Material de Apoio I
Material de Apoio I
Material de Apoio I
Antropocentrismo ambiental? Pessoa como destinatária da norma; a vida em todas as suas formas como
objeto de proteção?
CF, Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o
bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê lo e preservá-
lo para as presentes e futuras gerações.
Elementos definidores do artigo:
Quem são todos?
Bem ambiental? Para que?
Dever de defesa e preservação de caráter geral (poder público e coletividade)
Presentes e futuras gerações
Ao continuar-se o presente caminhar deve-se lembrar que "as ciências sociais devem ser um processo
aberto de criação porque a sociedade é algo que os homens não param de fazer."1 Neste sentido, é preciso buscar o
pensa-viver para além dos limites da deformidade pensante do ergo conquiro, ou seja, as noções de sustentabilidade
e desenvolvimento sustentável devem avançar este limite ideológico, considerando sempre que a "ideologia do
desenvolvimento sustentável fica disfarçada mediante um potente discurso de 'Proteção à Natureza', com a
aparência de 'bula para salvação do mundo', que confere uma ilusão de um discurso menos agressor para com o
domínio do homem para com a natureza."2 Não se pode permanecer com pensar-viver economicamente3 4 dominante
e negador da exterioridade do humano. Sendo assim, deve-se considerar que
“(...) pode-se conceituar criticamente a sustentabilidade como sendo a prática coletiva e democrática da
produção das condições materiais objetivas e subjetivas de existência social que, no processo de transformação,
preserva as fontes de recursos da natureza ou as reponha nas mesmas condições, valorizando os sujeitos sociais
que são seus produtores em um sistema de trocas (...). Esta transformação deve ser guiada não pelo critério da
lucratividade e nem assentada em uma lógica de exploração, mas executada em um ambiente de autogestão social
visando ao atendimento das reais necessidades da condição humana, garantindo que este processo não agrida o
ambiente em que se desenvolve, tampouco as pessoas que nele vivem e produzem.5”
Nesta tentativa de buscar-se alcançar um conceito de desenvolvimento dito sustentável6 deve-se ainda
mencionar o dimensionado por Sachs:
“A) Social, fundamental por motivos tanto intrínsecos quanto instrumentais por causa a perspectiva de
disrupção social que paira de forma ameaçadora sobre muitos lugares problemáticos do planeta.
1
FURTADO, Celso. O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. p. 70. 2
OLIVEIRA, Leandro Dias de. A ideologia do desenvolvimento sustentável: notas para reflexão. Disponível em:
<http://www.unicamp.br/cemarx/ANAIS%20IV%20COLOQUIO/comunica%E7%F5es/GT3/gt3m1c3.pdf. 3 Acerca: Os
“ideólogos” capitalistas enxergam a questão ambiental como um problema de ordem técnica, onde, a partir de novos
inventos tecnológicos, será possível contorná-la. Vêem sua reversibilidade na constituição de aparatos não poluentes ou
filtrantes, na reprodução de espécies em cativeiro, e ainda, na “cientifização ecológica” das decisões econômicas.
Acreditam, como expõe Gonçalves, na 'capacidade redentora da técnica' e, arrogantemente, imaginam um controle real da
natureza. (Ibidem).
4
Ainda: neste mesmo sentido: "a dimensão econômica da sustentabilidade evoca aqui, a pertinente ponderação, o
adequado “trade off” entre a eficiência e equidade, isto é, o sopesamento fundamentado, em todos os empreendimentos
(públicos ou privados), do benefícios e dos custos diretos e indiretos (externabilidades)." (FREITAS, Juarez
Sustentabilidade: Direito ao Futuro. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 65).
5
FARIA, José Henrique de. Por uma teoria crítica da sustentabilidade. Disponível em:
<http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ros/article/view/17796>.
6
Sobre o tema "A sustentabilidade em sentido amplo procura captar aquilo que a doutrina actual designa por “três pilares
da sustentabilidade”: (i) pilar I – a sustentabilidade ecológica; (ii) pilar II – a sustentabilidade económica; (iii) pilar III – a
sustentabilidade social. Neste sentido, a sustentabilidade perfila-se como um “conceito federador” que, progressivamente,
vem definindo as condições e pressupostos jurídicos do contexto da evolução sustentável."(CANOTILHO, José Joaquim
Gomes. O princípio da sustentabilidade como princípio estruturante do direito constitucional. Disponível em:
http://www.scielo.mec.pt/pdf/tek/n13/n13a02.pdf>).
2
B) Ambiental, com as suas duas dimensões (os sistemas de sustentação da vida como provedores de
recursos e como “recipientes” para disposição de resíduos);
C) Territorial, relacionado à distribuição espacial dos recursos, das populações e das atividades; D)
Econômico, sendo a viabilidade econômica a conditio sine qua non para que as coisas aconteçam; E) Político, a
governança democrática é um valor fundador e um instrumento necessário para fazer as coisas acontecerem; a
liberdade faz toda a diferença.7
Eis aí a caracterização de um pensar-viver capaz de ir para além da realidade sócio-explorativa de
exclusão, já que busca o respeito ao distinto, enquanto centro de seu próprio universo, sem se esquecer da ligação
originária entre todos e cada um, e estes e o cosmos8. Eis a teia da vida. Assim, deve-se mencionar:
“Em outras palavras, a teia da vida consiste em redes dentro de redes. Em cada escala, sob estreito e
minucioso exame, os nodos da rede se revelam como redes menores. Tendemos a arranjar esses sistemas, todos
eles aninhados dentro de sistemas maiores, num sistema hierárquico colocando os maiores acima dos menores, à
maneira de uma pirâmide. Mas isso é uma projeção humana. Na natureza, não há "acima" ou "abaixo", e não há
hierarquias. Há somente redes aninhadas dentro de outras redes.9”
Neste contexto, no analético:
“(...) a relação intersubjetiva é uma relação não-simétrica. Neste sentido, sou responsável por outrem sem
esperar a recíproca, ainda que isso me viesse a custar a vida. A recíproca é assunto dele. Precisamente na medida
em que entre outrem e eu a relação não é recíproca é que eu sou sujeição a outrem; e sou “sujeito” essencialmente
neste sentido.'10”
Há que se ressaltar que para Juarez Freitas, tal questão é efetivamente refletida pelo que este denomina
de dimensão ética11 da sustentabilidade,12 onde enfatiza fazer-se característica desta o aspecto de existência de uma
ligação intersubjetiva entre todos os seres.13
Em mesma linha de pensamento: "é necessário assumir uma racionalidade dialógica, bioempática e
holística para acercar-se da realidade natural e social, para dessa maneira fazer frente os desafios ambientais," 14
enquanto desafios de subjetividade do próprio humano.
Em suma, a visão humana do humano, para além dos limites do pensar-viver sócio-explorativo de exclusão
é marca central de um pensamento humano e efetivamente sustentável.
7
SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeiro: Garamond, 2008. p. 15-16. 8
Veja-se: "Esta postura biocêntrica se encontra também na concepção filosófica da ecologia profunda, em que as ações se
voltam às transformações culturais ocorridas com o fortalecimento do movimento ambientalista e dos movimentos sociais
em geral. Do mesmo modo, a abordagem do ambientalismo radical rejeita o consumismo prevalecente nas sociedades
modernas visando permitir a inclusão dos objetivos da satisfação das necessidades econômicas básicas da população e da
justiça social, especialmente no que diz respeito aos países em desenvolvimento." (FARIA, José Henrique de. Por uma
teoria crítica da sustentabilidade. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ros/article/view/17796>). 9
CAPRA, Fritjof. A teia da Vida: Uma nova compreensão cientifica dos sistemas vivos. Trad. Newton Robeval Eichemberg.
11 ed. São Paulo: Cultrix, 1996. p. 35.
10
LÉVINAS, Emmanuel. Ética e infinito. Trad. João Gama. Lisboa: Edições 70, 1982. p. 90.
11
Acerca: "a consideração de que sustentabilidade é uma determinação ética e jurídico institucional, constitucionalmente
tutelado no Brasil no art. 3º, 170, VI, e 225; é uma determinação ética e jurídico-institucional de responsabilização objetiva
do Estado pela prevenção e precaução; é uma determinação ética e jurídico-institucional de sindicabilidade ampliada de
escolhas públicas e privadas; é uma determinação ética e jurídico-institucional de responsabilidade pelo desenvolvimento
de baixo carbono, compatível com os valores constitucionais que não se coadunam com a ânsia mórbida do crescimento
econômico como fim em si." (FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: Direito ao Futuro. Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 32.)
12
A sustentabilidade (a) é princípio ético-jurídico, direta e imediatamente vinculante (do qual são inferíveis regras), que
determinam o oferecimento de condições suficientes para o bem-estar das atuais e futuras gerações, (b) é valor
constitucional supremo (critério axiológico de avaliação de políticas e práticas) e (c) é objetivo fundamental da República
(norte integrativo de toda interpretação e aplicação do Direito)”. (Ibidem. p. 117.)
13
Ibidem.p. 60.
14
JUNGES, José Roque. (Bio)Ética ambiental. São Leopoldo: UNISINOS, 2010. p. 71.
15
LASH, Scott. Crítica de la información. Buenos Aires: Amorrortu, 2005. p. 13.
16
Ibidem. p. 22.
3
paulatinas, que se torna finalmente irreversível, alcança um grau de desenvolvimento tão marcante, no final do
século XX, que aquilo já assentado no plano das estruturas sociais passou a ser dominante no plano da semântica:
sociedade passa a (auto) observar-se e (auto) descrever-se como mundial ou global. Essa situação relaciona-se com
a intensificação crescente das “relações sociais” e das comunicações suprarregionais mundializadas com reflexos
profundos na reprodução dos sistemas político-jurídicos territorialmente segmentados em forma de Estado”. 17
Neste contexto de conexões entre sistemas distintos, é preciso compreender-se a constituição como
transversal, ou como possibilidade de se ir para além do clássico conceito de constituição enquanto acoplamento
estrutural entre política e direito (justiça e democracia). Tais racionalidades são colocadas em relação por meio da
chamada ponte de transição proporcionada pela “constituição moderna". Todavia, há atualmente interligações
sistêmicas para além dos limites do território e do clássico conceito de nacionalidade.
Mais uma demonstração nítida do que vem se defendendo.
Pachamama: Mãe-terra. Na cultura dos Andes deve servir de referência, como forma de se buscar o bem
viver e paz em meio a integração homem-natureza.
Sumak kawsay: Expressão originária da língua quéchua, que significa viver em plenitude. A Mãe-terra. Na
cultura dos Andes deve servir de referência, como forma de se buscar o bem viver e paz em meio a integração
homem-natureza.
Segundo Rebello Filho e Bernardo, “podemos classificar o meio ambiente sobre quatro aspectos: o meio
ambiente natural, o meio ambiente cultural, o meio ambiente artificial e o meio ambiente de trabalho”. Este mesmo
raciocínio é defendido por Fiorillo e Rodrigues, ao destacarem que “podemos dizer que o meio ambiente apresenta
quatro significativos aspectos”, sendo eles “1. Natural; 2. Cultural; 3. Artificial e do 4. Trabalho”.
Nesse sentido, faz-se de fácil compreensão o fato de que não é interessante defender-se a atual construção
classificatória do meio ambiente. Primeiro, pela certeza de que o meio ambiente do trabalho é específico demais para
ser considerado e ser entendido como classe. Segundo, por ser nítido que o meio ambiente do trabalho, assim como
outras espécies de meio ambiente (incluindo-se, nestas, o meio ambiente do lar, dos hospitais etc.), só podem ser
concebidos enquanto classe mista (o que é lógico, pois possuem, simultaneamente e com a mesma intensidade,
características do meio ambiente natural, artificial e cultural).Terceiro, porque a classificação doutrinária é falha,
insuficiente e incompleta, a partir do momento em que não abriga em sua órbita inúmeras espécies de meio
ambiente de natureza mista, por não considerar a existência de uma mista classe que as inclua.
Enfim, por essa conjuntura e pela concatenação dos argumentos acima delineados é que se buscou
reconstruir a classificação do meio ambiente, mantendo-se as três classes primeiras (natural, artificial e cultural),
excluindo-se a “classe” do meio ambiente do trabalho (já que a sua essência e amplitude limitam-se, meramente, à
extensão de espécie) e adotando-se como classe o meio ambiente misto (que é, notadamente, existente e que, entre
outras inúmeras espécies, inclui o meio ambiente do trabalho). Destarte, a classificação ideal do meio ambiente
inclui: a) o meio ambiente natural ou físico; b) o meio ambiente artificial; c) o meio ambiente cultural; e d) o meio
ambiente misto.
Obviamente que quando se estabelece uma classificação, busca-se agrupar distintos elementos, de distintas
espécies, através da identificação, nos mesmos, de uma característica marcante e comum. Por esse fato, tem-se
como certo que classificar não significa, como podem entender os mais descuidados, unir em um grupo elementos
iguais, mas, de modo diverso, unir em um grupo ou classe elementos substancialmente distintos que, sobre um
determinado aspecto, ostentam uma característica marcante e comum, entre eles.
Nessa ótica, pode-se dizer que o meio ambiente natural ou físico é aquele que, criado originariamente pela
natureza, não sofre qualquer interferência da ação humana que tenha como resultado a modificação de sua
substância. É importante ressaltar que a interferência do homem em um componente do meio natural não é
suficiente para que o mesmo não mais pertença a esta classe. Para que isto ocorra, necessário faz-se que a
17
NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 26.
4
substância do meio ambiente natural, com a interferência da ação humana, seja alterada. Sem essa alteração na
substancialidade, não há que se afirmar que o meio ambiente natural se descaracterizou. Dessa maneira, muito
embora tenha sido realizada com interferência humana (através da aplicação de técnicas e tecnologias, para a
obtenção de um bom cultivo), uma plantação de trigo ou de soja é um meio ambiente natural, já que, neste caso, não
se constata uma modificação na substância da mesma. Todavia, se essa mesma plantação for realizada com
sementes transgênicas (originadas de manipulação genética, que tem como fito alterar a substancialidade do trigo e
da soja, para que se comportem de uma maneira diversa daquela com a qual naturalmente se comportariam) não há
que se falar em meio ambiente natural, mas, sim, em artificial, já que, deve-se lembrar, o meio ambiente natural é
aquela classe que envolve a natureza em sua forma primitiva e original, sem a intervenção substancial do homem,
embora o homem (enquanto animal; ser vivo) faça parte desse meio natural. Se a alteração genética propiciada pelo
homem, faz com que a soja ou o trigo produza mais do que deveria produzir e tenha mais resistência a pragas do
que naturalmente teria, diz-se que a naturalidade do vegetal, contida em sua genética, foi sufocada, ao menos onde
interessava, pela artificialidade da ação humana, só restando classificá-la como meio ambiente artificial. Nesse
entendimento, busca-se enfatizar que não é qualquer ação humana que provoca a artificialização do meio ambiente
natural. Se se pensasse de outra forma ter-se-ia que defender, por exemplo, que uma planta em um vaso (no qual foi
inserida pela ação do homem) seria um meio ambiente artificial, o que não é coerente. Poder-se-ia até dizer que o
vaso, no qual a planta se encontra, é um meio ambiente artificial, todavia o mesmo não se poderia dizer da planta,
em si mesma, que não teve, substancialmente, a sua naturalidade afetada. A planta, mesmo estando em um vaso e
não na mata, comporta-se, cresce e desenvolve se do modo como as suas características genéticas permitem. O seu
comportamento e o seu desenvolvimento limitam-se às características naturais de sua substância. A artificialidade,
nessas circunstâncias, limita-se, por sua vez, à transferência do vegetal (que não estando na mata, encontra-se no
vaso). Situação semelhante vislumbra-se na derrubada de uma mata para a plantação de pasto, que será utilizado na
criação de gado. A artificialidade resume-se à ação humana de derrubar a mata e de plantar o pasto. O pasto, depois
de nascido, por manter as suas propriedades naturais, será um meio ambiente natural e não artificial.
Esta classe de meio ambiente é, como dizem Fiorillo e Rodrigues, constituída “pelo solo, pela água, pelo ar
atmosférico, pela flora, pela fauna, ou em outras palavras pelo fenômeno de homeostase, qual seja, todos elementos
responsáveis pelo equilíbrio dinâmico entre os seres vivos e o meio em que vivem”. Da mesma maneira, definem
Rebello Filho e Bernardo, ao dizerem que “é constituído por todos os elementos responsáveis pelo equilíbrio entre os
seres vivos e o meio em que vivem: solo, água, ar atmosférico, flora e fauna”. Perceber-se-á que apesar da água ser
distinta do solo e este, por sua vez, distinto do ar atmosférico, do espaço sideral, da fauna e da flora, nada impede
que eles componham e integrem a mesma classe natural. Isso porque todos eles possuem uma característica
marcante e comum que viabiliza o agrupamento dos mesmos enquanto classe natural: o fato de serem
originariamente criados pela natureza.
CF, Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê lo e preservá-
lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:
I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e
ecossistemas;
(...)
III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem
especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer
utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção;
IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa
degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; (...)
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função
ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.
Se a característica que permite a classificação de um determinado meio ambiente como natural é o fato de
ter ele origem pelos procedimentos normais da natureza (sem a interferência substancial do homem), o meio
ambiente artificial, em contrapartida, é reconhecido por ser fruto da citada interferência. Desse modo, aquele meio
ambiente trabalhado, alterado e modificado, em sua substância, pelo homem é um meio ambiente artificial.
É certo que o homem trabalha em cima da “matéria” originariamente natural, para criar o seu mundo.
Entretanto, a partir do momento em que a mesma sofre a ação substancial do ser humano, torna-se mais relevante
classificá-la pela sua artificialidade (enquanto produto do manuseio) do que pela sua naturalidade originária (já, de
certa forma, descaracterizada). Diz-se isso pela certeza de que após ser manuseado, em sua
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substância, pela ação humana, o meio ambiente, certamente, comportar-se-á de modo diverso. Suas características,
suas propriedades, suas peculiaridades e particularidades apresentar-se-ão de modo distinto daquele que ele
apresentaria se não tivesse sido passível do “toque” do homem.
Por esse entendimento é que se afirma ser uma plantação transgênica um meio ambiente artificial e não
natural. Do mesmo modo que uma criação de gado, geneticamente alterado. Em ambos os exemplos, a naturalidade
originária é ofuscada pela artificialidade da interferência substancial do homem, que altera as características naturais
das sementes (no caso da plantação) e do gado, para alcançar um objetivo laboratorial e artificialmente projetado.
Da mesma forma, são elementos da classe artificial: os edifícios, as casas, os aparatos tecnológicos, os
asfaltos, as barragens, as substâncias somente exequíveis em laboratório, assim como tudo aquilo que só tenha sido
possível existir (do modo como é) pela interferência substancial do homem e não pela geração normal, independente
e espontânea da natureza.
De acordo com Rebello Filho e Bernardo, entende-se que “a constituição federal de 1988, ao cuidar da
política urbana, acabou por tutelar o meio ambiente artificial”. Nesta ótica, os juristas Fiorillo e Rodrigues afirmam que
“no tocante ao meio ambiente artificial, podemos dizer que, tratando-se de normas constitucionais de sua proteção,
recebeu tratamento destacado não só no seu art. 182 e seguintes, que não pode ter a interpretação desvinculada do
seu art. 225 desse mesmo diploma, mas também no art. 21, XX, no art. 5º, XXIII, dentre outros”.
Fiorillo e Rodrigues ainda afirmam: “por meio ambiente artificial, entende-se aquele constituído pelo espaço
urbano construído, consubstanciado no conjunto de edificações (espaço urbano fechado) e dos equipamentos
públicos (espaço urbano aberto)”. Entretanto, há de aqui se afirmar que o vocábulo “urbano”, como dizem os autores
acima citados, não separa as expressões “urbano” e “rural”. Pelo contrário: no sentido abordado, engloba os dois
vocábulos, “já que qualifica algo que se refere a todos os espaços habitáveis”, não excluindo, por esta ideia, o
conceito de “rural”. Destarte, uma casa no campo, assim como um condomínio na cidade, pela sua construção física,
são meio ambientes artificiais, não importando a sua localização. Com relação ao meio ambiente das cidades, ou
seja, o meio ambiente urbano, é importante ainda destacar que o mesmo só pode ser enxergado, como um meio
ambiente artificial, quando se leva em consideração apenas a sua construção física (os prédios, o asfalto, os postes
etc.). Afirma-se isso por entender-se que o meio ambiente urbano, além de sua constituição física, abriga outros
aspectos. Os homens, os animais domésticos, as colônias de bactérias (que vivem nos esgotos), os vírus, os
protozoários, os ácaros (levados pelo ar e residentes nos colchões), os pássaros das praças, os vegetais que
arborizam as cidades, entre inúmeros outros seres vivos e componentes naturais (como a terra, o ar e a água), são
elementos do meio ambiente natural, que encharcam o meio ambiente urbano e que não podem ser desprezados.
Outrossim, não podem ser desprezados a cultura que circula e que propulsiona as relações no meio urbano.
A língua, os costumes, as identidades regionais, as técnicas de venda, as relações afetivas, institucionais,
profissionais (entre outras), além das valorações turísticas, paisagísticas, históricas, artísticas e arquitetônicas que
revestem a constituição física de cada cidade, são componentes do meio ambiente cultural e que também encontram
aconchego no universo urbano. Nessa conjectura, o meio ambiente urbano, por abarcar elementos naturais, artificiais
e culturais, seria melhor classificado como um meio ambiente misto (que será estudado mais à frente) e não como
um meio ambiente artificial, já que a sua artificialidade limita-se, apenas, a uma parte dos seus elementos.
Art. 182. A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes
gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o
bem-estar de seus habitantes.
Com relação ao meio ambiente cultural é importante salientar que o mesmo poder-se-á apresentar em duas
formas distintas: em sua forma concreta ou em sua forma abstrata.
Diz-se que o meio ambiente cultural é concreto quando ele se apresenta transfigurado em um objeto
classificado como meio ambiente artificial. Desse modo, os prédios, as construções, os monumentos, as estações,
entre outros objetos (que abrigam em sua órbita a qualidade de turístico, artístico, paisagístico, arquitetônico ou
histórico) são meios ambientes culturais concretos.
Nesse caso, assim como no meio ambiente artificial torna-se muito mais importante levar em consideração a
artificialidade em detrimento da naturalidade originária do meio ambiental, no meio ambiente cultural concreto torna-
se muito mais relevante considerar a sua valoração cultural em detrimento da artificialidade que o mesmo detém.
Diz-se isso pela certeza de que, nessa classe de bem ambiental, a valoração cultural supera a valoração estrutural
do bem referido. Dessa maneira, um casarão antigo vale muito mais pelo seu conteúdo histórico do que pela soma
de todo o material gasto na sua construção e do próprio terreno no qual se localiza. Igualmente, valem muito mais
pelas suas características artísticas e arquitetônicas, respectivamente, um quadro de Picasso e uma Igreja barroca.
Assim sendo, o meio ambiente cultural concreto dá-se como uma qualificação extra, como um plus, como algo a
mais que reveste o meio ambiente artificial, de
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modo a fazer com que seja mais considerado pelo seu valor imaterial (histórico, turístico, paisagístico, artístico ou
arquitetônico) do que pelo seu valor material (correspondente à estrutura física que o compõe). Por sua vez, que o
meio ambiente cultural é abstrato quando ele não se apresenta transfigurado no meio ambiente artificial. Desse
modo, é meio ambiente cultural abstrato a própria cultura. Outrossim, a língua, os costumes, os modos como as
pessoas relacionam-se (social, afetiva e profissionalmente), as produções acadêmicas, literárias e científicas, as
manifestações derivadas de cada identidade nacional e/ou regional, todos esses aspectos, sem distinção, compõem
abstratamente o meio ambiente cultural. Nesse ínterim, muito embora os elementos supracitados não sejam
concretamente palpáveis (e por isso são abstratos), não há como se negar que ajam de maneira relevante para a
evolução e para a construção da identidade social e individual do homem. Prova disto é o modo como é fácil
identificar que um determinado indivíduo é brasileiro ou estrangeiro, baiano ou carioca, do interior ou da capital (pelo
modo como fala, age e apresenta-se). Isto porque cada região, por apresentar seus próprios costumes, hábitos e
valores, ostenta um meio ambiente cultural peculiar a sua realidade. Os indivíduos, por esse panorama, associado às
suas particulares características, acabam refletindo, na sua pessoa, esse processo. Daí porque se deve dar
importância à preservação das culturas nacionais e regionais (a exemplo das populações ribeirinhas), pois a
degradação da mesma propicia uma degradação ambiental (na esfera abstrata do meio ambiente cultural) tão
prejudicial quanto, por exemplo, a devastação de uma mata, afinal, com a destruição de uma cultura local, esfacela-
se um modo de viver próprio que, possivelmente, não encontra equivalentes culturais em quaisquer outras partes do
globo. Extingue-se, por resultado, uma vertente cultural única, o que é um prejuízo incalculável, isto é,
incomensurável, não só para o país, mas, também, para toda a humanidade. Essa proteção, ressalta-se ainda, deve-
se dar pela ação conjunta do Poder Público e da Comunidade, como estabelece o § 1º, do art. 216, da C.F., ao
afirmar que “o Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural
brasileiro (...)”.
Os indivíduos, apesar da previsão constitucional, distintamente, não dão tanta atenção à preservação da
cultura, em si mesma. Esse fato acaba gerando uma dantesca distorção, na qual se visa preservar o produto cultural
(enquanto patrimônio concreto, isto é, os prédios antigos, os monumentos artísticos etc.), desprezando-se, porém, a
preservação da cultura (nacional e regional) que possibilitou a geração desse produto. Seria como se tentar proteger
a vida do homem, sem se preservar, todavia, o meio ambiente que o gerou, que o abriga e que o possibilita viver e
existir. Essa era uma visão que preponderava no passado, mas que hoje não mais pode ser aceita.
De certo, toda vez que uma cultura morre, morre junto com ela toda uma potencialidade de evolução e de
desenvolvimento do homem. Assim ocorre, por exemplo, com o perecimento das culturas das populações ribeirinhas
(que têm, como nenhuma outra, o conhecimento tradicional de como se conviver com os rios), com o perecimento
das culturas indígenas (que têm um importante conhecimento de como se viabilizar a utilização medicinal de
determinadas substâncias naturais) e com o perecimento de toda e qualquer cultura nacional e regional. Desse
modo, faz-se tão relevante proteger a cultura, em si mesma, enquanto manifestação do meio ambiente cultural
abstrato, quanto proteger as produções artísticas, os casarões antigos, as construções arquitetônicas (manifestações
claras do meio ambiente cultural concreto). Por esse motivo é que a “Lei Maior” preocupa-se com a proteção e a
viabilização da manifestação das diversas vertentes culturais brasileiras, quando no § 1º, do art. 215, diz
abertamente que “o Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de
outros grupos participantes do processo civilizatório nacional”.
No mais, seguindo o pensamento de Rebello Filho e Bernardo, associado à ideia de Fiorillo e Rodrigues, o
meio ambiente cultural deve ser definido de acordo com o descrito por Silva que afirma ser “integrado pelo patrimônio
histórico, artístico, arqueológico, paisagístico, turístico, que embora artificial, em regra, como obra do homem, difere
do anterior (que também é cultural) pelo sentido de valor especial”. Lembra-se, entretanto, que a concepção de meio
ambiente cultural abordada pelos autores citados limita-se a uma órbita concreta, devendo-se, complementarmente,
englobar na mesma a ideia de meio ambiente cultural abstrato (como já foi defendido).
CF, Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura
nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. § 1º O Estado protegerá as
manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo
civilizatório nacional.
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-
culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico,
ecológico e científico.
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O meio ambiente do trabalho é o local onde homens e mulheres desenvolvem suas atividades laborais.
Deste modo, para que este local seja considerado adequado para o trabalho, deverá apresentar além de condições
salubres, ausência de agentes que coloquem em risco o corpo físico e a saúde mental dos trabalhadores.
A tutela mediata do meio ambiente do trabalho se encontra no Artigo 225, já transcrito, enquanto que no
Artigo 200, VIII, a CF/88, tutela imediatamente o meio ambiente do trabalho, ao afirmar que compete ao Sistema
único de Saúde- SUS, colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho.
Art. 200. Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: VIII
- colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho.
No entanto, a proteção conferida pelo meio ambiente do trabalho é diversa da oferecida pelo direito do
trabalho. Ao se falar em meio ambiente do trabalho está se referindo à manutenção da saúde e da segurança do
trabalhador no local onde trabalha. Já o direito do trabalho protege o trabalhador no sentido de ser um conjunto de
normas disciplinadoras entre empregador e empregado.
Esta classe de meio ambiente, diferente das demais, não é abordada enfaticamente na doutrina ou
explicitamente no texto constitucional. Apesar desse fato, aqui, há de afirmá-la como classe existente e fundamental.
Isto pela certeza de que, além dos meios natural, artificial e cultural, existem meios ambientes peculiares que não se
englobam, especificamente, nas classes já citadas, por conterem, em seu bojo, características mistas, derivadas de
todas as três.
Se o meio ambiente natural se destaca pela sua originária naturalidade, o meio ambiente artificial pela sua
artificialidade e o meio ambiente cultural pela sua valoração cultural, o meio ambiente misto, por sua vez, evidencia-
se pela manifestação simultânea dessas três características. Faz-se importante salientar, todavia, que, para que um
determinado meio ambiente seja entendido como componente da classe mista, não basta que do mesmo emane
simultaneamente a naturalidade, a artificialidade e a valoração cultural.
Nesse contexto, além da simultaneidade, as referidas adjetivações dever-se-ão manifestar com a mesma
intensidade, de modo que nenhuma das três, individualmente, ofusque as demais. Ressaltar-se-á, de certo, a
necessidade de manifestarem-se com a mesma intensidade, pelo raciocínio de que, assim não ocorrendo, o bem
ambiental classificar-se-á em consonância com a característica mais marcante. Assim acontece, por exemplo, com
os casarões antigos que, embora sejam materialmente artificiais (em sua estrutura física), são classificados como
meio ambiente cultural, pois, ante a artificialidade que detêm, prepondera a sua valoração cultural, em seu aspecto
histórico. Da mesma forma acontece com as sementes transgênicas, pois, apesar conterem a naturalidade (derivada
de sua genética originária) e a valoração cultural (fruto das técnicas científicas que, após empregadas, possibilitaram
a sua reformulação genética), são classificadas como meio ambiente artificial, já que a artificialidade que as mesmas
detêm sobrepõe-se a quaisquer outras características (isso porque a alteração substancial proporcionada pelo
homem, faz com que as sementes desenvolvam-se e comportem-se “dentro dos padrões”, laboratorial e
artificialmente, determinados).
Se, em contrapartida, ao contrário dos exemplos supracitados, a naturalidade, a artificialidade e a valoração
cultural manifestarem-se simultaneamente e com a mesma intensidade no bem ambiental, não haverá outra opção,
senão a de classificar esse bem como meio ambiente misto. Assim ocorre, por exemplo, com o meio ambiente
urbano que ostenta, simultaneamente, características das classes natural, artificial e cultural.
Não há como se negar, certamente, que todas as construções, todas as estradas, todos os meios de
locomoção (à combustão), todos os postes, fios elétricos e telefônicos caracterizam-se como elementos do meio
ambiente artificial. Da mesma forma, que as árvores, os animais domésticos, o ar, a terra e a água, presentes nas
cidades, e o próprio homem (em si) caracterizam-se como elementos do meio ambiente natural.
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Outrossim, não há como se negar que a língua, as gírias, os costumes, os comportamentos, as identidades
regionais, o modo como as pessoas relacionam-se (afetiva, profissional e economicamente), entre outros fatores
similares, caracterizam-se como elemento do meio ambiente cultural. Obviamente que o que caracteriza o meio
ambiente urbano como um meio ambiente misto não é a mera manifestação dos elementos (artificiais, naturais e
culturais), apontados acima. Primeiramente, deve-se destacar que esses elementos se apresentam
simultaneamente. Em Segundo lugar, deve-se salientar que os mesmos se revelam com a mesma intensidade, tanto
que não há como se imaginar a existência do meio ambiente urbano sem o homem (meio ambiente natural), sem as
construções (meio ambiente artificial) e sem as manifestações culturais, comuns a cada centro urbano (meio
ambiente cultural). A ausência de um desses elementos compromete, de certo, a compreensão do que é urbano, em
toda a sua complexidade. Daí porque se dizer que esses elementos se apresentam com a mesma intensidade, afinal,
são igualmente essenciais para a compreensão do bem ambiental estudado.
Além do meio ambiente urbano, são exemplos de meio ambiente misto: o meio ambiente do trabalho - art.
200, VIII, da C.F. – (que para manter a segurança, a saúde e a vida do trabalhador, deve equilibrar o meio ambiente
natural – com temperatura ideal, local com padrões saudáveis de radiação, boa qualidade do ar etc.-, o artificial –
com instalações seguras e adequadas, equipamentos e ferramentas seguras, materiais de segurança presentes,
como o extintor de incêndio etc. – e o cultural – aplicação de técnicas e conceitos de produção, preparo individual
para técnicas de relações humanas etc. –); o meio ambiente das instituições de ensino que é fiscalizado, hoje,
principalmente, pelo MEC – (que deve manter o equilíbrio entre o meio ambiente natural – com temperaturas e sons
adequados para aprendizagem, tendo áreas verdes para estreitar a relação dos estudantes com a natureza etc. –,
com o artificial – através de instalações adequadas, materiais elétricos e de construção seguros, para não pôr em
risco a vida dos estudantes e funcionários etc. – e com o cultural –
pelo material didático e aplicação dos métodos pedagógicos adequados, para cuidar do melhor enraizamento
cultural, em geral, na mente humana etc. –; e entre outros inúmeros meios ambientes, nos quais, de certo, a
expressão da naturalidade, da artificialidade e da valoração cultural manifestem-se simultaneamente e com a mesma
intensidade (fato que inviabilizaria as suas classificações especificamente em quaisquer das três outras classes
ambientais: natural, artificial e cultural).
O meio ambiente está inserido entre os direitos de terceira geração. Preliminarmente é bom que se
esclareça que a sequência de uma geração do direito não exclui a geração passada, não traz, desta forma, uma
ideia de revogação, mas, sim, de harmonização, complemento. Exemplo a ser destacado é o direito de propriedade,
típico direito de primeira geração. Vê-se que posteriormente a função social da propriedade, positivada na
Constituição Federal e no Código Civil Brasileiro, não ocasiona a eliminação do primeiro, mas impõe uma
indispensável harmonização entre ambos. Ainda sobre o foco da propriedade, não se pode afirmar que o direito ao
meio ambiente sadio, de terceira geração, eliminou o direito de proprietário em utilizar-se da coisa. Apenas, em
caráter integrativo, exige que este último seja exercido em consonância em os reclamos da conservação dos
recursos naturais, alargando o sentido da função social da propriedade.
Partindo do postulado da solidariedade social é que emana o direito da terceira geração, cujos titulares não
recaem no indivíduo em si, mas na própria coletividade ou em agrupamentos sociais. São estes, os direitos difusos e
coletivos, como é o caso, dos direitos ao meio ambiente equilibrado, à paz, ao desenvolvimento, à proteção dos
consumidores, à tutela do patrimônio histórico e cultural. Vocacionam-se à busca de uma melhor qualidade de vida à
comunidade. O meio ambiente está positivado em nossa carta magna, em um capítulo próprio, que dá as diretrizes
gerais da salvaguarda do meio ambiente (art. 225). Tem-se como remédio jurídico para a proteção dessas garantias
sociais o inquérito civil e a ação civil pública, que possui o ministério público como principal legitimado para tal.
A ideia de direitos fundamentais de terceira geração já vem sendo assimilada pela jurisprudência de nossos
pretórios. Isso ficou bem esclarecido em passagem da ementa do STF, Pleno, rel. Min. Celso de Mello, DJU de 17-
11-95, p. 39. 2006 do MS 22.164 – SP, in verbis:
O direito à integridade do meio ambiente - típico direito de terceira geração - constitui prerrogativa jurídica de
titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de
um poder atribuído, não ao indivíduo indentificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais
abrangente, à própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) - que
compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais - realçam o princípio da liberdade e os direitos da
segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) - que se identificam com as liberdades positivas, reais ou
concretas - acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de
titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e
constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos
humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial
inexaurabilidade.
Meio Ambiente - Direito à preservação de sua integridade (CF, art. 225) - prerrogativa qualificada por seu
caráter de metaindividualidade - Direito de terceira geração (ou de novíssima dimensão) que consagra o
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postulado da solidariedade - Necessidade de impedir que a transgressão a esse direito faça irromper, no seio da
coletividade, conflitos intergeracionais - Espaços territoriais especialmente protegidos (CF, art. 225, §1°, III) -
Alteração e supressão do regime jurídico a eles pertinente - Medidas sujeitas ao princípio constitucional da reserva
de lei - Supressão de vegetação em área de preservação permanente - Possibilidade de a administração pública,
cumpridas as exigências legais, autorizar, licenciar ou permitir obras e/ou atividades nos espaços territoriais
protegidos, desde que respeitada, quanto a estes, a integridade dos atributos justificadores do regime de proteção
especial - Relações entre economia (CF, art 3°, II, c/c o art. 170, VI) e ecologia (CF, art.225) - Colisão de direitos
fundamentais - Critérios de superação desse estado de tensão entre valores constitucionais relevantes - Os direitos
básicos da pessoa humana e as sucessivas gerações (fases ou dimensões) de direitos (RTJ 164/158, 160-161) - A
questão de precedência do direito à preservação do meio ambiente: uma limitação constitucional explícita à atividade
econômica (CF, art. 170, VI) - Decisão não referendada - consequente indeferimento do pedido de medida cautelar.
A preservação da integridade do meio ambiente: expressão constitucional de um direito fundamental que assiste à
generalidade das pessoas.” (ADI 3.540 - MC, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 03/02/06)
Como se pode perceber pelas jurisprudências pretorias, o meio ambiente, a partir do artigo 225 da
Constituição Federal, foi elevado a direito de 3°, consagrando, pois, o princípio da solidariedade.
Esse direito fundamental foi reconhecido pela Conferência das Nações sobre o Ambiente Humano de 1972
(princípio 1), reafirmado pela Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992 (princípio 1) e
pela Carta da Terra de 1997 (princípio 4), conquistando posteriormente espaço nas Constituições mais modernas,
dentre elas a Constituição Federal Brasileira, no art. 225, caput.
Desse princípio basilar da nossa Carta Magna decorrem todos os outros, pois quando se fala em direito à
vida, não se fala só em não ficar doente ou viver, mas em ter qualidade de vida, viver com qualidade. Por isso, há
que se falar em direito à qualidade de vida, direito a uma vida digna, com um meio ambiente ecologicamente
equilibrado, levando-se em conta todos os elementos da natureza, como: água, ar, solo, dentre outros.
O reconhecimento do direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado configura-se, para Édis Milaré:
“uma extensão do direito à vida, quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos, quer
quanto ao aspecto da dignidade dessa existência - a qualidade de vida -, que faz com que valha a pena viver”.
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PRINCÍPIO DO USUÁRIO-PAGADOR
Resulta das intervenções do Poder Público necessárias à manutenção, preservação e restauração dos
recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente. A ação dos órgãos e
entidades públicas se concretiza através do exercício do seu poder de polícia administrativa. No Brasil, a primeira
legislação a trazer este princípio foi a Política Nacional do Meio Ambiente, Lei 6.938/81, quando em seu art. 4°, VII,
instituiu “à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao
usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.” Isso significa que o usuário dos
recursos ambientais deve suportar o conjunto dos custos destinados a tornar possível a sua utilização; tendo por
objetivo fazer com que os custos não sejam suportados nem pelos Poderes Públicos, nem por terceiros. O uso
indevido dos recursos naturais pode levar ao locupletamento ilegítimo do usuário, pois onerará a comunidade que
não usa do recurso ou que o utiliza em menor escala fica onerada. A razão desse princípio é pagar aqueles que se
beneficiaram da deterioriação ou contribuíram para a mesma. Porém, é importante que se lembre, que esse princípio
não é uma punição e nem confere ao pagador o direito de poluir. Mesmo que não haja qualquer ilicitude no
comportamento do pagador este princípio pode ser implementado.
No dizer de Édis Milaré este princípio “se inspira na teoria econômica de que os custos sociais externos que
acompanham o processo produtivo (o custo resultante dos danos ambientais) precisam ser internalizados.” Isto quer
dizer que o poluidor é obrigado a pagar o dano ambiental que pode ser causado ou que já foi causado, porém o
pagamento efetuado pelo poluidor não lhe confere direito de poluir.
O princípio em tela busca impedir que a sociedade arque com os custos, financeiro e ambiental, da
recuperação ao meio ambiente lesionado causado por um poluidor identificável, que auferiu lucro com a atividade
econômica por ele exercida. Caso este dano fosse arcado pela sociedade, esta seria duplamente prejudicada, pois
pagaria financeiramente para a recuperação do ambiente - o que na maioria das vezes não se consegue recuperar
de forma integral - e pelo meio ambiente, bem comum de todos, que teria sido degradado.
A lei 6938/81, em seu art. 4°, VII, instituiu o princípio do poluidor-pagador em nosso mundo jurídico, e, ainda,
instituiu a responsabilidade objetiva pelos danos ambientais, ao impor “ao poluidor e ao predador” a obrigação de
recuperar e/ou indenizar os danos causados, independentemente de culpa. O princípio 16 da Declaração do Rio,
1992, seguiu essa mesma linha ao dispor que “as autoridades nacionais devem procurar promover a internalização
dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, tendo em vista a abordagem segundo o qual o poluidor
deve, em princípio, arcar com o custo da poluição, com a devida atenção ao interesse público”.
A Constituição Federal foi além ao dispor, em seu § 3 ° do art. 225, que “as condutas e atividades
consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e
administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.” Assim podem a pessoa, jurídica
ou física, responder ainda penal e administrativamente pelos danos causados (art. 225, § 3°, da Constituição
Federal).
PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO
O princípio da precaução é aquele que determina que não se produzam intervenções no meio ambiente
antes de ter a certeza de que estas não serão adversas para o meio ambiente. Precaução é substantivo do verbo
precaver (do latim prae = antes e cavere = tomar cuidado). A precaução é caracterizada pela ação antecipada do
risco ou perigo. Ou seja, este princípio está voltado para momento anterior à
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consumação do dano. E visa à durabilidade da sadia qualidade de vida das gerações presentes e futuras e à
continuidade da natureza existente no planeta.
Gerd Winter diferencia perigo ambiental de risco ambiental. Diz que, “se os perigos são geralmente
proibidos, o mesmo não acontece com os riscos. Os riscos não podem ser excluídos, porque sempre permanece a
probabilidade de um dano menor. Os riscos podem ser minimizados. Se a legislação proíbe ações perigosas, mas
possibilita a mitigação dos riscos, aplica-se o `princípio da precaução’, o qual requer a redução da extensão, da
frequência ou da incerteza do dano”.
Na Declaração do Rio/92 o princípio 15 prescreve que:
De modo a proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deve ser amplamente observado pelos
Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de
absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente
viáveis para previnir a degradação ambiental”.
A questão primordial deste princípio consiste na prevenção da irreversibilidade do dano potencial, que pode
ser entendida como a impossibilidade de volta ao estado ou condição anterior (constatado o dano, não se recupera o
bem atingido). O inciso V do §1° necessita ser levado em conta, juntamente com o próprio enunciado do art. 225 da
CF, onde o meio ambiente é considerado “essencial à sadia qualidade de vida”. Controlar o risco é não aceitar
qualquer risco. Há riscos inaceitáveis, como aquele que coloca em perigo os valores constitucionais protegidos, como
o meio ambiente ecologicamente equilibrado, os processos ecológicos essenciais, dentre outros.
Diante do exposto, vale salientar que uma aplicação estrita do princípio da precaução inverte o ônus da
prova e impõe ao autor potencial provar, com anterioridade, que sua ação não causará danos ao meio ambiente, e
que na dúvida opta-se pela solução que proteja imediatamente o ser humano e conserve o meio ambiente (in dubio
pro salute ou in dubio pro natura).
A precaução é considerada quando o risco é elevado - tão elevado que a total certeza científica não deve ser
exigida antes de se adotar uma ação corretiva, devendo ser aplicado naqueles casos em que qualquer atividade
possa resultar em danos duradouros ou irreversíveis ao meio ambiente, assim como naqueles casos em que o
benefício derivado da atividade é completamente desproporcional ao impacto negativo que essa atividade pode
causar no meio ambiente.
PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO
Muito parecido com o princípio da precaução, este princípio informa tanto o licenciamento ambiental como
os próprios estudos de impacto ambiental. Tanto um como outro são realizados sobre a base de conhecimento já
adquiridos sobre uma determinada intervenção no ambiente. O licenciamento ambiental, como principal instrumento
de prevenção de danos ambientais, age de forma a prevenir os danos que uma determinada atividade causaria ao
ambiente, caso não tivesse sido submetida ao licenciamento ambiental.
Prevenir tem o significado de agir antecipadamente, porém, para que haja essa ação antecipada, é preciso
informação, o conhecimento do que se quer prevenir. Sem informação organizada e sem pesquisa não há
prevenção. Nos termos dos ensinamentos de Machado:
Quando a Lei 6.938/81 diz, em seu art. 2°, que em sua política nacional do meio ambiente observará como
princípios a `proteção dos ecossistemas, com a preservação das áreas representativas’, e `a proteção de áreas
ameaçadas de degradação’, está indicando especificamente onde aplicar o princípio da prevenção. Não seria
possível proteger sem aplicar medidas de prevenção.
A Declaração do Rio/92 também trata de tal princípio ao dizer: “A fim de conseguir-se um desenvolvimento
sustentado e uma qualidade de vida mais elevada para todos os povos, os Estados devem reduzir e eliminar os
modos de produção e de consumo não viáveis e promover políticas demográficas apropriadas”.
O princípio da prevenção está relacionado diretamente a um risco certo, conhecido pela ciência,
fundamentado no empecilho de frequência de uma atividade que tem como efeito agressão ao meio ambiente. Assim
afirma Milaré, (2009, p.823) “aplica-se esse princípio, como se disse, quando o perigo é certo e quando se tem
elementos seguros para afirmar que uma determinada atividade é efetivamente perigosa”.
Assim, o princípio acima mencionado demonstra a relevância de um agir antecipadamente na finalidade de
evitar a consumação do dano ambiental. Pois uma atividade sem planejamento visa uma degradação ambiental sem
limites.
PRINCÍPIO DA REPARAÇÃO
Apesar de avançar, quanto ao Direito Ambiental, a Declaração do Rio, ainda, se mostra tímida, pois se
refere, apenas, “à indenização das vítimas”. O Direito Ambiental Internacional deve evoluir no sentido de obter a
“reparação” ao meio ambiente danificado.
No direito ambiental pátrio a lei 6.938/81 adotou a responsabilidade objetiva ao meio ambiente, tendo a
constituição federal considerado imprescindível a obrigação de reparação dos danos causados ao meio ambiente.
PRINCÍPIO DA INFORMAÇÃO
A informação ambiental não tem o fim exclusivo de formar opinião pública. Valioso formar a consciência
ambiental, mas com fins próprios, administrativos e judiciais, para manifestar-se. O grande destinatário da informação
- o povo, em todos os seus seguimentos, incluindo o científico e não-governamental - tem o que dizer e opinar. As
informações ambientais recebidas pelos órgãos públicos devem ser transmitidas à sociedade civil, excetuando-se as
matérias que envolvam comprovadamente segredo industrial ou do Estado. A informação ambiental deve ser
transmitida sistematicamente, e não só nos chamados acidentes ambientais. A informação ambiental deve ser
transmitida de forma a possibilitar tempo suficiente aos informados para analisarem a matéria e poderem agir diante
da Administração Pública e do Poder Judiciário.
Sobre o tema "a sustentabilidade em sentido amplo procura captar aquilo que a doutrina atual designa por
“três pilares da sustentabilidade”: (I) pilar I – a sustentabilidade ecológica; (II) pilar II – a sustentabilidade econômica;
(III) pilar III – a sustentabilidade social. Neste sentido, a sustentabilidade perfila-se como um “conceito federador”
que, progressivamente, vem definindo as condições e pressupostos jurídicos do contexto da evolução
sustentável."(Canotilho)
Efetivar políticas que garantam uma melhor qualidade de vida traduz o sentimento maior da sociedade
humana. Independente de cor, credo ou nível de desenvolvimento é legítimo o desejo por alcançar padrões
econômicos e sociais mais elevados. O que se constata, todavia, é uma complexidade das definições em torno
do que seja, em seu sentido mais amplo, qualidade de vida. A grande questão que se engendra é a perspectiva
de crescimento econômico como meta maior para alcance do real bem estar das populações. Seria este o
único e exclusivo objetivo sociopolítico para efetivar uma melhor qualidade de vida? Como atingir os patamares
do desenvolvimento econômico sustentável preconizado por todos? Quais seriam os principais elementos a
serem considerados?
A inserção gradual da temática ambiental nas inúmeras discussões em torno do crescimento
econômico que já foram propostas e realizadas revela a vigente necessidade de considerar com muita atenção
e urgência o sustentáculo da economia mundial que são os referidos recursos e a manutenção de um ambiente
sadio e equilibrado.
“(...) Pode-se conceituar criticamente a sustentabilidade como sendo a prática coletiva e democrática da
produção das condições materiais objetivas e subjetivas de existência social que, no processo de transformação,
preserva as fontes de recursos da natureza ou as reponha nas mesmas condições, valorizando os sujeitos sociais
que são seus produtores (...).18”
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FARIA, José Henrique de. Por uma teoria crítica da sustentabilidade. Disponível em:
<http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/ros/article/view/17796>.
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