• Confiança versus desconfiança: ocorre na fase inicial da infância, em que o bebê necessita do
carinho e do cuidado da mãe. Dependendo dessa relação, a criança pode desenvolver confiança
ou não. Se a confiança prevalecer, essa criança confiará nas pessoas e em si mesma.
• Autonomia versus vergonha e culpa: para essa fase ser eficaz, a criança deverá ter condições de
explorar seu ambiente, e o papel dos pais é de impor certos limites. Essa imposição deve ser bem
equilibrada para que a criança desenvolva sua autonomia.
• Iniciativa versus culpa: espera-se nessa fase que a criança, ao desempenhar papéis e querer
desenvolver tarefas, desenvolva a iniciativa de agir.
• Diligência versus inferioridade: deve haver um equilíbrio de exigências dos pais para com a
criança, para que ela não tenha sentimentos de inferioridade.
• Integridade versus desespero: fase que corresponde à terceira idade, caracterizada pela
avaliação da própria vida. Algumas vezes, se essa avaliação for negativa, ela pode levar ao
desespero. Para Erikson, é a fase final de desenvolvimento.
Observação
23
Unidade I
Optamos por apresentar a classificação de dois autores, Messa (2010) e Lago et al. (2009), que
resumimos a seguir:
• Direito de família
— Separação (litigiosa, quando não há consenso para a separação, o psicólogo atua como
mediador ou pode ser solicitada pelo juiz uma avaliação das partes do casal; disputa de guarda
e regulamentação de visitas) e divórcio (engloba a partilha de bens; guarda de filhos; pensão
alimentícia e direito à visitação).
Lembrete
O psicólogo jurídico buscará os motivos que levaram o casal ao litígio e
os conflitos subjacentes que impedem um acordo.
Observação
O psicólogo jurídico poderá sugerir encaminhamento para o tratamento
psicológico ou psiquiátrico.
— Disputa de guarda: quem deterá a guarda. Em casos mais graves, podem ocorrer disputas
judiciais pela guarda.
Observação
Em caso de disputas graves, o juiz pode solicitar uma perícia psicológica.
Para que a perícia psicológica seja eficiente nos casos de disputas judiciais
de guarda, é necessário que o psicólogo jurídico tenha conhecimento sobre
avaliação, psicopatologia, psicologia do desenvolvimento e psicodinâmica
do casal. É igualmente importante entender sobre guarda compartilhada,
falsas acusações de abuso sexual e síndrome de alienação parental.
24
PSICOLOGIA JURÍDICA
De acordo com Castro (apud LAGO et al., 2009), os pais que de alguma forma estabelecem os seus
interesses e a vaidade pessoal acima do sofrimento dos filhos em uma disputa judicial de guarda, com
o intuito de atingir ou magoar o ex-companheiro, mostram problemas para exercer a parentalidade de
forma madura e responsável.
— Paternidade.
— Adoção: por meio de assessoria constante para as famílias adotivas tanto antes quanto depois
da colocação da criança. A equipe técnica dos Juizados da Infância e da Juventude deve saber
recrutar candidatos para as crianças Eles têm duas tarefas: garantir que os candidatos estejam
dentro dos limites das disposições legais e iniciar um programa de trabalho com os postulantes
aceitos (assessorar, informar e avaliar os interessados).
Observação
De acordo com Albornoz (apud LAGO et al., 2009), além do trabalho junto aos juizados, existe o
trabalho junto às fundações de proteção especial, com o objetivo de oferecer um cuidado especial
capaz de minorar os efeitos da institucionalização, proporcionando uma vivência que se aproxima da
realidade familiar. Os vínculos estabelecidos com os monitores que cuidam delas são facilitadores do
vínculo posterior na adoção.
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Unidade I
Observação
Observação
— Conselho tutelar.
• Direito civil: atua nos processos em que são requeridas indenizações em virtude de:
— Danos psíquicos: sequela na esfera emocional ou psicológica por causa de um fato particular
traumatizante na vítima. Aqui, cabe ao psicólogo de posse de seu referencial teórico e
instrumental técnico avaliar a real presença desse dano. Entretanto, o psicólogo deve estar
atento a possíveis manipulações dos sintomas, já que está em suas mãos a recomendação ou
não de um ressarcimento financeiro.
— Código civil: casos em que, por enfermidade ou deficiência mental, os sujeitos de direito não
tenham o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil. Cabe ao psicólogo
nomeado perito pelo juiz realizar avaliação que comprove ou não tal enfermidade mental.
À justiça interessa saber se a doença mental de que o paciente é portador o torna incapaz de
reger sua pessoa e seus bens. As questões levantadas em um processo de interdição incluem:
26
PSICOLOGIA JURÍDICA
— Indenizações.
• Direito penal
— Delinquência.
Observação
— Condições de trabalho.
— Indenizações.
• Psicologia do testemunho
— Estudo do testemunho.
— Falsas memórias.
• Psicologia penitenciária
— Penas alternativas.
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Unidade I
— Atendimento psicológico.
• Mediação
• Direitos humanos
• Proteção a testemunhas
— Consultoria.
— Atendimento psicológico.
• Vitimologia
— Violência doméstica.
• Autópsia psicológica
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PSICOLOGIA JURÍDICA
3 PSICOPATOLOGIA E PERSONALIDADE
3.1 Psicopatologia
Nossa legislação brasileira utiliza o termo “doença mental” no art. 26 do Código Penal, com o objetivo
de estabelecer a inimputabilidade (não responsabilidade por um ilícito penal). Podemos observar que
esse uso do termo da legislação acompanha a visão da medicina que elabora a distinção, tal como o
direito o faz, entre saúde e doença mental e de algumas teorias da psicologia que diferenciam a doença
mental da normalidade.
Nesse sentido, a psicopatologia trata da ciência que estuda o ser humano em seus estados
mentais patológicos. Esses estados patológicos apresentam quadros emocionais disfuncionais
que geram sofrimento psíquico. Dessa forma, podem surgir os transtornos de personalidade, que
frequentemente caracterizam-se pelo comprometimento de componentes psicológicos como
desvios das percepções, dos pensamentos, das sensações e das relações interpessoais de um
indivíduo e os transtornos psíquicos. Ambos os transtornos serão retomados, mais adiante, com as
devidas características.
Bock, Furtado e Teixeira (2011, p. 32) nos trazem uma definição pertinente a esse respeito:
O tema da normalidade é algo que ocupa desde sempre o ser humano. [...].
Para isso, uma das referências é a Psicanálise, para qual a diferença entre o
29
Unidade I
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PSICOLOGIA JURÍDICA
Observação
Do ponto de vista da psicanálise, Freud contribuiu para o estudo das doenças mentais, classificando‑as
em três estruturas: neurose, psicose e perversão. Para ele, esses tipos de estruturas aparecem em
decorrência das diferentes maneiras que o indivíduo se posiciona diante da lei e do desejo.
Saiba mais
Apenas para ilustrarmos as características dessas estruturas trazidas pela psicanálise, vamos
apresentá-las a seguir.
Neurose
O indivíduo tem plena consciência de suas ações, mas não consegue controlá-las. São distúrbios mais
leves, com poucas distorções da realidade, porém geram angústia e inibições. É tratada principalmente
por psicólogos, com a aplicação de diferentes métodos. Existe a psicoterapia e vários remédios para
aliviar os sintomas. Medicamentos contra a depressão e a ansiedade ajudam a pessoa, e alguns remédios
podem elevar a sensação de autoestima. Seus principais sintomas são:
• Insatisfação geral.
• Manias.
• Depressão.
• Síndrome do pânico.
31
Unidade I
Observação
• Neurose obsessiva: são as denominadas pessoas “certinhas”. Por exemplo, no contexto jurídico,
seriam as pessoas que tendem a obedecer cegamente à lei, permanecendo nos limites das normas
sociais. Nesse sentido, a repetição de certos comportamentos seria explicada pelo conflito entre a
obediência à lei e o desejo de não obedecer.
• Neurose histérica: diz respeito às pessoas que são extremamente emotivas. Essas pessoas,
inconscientemente, têm a necessidade de serem chamadas à ordem. O indivíduo apresenta
insatisfação generalizada, atos de rebeldia e falta de concentração.
• Neurose de angústia: sua principal característica é a fobia causada por objetos. Levando em
consideração a psicanálise, o que causa a neurose de angústia é o medo de castração e o medo da
sexualidade, que pode manifestar-se na adolescência.
De acordo com Pinheiro (2016), há de se considerar a diferença entre uma pessoa neurótica e um
delinquente neurótico:
32
PSICOLOGIA JURÍDICA
Psicose
Aqui, o indivíduo não apresenta consciência dos seus atos, perdendo a noção da realidade.
Nesse caso não há uma cura definitiva. A psicose é marcada por fase de delírios (realidade percebida
como falsa, crença de conspiração contra a pessoa, algumas delas se julgam Deus) e alucinações
(ouve vozes, tem visões, acredita que fontes externas controlam seus pensamentos). Exemplos
desse distúrbio englobam a esquizofrenia, o transtorno bipolar, a paranoia e o autismo. Vejamos
algumas características:
• Paranoia: a pessoa apresenta um quadro delirante, pode ter a ilusão de ser perseguido ou
apresentar algum delírio de grandeza.
Observação
Aqui, cabe novamente a diferenciação de Pinheiro (2016, p. 126) com relação à delinquência:
Perversão
Na psicanálise, o termo diz respeito a quem busca satisfação sexual além dos limites “normais”. São
pessoas que têm dificuldade de seguir as leis.
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Unidade I
3.2 Personalidade
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PSICOLOGIA JURÍDICA
Saiba mais
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Unidade I
Saiba mais
Para um breve conhecimento dos tipos de transtorno, faremos um relato com as principais
características de cada um deles:
• Personalidade psicopata: são indivíduos que apresentam uma moral egoísta e baixa tolerância
à frustração. Destacam-se comportamentos que transgridem as leis e as regras sociais sem
arrependimento.
36
PSICOLOGIA JURÍDICA
• Personalidade obsessiva: são pessoas perfeccionistas e repetitivas, não apreciam inovações, pois
possuem uma conduta rígida.
• Personalidade ansiosa: apresenta baixa autoestima e não aceita críticas, com grande necessidade
de ser aceito. Tem comportamento hesitante e dificuldade de estabelecer relações.
Observação
• Personalidade narcísica: a pessoa necessita ser admirada e tem necessidade de que suas
características sejam ressaltadas. Tem dificuldade de aceitar críticas.
Observação
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Unidade I
Observação
• Ciclotimia: observa-se instabilidade do humor, com períodos de depressão com leves melhoras.
• Distimia: caracterizado por rebaixamento contínuo de humor, que pode durar por um longo tempo.
• Parafilia: a pessoa é definida dessa forma por apresentar comportamentos sexuais com práticas
e padrões sexuais particulares e lesivos ao indivíduo e aos parceiros.
38
PSICOLOGIA JURÍDICA
• Esquizofrenia: trata-se de uma psicose com problemas relacionados a cognição, emoção, percepção,
pensamento, comunicação etc. Apresenta delírios, alucinações, afastamento da realidade.
• Psicose puerperal: pode ser desencadeada após o parto, provocando alterações sociais,
psicológicas e físicas da mulher.
Saiba mais
A psicologia do testemunho, citada anteriormente, foi uma das primeiras conexões entre a psicologia
e o direito. Seu estudo é de extrema importância para a área de psicologia jurídica, pois visa investigar
os processos internos de testemunhas que podem ou não dificultar o relato delas. Dessa forma, ela
possibilita investigar a veracidade das informações trazidas pelas testemunhas.
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Unidade I
De acordo com Cezar (apud LAGO et al., 2009), outra área relacionada à psicologia do testemunho
é o depoimento sem dano, que objetiva proteger psicologicamente crianças e adolescentes vítimas de
abusos sexuais e outras infrações penais que deixam graves sequelas na personalidade.
Observação
Para Mira e Lopez (apud MESSA, 2010), o testemunho depende de cinco fatores:
40
PSICOLOGIA JURÍDICA
• Por interrogatório: as respostas podem não ser verdadeiras, pois, nesse contexto, há um conflito
entre o que o indivíduo sabe de um lado e o que as perguntas tendem a fazê-lo saber.
• Por meio da confissão: quando a pessoa se expõe voluntariamente à punição, ou ainda pode
derivar da evidência dos fatos.
Observação
Com relação à conduta criminosa, ela pode ser entendida de três formas, de acordo com Fiorelli e
Mangini (apud MESSA, 2010):
Para finalizarmos algumas das considerações na psicologia do testemunho, destacamos Souza (apud
MESSA, 2010), que apresenta alguns sintomas que podem evidenciar uma possível mentira encontrada
em um interrogatório:
• O silêncio.
41
Unidade I
4.2 Vitimologia
A vitimologia é outra área que demanda conhecimento, pois estuda a influência da vítima na
ocorrência de um delito.
De acordo com Brega Filho (apud LAGO et al., 2009), cabe ao psicólogo traçar o perfil e compreender
as relações das vítimas perante a infração penal. A intenção é averiguar se a prática do crime foi
estimulada pela atitude da vítima. Essa atitude pode apontar uma colaboração com o criminoso.
Além disso, espera‑se a partir do trabalho do psicólogo jurídico que este coloque em prática medidas
preventivas e prestação de assistência às vítimas, visando, dessa forma, à reparação dos danos causados
pelo delito.
• Prevenção do delito.
• Desenvolvimento metodológico-instrumental.
[...] diversos podem ser os motivos que levam uma pessoa a se expor
como vítima. Os ganhos secundários podem estar presentes, gerando
consequências e recompensas que mantêm o comportamento. Outra razão
pode ser a exaltação do sofrimento, com forte influência cultural, além de
expiação de culpas. No sofrimento, a pessoa se iguala a um mártir devotado,
conquistando o direito a recompensas em outras dimensões. A vítima pode
também ter a crença de que não há expectativa de ações favoráveis para
inibir, prevenir ou punir o delinquente, de que não há nada que possa ser
feito (apud MESSA, 2010, p. 70).
42
PSICOLOGIA JURÍDICA
• Vítima voluntária ou tão culpada quanto o infrator: ambos podem ser o criminoso ou a vítima.
• Vítima mais culpada que o infrator: envolve as vítimas provocadoras, que incitam o crime.
Lembrete
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Unidade I
Resumo
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PSICOLOGIA JURÍDICA
Exercícios
Questão 1. De acordo com Freud, os mecanismos de defesa são responsáveis por diminuir a angústia
provocada pelos conflitos internos. Entre eles, apresentamos três exemplos: comum em pessoas que não
assumem a responsabilidade ou consequência de seus atos; são essenciais no processo de desenvolvimento
psicossexual; a pessoa busca apresentar uma explicação coerente e lógica e moralmente aceita. Assinale
a alternativa que apresenta os referidos mecanismos, respectivamente:
Análise da questão
A questão pede para que seja assinalada a alternativa com os respectivos (na ordem) conceitos
acentuados no texto, ou seja: regressão, identificação e racionalização.
D) A primeira aproximação entre o direito e a psicologia ocorreu no século XIX, com a psicologia do
delinquente juvenil.
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Unidade I
Análise da questão
A alternativa B está incorreta, pois ambas as ciências compartilham o mesmo objeto de estudo: o
comportamento humano. A alternativa C está incorreta, pois a psicologia se ocupa do comportamento
de um processo. A alternativa D está incorreta, pois a primeira aproximação da psicologia com o
direito ocorreu com a psicologia do testemunho. Por fim, a alternativa E está incorreta, pois ela nega a
correspondência entre as duas ciências.
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