Generos Jornalisticos - Do A Questao - Jorge Lellis Medina
Generos Jornalisticos - Do A Questao - Jorge Lellis Medina
Generos Jornalisticos - Do A Questao - Jorge Lellis Medina
appear, grow, change and disappear according to the technological and cultural development of each nation and each journalistic enterprise. In this article, we carry out a literature review on the concepts of genre, discourse and discursive genres from Plato to Mikhail Bakhtin, as well as Derrida and Jos Marques de Melo. Key words: journalistic genres, printed media, journalism A questo dos gneros Classificar gneros j era uma atividade na Grcia antiga, onde Plato props uma classificao binria, entre gnero srio, que inclua a epopia e a tragdia, e gnero burlesco, do qual faziam parte a comdia e a stira. Posteriormente, o prprio Plato realizou uma nova classificao, agora em trs modalidades, baseada na variao das relaes entre literatura e realidade, luz do conceito de mimesis, ou seja, da imitao: gnero mimtico ou dramtico (tragdia e comdia); gnero expositivo ou narrativo (ditirambo, nomo, poesia lrica); e gnero misto, constitudo pela associao das duas classificaes anteriores (epopia). Com isso, Plato lanou o fundamento da tripartida dos gneros literrios. Gnero vm da raiz da palavra gen, da qual provm o verbo latino gigno. Este conexiona a forma, igualmente latina, genus quer com a idia de sexo (de onde o gnero gramatical), quer com a de estirpe ou de linhagem, como princpio de classificao: temos assim, entre os usos literrios das palavras, genus scribendi estilo, e os genera literrios, agrupamentos comparveis aos da cincia, onde subsiste tambm uma diferena de generalizao (genus, por oposio a species). (ENCICLOPDIA, 1989, p. 72). Para GREIMAS (1979, p. 202):
O gnero designa uma classe de discursos, reconhecvel graas a critrios de natureza socioletal. Estes podem provir quer de uma classificao implcita que repousa, nas sociedades de tradio oral, sobre a categorizao particular do mundo, quer de uma teoria dos gneros que, para muitas sociedades, se apresenta sob a forma de uma
s se revela no drama romntico mas tambm em outras formas literrias, como no romance. Um outro exemplo desse hibridismo a tragicomdia, que foi uma das maiores manifestaes da literatura barroca espanhola. Com isso, podemos concluir que no existe pureza dos gneros, pois todo texto participa em um ou em vrios gneros. Sempre haver um gnero ou vrios gneros em uma determinada obra. Para o pensador russo BAKHTIN (1997):
gnero uma fora aglutinadora e estabilizadora dentro de uma determinada linguagem, um certo modo de organizar idias, meios e recursos expressivos, suficientemente estratificado numa cultura, de modo a garantir a comunicabilidade dos produtos e a continuidade dessa forma junto s comunidades futuras. Num certo sentido, o gnero que orienta todo o uso da linguagem no mbito de um determinado meio, pois nele que se manifestam as tendncias expressivas mais estveis e mais organizadas da evoluo de um meio, acumuladas ao longo de vrias geraes de enunciadores.
Plato, sem dvida nenhuma, foi o primeiro cientista a estudar os gneros, alm de definir que todos os textos literrios so uma narrativa de acontecimentos, sejam eles passados, presentes ou futuros. Desde a poca antiga, uma questo que sempre esteve em debate at os dias de hoje a mistura destes gneros, que o prprio Plato, na sua classificao tridica, definiu como gneros mistos, ou seja, a mistura das suas duas classificaes anteriores: mimtico ou dramtico e expositivo ou narrativo. Saltando para uma poca mais recente sobre os estudos de gneros, Jacques Derrida, um dos principais pensadores contemporneos, no seu trabalho sobre a lei do gnero, brinca afirmando que os gneros no podem ser misturados. Para ele, os gneros no devem ser misturados, como um voto de obedincia, como um voto de compromisso e fidelidade, sendo assim fiel lei do gnero, ou seja, lei da pureza (DERRIDA, 1980). Em seguida, ele desmente essa afirmao, ao falar que a lei do gnero, a lei da pureza, impossvel de ser praticada. Para ele, impossvel no misturar os gneros. Pode-se falar, ento, segundo Derrida, de uma lei da lei do gnero: a lei da impureza, que precisamente o princpio da contaminao. Para ele, o grande enigma dos gneros trabalhar com os seus limites: at que ponto um gnero no pode ser contaminado por um outro gnero? a questo que ele nos sugere. Na literatura, o gnero drama, por exemplo, participa dos caracteres da tragdia e da comdia, da ode e da epopia. Esse hibridismo no
Os gneros discursivos Como o nosso estudo ficar centrado nos gneros jornalsticos os gneros discursivos que aqui nos interessa , iremos apresentar algumas definies sobre discurso. Os dicionrios apresentam dois significados principais para o discurso: um de exposio de um determinado assunto, escrito ou proferido em pblico; o outro o ato de discorrer, ato de comunicao lingistica. Entendemos como comunicao lingistica o ato da palavra e o uso da lngua. Ouamos Bakhtin:
As diversas esferas da atividade humana esto relacionadas com o uso da lngua, e este uso, nas formas de enunciados, sejam eles orais ou escritos. Os enunciados refletem as condies especficas e o objeto de cada uma destas esferas, no s pelo seu contedo e pelo seu estilo verbal, ou seja, pela seleo dos recursos lxicos e gramaticais da lngua, mas sim, antes de tudo, pela sua composio ou estruturao. O contedo temtico, o estilo e a composio esto vinculados na totalidade do enunciado e se determina pela especificidade de uma esfera dada de comunicao. Cada enunciado se-
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parado individual, mas cada esfera do uso da lngua elabora seus tipos estveis de enunciado, que so gneros discursivos. Assim, a lngua participa da vida atravs dos enunciados concretos que os realizam, como a vida participa da linguagem atravs dos enunciados (BAKHTIN, 1997).
O discurso um processo e produto da interao verbal e o enunciado, sua unidade real, pois, segundo Bakhtin, a enunciao o produto da interao de dois sujeitos socialmente organizados. O discurso se molda forma do enunciado (unidade real de comunicao verbal), que pertence a um sujeito falante e no pode existir fora dessa forma. Ento, o discurso pode ser entendido como uma linguagem em funcionamento numa determinada situao ou um processo de produo de significao, sendo a lngua o instrumento dessa produo. Para se manifestar, o discurso usa o texto, que podemos definir como toda e qualquer manifestao da capacidade humana, realizada mediante um sistema de signos. Pode ser tanto um poema ou uma conversa, quanto uma pintura ou uma escultura. Bakhtin ressalta que atravs do texto que a histria do pensamento, orientada para o pensamento, o sentido e o significado do outro se manifestam e se apresentam. Texto modalidade composicional, produto comunicativo, unidade de informao vinculado vida interativa. Gneros so articulaes discursivas que organizam e definem a textualidade. Os gneros so inconcebveis fora do texto; sem os gneros, o texto se esfarela (MACHADO, 1999). O texto a manifestao do discurso por meio de um plano de expresso. Bakhtin nos informa ainda que, para haver a comunicao verbal, o sujeito tem sua disposio uma imensa variedade de gneros discursivos e ele elege uma das formas dos enunciados em funo do objeto que est diretamente ligado esfera discursiva, seja pelo tema, seja pela situao de comunicao ou ainda pela orientao do locutor consigo mesmo e com o outro. Em outras palavras, o sujeito aprende a falar utilizando os gneros do enunciado. Os gneros discursivos so canais de transmisso entre a histria e a sociedade e a histria da
lngua. Nem um s fenmeno novo (fontico, lxico ou gramatical) pode ser includo no sistema da lngua sem passar por uma larga e complexa via de prova de elaborao genrica, ensina Bakhtin. Para ele, o estudo da natureza do enunciado e dos gneros discursivos tem uma importncia fundamental para ultrapassar as noes simplificadas sobre a vida discursiva da chamada corrente do discurso e sobre a comunicao discursiva, que permitir compreender, de maneira mais correta, a natureza das unidades da lngua como sistema (as palavras e as oraes). Gneros miditicos Definir gneros nas mdias e, mais especificamente, no jornalismo impresso no uma tarefa fcil. Vejamos a opinio do professor Jos Marques Melo sobre o assunto: classificar gneros jornalsticos o maior desafio do jornalismo, como campo do conhecimento, , sem dvida, a configurao da sua identidade enquanto objeto cientfico e o alcance da autonomia jornalstica que passa inevitavelmente pela sistematizao dos processos sociais inerentes captao, registro e difuso da informao da atualidade, ou seja, do seu discurso manifesto. Dos escritos, sons e imagens que representam e reproduzem a atualidade, tornandose indiretamente perceptvel (MELO, 1985). A questo dos gneros jornalsticos assume um papel importante para a compreenso dos diferentes discursos produzidos pelos meios de comunicao de massa, pois a preocupao em defini-los tem sido uma inquietao constante entre os estudiosos norte-americanos, europeus e latino-americanos. No seu conhecido estudo sobre os gneros jornalsticos, A opinio no jornalismo brasileiro, Jos Marques Melo faz uma compilao concepo de vrios estudiosos sobre o que seriam os gneros jornalsticos. Para estudiosos como Juan GARGUREVICH (1982), por exemplo, os gneros jornalsticos so formas que os jornalistas buscam para se expressar. Seus traos definidores esto, portanto, no estilo, no manejo da lngua. Para ele, trata-se de formas jornalstico-literrias, porque o seu objetivo o relato da informao e no
Cincias, Humanidades e Letras necessariamente o prazer esttico. J Emil DOVIFAT afirma que os gneros jornalsticos so formas de expresso jornalsticas que se definem pelo estilo e assumem expresso prpria pela obrigao de tornar a leitura interessante e motivadora. Entretanto FOLLIET acredita que so formas utilitrias, pois as diferenas entre os gneros surgem justamente da correspondncia dos textos que os jornalistas escrevem em relao s inclinaes e aos gostos do pblico. Ou seja, a essncia do estilo jornalstico estaria na tentativa de fazer o relato do cotidiano, utilizando uma linguagem capaz de estar sintonizada com o que Gonzalo Martin Vivaldi chama de linguagem de vida e que pressupe o uso de todos os recursos expressivos e vitais, prprios e adequados para expressar a variadssima gama do acontecer dirio. GARGUREVICH (1982), no livro Gneros periodsticos, traz-nos, outra vez, uma preciosa reviso de conceitos de alguns pesquisadores do jornalismo sobre gneros jornalsticos, como, por exemplo, Maria Jlia Sierra, que faz uma distino entre jornalismo noticioso e jornalismo literrio. No primeiro grupo, so classificadas as crnicas, as colunas, as entrevistas, as reportagem, o editorial, o artculo e a notcia. No segundo grupo, esto os ensaios, as biografias, os contos e as histrias verdicas ou conto da vida real. J o estudioso John Hohenberg classifica os gneros da seguinte maneira: notcia bsica (a que concede a virtude da objetividade), notcia de interesse humano, entrevista, biografia popular, notcia interpretativa (subjetividade), reportagem especializada, colunas, reportagem investigativa e reportagem de campanha). Johnson Harris, por sua vez, divide os gneros em notcias correntes, crnicas especiais, nota de interesse humano, notcias sociais (englobando pessoas, notas breves, entretenimento e coluna social), ilustraes (fotografia, caricaturas, mapas e diagramas) e editoriais. Depois de resgatar o trabalho de vrios pesquisadores, Gargurevich encerra o seu prprio trabalho, propondo a seguinte descrio: nota informativa, entrevista, crnica, reportagem, grficos (fotos, caricaturas, mapas, tiras cmicas), os quais ele considera como sendo os mais importantes. Em seguida, vm as colunas, os artculos, os testemunhos, as resenhas, a crtica, a polmica ou debate, as campanhas, a titulao e os folhetins. O autor observa que no uma classificao fechada e que vrios textos combinam vrios gneros dependendo do talento do redator. A reviso de todos esses trabalhos nos permite aqui propor que, no jornalismo, o gnero de base a notcia (o relato puro dos acontecimentos). Os pesquisadores ARMAANZAS e NOCI apud MELO (1998) afir mam que os gneros jornalsticos ficaram mais evidentes a partir do sculo XIX, quando a notcia, com informaes sobre os principais acontecimentos daquela poca, consolidou-se como o gnero jornalstico por excelncia. A produo da notcia um processo que se inicia com um acontecimento. o sujeito observador que d sentido ao acontecimento. Os acontecimentos estariam formados por aqueles elementos exteriores ao sujeito a partir dos quais ele mesmo vai recorrer e construir o acontecimento (ALSINA, 1993, p. 81). Como escreve Rodrigues (1988), o acontecimento constitui o referente de que se fala. Lemos a notcia acreditando que elas so um ndice do real; lemos as notcias acreditando que os profissionais do campo jornalstico no iro transgredir a fronteira que separa o real da fico. E a existncia de um acordo de cavalheiros entre jornalistas e leitores pelo respeito dessa fronteira que torna possvel a leitura das notcias enquanto ndice do real. LAGE apud HENN, (1994, p. 27), em seu livro Ideologia e tcnica da notcia, agrupou algumas definies de notcia, entre as quais destacamos: notcia uma copilao de fatos e eventos de interesse ou importncia para os leitores do jornal que publica; tudo que o pblico necessita saber, tudo aquilo que o pblico deseja falar, quanto mais comentrios suscite, maior o valor. a inteligncia exata e oportuna dos acontecimentos que interessa aos leitores; fatos essenciais de tudo que aconteceu ou idia que tem interesse humano; informao atual, verdadeira, carregada de interesse humano e capaz de despertar a ateno e a curiosi-
Revista SymposiuM dade de grande nmero de pessoas. Voltemos, neste ponto, aos gneros para concluir com Marques Melo que:
Se os gneros so determinados pelo estilo e se este depende de uma relao dialgica que o jornalista deve manter com o seu pblico, apreendendo seus modos de expresso (linguagem) e suas expectativas (temticas), evidente que a sua classificao restringe-se a universos culturais delimitados. Por mais que as empresas jornalsticas assumam hoje uma dimenso transnacional em sua estrutura operativa, permanecem contudo as especificidades nacionais ou regionais que ordenam o processo de recodificao das mensagens importadas. Tais especificidades no excluem as articulaes interculturais que muitas vezes subsistem atravs das lnguas e so prolongamentos do colonialismo (MELO, 1985).
sempre a transformao de um ou vrios gneros velhos. Cada trabalho novo dentro de um gnero tem o potencial para influenciar mudanas dentro do gnero ou talvez o aparecimento de subgneros novos, que podem florescer depois em gneros crescidos. (CHANDLER, 1997)
TOMASHEVSKY apud CHANDLER (1997) afirma que nenhuma classificao lgica de gneros possvel. A demarcao dela sempre histrica, quer dizer, s vale para um momento especfico da histria. Alguns gneros s so definidos retroativamente e no so reconhecidos como tal pelos produtores originais. Gneros precisam ser estudados, sobretudo, como um fenmeno histrico. Gneros atuais passam por fases ou ciclos de popularidade, como o ciclo de filmes de desastre nos anos setenta. Sem perder a histria de vista, MELO (1985) faz uma reviso de literatura sobre as classificaes dos gneros jornalsticos em vrios pases europeus, alm das classificaes norteamericana, hispano-americana e brasileira. Em relao a classificao brasileira, o autor nos informa que o nico pesquisador a se preocupar com o assunto foi Luiz Beltro, que classificou os gneros jornalsticos em trs categorias (informativo, interpretativo e opinativo), com as funes de informar, explicar e orientar o pblico leitor. Para Melo, Luiz Beltro no se ateve natureza de cada um (estilo/estrutura, narrativa/tcnica de codificao), mas obedeceu ao senso comum que rege a prpria atividade profissional, estabelecendo limites e distines entre as matrias.
Existem muitos gneros nos meios de comunicao de massa. Esse nmero depende da complexidade e diversidade da sociedade. Para uma sociedade, uma coisa pode ser um gnero e, para outra, um subgnero ou ainda, para uma terceira, poder ser supergnero. O mesmo texto pode pertencer a gneros diferentes em pases e tempos tambm diferentes No cinema, por exemplo, alguns gneros esto baseados em contedos de histria (o filme de guerra), outro obtido emprestado de literatura (comdia, melodrama) ou de outras mdia (o musical). Enquanto outros esto baseados em estado artstico (o filme de arte), identidade racial (cinema afro), localizao (o ocidental) ou orientao sexual. Conclumos que os gneros so determinados pelo modo de produo jornalstica e por manifestaes culturais de cada sociedade. Determinar uma classificao universal impossvel, uma vez que esto sempre em mudana, o que se pode fazer adapt-la da melhor forma possvel para cada comunidade. (STAM apud CHANDLER, 1997). Os gneros e as relaes entre eles mudam com o passar do tempo. Gneros novos e subgneros emergem e outros desaparecem, enquanto outros permanecem duradouros. TODOROV nos informa que um gnero novo
Convencido de que impossvel fazer uma classificao universal, j que os gneros so determinados pelos modos de produo dos jornalistas e tm uma identificao com a questo cultural de cada nao, MELO prope uma classificao dos gneros jornalsticos brasileiros. Essa sua nova classificao obedece a dois critrios. Primeiramente, ele agrupa os gneros em categorias que correspondem intencionalidade determinante dos relatos, nas quais podem ser identificadas duas vertentes: 1) a reproduo do real, atravs da qual o jornalista comunica os fatos noticiosos (jornalismo informativo), o que significa descrev-los jornalisticamente a partir de dois parmetros o atual e o novo, ou seja, a observao da realidade e a descrio do que apreensvel instituio
Cincias, Humanidades e Letras jornalstica; 2) leitura do real (jornalismo opinativo), que significa identificar o valor do atual e do novo na conjuntura que nutre e transforma os processos jornalsticos, ou seja, a anlise da realidade e a sua avaliao dentro dos padres jornalsticos, ou em outras palavras, a verso dos fatos construda por meio de argumentaes, em favor de determinadas idias e valores. O segundo critrio usado por MELO para descrever os gneros jornalsticos busca identifica-los a partir da natureza estrutural dos relatos observveis nos processos jornalsticos. No se referindo apenas estrutura do texto ou das imagens e sons que representam e reproduzem a realidade, e sim, articulao que existe do ponto de vista processual entre os acontecimentos (real), sua expresso jornalstica (relato) e a apreenso pela coletividade (leitura). Partindo dessas premissas, o autor props a sua classificao: gneros informativos (nota, notcia, reportagem e entrevista) e gneros opinativos (editorial, comentrio, artigo, resenha/crtica, coluna, crnica, caricatura e carta). Um problema, no entanto, que podemos identificar na classificao de MELO a questo do real, o que ele considera real. O que reproduzir e ler o real para os leitores. Ser que o jornalista quando est perto do real, para apreend-lo, no modifica de uma forma ou de outra esse real quando passa para os seus leitores? Podemos afirmar que existe objetividade jornalstica? No existe interferncia do profissional de imprensa no retratamento desse real? Podemos concluir, sem dvida nenhuma, que a relao com o real no permite uma reproduo fiel do mesmo, entretanto tambm a leitura do real no ser a mesma. Acreditamos que ningum consegue reter na mente todos os detalhes de um acontecimento. Podemos concluir que a objetividade jornalstica um mito, uma utopia na busca da to sonhada verdade jornalstica.
O jornalista no aquele sujeito exterior e distante, armado de uma independncia, de uma neutralidade sem falha. Entre ele e o objeto da sua interveno no h verdadeiro distanciamento. Nem espacial, nem temporal, nem cultural, nem sociolgico. At porque, como salienta Paul Riccoeur narrar j refletir sobre os acontecimentos narrados. O jornalista transporta, em si , a Lebenswelt (mundo vivido ou vivncia do mundo), conceito que Habermas retirou da fenomenologia de Husserl, pra designar aquele nvel profundo de um grupo, de uma coletividade, onde se enrazam linguagens, normas e comportamentos comuns. Inscreve-se, pela sua prpria praxis, na realidade que descreve e estabelece, com o jornal para qual escreve, uma relao mimtica que o conduz a reproduzir o lxico e os valores desse mesmo jornal. Atua, assim, duplamente, como protagonista de um discurso dialgico e como parte de um coletivo profissional com regras e projetos prprios (REBELO, 2000, p. 17-8).
O prprio verbete sobre objetividade do Manual de Redao do Jornal Folha de So Paulo no deixa dvida sobre esse mito:
Objetividade - no existe objetividade em jornalismo. Ao redigir um texto ou ao edit-lo, o jornalista toma uma srie de decises que so em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posies pessoais, hbitos e emoes. Isto no o exime, porm, da obrigao de procurar ser o mais objetivo possvel. Para retratar os fatos com fidelidade, reproduzindo a forma em que ocorrem bem como suas circunstncias e repercusses, o jornalista deve procurar v-los com distanciamento e frieza, o que no significa apatia nem desinteresse.... (MANUAL, 1987)
Gneros jornalsticos Para que servem os gneros jornalsticos? Com certeza servem para orientar os leitores a lerem os jornais, permitindo-os identificar as formas e os contedos dos mesmos. Servem, tambm, como um dilogo entre o jornal e o leitor, pois atravs das exigncias dos leitores que as formas e os contedos dos jornais se modificam. Os gneros servem ainda para identificar uma determinada inteno, seja de informar, de opinar, de interpretar ou de divertir. Podemos afirmar que os gneros so determinados pelo estilo que o jornalis-
Revista SymposiuM ta emprega para expressar para o seu pblico os acontecimentos dirios. A maioria dos jornais brasileiros divide os gneros jornalsticos em quatro grandes grupos: informativo, com a preocupao de relatar os fatos de uma forma mais objetiva possvel; interpretativo, que, alm de informar, procura interpretar os fatos; opinativo, expressa um ponto de vista a respeito de um fato; entretenimento, que so informaes que visam distrao dos leitores. Essa diviso serve para identificarmos como os fatos jornalsticos so processados, servindo como uma ferramenta inquestionvel para que os leitores se orientem na procura das informaes desejadas, pois, quando lemos um editorial, por exemplo, devemos ter conscincia de que estamos recebendo um ponto de vista da empresa jornalstica, o mesmo acontecendo com um artigo ou uma crnica. Entretanto os jornais, alm de serem canais eficientes para transmisso de informao, servem tambm como prestadores de servios, como suportes para publicidade e propaganda, entre outras utilidades; a fim de orientar os leitores para essa multiplicidade de utilidade que os rgos de comunicao possuem, propor aqui um novo rearranjo para os gneros jornalsticos. por Marques Melo, tem que ser deixada de lado. Um outro conceito que temos de abdicar a questo do gnero que alguns autores definem como interpretativo, que teria a funo de aprofundar as notcias. Se estamos interpretando, automaticamente estamos opinando, pois acreditamos que os textos so manipulatrios, possuem pontos de vistas. Segundo FIORIN (2000, p. 52), a finalidade ltima de todo ato de comunicao no informar, mas de persuadir o outro a aceitar o que est sendo comunicado. Por isso, o ato de comunicao um complexo jogo de manipulao com vistas a fazer o enunciatrio crer naquilo que se transmite. Feitos esses esclarecimentos, vamos, ento, a nossa mencionada proposta de descrio. Gneros na comunicao jornalstica
Jornalismo
- Gneros informativos Nota, notcia, reportagem, entrevista, ttulo e chamada. - Gneros opinativos (totalmente subjetivos, com opinies de colaboradores e editores). Editorial, comentrio, artigo, resenha ou crtica, coluna, carta, crnica. - Gneros utilitrios ou prestadores de servios roteiro, obiturio, indicadores, campanhas, ombudsman, educacional (testes e apostilas). - Gneros ilustrativos ou visuais engloba grficos, tabelas, quadros demonstrativos , ilustraes , caricatura e fotografia.
Propaganda
- Comercial, institucional e legal.
Entretenimento
- Passatempos, jogos, histria em quadrinhos, folhetins, palavras cruzadas, contos, poesia, charadas, horscopo, dama, xadrez e novelas.
Cincias, Humanidades e Letras A incluso dos ttulos e das chamadas como subgnero dos gneros informativos, e da fotografia como um componente dos gneros visuais, que no constam nas classificaes que serviram de subsdio para o nosso estudo, deveu-se, sobretudo, ao reconhecimento de sua grande importncia no jornalismo. Os ttulos, por exemplo, falam por si mesmos, despertando o interesse do pblico para as matrias jornalsticas. Como sabemos, a maioria dos leitores se limita somente leitura de ttulos, e so os ttulos que vo motivar a lerem ou no as notcias contidas nos jornais. As chamadas que definimos como um resumo da notcia, colocada na primeira pgina ou na capa de um caderno, com esclarecimento sobre a seo ou pgina em que pode ser lida, tm o mesmo objetivo dos ttulos, incentivando os leitores para a leitura das notcias. Os ttulos de primeira pgina destacam as notcias que foram consideradas pela empresa jornalstica como as mais importantes. Os ttulos
Representam manifestaes constantes do trabalho plstico da linguagem no mundo moderno. O arranjo grfico do jornal associa-se, alis, disposio fontica, sinttica e semntica das formas lingsticas para constiturem em conjunto uma manifestao particularmente complexa, ao mesmo tempo esttica e estratgica, assegurando uma multiciplidade de funes comunicacionais, nomeadamente poticas, fticas, referenciais, apelativas e metalingusticas. Os ttulos de imprensa recorrem, no entanto, tanto plasticidade verbal como plasticidade grfica. , alias, atravs do grafismo que a retrica discursiva se abre a recursos semiticos extralingusticos, com particular relevo para a imagtica. Dos recursos da imagtica, os ttulos utilizam, sobretudo, o material fotogrfico, a disposio grfica da mancha da pgina, o cromatismo, a disposio dos grafemas, o design topogrfico da paginao. por isso uma prtica semitica que sintetiza de modo particularmente original todos estes domnios, conferindo ao seu estudo uma extrema complexidade...Os ttulos de imprensa, graas ao prprio processo de figurao, constituem um verdadeiro texto dentro do texto. Fazem ao mesmo tempo ver e esconder o texto para que dirigem o olhar do leitor. So uma espcie de vu transparente, mostram o que escondem como escondem aquilo que do a ver ( Rodrigues, 1997).
A fotografia, que o Jornal Folha de So Paulo j classifica como um gnero jornalstico, um casamento perfeito da palavra e da imagem, onde a imagem, s vezes, fala mais do que a prpria reportagem. a fotografia um recorte da realidade oferecendo aos leitores a oportunidade de desenvolver sua capacidade de interpretar uma imagem visual que representa esse pedao da realidade: a fotografia tem a capacidade de reproduzir com tamanha fidelidade o mundo exterior, uma capacidade advinda de sua tcnica, o que outorga a ela um carter documental e a coloca como o mais exato e ntegro processo de registro da vida social (Freunf, apud Pierre, 1999). Ou ainda:
A fotografia fornece provas (...). Uma fotografia passa a ser uma prova incontroversa de que uma determinada coisa aconteceu (...) o que exigimos primariamente fotografia: que registre, diagnostique, informe (...). As imagens fotogrficas so, de fato, capazes de usurpar a realidade, porque, antes de mais nada, uma fotografia no s uma imagem (no sentido em que a pintura uma imagem), uma interpretao do real; tambm uma marca, um rastro direto do real, como uma pegada ou uma mscara morturia. Enquanto uma pintura, ainda que conforme aos padres fotogrficos da semelhana, nunca mais do que a afirmao de uma interpretao, uma fotografia nunca menos do que o registro de uma emanao (ondas de luz refletidas pelos objetos), um vestgio material daquilo que foi fotografado e que inacessvel a qualquer pintura. (Sontag, apud Santaella, 1999: 122).
A transferncia da caricatura, da qual a charge faz parte, do gnero opinativo para o gnero ilustrativo deve-se ao seguinte: a caricatura, como sendo uma representao grfica, ocupava o lugar que ocupa hoje a fotografia (antes da inveno dessa linguagem), com desenhos mostrando a realidade abordada pelas matrias jornalsticas da poca. A caricatura, normalmente, apresenta uma imagem em forma satrica ou humorstica e no depende de texto para explicao, e a atualidade a fonte de inspirao dos seus produtores. Entretanto, nem tudo que sai nas caricaturas tem o efeito de opinar, por isso no as consideramos um gnero opinativo: muitas vezes ela perde essa funo destruidora (crtica e stira social e poltica),
Revista SymposiuM para servir como instrumento de promoo de personagens desconhecidas do pblico, cujo objetivo tornar rpida a sua popularizao. o caso de muitos artistas e polticos iniciantes que se tornam conhecidos atravs dos traos satricos utilizados pelos caricaturistas (SILVA, 1992, p. 9). Outro ponto que temos que explicar a incluso do folhetim na categoria de subgnero do gnero do entretenimento. Os folhetins, apesar de no serem muito comuns nos dias de hoje, em nossa mdia, j foram muito utilizados. Os folhetins so captulos, fragmentos de romance ou de novelas, que so publicados diariamente nos jornais, com o objetivo de manter o interesse do leitor pelo veculo de comunicao. J a campanha inclumos como um formato dos gneros prestadores de servios, que um conjunto de aes cujo objetivo beneficiar a populao no esclarecimento ou na preveno de um determinado assunto. Por Exemplo, o Jornal da Tarde, de So Paulo, durante as investigaes dos vereadores acusados de corrupo na Cmara Municipal, realizou uma campanha intitulada: eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de So Paulo. Inclumos tambm, como um subgnero dos gneros prestadores de servios, apostilas e testes que tm o objetivo de prestar um servio sociedade, uma vez que so os estudantes e prestadores de concursos os maiores interessados nesses materiais. Outro ponto tambm foi a excluso dos gneros interpretativos, acreditamos que a anlise, o perfil, a enquete e a cronologia so componentes, ou melhor, so complementos de uma boa reportagem. As propagandas, ns no as dividimos como fazem alguns grupos de estudo. Em se tratando de propagandas, elas carregam, direta ou indiretamente, uma grande carga ideolgica. Concluso: retomando os pressupostos Como vimos, os gneros jornalsticos so determinados pelo modo de produo dos meios de comunicao de massa e por manifestaes culturais de cada sociedade. Realizar uma classificao universal praticamente uma tarefa impossvel, uma vez que eles esto sempre em mudana, em transformao. O que pode ser um gnero hoje amanh no ser mais ou o que pode ser um gnero em um determinado pas no em uma outra sociedade. Gneros aparecem, mudam e desaparecem, conforme o desenvolvimento tecnolgico e cultural de cada nao e da empresa jornalstica. O que politicamente correto adapt-los da melhor forma para suprir as necessidades dos leitores e dos profissionais de imprensa. O cientista Boris Tomashevsky (apud Chandler, 1997) afirmou que nenhuma classificao lgica de gneros possvel. A demarcao deles sempre histrica, quer dizer, s est correto para um momento especfico da histria e eles precisam ser estudados como um fenmeno histrico. A nossa classificao mais uma forma de pensamento; acreditamos que contribua para mais uma etapa nos estudos dos gneros no jornalismo impresso, uma vez que o professor Marques Melo afirmou que enfrentar essa questo representa o maior dilema dos que se dedicam a estudar o jornalismo nas universidades brasileiras. Tambm acreditamos que nenhum trabalho definitivo e fechado sobre um determinado assunto, e as concluses dependem da interpretao e do repertrio de vida de cada pessoa e do seu engajamento na sociedade em que est inserida. Tambm no podemos esquecer que o conhecimento um processo evolutivo, que est sempre em mutao. Nas discusses sobre gneros jornalsticos, o que mais importa que eles sirvam de estilos de organizao para os profissionais da mdia, com o dever de informar os seus leitores de uma forma mais neutra possvel, visando construo de uma sociedade justa e transparente, seja opinando, divertindo, orientando, criticando, esclarecendo ou de outra forma qualquer. O que importa que o jornalismo cumpra com a sua funo social, ou seja, deve estar a servio da sociedade, e no de grupos econmicos, sociais ou religiosos.
Cincias, Humanidades e Letras Pequeno glossrio Anlise explora diversos aspectos de fatos relevantes e recentes, seus antecedentes e conseqncias. sempre assinado. Artigo traz interpretaes ou opinies de pessoas que no precisam ser necessariamente jornalistas. sempre assinado. Avulsas realizados pelas agncias de publicidade e propaganda. Calhau propaganda da prpria empresa jornalstica para preencher um espao vazio no jornal. Caricatura imagem de opinio em forma satrica ou humorstica, por meio da qual a opinio se manifesta de forma explcita. Carta ou coluna do leitor um recurso em que o leitor pode expressar seus pontos de vista e opinies. Chamadas resumo da notcia colocado na primeira pgina ou na capa de um caderno, com esclarecimentos sobre a seo ou pgina em que pode ser lida. Classificados anncios realizados pelo cidado comum. Coluna espao no jornal onde uma pessoa escreve regularmente. Comentrio pequeno artigo interpretativo de um fato. Crnica tem como caracterstica tratar de assuntos cotidianos de maneira mais literria. sempre assinada. Cronologia trata-se de rememorar os eventos passados que dispensa o texto. Editorial texto que expressa a opinio oficial do jornal sobre os acontecimentos de maior repercusso no momento. Encartes so aquelas propagandas que cobrem toda a pgina dos jornais ou est em anexo, tendo mais destaques do que os demais anncios. Enquete pesquisa de opinio onde so ouvidas vrias pessoas sobre um determinado assunto. Entrevista permite ao leitor conhecer opinies e idias das pessoas envolvidas no ocorrido ou em um determinado assunto Indicador informaes teis sobre rgos governamentais, empresas, instituies, pases ou sobre determinado assunto especializado, como mercado econmico: aes, dlar, fundos. Nota relato de um acontecimento. Notcia puro registro dos fatos, mas sem entrevistados. Obiturio informaes sobre bitos registrados pelos cartrios especializados, publicados em colunas especficas. Ombudsman profissional pago pela empresa para representar os interesses dos seus leitores. Perfil tipo de biografia sobre um dos personagens da reportagem. Reportagem relato ampliado de um acontecimento. O jornalista vai ao local para apurar os fatos. Resenha ou crtica apreciao de um trabalho intelectual ou de um desempenho artstico com o objetivo de orientar o pblico leitor. Roteiro informaes de shows, espetculos, televiso e cinema.
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