Location via proxy:   [ UP ]  
[Report a bug]   [Manage cookies]                

Martinsetal 2015-NanotecnologiaemAlimentos

Fazer download em pdf ou txt
Fazer download em pdf ou txt
Você está na página 1de 19

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/303572235

Nanotecnologia em Alimentos: Uma breve revisão

Article · December 2015

CITATIONS READS

0 3,638

7 authors, including:

Víctor De Carvalho Martins Elaine Braga


Federal Rural University of Rio de Janeiro Federal University of Rio de Janeiro
15 PUBLICATIONS 32 CITATIONS 7 PUBLICATIONS 14 CITATIONS

SEE PROFILE SEE PROFILE

Ronoel Luiz de Oliveira Godoy Renata Borguini


Brazilian Agricultural Research Corporation (EMBRAPA) Brazilian Agricultural Research Corporation (EMBRAPA)
131 PUBLICATIONS 1,547 CITATIONS 50 PUBLICATIONS 638 CITATIONS

SEE PROFILE SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

Desenvolvimento de Método Qualitativo Baseado em LC/MS para detecção de adulterantes em café View project

Bases tecnológicas para a produção sustentável de ostras nativas no Norte e Nordeste do Brasil View project

All content following this page was uploaded by Víctor De Carvalho Martins on 28 May 2016.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

NANOTECNOLOGIA EM ALIMENTOS: UMA BREVE REVISÃO


Nanotechnology in Food: A Brief Review

Víctor de Carvalho Martins¹*; Elaine Cristina de Oliveira Braga²;


Ronoel Luiz de Oliveira Godoy³; Renata Galhardo Borguini³; Sidney Pacheco³;
Manuela Cristina Pessanha de Araujo Santiago³; Luzimar da Silva de Mattos do Nascimento³.

¹Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Tecnologia, Departamento de


Tecnologia de Alimentos, CEP 23890-000, Seropédica – RJ, Brasil.
²Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Centro de Ciências Biológicas e da
Saúde, Departamento de Ciência dos Alimentos, CEP 22290-180, Rio de Janeiro – RJ, Brasil.
³Embrapa Agroindústria de Alimentos, Laboratório de Cromatografia Líquida de Alta Eficiência
(CLAE), CEP 23020-470, Rio de Janeiro – RJ, Brasil.
*victor.dcmartins@gmail.com

RESUMO

A nanotecnologia, parte da tecnologia responsável pela utilização de materiais em escala


nanométrica, contribui para a obtenção de produtos com propriedades funcionais únicas. Devido a
essas propriedades, vêm sendo empregada em diferentes formas e aplicações, entre as quais
destacam-se principalmente as nanopartículas, que auxiliam no controle de liberação de fertilizantes
e na agricultura de precisão e atuam como aditivos antiaglomerante, antimicrobiano e agente de
revestimento em alimentos; as nanocápsulas, responsáveis pelo aumento de estabilidade,
biodisponibilidade e controle da cinética de liberação de substâncias de interesse; e os
nanocompósitos, materiais híbridos que apresentam pelo menos um nanomaterial em sua
composição e que possuem grande aplicação na indústria de embalagens, devido ao aumento das
propriedades de barreira. Atualmente, há uma grande tendência nos estudos para o desenvolvimento
de embalagens biodegradáveis com propriedades adicionais como as embalagens ativas, que
garantem uma maior estabilidade e proteção do alimento acondicionado, e as embalagens
inteligentes, que conferem informações exclusivas sobre as condições do produto mediante a
presença de indicadores ou sensores. Entretanto, para a garantia da consolidação da nanotecnologia
no mercado mundial, faz-se necessário uma maior disponibilidade de informações sobre benefícios
e riscos da aplicação em alimento, contribuindo para que o consumidor possa ter argumentos para
adquirir ou rejeitar um produto que englobe esta tecnologia. Com este intuito, novos estudos
envolvendo desenvolvimento de produtos e estudos toxicológicos são importantes para a definição
das regulamentações em caráter internacional e a promoção do emprego da nanotecnologia.
Palavras-chave: nanocompósitos; embalagens; sistemas de liberação de nutrientes; consumidores.

25
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

ABSTRACT

Nanotechnology, part of the technology responsible for the use of nanoscale materials, contributes
to obtaining products with unique functional properties. Due to these properties, it has been
employed in various forms and applications, including mainly nanoparticles, which help in control
of fertilizer release and precision agriculture and act as anti-caking additives, antimicrobial and
coating agent for foods; nanocapsules, responsible for increased stability, bioavailability and control
of kinetics release of interest substances; and nanocomposites, hybrid materials that exhibit at least
one nanomaterial in their composition and have wide application in the packaging industry due to
increased barrier properties. Currently, there is a great tendency in the studies for the development
of biodegradable packaging with additional properties such as active packaging, which ensures
greater stability and protection of packaged food, and smart packaging, that provide unique
information on the conditions of the product through the presence of indicators or sensors.
However, for nanotechnology consolidation in the world market, it is necessary a greater
availability of information on benefits and risks of use in food, helping consumers to have
arguments to acquire or reject a product that incorporates this technology. For this purpose, new
studies involving product development and toxicological studies are important for defining the
international regulations and the promotion of nanotechnology.
Keywords: nanocomposites; packages; nutrients delivery system; consumers.

INTRODUÇÃO

A nanotecnologia refere-se a um campo da tecnologia responsável pela utilização de


materiais em escala nanométrica para a obtenção de processos e produtos de melhor desempenho
(ASSIS et al., 2012; AZEREDO, 2012; HANDFORD et al., 2015). Devido suas propriedades
funcionais únicas, a nanotecnologia vêm sendo empregada em diferentes formas e aplicações que
alavancaram o interesse de governos, indústrias e centros de pesquisa para o uso dessa tecnologia
em diversos setores, tais como: eletrônicos, materiais, energia, cosméticos; medicamentos e têxtil
(BOUWMEESTER et al., 2009; GREINER, 2009).
Atualmente, os investimentos financeiros em pesquisas de caracterização, desenvolvimento
de produtos e possíveis aplicações aumentaram significativamente nos últimos anos (GOMES et al.,
2015). Na indústria alimentícia, é possível observar a influência da nanotecnologia desde a
produção agrícola, através do uso eficiente de fertilizantes e do tratamento de água, como no
processamento dos alimentos em equipamentos e utensílios, tendo uma maior eficiência térmica e
mecânica, na formulação de produtos, com o emprego de aditivos e sistemas de liberação
controlada de substâncias bioativas e minerais, além de favorecer no desenvolvimento de
embalagens com propriedades básicas aprimoradas e ainda adicionais, como as embalagens “ativas”
e “inteligentes” (HANDFORD et al., 2014).
Entretanto, essas aplicações ainda precisam ser bem assimiladas pelos consumidores, pois
apesar do aumento crescente e contínuo de notícias e publicações que envolvem a nanotecnologia,
principalmente nos países desenvolvidos, as informações disponíveis pouco contribuem para o
esclarecimento da população sobre alguns aspectos importantes dessa nova tecnologia, como, por
exemplo, a toxicidade dos nanomateriais (DUDO et al., 2011; HANDFORD et al., 2015).

26
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Isto somente será possível a partir da divulgação de informações necessárias para a formação de um
conhecimento básico que possibilitará ao consumidor decidir pela aceitação ou rejeição do produto
final (SILVA et al., 2012).
O presente trabalho tem como objetivo revisar os aspectos tecnocientíficos da
nanotecnologia, mencionando principalmente as diferentes formulações e aplicações empregadas na
indústria alimentícia e os futuros desafios que envolvem o uso desta tecnologia.

CONTEXTO HISTÓRICO E ECONÔMICO

A nanociência é uma área multidisciplinar com grande potencial de aplicação tecnológica,


sendo a nanotecnologia considerada atualmente uma valiosa ferramenta para o aperfeiçoamento de
processos e o desenvolvimento de novos produtos (AZEREDO, 2012; MIHINDUKULASURIYA
& KIM, 2014).
Os estudos de nanociência e da nanotecnologia só tiveram início a partir dos anos 1950 pelo
físico norte americano Richard Phillips Feynman. Em 1959, Feynman participou de um encontro
promovido pela Sociedade Americana de Física, no Instituto de Tecnologia da Califórnia e, em uma
de suas palestras, marcou a história da nanotecnologia ao afirmar que:
“... os princípios da física não falam contra a possibilidade de se manipular
as coisas átomo por átomo...”
Até então, era impossível apresentar este pensamento, visto que não existia disponível uma
técnica de visualização dos átomos, outro assunto abordado por Feynman. Ao longo dos anos
seguintes, com a criação do Microscópio de Varredura por Tunelamento, a manipulação de átomos
tornou-se possível (AZEREDO, 2012; GOMES, 2015).
Desde os anos 1980, a área de eletrônicos tem sido o carro-chefe da nanotecnologia na área
de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), além de outros setores que apresentaram um significativo
crescimento como o de biotecnologia, de materiais e de energia (GREINER, 2009). Atualmente, a
nanotecnologia também é utilizada na medicina, cosméticos, indústria têxtil, agricultura e
alimentos, e diversos produtos já incorporaram melhorias a partir da nanotecnologia como os
protetores solares transparentes, as tintas livre de arranhões para carros, raquetes de tênis de maior
rigidez, entre outros (BOUWMEESTER, 2009; GREINER, 2009).
A consciência do potencial desta tecnologia criou um ambiente de competição científica e
tecnológica, movendo recursos humanos e financeiros em laboratórios e indústrias a nível mundial
(GOMES, 2015). Segundo MIHINDUKULASURIYA & KIM (2014), estima-se um impacto de no
mínimo 3 trilhões de dólares da economia global em 2020, criando uma demanda de 6 milhões de
empregos em várias indústrias do mundo.
Como não poderia ser diferente, o setor de alimentos também tem se destacado nas
pesquisas em nanotecnologia, visando principalmente garantir o abastecimento alimentar mediante
ao aumento populacional observado e estimado para os próximos anos e as variações de caráter
ambiental, tanto dos fatores climáticos quanto do uso sustentável dos recursos naturais. Diversas
empresas de grande porte do setor alimentício, como a Heinz, a Kraft Foods e a Nestlé, tem apoiado
estudos envolvendo o uso de nanotecnologia na produção de alimentos e bebidas (GREINER,
2009). HANDFORD et al. (2014) ressaltam que a nanotecnologia deve facilitar a próxima fase de
desenvolvimento de culturas geneticamente modificadas, entrando na produção animal e de
pescado, pesticidas químicos e técnicas de agricultura de precisão.

27
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

ASPECTOS TECNOLÓGICOS

O prefixo “nano”, originado do idioma grego, significa “anão” e, portanto, os materiais


empregados tendem a apresentar pelo menos uma dimensão em nanoescala, entre 1 nm a 100 nm (1
nm = 10-9 m). Esta característica proporciona propriedades funcionais únicas, que não são
encontradas nos materiais convencionais da escala macro, devido a maior superfície de contato das
nanoestruturas (DUDO et al., 2011; ASSIS et al., 2012; CHELLARAM et al., 2014; HANDFORD
et al., 2014; HANDFORD et al., 2015).
Além disso, as técnicas empregadas na nanotecnologia permitem imitar a natureza tanto na
montagem de moléculas (bottom-up) para formar novos compostos químicos ou nanoestruturas,
quanto na desmontagem de produtos macro ou microscópicos (top-down) até o nível nanométrico,
expandindo as possibilidades de aplicação (AZEREDO, 2012).
Os nanomateriais mais básicos utilizados são as nanopartículas. Estas podem se apresentar
em diferentes formas, como nanopartículas esféricas (três dimensões nanométricas); nanotubos e
nanofibras (estruturas alongadas com duas dimensões em escala nanométrica) e nanoplacas
(apresentam apenas a espessura nanométrica) (AZEREDO, 2012; MIHINDUKULASURIYA &
KIM, 2014). Diversos exemplos de nanopartículas são citados na literatura, como as nanoargilas, as
nanopartículas de prata (Ag), as de dióxido de titânio (TiO2) e as de óxido de zinco (ZnO).
As nanoargilas têm sido a classe de nanomateriais mais estudada, graças à sua alta
disponibilidade, baixo custo, bom desempenho e boa processabilidade, sendo a mais empregada a
montmorilonita (MMT), de fórmula química geral Mx(Al4-xMgx)Si8O20(OH)4. Considera-se a MMT
como um excelente material de reforço, devido à alta área superficial e alta razão de aspecto (razão
entre a maior e a menor dimensão) apresentadas (AZEREDO, 2012).
Diferentes tipos de nanoformulações podem ser empregados, como as nanopartículas
lipídicas sólidas, as nanoemulsões, as nanocápsulas e os nanocompósitos.
As nanopartículas lipídicas sólidas constituem-se de sistemas coloidais desenvolvidos com
aumento do controle da cinética de liberação e da estabilidade química de componentes lipofílicos
funcionais, como carotenoides e fitoesteróis. Sua obtenção ocorre através da homogeneização da
fase lipídica no estado líquido e em uma solução de surfactante aquoso, em temperatura superior a
de fusão dos lipídeos, possibilitando a formação de uma fina dispersão da emulsão óleo em água. A
diferença entre as nanopartículas lipídicas e as nanoemulsões está justamente no estado físico do
núcleo lipídico, em que, nas nanoemulsões, o núcleo encontra-se no estado líquido. Os principais
lipídeos utilizados são triglicerídeos (triestearina), glicídeos parciais (monoestearato de gliceril),
ácidos graxos (ácido esteárico), esteróis (colesterol) e ceras (cetilpalmitato) (ASSIS et al., 2012).
Já as nanoemulsões são dispersões muito finas compostas por uma fase aquosa e uma fase
lipídica, que se apresentam como gotas com diâmetro menor que 100 nm. Técnicas de
homogeneização à alta pressão e geradores de ultrassom são empregadas para a obtenção das
nanoemulsões, a partir de triglicerídeos e água, sendo a nanoemulsão do tipo óleo em água mais
comum. Uma das principais características desta nanoformulação é a estabilidade contra
sedimentação (ASSIS et al., 2012).
As nanoencapsulações surgiram como uma extensão da tecnologia de microencapsulação,
empregada já há muitos anos pela indústria alimentícia (GREINER, 2009). Estas são formadas por
um invólucro polimérico disposto ao redor de um núcleo, onde as substâncias de interesse
(componentes responsáveis por sabor ou substâncias bioativas) podem se localizar na parte interna
ou ainda adsorvidas à parede polimérica através de pequenas vesículas nanométricas.
28
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

A matriz polimérica na indústria alimentícia geralmente é feita a partir de polímeros


biodegradáveis, podendo ser de misturas de amidos, gomas, gelatinas e proteínas, como albuminas e
colágeno (BOUWMEESTER et al., 2009; ASSIS et al., 2012).
É importante ressaltar que as nanocápsulas comportam-se como um sistema de incorporação
de substâncias favorecendo a proteção contra degradação e melhoria da estabilidade e solubilidade e
já são usualmente empregadas na indústria farmacêutica, porém com polímeros sintéticos
(BOUWMEESTER et al, 2009).
Desde a década de 1990, aproximadamente 45 trabalhos científicos focados nos estudos de
caracterização e aplicação de nanocompósitos, materiais híbridos em que pelo menos um de seus
componentes tem dimensões nanométricas, conforme relatam MIHINDUKULASURIYA & KIM
(2014). A adição de nanopartículas aos polímeros contribui para o beneficiamento do produto final,
com destaque para o aumento da resistência mecânica, da estabilidade térmica, da condutividade
elétrica, entre outros. Isto ocorre devido à elevada área superficial, resultando em uma intensa
interação entre a matriz e as nanopartículas (ASSIS et al., 2012; MIHINDUKULASURIYA &
KIM, 2014).
A Figura 1 destaca a possibilidade do emprego de nanocompósitos em embalagens. Os
polímeros naturais apresentam propriedades de barreira e mecânica bem limitadas, mas a
incorporação de nanopartículas em concentrações inferiores a 5% (m/m) confere um aumento da
propriedade de barreira, não apresentando variação na densidade, transparência e características de
processamento da embalagem (GREINER, 2009). Atualmente, as nanoargilas são as nanopartículas
mais usadas na área de embalagem de alimentos, respondendo por cerca de 70% do mercado
(AZEREDO, 2012).
A forma de distribuição espacial das nanoesferas também influencia nas propriedades do
nanocompósito, sendo considerada a forma esfoliada a que apresenta melhores propriedades, por
causa da ótima interação nanopartícula/polímero e melhor dispersão da nanopartícula (AZEREDO,
2012).

Figura 1. Esquema de obtenção de um nanocompósito com aumento da propriedade de barreira,


adaptado de MIHINDUKULASURIYA & KIM (2014).
Uma variação dos nanocompósitos consiste nos nanosensores, nanopartículas reativas
adicionadas às embalagens ou ainda ao próprio alimento, capazes de indicar informações a respeito
da qualidade e procedência do produto (BOUWMEESTER et al., 2009; GREINER, 2009).

29
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

APLICAÇÕES AGROINDUSTRIAIS

O uso da nanotecnologia na área de alimentos é cada vez mais evidente. Uma variedade de
ingredientes alimentares, sistemas de encapsulamento e materiais de contato com alimentos como
embalagens e utensílios já está disponível em alguns países (GREINER, 2009).
O advento da nanotecnologia pode ainda acarretar em melhorias na produção e nas técnicas
de processamento; avanços no desenvolvimento de materiais para embalagens, aumentando a vida
de prateleira; modificações de sabor, textura e sensação; monitoramento da qualidade e do frescor
do alimento; redução de teor de gordura; absorção de nutrientes aprimorada; melhoria da
rastreabilidade e segurança dos produtos alimentares (GREINER, 2009; DASGUPTA et al., 2015;
HANDFORD et al., 2014; HANDFORD et al., 2015). A Figura 2 relaciona as principais
possibilidades de uso da nanotecnologia no setor agroindustrial, influenciando desde a produção
agrícola até a relação com os consumidores.

Figura 2. Possibilidades de emprego da nanotecnologia no setor agroindustrial, adaptado de


HANDFORD et al., (2014).

PRODUÇÃO AGRÍCOLA

DASGUPTA et al., (2015) relataram as principais aplicações da nanotecnologia no setor


agrícola, destacando a utilização eficiente de fertilizantes e dos recursos necessários para o
crescimento ideal das espécies vegetais até os fatores externos que podem acarretar em prejuízos
dos cultivares seguintes, como a contaminação de solos.
Transportadores nanométricos podem ser utilizados para o uso racional e eficiente de
fertilizantes, pesticidas, herbicidas, reguladores de crescimento de plantas, entre outros
(BOUWMEESTER et al., 2009; DASGUPTA et al., 2015). O encapsulamento e a liberação
controlada destas substâncias contribui para uma agricultura de precisão, evitando o uso exacerbado
de produtos químicos pelos agricultores e aliviando os problemas ambientais.
30
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

CAI et al., (2014) adicionaram nanoargilas aos fertilizantes tradicionais para retenção de
nitrogênio e prevenção da lixiviação e obtiveram uma nutrição suficiente para os cultivos. Além
disso, foi observado em outro trabalho cientifico que nanopartículas de dióxido de silício (SiO2)
aprimoraram a germinação de sementes de tomate (Lycopersicum esculentum) (MANZER &
MOHAMED, 2014).
Outro fator crucial nas produções agrícolas é a qualidade da água utilizada. Novas técnicas
utilizando nanotecnologia têm apresentado aplicações eficientes no controle de qualidade da água.
As nanopartículas de prata (Ag) (Figura 3) se mostraram promissoras para a desinfecção das águas,
devido à produção de espécies reativas de oxigênio que clivam o DNA de bactérias e vírus e que,
por tal propriedade, acarretam uma vasta gama de possíveis aplicações (GREINER, 2009;
DASGUPTA et al, 2015).

Figura 3. Imagens de nanopartículas de prata, por microscopia de transmissão eletrônica, de


diâmetro de 20 nm, 60 nm e 100 nm (SIGMA-ALDRICH, 2015).
É possível, através de reações catalíticas com determinadas substâncias na presença de luz, a
ruptura das células microbianas e consequentemente a eliminação destas da água. Nanopartículas de
óxidos e sulfetos de metais, com ação oxidante, auxiliam tanto na remoção dos contaminantes
microbianos quanto orgânicos; com destaque para dióxido de titânio (TiO2), monóxido de zinco
(ZnO), dióxido de estanho (SnO2), sulfeto de zinco (ZnS), sulfeto de cádmio (CdS), entre outros
(DASGUPTA et al., 2015). Ankita & Vidya (2014) utilizaram nanopartículas de Ag e TiO2
combinadas para remediar o corante Reactive Blue 220, induzindo a degradação fotocatalítica com
auxílio da luz solar.
Diferentes substâncias são eliminadas da água utilizada para a produção agroindustrial pelo
uso de processos nanotecnológicos. Pode ser empregada a nanobiorremediação, para a degradação
ou conversão de compostos orgânicos em produtos não tóxicos, sendo utilizado principalmente
nanopartículas de ferro (Fe), nanotubos de carbono e nanopartículas de enzimas; a nanofiltração por
membranas modificadas para dessalinização da água, processo 1000 vezes mais eficiente que a
osmose reversa, atualmente de maior emprego; e, para a remoção de metais pesados, a utilização de
óxidos de metais na forma de nanocápsulas como dióxido de manganês (MnO2), dióxido de titânio
(TiO2), óxido férrico (Fe2O3), óxido de alumínio (Al2O3), óxido de magnésio (MgO) e dióxido de
cério (CeO2), que apresentam alta área superficial e afinidade específica para a possível adsorção
destes contaminantes em sistemas aquáticos (DASGUPTA et al., 2015).

31
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

UTENSÍLIOS E EQUIPAMENTOS PARA PROCESSAMENTO DE ALIMENTOS

Diversos materiais que entram em contato com o alimento tiveram mudanças significativas
após o desenvolvimento da nanotecnologia, como as propriedades antimicrobianas de superfícies,
resistência às ranhuras e corrosão e características antireflexivas. Exemplos incluem as
nanopartículas de prata presentes em refrigeradores domésticos, as nanocerâmicas utilizadas em
fritadeiras, nanocompostos inorgânicos de coloração preta para revestimento de placas de alumínios
e frigideiras que melhoram as propriedades de condução térmica dos utensílios domésticos,
reduzindo o tempo de cozimento. Os nanofiltros, além da dessalinização da água, também podem
ser aplicados diretamente em processos alimentícios para a obtenção de produtos lácteos sem
lactose e cafés descafeinados e ainda remoção de toxinas (BOUWMEESTER et al., 2009;
GREINER, 2009; HANDFORD et al., 2014).

ADITIVOS ALIMENTÍCIOS

A utilização de certos nanomateriais como aditivos alimentares também tem sido objetivo de
estudo e de patentes para ganho de sabor, cor, propriedades reológicas, estabilidade durante
processamento e aumento da vida de prateleira dos produtos alimentícios (HANDFORD et al.,
2014). Nanopartículas de SiO2, TiO2 e Ag são empregadas, respectivamente, como agente
antiaglomerante, agente de revestimento e agente antimicrobiano. Uma das principais utilizações
envolve as nanopartículas de TiO2 em chocolates, queijos, iogurtes, refrigerantes, molhos de
saladas, entre outros. Corantes alimentícios também podem ser aplicados na escala nanométrica,
como, por exemplo, licopeno sintético em pó com granulometria de 100 nm para adição em
refrigerantes e outros produtos alimentares (GREINER, 2009; HANDFORD et al., 2014).

SISTEMA DE LIBERAÇÃO DE NUTRIENTES

Um dos maiores focos da nanotecnologia em alimentos são os sistemas de encapsulamento e


liberação controlada de nutrientes. Estes ocorrem geralmente por transportadores nanométricos, que
aumentam a absorção e a biodisponibilidade de substâncias bioativas e minerais no organismo
humano. As nanocápsulas tendem a proteger os nutrientes, aumentando a estabilidade destes frente
à umidade, ao oxigênio e as condições gástricas, carregando-os através do estômago até o intestino
delgado, sem perda significativa das substâncias (BOUWMEESTER et al., 2009; GREINER,
2009; ASSIS et al., 2012).
Diferentes parâmetros tendem a exercer influência na cinética de transporte de uma
nanocápsula. O aumento de temperatura é responsável pela liberação de substâncias de interesse,
por exemplo, na adição de água quente para preparo de bebidas quentes e sopas. A estabilidade em
pH ácido e a liberação de seu conteúdo mediante aumento do valor de pH consiste em uma forma
de administração controlada de substâncias para diferentes regiões do trato gastrointestinal
(GREINER, 2009).

32
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Uma gama de produtos baseados nessa técnica já está disponível no mercado para consumo
direto ou indireto. ASSIS et al., (2012) mencionam como produtos comerciais as nanocápsulas de
óleo de peixe (rico em ácido graxo ômega-3), de β-caroteno e de óleo de colza (carotenoides e
vitamina E). HANDFORD et al., (2014) relatam a nanoencapsulação de microrganismos
probióticos para incorporação em alimentos e bebidas, como leites fermentados, iogurtes, queijos,
entre outros. O benefício do consumo desses alimentos está atrelado ao aumento da microflora
intestinal e à consequente promoção da saúde gastrointestinal.
A empresa alemã Aquanova® desenvolveu um sistema de transporte baseado em
nanomicelas conhecido como NovaSOL®, que já foi aplicado para introduzir ácido benzoico, ácido
cítrico, ácido ascórbico, vitamina A e E, β-caroteno, luteína e ácido ômega-3 em alimentos e
bebidas. Outro sistema é o NanoClusterTM, usado em uma bebida em pó de chocolate, chamado de
Slim shake de chocolate, que afirma ser suficientemente doce sem açúcar ou adoçantes,
incorporando cacau em nanopartículas (GREINER, 2009).
As características sensoriais também podem ser modificadas através destes sistemas de
liberação. É possível, através da nanoencapsulação, reduzir a degradação de substâncias voláteis
durante processamento e armazenamento, garantindo a qualidade e aumentando a vida de prateleira
do produto; mascarar sabores e odores indesejados, prevenindo a interação entre as substâncias
bioativas e os receptores de sabor na superfície da mucosa oral; ou ainda garantir a dissolução das
nanocápsulas no contato com a água ou a saliva, providenciando um alto impacto de sabor do
produto (GREINER, 2009).
A Figura 4 resume as duas principais aplicações das nanoencapsulações, visando à qualidade
do produto final.

Figura 4. Ingestão de nanocápsulas e principais eventos relacionados à absorção de nutrientes.


Fonte: Arquivo Pessoal.

33
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

NOVAS FUNCIONALIDADES DAS EMBALAGENS ALIMENTÍCIAS

Representando a terceira maior indústria do mundo, com 2% do Produto Interno Bruto (PIB)
dos países desenvolvidos, as embalagens possuem importantes funções nos diversos setores da
economia, prova disso é a utilização dos níveis de produção de embalagens serem utilizado como
um indicador econômico. Na indústria de alimentos, sua importância não é diferente
(MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014). Segundo Azeredo (2012), a função de maior destaque é
a proteção, onde as propriedades de barreira contra fatores externos favorecerão o transporte e a
estocagem do produto final. Estes fatores compreendem desde a umidade, o oxigênio (O2) e o
dióxido de carbono (CO2) presentes no ar atmosférico, até microrganismos, partículas sólidas em
suspensão no ar, choques mecânicos e vibrações. Outras funções das embalagens incluem a
contenção de determinada quantidade do produto, favorecendo as etapas de comercialização e
utilização pelo consumidor; a transmissão de informações úteis sobre o produto, o que pode conferir
atração e identificação pelo consumidor; e a conveniência, garantindo facilidade e maior
aproveitamento para o consumo (GREINER, 2009; AZEREDO, 2012; MIHINDUKULASURIYA
& KIM, 2014).
Embalagens à base de vidro ou metal apresentam ótimas propriedades de barreira, porém as
embalagens plásticas são as mais empregadas atualmente devido à sua baixa massa, a formabilidade
e versatilidade e os baixos custos de produção (MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014). Este tipo
de embalagem possui intensa interação com o ambiente, facilitando a ocorrência dos fenômenos já
citados e afetando a segurança e qualidade do produto final. Uma forma de aperfeiçoamento para a
utilização destas embalagens é o emprego de nanocompósitos (BOUWMEESTER et al., 2009;
HANDFORD et al.,2014; DASGUPTA et al., 2015).
Os primeiros nanocompósitos poliméricos incorporaram nanopartículas de argila em sua
composição e apresentaram excelentes propriedades térmicas e mecânicas, estabilidade à umidade e
maior durabilidade. As aplicações deste tipo de embalagem ocorrem em alimentos de origem
animal, como carnes processadas, queijos e produtos lácteos, e cereais e doces (GREINER, 2009;
ASSIS et al., 2012).
Greiner (2009) cita ainda duas embalagens diferentes em seu trabalho de revisão. A
primeira, desenvolvida pela empresa alemã Bayer AG, é um filme composto de poliamida com
copolímero de polietileno vinil álcool (EVOH) com nanoargila. A Durethan® KU 2-2601
apresentava uma permeação de gás eumidade mais reduzida, além de reforço no brilho e rigidez. A
segunda, Imperm®, desenvolvido por Nanocor® Inc. (EUA), foi indicada para utilização em
camadas múltiplas nas garrafas de politereftalato de etileno (PET), minimizando a perda de CO 2 em
bebidas e aumentando o frescor e o prazo de validade. Estas ainda apresentavam maior leveza e
resistência mecânica que as de vidro.
MOURA et al., (2012) realizaram um experimento com filmes nanocompósitos de prata em
diferentes tamanhos nanométricos com hidroxipropilmetilcelulose e comprovou que os de menor
tamanho apresentavam maior proteção contra vapores de água, microorganismos como Escherichia
coli e Staphylococcus aureus, e boas propriedades mecânicas. Este trabalho ainda sinaliza para uma
das novas tendências, o uso de polímeros biodegradáveis como os derivados de celulose.
Outras duas tendências no setor de embalagens envolvem o desenvolvimento de embalagens
funcionais, ou seja, que apresentam propriedades adicionais em relação às embalagens tradicionais.
Estas duas inovações estão atreladas as funções de proteção e informação das embalagens.

34
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

EMBALAGENS ATIVAS

As embalagens “ativas” compreendem um grupo de nanocompósitos que prolongam o


tempo de vida e garantem as propriedades sensoriais e a segurança do alimento. O mecanismo de
atuação compreende a interação com o produto acondicionado, absorvendo compostos indesejáveis
e/ou liberando substâncias que favorecem o aumento da estabilidade (AZEREDO, 2012; MOURA
et al., 2012).
Filmes antimicrobianos, absorvedores de O2 ou de etileno, reguladores de umidade e
liberadores e/ou absorvedores de sabores e odores são alguns exemplos de embalagens ativas
(AZEREDO, 2012). A Figura 5 esquematiza o acréscimo de proteção a partir do uso de embalagens
ativas.

Figura 5. Esquema de atuação das embalagens ativas, adaptado de MIHINDUKULASURIYA &


KIM (2014).
ASSIS et al., (2012) citam o uso de substâncias bioativas encapsuladas na própria
embalagem como uma abordagem promissora, garantindo ainda uma liberação controlada e uma
maior estabilidade desses compostos. Nanopartículas de metais ou seus óxidos atuam também em
embalagens ativas. Como já mencionado anteriormente, as nanopartículas de prata têm potencial
antimicrobiano, sendo efetivos contra bactérias gram-positivas e gram-negativas
(MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014).
MOURA et al., (2012) e DAMM et al., (2008) também indicaram que filmes contendo
0,06% (m/m) de nanopartículas de prata eliminaram 100% das bactérias E. coli presentes, enquanto
que 1,9 % (m/m) de micropartículas eliminaram apenas 80%. Resultados similares foram obtidos
com nanopartículas de TiO2 com E. coli; nanopartículas de Ag e de argila com salada de frutas
frescas; e nanopartículas de ácidos benzoico e sórbico adicionados a quitosana em carnes
(MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014).
As nanopartículas de MgO2 e ZnO também apresentam alta eficiência na destruição de
microrganismos e, por serem mais baratas que as de prata, são mais utilizadas. Enquanto as
nanopartículas de SiO2 e TiO2 podem ser incorporadas para desenvolver uma embalagem ativa
absorvente de O2 e, por conseguinte, evitar a deterioração dos alimentos (GREINER, 2009;
DAGUPTA et al., 2015).

35
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

EMBALAGENS INTELIGENTES

Diferentemente das embalagens ativas, as embalagens “inteligentes” não apresentam relação


com a garantia de qualidade, mas com a informação das condições do alimento. Essas informações
são visualizadas pela resposta da interação do alimento com indicadores ou sensores através de
reações químicas. Esta resposta pode ser uma alteração de cor ou um sinal elétrico.
É possível comunicar o histórico de tempo/temperatura, o teor de O2 e CO2, a presença de
toxinas ou patógenos específicos, a detecção de vazamentos, entre outras informações (GREINER,
2009; VEIGA-SANTOS et al., 2011; AZEREDO, 2012). A Figura 6 ilustra a atuação das
embalagens inteligentes.

Figura 6. Esquema de atuação das embalagens inteligentes, adaptado de


MIHINDUKULASURIYA & KIM (2014).

Os indicadores são substâncias que irão reagir quimicamente com o alimento e indicar a
informação desejada visualmente (AZEREDO, 2012). Contrariando os indicadores, os sensores são
pequenos dispositivos combinados a um componente biológico que interage com o substrato alvo,
através de reações químicas e biológicas, e a um transdutor de sinais; este converte os processos de
biorreconhecimento em sinais amplificados e mensuráveis. O transdutor age como uma interface,
transformando a energia da reação em massa, carga, calor ou luz. Esse sinal é captado por um
detector que filtra, amplifica e transfere para um dispositivo de coleta das informações (GOMES et
al., 2015).
Um exemplo do uso de indicadores é a utilização de nanopartículas de TiO2 como variante
do indicador de oxigênio. Para tal fim, são necessários ainda a presença de um corante com
propriedades de redução e oxidação (redox) e um fonte doadora de elétrons. Todos estes
componentes são encapsulados em um transportador polimérico e a detecção ocorre por um
mecanismo em cadeia, exemplificado na Figura 7.

36
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Figura 7. Mecanismo de alteração de cor em função da concentração de O2 no meio


(MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014).

Inicialmente, ocorre a excitação dos elétrons de valência do indicador para uma banda de
condução, pela ação da radiação ultravioleta (1 e 2). A fonte doadora de elétrons, neste caso o
glicerol, doa elétrons para a banda de valência do indicador, favorecendo com que os elétrons
excitados participem de uma reação redox com o corante (3). A etapa de redução do corante, por
exemplo azul de metileno (AM), garante uma coloração incolor ao mesmo (4). A medida que o
meio aumente a concentração de O2, o corante tende a ser oxidado novamente (5), apresentando
uma coloração azul cada vez mais intensa (MIHINDUKULASURIYA & KIM, 2014).
Veiga-Santos e colaboradores (2011) desenvolveram filmes biodegradáveis a partir de
amido de mandioca, abundante e de baixo custo, com adição de extratos de uva e espinafre como
indicadores de pH. Os resultados do trabalho indicaram que houve influência nas propriedades
mecânicas e de barreira contra umidade do filme pela adição destes extratos, sendo os filmes com
extrato de uva aqueles com maior variação de coloração em diferentes pH’s e, portanto, maior
efetividade como indicador de degradação de alimentos.
Assim como os indicadores, a tecnologia de nanossensores é uma ferramenta valiosíssima
para a obtenção de informações sobre contaminantes microbianos ou ainda substâncias alergênicas,
devido à alta especificidade e confiabilidade. Pilolli e colaboradores (2013) ressaltam a importância
do uso de biossensores para o controle da presença de alergênicos em alimentos, o que seria uma
estratégia para solucionar este problema de saúde pública que vem ganhando cada vez mais
destaque, devido à necessidade do consumidor evitar totalmente alimentos contendo certos
alergênicos em qualquer quantidade.

37
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Outra possível aplicação dos nanossensores é o rastreamento geográfico, o que permitiria o


consumidor ter a informação da procedência do alimento. Segundo Greiner (2009), este tipo de
serviço age como a tecnologia de códigos de barra eletrônicos, porém as etiquetas de Identificação
por Radio Frequência (Radio Frequency Identification – RFID) não precisam de uma linha de visão
para leitura, podendo ser obtido diversas informações. O autor ainda cita que empresas do varejo,
como a Wallmart (EUA), grupo Metro (Alemanha) e Tesco (Reino Unido), já testaram esta
tecnologia até o ano de 2006.

RELAÇÃO COM O CONSUMIDOR

A nanotecnologia passa por um momento crucial para consolidação no mercado industrial.


Como já foram vistos, diversas aplicações são possíveis a partir da nanotecnologia e, segundo uma
edição do jornal popular JORNAL DO BRASIL (2015), existem atualmente cerca de 100 micro e
pequenas empresas no Brasil atuando no desenvolvimento de produtos e novos materiais. Para isso,
faz-se necessário romper a resistência ainda existente por parte dos consumidores.
Um artigo científico elaborado por SILVA et al., (2012) enfatiza os impactos sociais da
nanotecnologia. Existe uma preocupação natural por parte dos consumidores, principalmente no uso
como ingredientes alimentares; uma promoção da nanotecnologia, tendo como ênfase o reforço da
imagem positiva e do poder transformador; e uma intensa batalha entre os difusores tecnológicos,
os “nanotradutores”, e os opositores da tecnologia, os “nanodescontrutivistas”. Eles citam ainda que
os nanoalimentos estarão focados fortemente no apelo à saúde e à segurança alimentar e julgam
esse apelo como um paradoxo devido ao vácuo de conhecimento sobre aspectos da nanotecnologia,
como os seus efeitos toxicológicos.
É necessário, portanto, um aumento da disponibilização de informações para a população
em geral, favorecendo com que as pessoas tenham condições de julgar o uso ou a rejeição da
nanotecnologia em alimentos. DUDO et al., (2010) investigaram a evolução de notícias
apresentadas em 21 jornais diários de diferentes regiões dos Estados Unidos. Segundo o artigo,
houve um aumento crescente das matérias jornalísticas sobre o tema “nanotecnologia em alimentos”
desde 1996 até o ano de 2006, alcançando mais de 40 notícias sobre nanotecnologia e tendo como
foco principalmente a qualidade e a segurança dos alimentos e os benefícios em detrimento dos
riscos. O mesmo aumento de publicações também foi observado por HANDFORD et al., (2014) na
base de dados Scopus, com mais de 200 artigos em alimentos em 2013, porém com baixa
representatividade (em torno de 2% do total de publicações sobre nanotecnologia).
HANDFORD et al., (2015) divulgaram ainda uma pesquisa com profissionais da área de
alimentos da Irlanda do Norte e da Irlanda, onde 82% dos entrevistados ouviram falar da
nanotecnologia, porém apenas 3% disseram conhecer muito sobre o tema. Houve a correlação do
tema com diversas possibilidades de aplicação, como embalagens, liberação de nutrientes,
segurança alimentar, equipamentos de processamento, entre outros, porém 88% afirmaram não usar
a nanotecnologia atualmente e 23% afirmaram que a nanotecnologia não teria uso em suas
produções (Figuras 8 e 9). Quanto aos benefícios e riscos, foi observado que a falta de informações
bem definidas levou a uma divisão de opiniões e de uma alta taxa de profissionais sem saber
responder ao questionamento (Figura 10).

38
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Figura 8. Respostas sobre possíveis aplicações da nanotecnologia (HANDFORD et al., 2015).

Figura 9. Respostas sobre oportunidades para nanotecnologia (HANDFORD et al., 2015).

Peso de Benefícios e Riscos do Uso da Nanotecnologia

Benefícios
17%
Riscos
14%
59% Peso Igual
10%
Não Souberam
Responder

Figura 10. Disparidade na opinião sobre benefícios e riscos do uso da nanotecnologia


(HANDFORD et al., 2015).
39
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Outro artigo, escrito por ENGELMANN et al., (2013), enfatiza a ausência e a necessidade
de um marco regulatório, delimitando a elevada projeção em âmbito industrial e comercial da
nanotecnologia devido aos seus altos rendimentos. Também é destacado o momento desafiador para
os profissionais da área de Direito, visto que há a necessidade do conhecimento multidisciplinar da
gestão dos riscos nanotecnológicos. Um grande avanço alcançado pelo Brasil foi relatado pelo
PORTAL BRASIL (2015): a adesão do Brasil ao NanoReg, um projeto de regulamentação
internacional da nanotecnologia, envolvendo 64 instituições e 16 países europeus, além de
Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão.

PERSPECTIVAS

A consolidação da nanotecnologia como uma ferramenta para a garantia de novos produtos


com maior segurança e qualidade alimentar dependerá do investimento contínuo em pesquisas.
Estudos de viabilidade econômica, aceitação do consumidor e toxicidade de nanomateriais e
produtos baseados em nanotecnologia englobam a tendência para os próximos anos (AZEREDO,
2012).
Entre os estudos citados, os aspectos toxicológicos se destacam devido à série de possíveis
fatores que podem implicar na liberação ou proibição do uso de um nanomaterial. É importante
ressaltar que para cada tipo de alimento contendo nanomateriais uma indicação de probabilidade de
exposição do consumidor é dada, o que confere um destaque para a relação nanopartícula-matriz
(BOUWMEESTER, 2009). Segundo AZEREDO (2012), as nanopartículas podem induzir danos
celulares, inflamações pulmonares e doenças vasculares.
Portanto, estudos que envolvam a neurotoxicidade, reprotoxicidade, mutagênese e
alergenicidade são de extrema importância na atual fase da nanotecnologia, assim como o
desenvolvimento de métodos analíticos para detecção e caracterização de nanopartículas em
matrizes alimentares (BOUWMEESTER, 2009). Todos esses dados influenciarão a construção dos
regulamentos anteriormente já destacados neste trabalho e que garantirão a proteção dos
consumidores à exposição involuntária aos riscos.
Outra perspectiva futura é o desenvolvimento de novas aplicações para os nanomateriais.
Foram encontrados alguns projetos sobre nanotecnologia desenvolvidos pela Embrapa, entre eles: a
degradação de pesticidas em águas (PORTAL EMBRAPA, 2015a); a fabricação a laser de sensores
químicos do tipo língua eletrônica (PORTAL EMBRAPA, 2015b); e a nanotecnologia aplicada ao
agronegócio (PORTAL EMBRAPA, 2015c). O número de projetos tende a aumentar nos mais
diversos centros de pesquisa do país e do mundo.

CONCLUSÕES

O potencial atual e futuro da nanotecnologia são indiscutíveis. Diversas melhorias foram


alcançadas e comprovadas através do seu uso e outros grandes avanços ainda serão conquistados. A
caracterização e a formulação de novos produtos para aplicações distintas a partir de nanopartículas
de argila, de prata e de dióxido de titânio, por exemplo, ainda devem garantir nos próximos anos
inúmeras conquistas. Porém, a busca de novos nanomateriais não pode ser descartada bem como o
emprego de diferentes polímeros biodegradáveis, como os resíduos agroindustriais, para a obtenção
de nanocompósitos.

40
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

Portanto, é importante destacar que o uso da nanotecnologia pode também minimizar os


prejuízos ambientais provocados pelo ser humano ao longo dos últimos séculos, ampliando técnicas
mais sustentáveis para cultivo, processamento e obtenção de alimentos. Sem dúvidas, a
nanotecnologia pode contribuir para o desenvolvimento das futuras gerações, sendo necessários
maiores esforços para a definição dos aspectos toxicológicos dos nanomateriais e das
regulamentações de caráter internacional.

AGRADECIMENTOS

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio


financeiro concedido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANKITA, K.; VIDYA, K. S. Solar light induced photocatalytic degradation of Reactive Blue 220 (RB-220) dye with
highly efficient Ag@TiO2 core–shell nanoparticles: A comparison with UV photocatalysis. Solar Energy, v.99, p.67–
76, 2014.

ASSIS, L. M.; ZAVAREZE, E. R.; PRENTICE-HERNÁNDEZ, C.; SOUZA-SOARES, L. A. Características de


Nanopartículas e Potenciais Aplicações em Alimentos. Brazilian Journal of Food Technology, v.15, n.2, p.99-109,
abr-jun 2012.

AZEREDO, H. M. C. Fundamentos de Estabilidade de Alimentos. 2 ed. rev. e ampl. Brasília: Embrapa. 2012. 326 p.

BOUWMEESTER, H.; DEKKERS, S.; NOORDAM, M. Y.; HAGENS, W. I.; BULDER, A. S.; DE HEER, C.; TEN
VOORDE, S. E. C. G.; WIJNHOVEN, S. W. P.; MARVIN, H. J. P.; SIPS, A. J. A. M. Review of Health Safety
Aspects of Nanotechnology in Food Production. Regulatory Toxicology and Pharmacology, v.53, p.52-62, 2009.

CAI, D.; WU, Z.; JIANG, J.; WU, Y.; FENG, H.; BROWN, I.G.; et al. Controlling nitrogen migration through micro–
nano networks. Scientific Reports, v.14: 3665, p. 1-8, 2014.

CHELLARAM, C.; MURUGABOOPATHI, G.; JOHN, A.A.; SIVAKUMAR, R.; GANESAN, S.; KRITHIKA, S.;
PRIYA, G. Significance of Nanotechonology in Food Industry. APCBEE Procedia, v.8, p.109-113, 2014.

DAMM, C.; MUNSTEDT, H.; ROSCH, A. The antimicrobial efficacy of polyamide 6/silver-nano and
microcomposites. Materials Chemistry and Physics, v.108, p.61-66, 2008.

DASGUPTA, N.; RANJAN, S.; MUNDEKKAD, D.; RAMALINGAM, C.; SHANKER, R.; KUMAR, A.
Nanotechnology in Agro-food: From Field to Plate. Food Research International, v.69, p.381-400, 2015.

DUDO, A.; CHOI, D.; SCHEUFELE, D. A. Food Nanotechnology in the News. Coverage Patterns and Thematic
Emphases during the Last Decade. Appetite, v.56, p.78-89, 2011.

ENGELMANN, W.; ALDROVANDI, A.; FILHO, A. G. B. Perspectivas para Regulação das Nanotecnologias
Aplicadas a Alimentos e Biocombustíveis. Vigilância Sanitária em Debate, v.1, n.4, p.115-127, 2013.

GOMES, R. C.; PASTORE, V. A. A.; MARTINS, O. A.; BIONDI, G. F. Aplicações da Nanotecnologia na Indústria de
Alimentos. Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal, v.9, n.1, p.1-8, 2015.

41
Perspectivas da Ciência e Tecnologia, v.7, n. 2, (2015)

GREINER, R. Current and Projected Applications of Nanotechnology in the Food Sector. Nutrire, v.34, n.1, p.243-
260, abril 2009.

HANDFORD, C. E.; DEAN, M.; HENCHION, M.; SPENCE, M.; ELLIOTT, C. T.; CAMPBELL, K. Implications of
Nanotechnology for the Agri-Food Industry: Opportunities, Benefits and Risks. Trends in Food Science and
Technology, v.40, p.226-241, 2014.

HANDFORD, C. E.; DEAN, M.; SPENCE, M.; HENCHION, M.; ELLIOTT, C. T.; CAMPBELL, K. Awareness and
Attitudes Towards the Emerging Use of Nanotechnology in the Agri-Food Sector. Food Control, v.57, p.24-34, 2015.

JORNAL DO BRASIL. Nanotecnologia ganha espaço nas Micro e Pequenas Empresas Brasileiras. Disponível em:
<http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2015/06/06/nanotecnologia-ganha-espaco-nas-micro-e-pequenas-
empresas-brasileiras/>. Acesso em 13 de junho de 2015.

MANZER, H. S.; MOHAMED, H. A. W. Role of nano-SiO2 in germination of tomato (Lycopersicum esculentum


seeds Mill.). Saudi Journal of Biological Sciences, v.21, p.13–17, 2014.

MIHINDUKULASURIYA, S. D. F.; LIM, T.F. Nanotechnology Development in Food Packaging: A Review. Trends
in Food Science and Technology, v.40, p.149-167, 2014.

MOURA, M. R.; MATTOSO, L. H. C.; ZUCOLOTTO, V. Development of Cellulose-Based Bactericidal


Nanocomposites containing Silver Nanoparticles and their Use as Active Food Packaging. Journal of Food
Engineering, v.109, p.520-524, 2012.

PILOLLI, R.; MONACI, L.; VISCONTI, A. Advances in Biosensor Development Based on Integrating
Nanotechnology and Applied to Food-Allergen Management. Trends in Analytical Chemistry, v.47, p.12-26, 2013;

PORTAL BRASIL. Comitê de Nanotecnologia aprova adesão do Brasil ao NanoReg. (2015). Disponível em:
<http://www.brasil.gov.br/ciencia-e-tecnologia/2014/08/comite-de-nanotecnologia-aprova-adesao-do-brasil-ao-
nanoreg>. Acesso em 13 de junho de 2015.

PORTAL EMBRAPA. Projetos – Nanotecnologia Aplicada à Degradação de Pesticidas em Água. (2015a). Disponível
em: <https://www.embrapa.br/busca-de-projetos/-/projeto/202008/nanotecnologia-aplicada-a-degradacao-de-pesticidas-
em-agua>. Acesso em 13 de junho de 2015.

PORTAL EMBRAPA. Projetos – Fabricação a Laser de Microeletrodos da Língua Eletrônica para Avaliação da
Qualidade de Alimentos. (2015b). Disponível em: <https://www.embrapa.br/busca-de-projetos/-
/projeto/202005/fabricacao-a-laser-de-microeletrodos-da-lingua-eletronica-para-avaliacao-da-qualidade-de-alimentos>.
Acesso em 13 de junho de 2015.

PORTAL EMBRAPA. Projetos – Nanotecnologia Aplicada ao Agronegócio. (2015c). Disponível em:


<https://www.embrapa.br/busca-de-projetos/-/projeto/38194/nanotecnologia-aplicada-ao-agronegocio>. Acesso em 13
de junho de 2015.

SIGMA-ALDRICH. Silver nanoparticles. Disponível em: <http://www.sigmaaldrich.com/materials-


science/nanomaterials/silver-nanoparticles.html>. Acesso em 13 de junho de 2015.

SILVA, T. E. M.; PREMEBIDA, A.; CALAZANS, D. Nanotecnologia Aplicada aos Alimentos e Biocombustíveis:
Interações Sociotécnicas e Impactos Sociais. Liinc em Revista, v.8, n.1, p.207-221, março 2012.

VEIGA-SANTOS, P.; DITCHFIELD, C.; TADINI, C. C. Development and Evaluation of a Novel pH Indicator.
Biodegradable Film Based on Cassava Starch. Journal of Applied Polymer Science, v.120, p.1069-1079, 2011.

42

View publication stats

Você também pode gostar