A Prova - Taruffo
A Prova - Taruffo
A Prova - Taruffo
A prova
Michele Taruffo
Coleção
Filosofia e Direito
Direção
Jordi Ferrer
José Juan Moreso
Adrian Sgarbi
MICHELE TARUFFO
A
Prova
Tradução
João Gabriel Couto
Marcial Pons
MADRI | BARCELONA | BUENOS AIRES | São Paulo
Coleção
Filosofia e Direito
Direção
Jordi Ferrer
José Juan Moreso
Adrian Sgarbi
A prova
Michele Taruffo
Título original: La prueba
Tradução
João Gabriel Couto
Capa
Nacho Pons
Preparação e editoração eletrônica
Ida Gouveia / Oficina das Letras®
T198p
Taruffo, Michele
A prova / Michele Taruffo ; tradução João Gabriel Couto. - 1. ed. - São Paulo :
Marcial Pons, 2014.
© Michele Taruffo
© MARCIAL PONS EDITORA DO BRASIL
Av. Brigadeiro Faria Lima, 1461, conj. 64/5, Torre Sul
Jardim Paulistano CEP 01452-002 São Paulo-SP
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Capítulo I
Prova e verdade no processo civil........................................ 15
A. Fatos e meios de prova........................................................................... 15
1. Função dos meios de prova............................................................... 15
2. Definição de «fato»............................................................................ 16
3. Fatos institucionais e fatos brutos...................................................... 17
4. Fatos determinados valorativamente................................................. 18
5. Fatos e enunciados fáticos................................................................. 19
B. Meios de prova e teorias do processo..................................................... 20
6. Processo e verdade judicial................................................................ 20
7. Verdade e decisões corretas............................................................... 21
C. Prova e teorias da verdade...................................................................... 23
8. A verdade judicial.............................................................................. 23
9. As teorias irracionalistas.................................................................... 25
10. Verdade absoluta e verdade relativa................................................ 25
11. A verdade como coerência.............................................................. 26
12. Verdade como correspondência....................................................... 28
13. Incerteza e decisão........................................................................... 29
D. Prova e probabilidade............................................................................. 29
14. Verdade e probabilidade.................................................................. 29
15. A probabilidade quantitativa........................................................... 30
8 michele taruffo
Capítulo III
Tipos de provas.................................................................................. 57
40. Variedades e tipologias.................................................................... 57
41. Provas diretas e indiretas................................................................. 58
42. Provas positivas e provas negativas................................................. 58
43. Outros tipos de prova....................................................................... 59
A. A prova oral........................................................................................... 59
44. O âmbito das provas orais............................................................... 59
45. Testemunhas.................................................................................... 60
46. Características das testemunhas....................................................... 61
47. Interesse das testemunhas................................................................ 61
48. Testemunhas incompetentes............................................................ 62
49. Impugnação de testemunhas . ......................................................... 62
50. Testemunhos escritos....................................................................... 63
51. As partes como fontes de prova....................................................... 65
52. O interrogatório das partes no civil law: o modelo austro-alemão.. 66
53. O interrogatório das partes no civil law: o modelo francês............. 68
54. A confissão...................................................................................... 69
55. O juramento das partes.................................................................... 71
B. A prova documental............................................................................... 73
56. Provas escritas................................................................................. 73
57. Documentos públicos ou oficiais e privados .................................. 74
58. O valor probatório dos documentos públicos.................................. 75
59. Documentos privados...................................................................... 76
60. O valor probatório dos documentos privados.................................. 76
61. Outros tipos de provas escritas ....................................................... 77
62. Telegramas....................................................................................... 77
63. Registros de uso doméstico............................................................. 78
64. Livros e registros de empresas......................................................... 78
65. Cópias.............................................................................................. 78
10 michele taruffo
Capítulo IV
Características processuais da produção da prova. 107
82. Sistemas centrados nas partes e sistemas centrados no juiz............ 107
83. O papel do juiz................................................................................. 109
84. O papel do juiz nos sistemas de civil law ....................................... 112
85. O oferecimento e a admissão das provas no civil law..................... 115
86. A “descoberta” das provas no common law.................................... 116
87. A produção das provas.................................................................... 118
88. A produção da prova oral................................................................ 119
89. A participação das partes................................................................. 120
90. Técnicas de interrogatório oral........................................................ 120
sumário 11
Capítulo V
A tomada da decisão final......................................................... 129
92. Decidir sobre os fatos...................................................................... 129
A. A valoração da prova............................................................................. 130
93. A determinação dos valores probatórios......................................... 130
94. Prova legal....................................................................................... 131
95. A livre apreciação da prova............................................................. 132
96. Standards de prova.......................................................................... 135
97. A credibilidade das provas.............................................................. 137
98. A determinação do peso das provas................................................ 137
B. O conhecimento judicial dos fatos......................................................... 140
99. O poder do juiz para conhecer os fatos............................................ 140
C. O ônus da prova...................................................................................... 142
100. A decisão na ausência de provas................................................... 142
101. O ônus da prova . .......................................................................... 143
102. A distribuição do ônus da prova ................................................... 144
103. Ônus da prova e fatos principais.................................................... 146
104. Ônus da prova e produção probatória............................................ 146
105. Deslocamento do ônus da prova.................................................... 148
106. Presunções legais........................................................................... 149
107. Presunções judiciais....................................................................... 150
Bibliografia........................................................................................ 153
Apêndice I
Poderes probatórios das partes e do juiz na Europa.. 185
1. Introdução.............................................................................................. 185
2. Tipologia dos poderes instrutórios do juiz............................................. 190
3. Implicações ideológicas......................................................................... 198
4. Considerações finais............................................................................... 207
12 michele taruffo
Apêndice II
Narrativas processuais............................................................... 210
1. Credulidade ou incredulidade................................................................ 210
2. Narrativas............................................................................................... 211
2.1 Um experimento mental................................................................. 214
2.2 Narrativas e fatos............................................................................ 217
2.3 Narradores de histórias................................................................... 221
3. Construindo narrativas........................................................................... 231
4. As partes e o todo................................................................................... 242
5. Narrativas boas e narrativas verdadeiras................................................ 245
Apêndice III
Verdade negociada?....................................................................... 251
1. Algumas hipóteses................................................................................. 251
2. A determinação dos fatos....................................................................... 259
3. Natureza das alegações.......................................................................... 262
4. Contestação e não-contestação dos fatos alegados................................ 264
5. Efeitos da não-contestação..................................................................... 268
Apêndice IV
A prova do nexo causal............................................................... 273
1. O objeto da prova................................................................................... 273
1.1 Causa e probabilidade.................................................................... 275
1.2 Causalidade genérica e causalidade específica............................... 278
1.3 Causalidade material e causalidade jurídica................................... 280
2. O enunciado relativo ao nexo causal..................................................... 282
3. A prova da lei de cobertura.................................................................... 284
3.1 As frequências estatísticas.............................................................. 287
3.2 Máximas de experiência e senso comum....................................... 289
4. Os standards de prova........................................................................... 293
4.1 A prova além de qualquer dúvida razoável.................................... 295
4.2 A probabilidade lógica preponderante........................................... 295
sumário 13
Apêndice V
A prova científica no processo civil.................................... 299
1. Considerações introdutórias................................................................... 299
1.1 Os standards de prova.................................................................... 302
1.2 Qual ciência?.................................................................................. 304
2. Algumas hipóteses................................................................................. 307
2.1 O teste de DNA.............................................................................. 308
2.2 A incapacidade de compreender e de exprimir vontade................. 309
2.3 O interesse do menor...................................................................... 310
2.4 Os danos de massa.......................................................................... 311
2.5 A perda de uma chance.................................................................. 315
3. Probabilidade e estatísticas.................................................................... 318
4. Características processuais..................................................................... 320
Capítulo I
Prova e verdade no processo civil
1
Para um panorama geral e referências bibliográficas, cfr. Taruffo, 1992a: 1ss. Ver também
Ferrer Beltrán, 2002: 41-68; Comoglio, 2002: 7; Comoglio, Ferri e Taruffo, 1998: 603;
Walter, 1979: 149; Fiss, 2003: 8; Twining, 1986: 62-80.
2
Cfr. Williams, 2002: 1.
3
Sobre a mudança do conhecimento «mágico» ao conhecimento «racional» em contextos
judiciais, ver Gascón, 2002: 8.
16 michele taruffo
4
Cfr., e. g., a regra 102 das Federal Rules of Evidence dos Estados Unidos, que faz referência
ao propósito de que «truth may be ascertained». Cfr. Graham, 2003: 2. Ver também o Código
Processual Civil alemão, §286, de onde se extrai que as provas serão avaliadas discriciona-
riamente pelo tribunal com a finalidade de estabelecer «ob eine tatsächliche Behauptung für
wahr oder für nicht wahr erachten sei». Cfr. Walter, 1979: 88, 148; Jauernig, 1991: 174;
Münchener: §286, n. 1, 2; Zpo-Komm, 1987: §286, n. 1-10. Ver também, para uma perspectiva
geral sobre os diversos sistemas, os ensaios agrupados em Travaux de L’association Henri
Capitant, 1987: 529-775.
5
Sobre esta inconsistência na teoria da prova nos sistemas de common law, cfr. Twining,
1986: 71; 1990: 39-91. Algo parecido também ocorre na cultura jurídica dos sistemas de civil
law; ver Taruffo, 1992a: 5.
6
Esta distinção é tradicional na teoria do direito. Ver, e. g., Centre National de Recherches
de Logique, 1961. Nos sistemas de common law esta distinção se conecta com os diferentes
papéis do juiz e do jurado; ver Weiner, 1966: 1867; 1968: 1020.
7
Esse é também um problema muito tradicional, bem conhecido em toda cultura jurídica; cfr.
Engisch, 1960: 29, 37, 83; Larenz, 1979: 266, Hruschka, 1965. Dentre os mais recentes, ver
Taruffo, 1992a: 71, 82; Jackson, J., 1983: 85; White, 1983: 108; Wilson, 1990: 11; Troper,
1983: 22; Varga, 1991a: 61, bem como 1991b: 59.
Prova e verdade no processo civil 17
para uma consequência jurídica: de acordo com uma conhecida teoria, e.g.,
podemos distinguir entre formas positivas/negativas, descritivas/valorativas e
simples/relativas de definir os fatos por meio de normas jurídicas.8
Por um lado, em consequência, há uma concepção por muitos compar-
tilhada segundo a qual os elementos de prova constituem um meio para esta-
belecer a verdade dos fatos em litígio; por outro, todavia, essa concepção é
contestada e criticada por vários pontos de vista. Não se pode discutir aqui
todas essas questões por razões de espaço, e também porque muitos dos
argumentos envolvidos são demasiadamente amplos para serem analisados
apropriadamente em um texto dedicado somente ao tema da prova judicial.
Não obstante, tal tema não pode ser examinado adequadamente sem que se
analisem, ao menos em termos muito amplos, algumas premissas teóricas
essenciais.
8
Ver Wróblewski, 1983a: 104; Taruffo, 1992a: 105, 115, 121.
9
Cfr., e. g., Taruffo, 1992a: 85, 89; Peczenik, 1989: 233; Jackson, B., 1985: 176; e, princi-
palmente, MacCormick e Weinberger, 1986: 21, 49, 78, 97; MacCormick, 1992: 3.
10
Acerca da distinção entre fatos «principais» ou «materiais» e fatos «secundários» ou
«circunstanciais», ver uma discussão mais extensa em Taruffo, 1992a: 97.
18 michele taruffo
11
Ver Taruffo, 1992a: 74.
12
Um dos pais fundadores do institucionalismo, John R. Searle, enfatiza que a verdade é uma
questão de correspondência com os fatos. Ver, Searle, 1998: 5, 12, 32.
13
Cfr. Gascón, 2002: 78; Wróblewski, 1983a: 104; Klami, Gräns e Sorvettula, 2000: 28;
Taruffo, 1992a: 105; 1985: 45.
14
Para uma análise ampla e interessante destes conceitos e os problemas que se estabelecem
para a tomada de decisões judiciais, ver Luzzati, 1990.
Prova e verdade no processo civil 19
sua verdade empírica deve ser estabelecida por meio de provas; logo podem
ser valorados segundo o standard axiológico apropriado. Um fato definido
valorativamente pelo direito pode e deve ser provado como verdadeiro ou
falso em sua dimensão empírica, antes que se possa dizer que existe como um
fato carregado de valor.15
A conclusão que pode ser tirada das observações anteriores é que o
conceito de «fato» é muito complexo e que os fatos geralmente são carregados
de direito e de valor. Todavia, isso não exclui a possibilidade de considerar
tais tipos de fatos peculiares como verdadeiros ou falsos na sua dimensão
empírica. «Direito» e «fato», e «valor» e «fato» são termos de relações e de
distinções analíticas, e não questões de confusão inextrincável. As proposi-
ções acerca da dimensão empírica de um fato podem e devem ser distinguidas
das valorações e qualificações jurídicas sobre esse fato. As proposições fáticas
podem ser verdadeiras ou falsas: portanto, são o objeto apropriado da prova
judicial, esta concebida como o meio para estabelecer a verdade dos fatos em
litígio.
15
Cfr. MacCormick, 1984a: 141; Taruffo, 1992a: 114.
16
Para uma análise mais ampla deste ponto, ver Taruffo, 1992a: 91. Ver, também, De La
Oliva Santos e Diéz-Picazo Giménez, 2000: 288.
17
Ver Taruffo, 2002: 277.
20 michele taruffo
significa eleger uma descrição desse fato entre um número infinito de suas
possíveis descrições.18
18
Ver Taruffo, 1992a: 71.
19
Cfr., principalmente, Damaška, 1986: 119, 160; 1997: 120.
20
Para análises de tais teorias, ver, e. g., Taruffo, 2000: 177, 277; 1992a: 35; Damaška, 1986:
160; 1997: 121.
21
Para um desenvolvimento mais extenso deste ponto, cfr. Taruffo, 2002: 219. Consultar,
também, Lagarde, 1994: 16; Lévi e Bruhl, 1964: 21; Kielmanovich, 1996: 16, 43; Hinostroza
Mínguez, 2000: 20.
22
Para uma apresentação desta teoria, ver, em particular, Damaška, 1986: 97; 1997: 76, 120.
Prova e verdade no processo civil 21
23
Ver, principalmente, Damaška, 1986: 97, 104, 111, 119; Taruffo, 1992a: 16; Gilales,
1985: 243, 274.
24
Criticando agudamente tais aspectos da teoria, ver Fiss, 2003: 24, 30, 51, 55.
25
Ver Fiss, 2003: 52.
26
Cfr. Taruffo, 1992a: 17; Damaška, 1986: 119, 1975: 1104; Saltzburg, 1978: 11.
27
Ver, sobretudo, Kagan, 2001: 99. Consulte-se, também, Damaška, 1997: 76; Taruffo,
1992a: 20; 1973: 3, 44; Landsman, 1984; Saltzburg, 1978: 9; Jolowicz, 1987: 547.
28
Cfr., em geral, Taruffo, 1992a: 20.
22 michele taruffo
29
Ver Damaška, 1986: 88.
30
Esta análise é feita principalmente por Damaška, 1986: 205, 214, 226.
31
Cfr., em geral, Damaška, 1986: 16, 18, 23, 29, 73, 80, passim.
32
Ver, sobretudo, Taruffo, 2002: 219; 1992a: 42; Zuckerman, 1999: 3; Atiyah e Summers,
1987: 157.
33
Ver, e. g., Taruffo, 2002: 225; Saks e Kidd, 1980-1981: 125. Cfr., também, Frank, 1950:
95.
34
Cfr. Zuckerman, 1999: 4-5.
Prova e verdade no processo civil 23
35
Para um panorama geral das teorias relacionadas com a verdade judicial como um propósito
intermediário ou instrumental do processo judicial, ver Schöpflin, 1991: 36, 41, 43. A respeito
da verdade judicial como um objetivo do processo judicial, consulte-se, também Jolowicz,
1983: 164; Frankel, 1975: 1041; Steffen, 1988: 801, 839. A ideia de que «a verdade é a base
da justiça» já está presente em Bentham; a respeito, ver Postema, 1986: 348.
36
Estes enunciados baseiam-se em uma «ideologia jurídica racionalista» das decisões judiciais
que foi apresentada e desenvolvida por Wróblewski, 1983b: 51; 1983c: 153. Para uma análise
da tradição racionalista na teoria anglo-americana da prova, ver Twining, 1986.
37
Sobre o conceito de verdade judicial como verdade formal, ver Taruffo, 1992a: 4. Para
uma discussão recente acerca deste tópico, ver Ferrer Beltrán, 2002: 68. Para a tese de que
não se pode alcançar a verdade no contexto do processo civil devido à especificidade de tal
contexto, ver, e. g., Montero Aroca, 2002: 35, 2000: 24. Esse último autor propõe o conceito de
«certeza» em substituição ao de «verdade». Todavia, parece que «certeza» é substancialmente
equivalente à «verdade judicial relativa». Por conseguinte, a verdade que segundo Montero
Aroca não se pode alcançar é a «verdade absoluta», mas isso é uma obviedade (ver infra §
10).
24 michele taruffo
38
Cfr., principalmente, Ferrer Beltrán, 2002? 63, 71.
39
Ver, e. g., Weinstein, 1966: 229; Larenz, 1979: 293: Saltzburg, 1978: 12.
40
Cfr. Twining, 1990: 178, 192, 199; Taruffo, 1992a: 315, 319, 321.
41
Ver os ensaios reunidos em Twining e Hampsher Monk, 2003.
42
Cfr. Taruffo, 1992a: 322.
Prova e verdade no processo civil 25
43
Ver Dreier, 1991: 120; Sheleff, 1975: 231. Para um panorama resumido, ver Larenz, 1979:
64. Especificamente sobre as correntes irracionalistas na teoria da prova alemã, ver Huber,
1983: 70, 98.
44
Cfr., e. g., Chow, 1990: 221; Singer, 1984: 1; Kelman, 1984: 303; Peller, 1985: 1151.
45
Richard Rorty faz tal afirmação em vários de seus escritos que não podem ser citados
detalhadamente aqui (ver, e. g., os ensaios compilados em Rorty, 1998). Uma discussão das
posições negativa de Rorty e outros filósofos estadunidenses acerca da verdade, e para agudas
críticas de tais posições, ver, por exemplo, Haack, 1998: 2, 7, 18. Outras críticas severas têm
sido formuladas por Williams (2002: 4, 59), que diz que a posição de Rorty – assim como a dos
outros «negadores» da verdade – é um erro fundamental e que o pensamento de Rorty «podia
ser descrito como um pensamento que paira no vazio».
46
Sobre este problema ver, em geral, Taruffo, 1992a: 152.
26 michele taruffo
47
A ideia de uma verdade absoluta é geralmente discutida por céticos com o fim de demonstrar
que não se pode alcançar verdade alguma, nem em geral, nem em contextos judiciais. O «humilde
abandono de la verdad», a qual se refere Montero Aroca pensando na verdade absoluta, em
realidade não é uma tragédia, já que nenhuma verdade, seja judicial ou não, é absoluta. O
argumento cético, todavia, não é confiável: ver Twining, 1990: 92.
48
Ver, por exemplo, Quine, 1990: 77, 80, 84; Krajewski, 1977; Davidson, 1984: 37; Niniluoto,
1987: 134.
49
Para uma apresentação e uma discussão crítica desta teoria, ver Gascón, 2002: 53. Ver,
também, Den Boer, 1990: 349; Peczenik, 1990: 307; Lenoble, 1990: 138; Nerhot, 1990: 204;
Alexy e Peczenik, 1990: 130.
50
Ver, sobretudo, MacCormick, 1984: 235; Bankowski, 1990: 227.
Prova e verdade no processo civil 27
51
Cfr., principalmente, Jackson Bernard, 1988a: 1988b: 225; Danet, 1980: 445.
52
Ver, por exemplo, Klinck, 1994: 127; Heninger, 2000: 55; Lagarde, 1994: 80; Montero
Aroca, 2002: 37; 2000: 27; Giuliani, 1988: 525; Eberle, 1989; Perelman, 1963: 8.
53
Em realidade, a referência aos «relatos persuasivos» em detrimento aos «relatos verdadeiros»
é frequente na literatura especializada no comportamento do advogado em juízo. Ver, e. g.,
Lubet, 2000: 15; Tigar, 2003: 5.
54
Cfr. Taruffo, 1994: 272.
55
Ver Taruffo, 1994: 279.
56
Cfr., por exemplo, Pennington e Haste, 1991: 19; Bennet e Feldman, 1981.
57
Para uma avaliação crítica deste enfoque, ver Twining, 1990: 219.
28 michele taruffo
podem ser falsas ou – como acontece com os romances – podem não pretender
ser verdadeiras. Esse é o principal argumento para rejeitar qualquer teoria da
verdade como simples coerência no contexto judicial.58
58
Cfr. Peczenik, 1990: 161; Niinluoto, 1987: 135; Taruffo, 1992a: 149, 323; 2002: 277, 305;
Comoglio, 2004: 5.
59
Ver, e. g., Peczenik, 1990: 181; Taruffo, 1992a: 143.
60
Ver supra § 3.
61
Cfr. Taruffo, 1992a: 35, 63.
62
Ver Taruffo, 1992a: 293.
63
Acerca da concepção semântica da verdade proposta por Tarski e sua aplicação ao contexto
das decisões judiciais, cfr. Gascón, 2002: 64. Ver, também, Taruffo, 1992a: 145.
64
Ver, e. g., Searle, 1998: 5, 12, 32; Haack, 1998: 156.
Prova e verdade no processo civil 29
D. Prova e probabilidade
14. Verdade e probabilidade. Mesmo quando se adota a posição de que a
verdade dos fatos em litígio pode ser estabelecida com base nos elementos de
prova relevantes, o problema da verdade judicial está distante de ser satisfato-
riamente resolvido. O problema epistêmico sobre «que tipo de verdade» pode
ser obtido nos contextos judiciais é muito complexo: portanto, encontrar uma
definição confiável da função da prova é também uma tarefa difícil.
O ponto de partida desse problema radica-se na premissa de que nenhuma
verdade absoluta é alcançável em tais contextos e, assim, que o propósito
possível da tomada de decisão é somente obter uma verdade relativa (ver supra
§ 10). Uma vez que a ideia de uma verdade relativa é vaga, uma definição
muito comum de tal verdade é fundada em termos de «probabilidade». Um
conceito muito amplo e vulgar de probabilidade é frequentemente utilizado
para fazer referência a algum grau de conhecimento que supostamente há de
se situar em algum ponto entre 0 (ou seja, em um nível em que não há qualquer
conhecimento confiável) e 1 (indicando certeza ou verdade absoluta). Supõe-
-se que o «conhecimento intermediário» seja, em alguma medida, incerto,
porém confiável.67 Não há dúvida, todavia, de que essa simples e vaga ideia
não pode ser tomada como uma solução satisfatória ao problema de entender
o que uma «verdade relativa» pode ser: essa simplesmente afirma que uma
verdade desse tipo não é igual a 0, nem igual a 1. Por outro lado, o conceito de
probabilidade é muito mais complexo e sofisticado:68 é amplamente utilizado
em vários âmbitos com o propósito de explicar e racionalizar diferentes tipos
de conhecimentos incertos. Essa afirmativa é especialmente verdadeira acerca
da teoria da probabilidade «quantitativa» ou «estatística», que oferece a possi-
bilidade de estimar a frequência relativa de um evento em um dado contexto.
67
Esta tendência está presente em todas as culturas jurídicas ao menos desde o século XVII.
Ver, em geral, Eggleston, 1978: 10; Musielak e Stadler, 1984: 69.
68
Para uma análise probalística complexa acerca das inferências probatórias, ver Schum,
1994.
69
Um panorama das teorias acerca do teorema da probabilidade bayesiana aplicado aos
problemas probatórios é esboçada nos ensaios apresentados no Symposium on Probability and
Inference in the Law of Evidence, publicados na Boston University Law Review, n. 66, 1986.
A maioria desses ensaios também foram publicados em Tillers e Green, 1988. Ver, também,
David, 1991: 389; Lempert, 1977: 1021; Kornstein, 1976: 121; Schum e Martin, 1982: 145;
Wigmore, 1983: t. I, 1011; Finkelstein e Fairley, 1970: 489; Tribe, 1971: 1351.
70
Cfr., e. g., Edwards, 1988: 337.
71
Entre a literatura especializada alemã, ver Schreiber, 1968; Greger, 1978; Huber, 1983:
102; Bender e Nack, 1981: 181, 218; Koch e Rüssmann, 1982: 287. Acerca da teoria sueca, ver
os ensaios compilados em Gärdenfors, Hansson e Sahlin, 1983. Cfr., também, Ekelöf, 1962:
75.
Prova e verdade no processo civil 31
72
Ver Schum e Martin, 1982; Callen, 1982: 12.
73
Essa é a síndrome de que «o que não pode ser contado não existe» definida por Tribe, 1971:
1361.
74
Ver Frosini, 2002: 98, 108; Callen, 1982; 1991a: 459; Tribe, 1971: 1332; Brilmayer,
1988: 150, 156, 160; Schafer, 1988: 191; Wigmore, 1983: t. I, 1072. Para uma discussão acerca
dos argumentos contrários à concepção bayesiana da prova, ver Taruffo, 1992a: 174.
32 michele taruffo
75
Em geral, acerca do conceito de probabilidade lógica, ver Hacking, 1975: 21, 43; Cohen,
1989: 4; Wigmore, 1983: t. I, 1072; Benenson, 1984; Taruffo, 1992a: 199.
76
Cfr., especialmente, Cohen, 1977: 49, 245, 265, passim.
77
Ver, por exemplo, Schum, 1987.
78
Cfr. Taruffo, 1992a: 201, 217; Cohen, 1977: 17, 265; Schum, 1987; 1988: 213, 235, 246.
79
Ver Taruffo, 1992a: 201, 217.
Prova e verdade no processo civil 33
Para uma análise dos distintos significados dos termos probatórios, ver Taruffo, 1992a:
80
81
Cfr., sobretudo, Ferrer Beltrán, 2002: 77, 82, 89.
Sobre o Autor
bibliografia 1
Michele Taruffo é Catedrático de Direito Pro-
cessual Civil na Universidade de Pavía, Itália. Foi
professor visitante nas universidades estaduni-
denses de Cornell, Pennsylvania e Califórnia, além
de responsável, ao lado de Geoffrey Hazard, pelo
projeto do American Law Institute e UNIDROIT
Principles and Rules for Transnational Civil Proce-
dure. Entre suas obras mais destacadas, figuram
Studi sulla rilevanza della prova (1970); La mo-
tivazione della sentenza civile (1975); Il proces-
so civile «adversary» nell’esperienza americana
(1979); La giustizia civile in Italia dal ‘700 ad oggi
(1980); Il vertice ambiguo. Saggi sulla Cassazione
civile (1991); La prova dei fatti giuridici. Nozioni
generali (1992); Sui confini. Scritti sulla giustizia
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