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Antes que a maré volte a subir
Antes que a maré volte a subir
Antes que a maré volte a subir
E-book102 páginas1 hora

Antes que a maré volte a subir

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Sobre este e-book

"Antes que a maré volte a subir", livro de estreia-solo de Rejane Oliveira, nos defronta com a contundência que uma Literatura econômica — uma coletânea de contos breves — pode despejar sobre o leitor. É como a correnteza, sob a espuma, que puxa para o fundo. Histórias que ora flutuam para os domínios do inconcebível, ora para o do desespero apaixonado. A entrega é rasgada, vingativa, impiedosa, cobrando o preço de tanto amor próprio espatifado. Ou brutal, como a pancada do estouro da onda. O mar é traiçoeiro, dizem. Aqui, vira um espelho para o leitor se mirar e ver seus segredos expostos sem pudor nas linhas que se encrespam aos seus olhos. É de sentimentos e dos arroubos que nos impõem (e que nos amedrontam) que Rejane Oliveira escreve. Há certo efeito teleguiado que os contos imprimem nas vísceras de quem os lê. Por outro lado, não há heróis, nem figuras grandiosas. Como a insinuar que ninguém é miúdo demais para se esconder da dor (ou da paixão), seus personagens são quase corriqueiros. A não ser pelo que os move. Tão estranhos, alguns, que são quase nós-mesmos, o que tememos nos tornar. Entretanto, isso, se tem de deixar-se sangrar um pouco para absorver. Há, sim, esse lado hemorrágico nas tramas, fluxos e refluxos da maré. Em algumas delas, o esvaimento não será estancado. Os personagens nos arrastam até a crista, e a seguir despencamos. Vão a extremos, ao clímax. Nada se poupa, ninguém é poupado. O mar nos fascina, leitores. Maré alta, maré cheia. Maré viva.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento13 de jan. de 2025
ISBN9786588360798
Antes que a maré volte a subir

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    Antes que a maré volte a subir - Rejane Oliveira

    Para o Juva, os meus netos

    e a minha mãe

    Eu guardo em mim

    Dois corações

    Um que é do mar

    Um das paixões

    Um canto doce

    Um cheiro de temporal

    Eu guardo em mim

    Um deus, um louco, um santo

    Um bem e um mal

    Danilo Caymmi

    Prefácio

    Antes que a maré volte a subir, livro de estreia solo de Rejane Oliveira, nos defronta com a contundência que uma literatura econômica — uma coletânea de contos breves — pode despejar sobre o leitor. É como a corren-teza, sob a espuma, que puxa para o fundo. Histórias que ora flutuam para os domínios do inconcebível, ora para o do desespero apaixonado. A entrega é rasgada, vingativa, impiedosa, cobrando o preço de tanto amor-próprio espatifado. Ou brutal, como a pancada do estouroda onda.

    O mar é traiçoeiro, dizem. Aqui, vira um espelho para o leitor se mirar e ver seus segredos expostos sem pudor nas linhas que se encrespam aos seus olhos.

    É de sentimentos e dos arroubos que nos impõem (e que nos amedrontam) que ela escreve. Há certo efeito teleguiado que os contos imprimem nas vísceras de quem os lê.

    Por outro lado, não há heróis, nem figuras grandiosas. Como a insinuar que ninguém é miúdo demais para se esconder da dor (ou da paixão), seus personagens são quase corriqueiros. A não ser pelo que os move. Tão estranhos, alguns, que são quase nós mesmos, o que tememos nos tornar. Entretanto, é deixar-se sangrar um pouco para absorver. Há, sim, esse lado hemorrágico nas tramas, nos fluxos e nos refluxos da maré. Em algumas delas, o esvaimento não será estancado. Os personagens nos arrastam até a crista e, a seguir, despencamos. Vão a extremos, ao clímax. Nada se poupa, ninguém é poupado.

    O mar nos fascina, leitores. Maré alta, maré cheia. Maré viva. Entremos!

    Luiz Antonio Aguiar

    Maré baixa

    Hoje a maré só vaza às quatro. Não teremos muito tempo na ilha-cemitério — uma hora, no máximo duas. Anoitece cedo nesta época; e o escuro, como se sabe,

    é amigo das almas do outro mundo.

    A Matilde está na porta, impaciente.

    — Calma, Tide, já termino de arrumar as flores.

    Só uns minutinhos mais, o papai vai entender.

    — A maré não aceita atrasos, Cotinha.

    Desde que papai morreu do coração, já tem uns cinco anos, todo domingo é a mesma coisa. Quase na hora de sair, preparo o arranjo com as margaridas dormidas em água gelada, para durar mais tempo. Corto os caules do mesmo tamanho — mais ou menos dois palmos — e amarro tudo em um grande laço com uma fita de cetim. Meus buquês são os mais bonitos do cemitério.

    Gostaria de fazer o mesmo por mamãe, mas vovó teimou em enterrar o corpo dela na capital, bem longe de nós. Vovó sempre consegue o que quer.

    — Onde já se viu abandonar a filha num pedaço de terra perdido no meio do mar?

    — Ela não vai ficar sozinha, dona Clô. A prima Dedé e a Maria Alzira estão enterradas lá. E nós três, eu e as meninas, vamos visitá-la toda vez que a maré permitir.

    Os argumentos do papai não adiantaram.

    Fomos à capital aquela única vez, para o enterro de mamãe, vestindo luto fechado. Vovó preparou tudo com muito luxo. Papai disse que ela aproveitava a morte da filha para compensar o desprezo com que a tratara em vida. Um monte de gente desconhecida aplaudiu o discurso bonito do padre, mas não reconheci minha mãe naquela mulher de quem ele falou. Bonita mesmo foi a revoada de pombos brancos no momento em que a terra descia sobre o caixão.

    Quando o papai morreu, eu e a Matilde não tivemos dúvidas de enterrá-lo em Cabuya, a pouco mar de nossa casa. Ali poderíamos visitá-lo a cada maré baixa, quando as águas rasas descobrem o caminho de pedra até a ilha dos mortos, formando o que chamamos de Ponte do Além.

    Dizem que o cemitério existe desde o tempo dos primeiros indígenas. O túmulo mais famoso é o da virgem decapitada pelo marido na noite de núpcias. Noivas de toda a Costa Rica vão à ilha em maio rezar pela mártir. Nunca se soube o motivo do crime. Antes de se enforcar, o assassino deixou apenas um bilhete com a palavra perdão.

    Apesar de histórias como essa, a ilha não é assombrada. Nos fins de semana, as famílias atravessam a ponte e reúnem-se aos parentes mortos. Estendem suas mantas coloridas em volta dos túmulos, cantando e dançando em longos piqueniques sobre as areias caribenhas. Antes que o mar volte a subir, recolhem o que levaram e voltam para casa em paz. À noite, e sobre isso não há discussão, o espaço pertence aos espíritos desencarnados.

    As visitas ao cemitério marcam a lenta passagem do tempo para as duas irmãs. Até que certo dia, um

    Domingo de Ramos, Matilde acorda ardendo em febre. Cotinha medica a outra com chás e simpatias, e desiste de ir a Cabuya. Muda de ideia na última hora, por insistência da irmã. Prepara o buquê de flores e, sozinha pela primeira vez, sai pela porta usando uma echarpe fina sobre seu vestido rosa de verão.

    Encontra a ilha mais animada que o habitual. Seja pela data religiosa, seja pela temperatura amena, todos os mortos recebem visitas. A exceção de sempre é o

    jovem soldado morto em combate e enterrado como desconhecido numa vala comum. Lá, longe dos canteiros bem-cuidados, o mato cresce arisco.

    Naquela tarde, longe da vigilância cautelosa de Matilde, Cotinha divide as margaridas do pai em dois

    maços. Com um deles, enfeita o túmulo do soldado.

    Estende o xale no chão e se deita sobre a relva, oferecendo a pele à languidez do sol da tarde. Acorda uma hora depois para descobrir, apavorada, que a ilha está deserta. A Ponte do Além já fora encoberta pelo mar.

    Grita por ajuda, mas só o silêncio responde. Naquele momento, o pôr do sol ainda alonga as sombras das lápides pelo

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