Canetti Casamento
Canetti Casamento
Canetti Casamento
ELIAS CANETTI
2
aparentemente um inimigo da ironia risonha, utilizou a sátira como estratégia
persuasiva, e enquanto meio para adquirir saberes sobre a imensa e gaiata família
humana33.
Seguindo os passos dos seus predecessores, Elias Canetti escreveu sátiras
violentas sobre a cultura humana. A crítica apenas começa a explorar este veio nos
seus textos. Já foram esboçados trabalhos sobre os nexos entre Nietzsche e
Canetti, justamente ao redor do humor e da sátira 44. Este não é o lugar para uma
análise dos livros recentes sobre semelhante tema. Irei apenas indicar alguns
prismas, interligando o pensador às grandes correntes espirituais que alimentam a
reflexão sobre a ética e a filosofia modernas.
Todos se lembram, com espanto, do manifesto contra a cultura livresca, O
Auto-de-Fé. Ali, vermes pedantes, os filólogos em especial, recebem a justiça que
merecem. Nas suas memórias, Canetti insere momentos de ironia glacial,
esclarecendo suas preferências no teatro. Para ele, o palco não aceita mais nenhum
intimismo e nenhuma tese filosófica que vampirizaria as personagens, ao modo de
Jean-Paul Sartre. Aristófanes foi o autor predileto de Canetti em termos de
comédia. A crueldade exibida pelo aristocrático ateniense, “oferecia a
possibilidade, para mim, de fornecer uma coerência ao que explode em mil
fragmentos”.
Para Elias Canetti, portanto, nada de pequenas subjetividades lambendo feridas
ou acariciando o próprio coração. O indivíduo nem sequer merece caçoadas.
“Apenas o que é específico do coletivo me parece digno de ser representado no
teatro. O aspecto cômico que visa tal ou qual particular, mesmo que a comédia
seja boa, sempre me inspira um pouco de vergonha.” E continua ele:
A comédia, para mim, só tem vida, como nos seus inícios com Aristófanes, através de
seu interesse geral, pelo olhar que ela joga sobre o mundo como ele é, na complexidade
de suas relações internas. A comédia deve ir [...] às fronteiras da loucura, estabelecer
vínculos, rompimentos, metamorfoses, confrontos, inventar novas estruturas fazendo
nascer novas idéias, não se repetir, não deixar nada barato, exigir o máximo do leitor,
sacudi-lo, esgotá-lo55.
Seguindo semelhante diretriz, e unindo-se aos grandes gênios da ética que,
justo por isto, se dedicaram à sátira do ser humano, Elias Canetti, na lancinante
coletânea de peças que a Editora Perspectiva oferece ao público brasileiro,
2
W. Pater, Plato and platonism, Caravan Library, 1934, Cf. H. TrevorRoper, I1
Rinascimento, Laterza Bari, 1985, p. 44.
3
Quentin Skinner, Razão e Retórica na Filosofia de Hobbes, São Paulo, Unesp,
1999.
4
Harriet Murphy, Canetti and Nietzsche: Theories of humour in Die Blendung,
Nova York, State Univ. of New York, 1996.
5
Die Fackel im, Ohr. Lebengeschichte. Uso a tradução francesa de M-F. Demet,
Le Flanzbean dans l’Oreille. Histoite d’une Vie, Paris, Albin Michel, 1982, pp.
63-64.
3
aprofunda alguns temas que atravessam todos os seus textos, os quais, por sua vez,
recolhem as mais inóspitas paisagens do espírito humano. Numa confissão
expressiva, nosso autor afirmou: “Admiro Hobbes por seu poder de falar sobre o
terrível”. Nos textos teatrais aqui reunidos, cada cena traz o selo do mais
insuportável e terrificante sublime. Os que Têm a Hora Marcada, expõe
cruamente o tempo humano, a morte e o medo, o assassinato universal, a lei. No
fim, o leitor imagina sua reação diante de um palco, onde a loucura adquire face
racional. Sem concessões, Canetti arranca da memória coletiva as feridas mais
dolorosas, geradas pelos Inquisidores, pelos nazistas, pela obediência das massas
diante de facínoras que apenas “cumprem” os ditames dos poderosos. E tudo
aparece de modo prosaico, sem grandiloquência. Hobbes se esconde em cada fala
desta peça. Terminando sua leitura, recordamos de imediato o que diz Canetti
sobre o verdadeiro autor satírico, o qual
permanece terrível ao longo dos séculos. Aristófanes, Juvenal, Quevedo, Swift, sua
função é designar os limites humanos, ultrapassando-os impiedosamente. Ele joga os
homens num tal medo que isto os empurra para além de seus limites66.
6
Elias Canetti, Le Territoire de I’Homme, Paris, Albin Michel, 1978, p.
298.
7
Folha de S. Paulo, 13.9.1981, p. 14.
8
A tradução francesa, Comedie des Vanités, por exemplo, ajuda bastante a entender
a polissemia, árdua em português, carregada pelo termo alemão, como veremos
adiante.
4
grandes lições dos moralistas gregos e latinos, unindo-as rigorosamente às formas
bíblicas. Destas fontes, ele segue para a consciência moderna, identificada com o
tempo dos relógios e dos espelhos. O texto começa com um “nós”, repetido como
ladainha hipnótica, e termina com a palavra “Eu”, berrada no interior da massa
anônima. O instrumento especular é o “personagem” efetivo do trabalho. O
espelho reúne em si mesmo as idéias antitéticas mas complementares da sabedoria
e da tolice. Como assinala Jurgis Baltrusaitis99 ele foi utilizado como emblema da
virtude e como sinal de loucura. Canetti explora ao máximo, com recursos novos,
a velha imagem especular. Superfície polida, isto é, cultivada 110 nas escolas, do
primário às universidades, e pelos meios de comunicação de massa, a consciência
moderna que se reflete no “público médio”, é o máximo da tolice e da vaidade.
Na peça, os espelhos são continuados pelas fotografias, jogando Elias Canetti
com o imenso acúmulo crítico da modernidade, o qual fortaleceu a recusa
platônica das imagens. Basta que se lembre Baudelaire: com a fotografia
la societé immonde se rua, comme un seul Narcisse, pour contempler sa triviale image
sur le métal. Une folie, un fanatisme extraordinaire s’empara de tous ces nouveaux
adorateurs du soleil...111
5
vanitatum... et omnia vanitas”113 Talvez nenhum refrão seja mais repetido, e no
entanto mais eficaz para descrever a tolice humana, insuportável quando o
intelecto reflete a si mesmo, entenebrecendo o mundo e seus fundamentos. A
glória, a vanglória, o saber arrogante que se confunde com a ignorância, as
análises de tudo isto foram potenciadas ao máximo no encontro, durante o
helenismo, entre a cultura grega e judaica. Renascença e Reforma, ambas
mergulhando nas águas mais profundas da Grécia e do povo israelita, levantaram
monumentos literários onde, até hoje, brilha a mais fina ironia já lançada sobre os
habitantes irritadiços de Babel.
Poucos filósofos captaram de modo certeiro a tolice social, como Montaigne. A
vaidade, a levitas do vulgo estólido, é fonte de loucura e de tirania sem par. Contra
ela, todos os recursos devem ser aplicados. Retomando a crítica do Gorgias
platônico à retórica, Montaigne constata o inescapável plano coletivo da vanité:
la bestise et faeilité qui se trouve en la commune, et qui la rend subjecte à estre maniée et
contournée par les oreilles au doux soa de cette harmonie, sans venir à poiser et
connoistre la verité des choses para la force de la raison, cette facillité, dis-je, ne se
trouve pas si aisément en un seul...114
Lutero, na Bíblia que modelou a língua alemã, grafa a Vanitas115 com o termo
que irá definir o misto de desengano e gloríola das modernas subjetividades:
eitel116.
O vocábulo, a melancolia e a sátira que ele evoca, muito próximas da Loucura
erasmiana, foi um ponto estratégico no teatro, na poesia, na prosa e nas artes
barrocas, em especial na Alemanha: “Du sihst / wohin du sihst nur eitelkeit auff
erden...”117. A experiência do Nada, o lote dos indivíduos e povos na terra, e a
crítica da Eitelkeit, chegaram ao máximo, em termos literários, com o
romantismo. O mundo moderno, instaurado pela Razão das Luzes, o progresso, as
113
Este poema deslumbrante e desalentado foi refeito em nossa língua por Haroldo
de Campos, revestindo o Eclesiastes com a roupagem hebraica que define sua
diferença face à tradição latina. Vanitas, ou Névoa-nada remetem à triste reserva
diante da estultice humana. Leia-se o esplêndido ensaio de Campos, no volume 1
onde foi publicada a sua tradução. Cf. Campos, H: Qohélet/O-que-Sabe:
Eclesiastes. São Paulo, Perspectiva, 1990, em especial, p. 35, onde o tradutor
indica a presença, no texto, de importantes traços irônicos.
114
“De la vanité des paroles”, “Essais”, in Oeuvres Complètes, Paris, Gallimard,
La Pléiade, 1962, p. 293.
115
Vanitas, que por sua vez reproduz na língua latina a palavra mate, a loucura ou
erro, falsidade, sandice, fala supérflua e superficial, donde o mataiotes grafado na
“Septuaginta” (Cf. Deutsche Bibelgesellschaft Stuttgart, 1979, p. 238).
116
“Es ist alles ganz eitel...”, Lutherbibel erklärt, Die Heilige Schrift in der
Übersetzung Martin Luthers, Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart, 1987, p. 1002.
117
Andreas Gryphius, “Es ist alles eitell”.
6
melhorias sociais e políticas, mas sobretudo a liberdade baseada no conhecimento
científico seriam apenas tolice e palavras soltas ao vento, Eitelkeit...118
Hegel, o pensador que mais gravemente nivela os indivíduos, prendendo as
subjetividades particulares ao “belo” Todo, captura, através de uma pilhagem do
Sobrinho de Rameau diderotiano, a tolice na cultura massificada. Para que se
efetive a pretensão do indivíduo ao genial auto-centramento narcísico, como no
caso do músico vagabundo que “entassait et brouillait ensemble trente airs
italiens, français, tragiques, comiques, de toutes sortes de caractères”, é necessário
que nada mais no espírito coletivo seja estável e sólido. A individualidade auto-
centrada é um corrosivo que ameaça os liames sociais. A consciência do Ego
representa apenas “a tolice que só escuta a si mesma”. O mundo moderno é
sandice e loucura, e o indivíduo, seu filho e genitor ao mesmo tempo, é simples
Eitelkeit119.
Em semelhante mundo, como num espelho mágico, tudo aparece de cabeça
para baixo, invertido e pervertido, explicitando-se como “um Eu que é um Nós”.
Lendo-se a Comédia da Vaidade, é possível notar que tal itinerário é refeito, mas
agora sem nenhuma promessa hegeliana de repouso conciliador ou epifania do
Absoluto racional, no divino Estado que tudo corrigiria, da visão especulativa aos
menores atos.
Elias Canetti, portanto, ao escrever estas peças, reúne um tesouro milenar de
análises e críticas, escalpelando o animal humano que, ao abandonar os árduos
caminhos do saber, renuncia à imortalidade e se espoja na gloríola e se derrete no
tempo, diante do espelho embaçado de sua própria consciência. Ler Elias Canetti é
uma experiência dolorosa, mas que sempre gratifica no final. Os escritos da
presente coletânea exibem o delírio das ocas subjetividades, e seguem para mais
longe, pois mostram a sociedade que as gerou, com todas as suas mazelas. E não
mais existe salvação trazida pelo organismo estatal. Os nazistas e seus irmãos “de
esquerda” demonstraram toda a loucura e vacuidade presentes na Raison d’Etat.
118
Os Hinos à Noite, de Novalis, especialmente o de número 5, espelham esta
crítica às Luzes, de modo impiedoso. Cf. Roberto Romano, Conservadorismo
Romântico. Origem do Totalitarismo, São Paulo, Unesp, 1997, 2. cd., p. 130.
119
G. W. F. Hegel, Phänomenologie des Geistes. Werke in zwanzig Bänden, F.A.M.
Suhrkamp, 1970, vol. 3, pp. 386-387.
7
sempre inventar novos infernos?220
O CASAMENTO
Personagens *
• Prólogo
8
Toni, sua Neta
Lori, um Papagaio
Thut, Professor
Leni, sua Esposa
O Bebê
Anita, uma Moça Mais Fina
Peter Hell (Iluminado), Moço com Buquê de Flores
Gretchen, Mulher de Negócios
Max, um Homem
Franz Josef Kokosch, Porteiro da Casa
Sua Mulher Moribunda
Sua Filha Idiota Pepi
O Casamento
QUADRO 1
9
senta-se junto a uma mesa alemã antiga e tricota. Sua sala tem
vidros redondos, chumbados. Uma gata brinca com o novelo
de lã. Um papagaio guincha. Entra correndo uma jovem
de tranças loiras, olhos azuis, com movimentos
delicados, femininos, algo exuberantes.
TONI - Sim, sou eu, corri tanto! Na escadaria há um homem, ele está
completamente bêbado. Quis me beijar.
TONI - Não pude evitar! A boca dele tinha gosto de vinho. Saí correndo.
TONI - Pússi já está brincando de novo com a lã! Bem que você quer! Piss! Piss!
TONI - Esses bichinhos são resistentes. Têm sete vidas. Quando caem, caem
sempre de pé. O que ela quer com a lã? Sempre com a lã. Tricotar você não
sabe. Agora já está velha, Pússi!
TONI - Acabou, não tem mais a brincadeira do novelo, Pússi. Agora todos viram o
rosto. A gente se sente mal, só de te ver! Vovó, vovó, como está se sentindo
hoje?
A GILZ - Melhor.
TONI - Melhor?
TONI - Mas vovó, ontem você disse que se sentia tão mal, quase morrendo. E as
dores na coluna que tinha. Não está agüentando mais, você disse. Sempre
10
essa falta de ar, e o coração doente. Precisamos do coração, você disse, sem
um coração sadio não se vai longe, e o médico é da mesma opinião.
TONI - Vovó, sabe, ainda ontem com os pés inchados, você não conseguiu se
levantar.
TONI - Vovó, acho que está mentindo. Porque andar você não consegue.
TONI - Está agonizando há uma semana e não morre. O porteiro, seu marido, reza
e grita, de tão desesperado que está.
A GILZ - Ela já não consegue dizer uma palavra. Está muito velha.
11
A GILZ - Tenho 73. Pode fazer a conta. Ela é doze anos mais velha.
A GILZ - Não.
TONI - Vovó, está ouvindo algo? Não, continua não ouvindo nada.
TONI - Não acredito em você. Vamos, diga o que está ouvindo agora.
TONI - Também quero uma música assim, quando me casar. Eles têm seis
músicos de uma vez.
12
A GILZ - Não é verdade.
TONI - Sabe, é uma pena, vovó, que você não vai estar mais aqui quando eu me
casar. Em compensação, ganho a casa, não é, vovó, e meu marido não
importa quem seja e eu vamos nos lembrar sempre de você.
TONI (mais alto) - Quando você não estiver mais aqui, a casa!
TONI - Sempre venho visitá-la. Sempre venho ver como está. A Rosa nunca vem.
Gostaria pelo menos que me deixasse a casa. A Rosa não precisa da casa. A
Rosa já tem um homem!
13
PAPAGAIO - Casa, casa, casa.
TONI - Todo dia é a mesma história com o papagaio. Casa, casa, casa!
PAPAGAIO - Casa, casa, casa! (Ambos cada vez mais alto, um grita mais alto que
o outro, a moça sai correndo e soluçando.)
A GILZ (Parou de tricotar durante a barulheira, pôs uma mão no ouvido e olhou
para a neta com a cara mais incompreensível do mundo. Nem bem a moça
saiu, o papagaio se cala. A velha se levanta, caminha com dificuldade até a
gaiola e enfia um dedo no bico da ave.) - Ainda estou viva.
QUADRO II
14
LENI - Eu, acordá-lo? Eu, tirar meu docinho do sono?
LENI - Dormindo?
THUT - Exatamente, dormindo, como está agora diante de você. O que pensa?
THUT - E o que é?
THUT - Não. Você tem razão. Mas vamos continuar - ele tem os meus olhos.
LENI - Sim.
THUT - Acho que me lembro de algo. Conheço muita gente a quem faria bem
uma memória como a minha.
THUT - Uma pergunta - você acha isso tão necessário? O livro de história fala em
atentados.
15
THUT - Você sempre foge de nosso tema, Magdalena. Quando olho para ele,
estava lhe dizendo, penso em mim, como eu era, há trinta anos.
LENI - Engraçado!
THUT - Espero que você me ouça. Uma vez que o bebê se parece tanto comigo,
precisamos fazer algo por ele. Você pode morrer. Em rigor, eu também posso
morrer. Nosso filho não deve ficar de mãos vazias.
THUT - Não me interrompa, Magdalena! A criança não deve ficar de mãos vazias.
Para evitar isso, em minha modesta opinião, há duas alternativas. Um, em
algarismo romano - um seguro; Dois, em algarismo romano - uma casa. Eu
pessoalmente estou inclinado pelo romano dois. No que diz respeito a
romano um, todos sabem que uma companhia de seguros pode quebrar. Pelo
romano dois, ao contrário, fala a circunstância de que uma casa repousa sobre
base sólida. Uma casa é como a palavra de honra do homem -
inquebrantável. Talvez você também saiba que os ingleses costumam chamar
seu lar de castelo. Eu pergunto: o que eles entendem por lar? A resposta certa
é a seguinte: por lar eles entendem sua própria casa.
LENI - Não fique bravo por eu interrompê-lo. Mas a que casa você se refere
exatamente?
THUT - Pense um pouco! Esforce um pouco seu pequeno cérebro! Estou pronto a
apostar que você não adivinha.
LENI - Você quer comprar esta casa? Com nossas economias? Engraçadinho.
Tanto assim nós não temos.
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por mim. No entanto sou professor de ginásio e não costumo lidar com
negócios. Mas quando se trata do bem-estar de meu filho, obrigo-me a agir
contra minha natureza. Você, como eu, diariamente é testemunha das brigas
ao lado. A velha Gilz não larga de sua casa. Você ouve isso. Você vê sua neta
Toni escada abaixo e escada acima atrás de sua herança. Nenhuma expressão
é forte demais para o comportamento imoral dessa parente consangüínea.
Mas em seu filho você não pensa.
THUT - Isto, eu estou quase acreditando. Aqui onde moramos todo mundo
acredita que uma das netas herde a casa. Nós dois somos os únicos que não
só ouvimos a briga, como também a compreendemos. Talvez lhe fique
finalmente claro, porque mudei nosso quarto de dormir para cá, onde nenhum
som do lado nos escapa. Apesar disso, o descanso noturno de meu filho é
uma das coisas que me é mais cara ao coração. Nós dois sabemos que a velha
Gilz prefere dar sua casa a um estranho do que deixá-la para as duas caça-
dotes. Também treme com razão pelo destino de seu papagaio. Com razão,
pois uma coisa eu afirmo sem destemor: no momento em que a velha Gilz
fechar os olhos, a caça-dotes de sua neta Toni vai assassinar o infeliz
papagaio, eu repito: assassinar!
THUT - Não me interrompa, deixe seu marido acabar de falar e você ficará
sabendo de tudo. Esta noite mesmo vou procurar a velha Gilz e lhe propor
quanto a isso um acordo de renda vitalícia. Ela simplesmente transfere a casa
para o nome de nosso filho. A renda ela recebe, enquanto viver,
pontualmente. Além disso, nos responsabilizamos a dar ao papagaio o melhor
cuidado e trato até sua morte.
THUT - Não acho, Magdalena, tenho a certeza. Com isso ela mata, permita-me a
expressão - dois coelhos com uma só cajadada. De um lado, se vinga de suas
netas caça-dotes, de outro, provê as necessidades de seu papagaio.
THUT - Sempre fomos bons para ela. Esqueceu que há um mês peguei o telefone
para chamar o médico para ela?
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THUT - Eram cinco para as nove, nosso querido dormia há muito tempo.
THUT - Preciso pensar em tudo, isto é, nesse caso, no futuro de nosso filho. Agora
uma pergunta: quantos anos de vida você dá à velha Gilz?
LENI - Você não deve dizer isso a ela. Diga-lhe que ainda tem uma dúzia de anos
pela frente.
THUT - Preferiria não mentir. Odeio mentiras. Mas infelizmente ela mesma
prefere assim.
THUT - Tem toda razão. E por que não faço isso há um mês? Por quê?
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LENI - Não há de ser porque não é correto? Para nosso filho nada é incorreto.
THUT - Eu não poderia fazer nada que fosse incorreto. Você devia me conhecer
nesse particular. Mas não admito que você me prescreva a hora certa.
Acredito no livre arbítrio do homem de deixar de fazer ou não o que ele quer
ou deixar de querer. Você sabe que não sou religioso. Não faz meu estilo
honrar o padre na igreja todo domingo com minha visita. Mas tenho certos
princípios. Um deles é que acho uma moral verdadeira mais importante do
que qualquer beatice. Com isso caracterizei abundantemente minha tendência
para o livre arbítrio.
LENI - Você tem medo da velha Gilz. Há um mês me promete toda noite que vai
falar com ela sobre a casa. Mas nunca vai! Nunca vai!
LENI - Você irá? Sim, quando ela estiver morta, você irá, quando estiver morta, a
todo momento ela pode morrer. Você não tem coração. Provavelmente seu
filho vai ser um reles funcionário como você, um professorzinho mediano, e
permanecer trinta anos na cátedra. Logo agora que a sorte nos tocou! Ah, por
que me casei com você? Por que foi que me casei com você?
THUT - Primeiro, não grite, você acorda a criança. Segundo, você devia ter
pensado nisso antes.
QUADRO III
Anita, uma moça mais fina. Peter Hell, moço com buquê de fores.
Quarto de dormir de Anita. Ela está diante do espelho e termina
sua toalete. Enquanto se maquila, Peter Hell atravessa a
soleira da porta com um grande e ridículo buquê
de flores. Ela o vê pelo espelho,
mas não se volta.
19
ANITA - Agora você vem?
PETER - Está vendo, e eu quero que você possa para sempre confiar em mim.
Sinto a necessidade de me declarar hoje. Um dia é preciso desabafar. Não
fique zangada, Anita, mas hoje vim pedir sua mão. Você me entende? Me
entende completamente?
PETER - Eu sabia. Você, você, você. Adoro você, acredite, eu adoro sua pureza.
Você acredita em mim? Você é única moça entre as suas amigas. Não me
entenda mal. Não me entenda mal, Anita. E não gostaria de me sujar. Meus
filhos deverão ser os meus filhos. Eu trabalho, gosto de trabalhar, mas
preciso saber para que trabalho. Preciso poder acreditar que trabalho para
meu próprio sangue, limpeza, houvesse mais limpeza, e o mundo estaria
salvo. É certo que tive sorte. Não posso ser injusto. A primeira mulher com
que topei foi você. A sorte quis que eu encontrasse em você uma moça, uma
garota pura, Anita.
PETER - Justamente, mas por que é esse o seu natural? Poderia também não ser o
seu natural. Por isso a amo de verdade, porque virgindade é o seu natural. O
que eu teria feito por exemplo, se o oposto fosse o seu natural? Eu teria me
matado hoje mesmo. Você me entende? Você me entende. Veja só, agradeço a
Deus por você ter vindo ao mundo assim. Imagine, por exemplo, eu lhe peço,
imagine o seguinte, não é difícil imaginar, é só pensar em suas amigas, que
20
eu, perdoe-me, considero moças muito indecentes. Não fique com raiva.
Imagine só se você fosse também assim. Não quero pronunciar a palavra em
relação a você, mas imagine só se você fosse como suas amigas.
PETER - Viu! O que foi que eu disse. Você é mesmo pura, pureza não se adquire.
A pessoa vem com ela ao mundo. Essa pureza não tem nada a ver com
sabonete.
PETER - Você disse: sou tão feliz! Aí me levantei, tomei-a em meus braços e
disse: sou ainda mais feliz! Acredite. Você disse: eu o entendo. Eu a beijei e
sussurrei bem baixinho em seu ouvido: “Mãe de meus filhos”.
PETER - Quero lhe agradecer. Hoje estou aqui para lhe agradecer por ter corado.
Você me incutiu confiança em minha família, em meus filhos, em meus
herdeiros. Nestes tempos. Meus filhos são meus herdeiros. Minha vida
ganhou um sentido. O que eu faria sem você? Não posso viver sem você.
Diga se me ama.
21
ANITA - Sim, sim.
PETER - Sempre vai me amar? Você pode responder por você? Você também não
é mais do que um ser humano. Afinal, seria possível imaginar o caso - não
me tenha raiva, você me entende, é apenas uma suposição - de um dia outro
homem surgir em sua vida. Um certo encantamento, uma impressão mágica,
algo misterioso a atrai para ele, com força irresistível. Contra o amor
ninguém consegue lutar. Bem vê, você pode ver isto em nós mesmos.
Poderíamos nos defender de nossa paixão, seria em vão.
ANITA - Acredito.
PETER - Esperarei por você neste sofá. Sabe, este sofá. Está me entendendo bem?
QUADRO IV
22
sentados em poltronas de couro um em frente ao outro,
fumando, negociando enérgica e
nervosamente. Ela não cede.
MAX - Não, é seu jeito de falar. Você sempre tem jeitos de falar.
MAX - Conheço esses malabarismos de cálculo. Isso também faço. Isso não é
nem de longe prova alguma.
GRETCHEN - Por favor, conte junto. Trinta mil o carro, ele vale mais, eu o avalio
apenas em trinta mil. O que tenho a receber dos Gresenfelder fica no ar,
cálculo no mínimo vinte e quatro mil, isso perfaz, suma sumarum, cinqüenta
e quatro mil. Os seis mil e setecentos, sobre os quais já falamos, deixo
totalmente de lado, podemos nos entender sobre eles mais tarde. E isso não é
tudo. Aposto que o tio Berger vai sair do negócio, imaginemos que com isso
eu perca quarenta mil, ao todo a bagatela de noventa e quatro mil, não
contando os seis mil e setecentos, como disse. Junte a isso os juros de...
MAX - Sim, sim, está bem. E o que ganho com isso? Não vejo por que pagar em
dinheiro.
GRETCHEN - Não é preciso ser em dinheiro. Você tem crédito comigo, Max.
GRETCHEN - Voltar atrás? Como assim voltar atrás? Não gosto disso.
23
MAX - Portanto você só quer na certeza.
GRETCHEN - Na certeza.
GRETCHEN - Ela precisa dele para alguma coisa. Isso é óbvio. Aproxime-se
dela. Diga que ela é idosa e sozinha, que todo mundo quer enganá-la, que
você a tem no coração, por morarem vinte anos no mesmo prédio. Depois
que ela lhe contar todas as suas histórias, você poderá fazer com ela o que
quiser. Poderá espremê-la apenas com a mão. Como é que ela é?
MAX - Agora não sei. É ela que está batendo as botas ou é ele?
GRETCHEN - Você quer se esquivar. Ambos não podem estar à morte. Pergunte à
parte sobrevivente! É a ela que você deve perguntar imediatamente!
MAX - Com seus negócios você não tem vergonha. Se o preço do imóvel não
subir, como você diz, sua audácia é uma pouca vergonha, Gretchen.
GRETCHEN - Nesse caso eu perco. Não esqueça meu risco. Talvez esteja
exigindo muito de você, Max.
24
MAX - Isso depende.
GRETCHEN - Eu lhe disse por que o preço do imóvel, aqui, tem de subir
efetivamente. Minha confiança em você, você mesmo pode ver. Você poderia
guardar a dica para si mesmo.
MAX - E eu lhe disse que a Gilz quer se livrar secretamente de sua casa, já o sei
há muito, desde que ficou velha. Será que precisaria ter dito isso a você?
MAX - Entendo.
MAX - Você disse o triplo, para não se fazer de importante. Se não quer se fazer
de importante, diga o dobro.
MAX - Um momento.
25
GRETCHEN - Quem está falando de dar errado?
GRETCHEN - Vontade não vem ao caso. Você já vai ficar com vontade.
GRETCHEN - Preciso lhe dizer uma coisa, Max. Você não tem iniciativa.
GRETCHEN - Controle-se!
GRETCHEN - Sim?
MAX - Dispa-se!
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QUADRO V
KOKOSCH - Chamem Sansão, para que ele brinque diante de nós. Aí eles
buscaram Sansão na prisão, e ele brincou diante deles, e o colocaram entre os
pilares. (Ouve-se uma música dançante vinda do andar de cima.) Mas
Sansão disse ao jovem que o trazia pela mão.
KOKOSCH - Deixe-me, tocar os pilares sobre os quais a casa repousa, para que
me apóie neles. A casa porém estava cheia de homens e mulheres.
27
KOKOSCH - E todos os príncipes filisteus estavam lá e em cima do telhado havia
cerca de três mil homens e mulheres, que viam como Sansão brincava. Mas
Sansão clamou ao Senhor e disse:
ANCIÃ - Preciso...
KOKOSCH - E no outro com a mão direita e no outro com a esquerda; jogar tudo
você pode, esparramar tudo, isso você pode, mas encontrar não pode. No
outro com a mão esquerda e no outro com a direita. Se eu vejo você rir mais
uma vez, então sua própria mãe morre.
KOKOSCH - Ponho você para fora. O Senhor nos castigou com uma filha
degenerada. No outro com a esquerda. Agora achei. Sempre a música. E
disse:
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KOKOSCH - E disse: Que eu morra com os filisteus! E se inclinou fortemente.
Então o templo caiu sobre os príncipes e todo o povo que estava dentro, de
forma que foram mais mortos que fez em sua morte do que os que causou em
toda a sua vida. (A música dançante ressoa.) Pepi, agora você vai até os
Segenreich e diz que estou pedindo para abaixar o som. Estou pedindo para
abaixar a música alta. No que diz respeito ao casamento, não quero ofender
ninguém. Você ouviu, Pepi? Agora você vai até os Segenreich e diz que estou
pedindo, que não posso orar com a música! Sua mãe está morrendo. Se eles
não acreditam, que venham ver. Não consigo orar com essa música! Você
ouviu, Pepi?
ANCIÃ (choramingando alto) - Ele não me deixa falar. Ele não me deixa falar.
O CASAMENTO
29
SEGENREICH - A crença é uma bem-aventurança. Sou o pai. Continuarei sendo
o pai, podem vir centenas de genros. Estou dizendo, essa é minha carne e
meu sangue. Também construí a casa. Agora alguém vem contestar a
paternidade. Na festa de casamento é que sou mesmo o pai. Se não sou o pai
na festa de casamento, quando é que vou ser? Sempre fui o pai. Pus três no
mundo, eu, Karl Christian Segenreich em pessoa. Duas meninas, um menino,
que comecem a desfilar. Christa! Christa! Fique esperta quando seu pai a
chama! Christa! Christa! Ande logo!
JOHANNA - Deixe-a em paz! Em seu dia mais belo! Parece pálida, minha
bonequinha! Ah, se ela não fosse tão jovem! Não vai compreendê-lo. Será
que ela gosta tanto dele também? Ele é tão educado, que aspecto doce! Com
os olhos encaracolados e o cabelo leal! Gosto muito, muito dele. (Segenreich
vai buscá-la.) Eu o acho encantador, encantador e doce, como o fraque lhe
cai bem, como uma luva, e é esperto não afirma qualquer coisa, não queima a
boca, acho que é ainda mais esperto do que o meu marido.
JOHANNA - Não dou nada por nomes. Que ganho com nomes?
JOHANNA - É bem feito, e que modos são esses com a Zart? Não suporto a Zart.
Só faz dois anos que o marido está debaixo da terra e ela já está se
divertindo. Ela tem um amigo e na véspera do casamento de minha própria
filha ela vem aqui e se faz de coquete com o meu amigo.
JOHANNA - Então, tanto melhor! Está se dando tão bem assim com ela? Olhe-a
só, o varapau!
JOHANNA - Mimosa? Mimosa? Para que todo mundo toque nela! Disso também
sou capaz. Olhe só para ela, o varapau seco, eu teria vergonha de andar assim
no meio das pessoas. Por que ela não sai vestida de homem? Não tem seio,
nem quadril, nem panturrilha, não tem nada que tem uma mulher tem. Eu
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tenho tudo. Por favor, você sabe e posso chamá-lo como testemunha! Tenho
tudo o que é próprio de uma mulher ou não tenho?
SEGENREICH - Eles não vêm. Marie, eu chamo. Não tem tempo. Karl! Ele não é
mais nenhum menino, diz o malandro, nenhum garoto, mas um maroto, não
é, mãe, e nós somos os pais e temos o nosso grande dia. Amanhã mesmo a
Christa vai nos dar netinhos, para nós dois, a família Segenreich vai florescer
para todo o sempre. Minha velha, quantos netos você imagina? Eu digo oito.
SEGENREICH - Conhecer não vem ao caso. Do tempo você entende. Você sente
logo o cheiro do vento, de onde ele vem. Isso eu admito.
JOHANNA - Com o Schön tenho sempre a sensação de que vamos descobrir algo
muito sujo sobre ele, algo nojento, nem posso imaginar o quanto, um caso
escuso ou algo assim.
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SEGENREICH - E a idade avançada e a figura colossal.
SEGENREICH - Essa é boa! Você e a viúva Zart, vocês podem dizer isso. Vocês
não são ninguém. Um homem de verdade nem sequer cuspiria em vocês.
SCHÖN - Como eu poderia ousar fazer isso? O senhor seu marido ia acreditar que
tenho experiência com a senhora. Ele deve saber por que fala assim. Pois
agora vocês estão casados há nem sei quanto...
SCHÖN - Tanto assim? Meus respeitos aos dois, minhas senhorias, eu não
agüentaria isso.
SCHÖN - E agora?
SEGENREICH - Palavra de honra! Examine seu coração! Bem fundo, bem fundo,
de preferência o porão, que está completamente escuro!
SCHÖN - Bem, pare com isso, já lhe digo o que quer saber, fale logo, você me
deixa nervoso.
SCHÖN - Essa é boa, como posso ter filhos? Não sou casado.
SEGENREICH (ri ameaçador) - Bem, minha velha, pode ver por si mesma. Ele
nem sequer sabe que há filhos bastardos! Ele não sabe! Ele não sabe como se
faz filho! Ele não sabe, mulher, eu sufoco! Bata em minhas costas, Schön,
estou sem ar, você não sabe, estou me asfixiando, meu caro, me asfixiando,
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você não sabe!
JOHANNA - Você acha que isso é óbvio. Você tem razão, meu rapaz.
JOHANNA - Você também sabe como se trata uma mocinha, meu rapaz. É preciso
ter muito, muitíssimo cuidado. Temo, temo que você não esteja amadurecido
o suficiente. Você não deve ferir minha filha, Michel, não a machuque, é a
minha filha mais velha, eu a gerei, eu a pus no mundo, não quero tê-la
concebido em vão. Você entende disso?
JOHANNA - A Christa acha que você é bobo, o pai, acha que você ainda está
verde, aí eu disse, ele me agrada. Ele me agrada muito e basta. Sou a dona da
casa. Não sabia disso? Meu bichano pequenino que olhos destrambelhados
ele faz e que cabelo cândido ele tem! Mas você precisa mesmo ter cuidado
com a menina. Sabe como fazê-lo? Venha aqui que vou lhe explicar. Há
muito o que explicar!
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Johanna puxa Michel por uma porta à esquerda.
Nessa porta está Horch, um idealista,
conversando com a viúva Zart.
HORCH - Isso é o mínimo que podia fazer. Ele tinha de pensar em você. Você
acha possível que ele não pensasse em você?
HORCH - Você foi sua mulher seis anos seguidos, cuidou dele e suportou
calmamente os maus modos da idade.
HORCH - Você lhe sacrificou sua juventude. Você tem agora trinta anos, ou quase
trinta. Quantos anos de felicidade tem ainda pela frente? Dez ou quinze. Não
é muito.
ZART - Se ele soubesse, não teria sossego no túmulo. Não posso deixar de pensar
nisso. Ele também pensou em mim.
HORCH - Tanto melhor! Se ele pensou em você, esse velho sovina e egoísta,
como você poderia deixar de pensar em si mesma! Mas você se chama Zart e
é uma flor mimosa. Estremece só à menção de um toque.
HORCH - Sim, acho. Uma que floresce especialmente tímida. Uma mimosa rara.
HORCH - Isso torna mais do que uma obrigação deixá-la em paz. Não, você é que
deve agarrar os homens. Não é fácil agarrar os homens. É preciso ter
inteligência e todos os ataques partem da iniciativa da mulher.
HORCH - Me admira que você ainda não tenha arrumado. Você está só há dois
anos.
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HORCH - Isso muda, naturalmente, tudo. Eu não sabia.
ZART - Muito. Ele é sensato. Pode-se falar com ele sobre todas as coisas. Ele se
parece com você.
HORCH - Sim. Vou ficar feliz se você escolher alguém que se pareça comigo.
HORCH - E você, uma mimosa, minha senhora. Contanto que fiquemos longe um
do outro, combinamos extraordinariamente bem.
CHRISTA - O que diria então, tio Bock? Você usa expressões tão boas!
BOCK - Chinês.
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CHRISTA - Chinês? Logo chinês?
BOCK - Sim! Não se sabe por que ela está morrendo. Nem por que você está se
casando.
CHRISTA - Estou me casando porque quero sair de casa. Não posso receber
decentemente meus amigos. Você conhece minha mãe.
CHRISTA - Como assim, tio Bock, você vai me visitar em minha nova casa.
BOCK – Não vai dar certo. As pessoas... Você vai ver. Tenho experiência.
CHRISTA – O quê, tudo dá certo. Você vem à minha casa, por exemplo, com o
Rosig, o fabricante de caixões, você o conhece, lá está ele.
BOCK - Você quer o Horch? Vou ajudá-la. É fácil fazer a cabeça dele. Ataque-o
calmamente, mas diga-lhe, ao mesmo tempo, que ele é um idealista. Ele
deixa fazer tudo com ele. Só não se pode falar no assunto, só de ideais. Ele é
culto, é o único homem culto que conheci em toda a minha vida, isso quer
dizer algo.
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BOCK - Ou a pequena já tem um, a sua irmã?
CHRISTA - Espero que sim. Berra dia e noite. Eu vou me embora. Mas minha
pobre mãe não consegue dormir.
BOCK - É isso aí. A criança dorme muito pouco. Eu disse à mulher do professor,
Leni é o nome dela, ela não vale nada, ele a chama de Magdalena, se pelo
menos tivesse o cabelo da Magdalena, valeria um pouco, eu disse à
Magdalena que aquilo é penitência, não é uma arte, se eu fosse mulher e
tivesse aquela aparência, também faria penitência, logo com isso se casa um
professor, eu disse a ela, coloque o quarto no lugar onde estava antes, o pobre
miserável dorme pouco demais, no apartamento vizinho há um papagaio.
BOCK - Um papagaio totalmente louco, sempre quando venho ele fica gritando
através da parede: casa, casa, casa. Poderia acreditar que ele pensava na casa
velha e em mim, mas não é, a penitente Magdalena diz que ele grita duas
dúzias de vezes durante a noite, tira o seu filhinho do sono necessário. Mude
o quarto, disse eu, meu marido não deixa, disse ela. Envenene-o, disse eu.
Daí aquele sapo ficou verde como o papagaio, você deveria ter visto a cara
que fez, tão assustada, pôs o dedo na boca, olhou em torno para ver se
alguém a ouvia, com cara suplicante fez psiu, psiu, talvez imaginasse que eu
queria que ela envenenasse o marido. Ou achou que eu queria conquistá-la,
tão velho assim por ora também não sou, tenho outras que é preciso aturar,
quando se é tão jovem e nesta idade ainda se faz visitas!
CHRISTA - Agora pelo menos sei por que o nojentinho vive gritando. Não vou
arrumar nenhum filho, entendeu, tio Bock?
BOCK - Em mim você pode confiar. Minha mão é tão firme quanto o grito do
papagaio.
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BOCK - Que neta?
Ouve-se no andar de baixo um rezar alto.
CHRISTA - Ela tem duas. Toni a visita sempre, quer a casa para si. Acha que vai
fazer a cabeça da velha, vindo noite após noite. A outra, a Rosa, essa nunca
vem. Ela também acha que vai ganhar a casa porque não tenta enrolar a
velha. Agora até eu estou curiosa para ver quem vai ganhar. O que você
acha?
BOCK - Eu a daria à mais jovem. O que é isso? Será que não estou ouvindo bem?
Ouço o tempo todo uma reza. Eu ouço realmente uma reza.
BOCK - Deus me livre! Para que meu humor vá de vez para o diabo? Hoje tenho
um longo programa.
CHRISTA - Ele tem assistência médica. Mas não chama um médico. Ontem fiz
uma visita rápida à velha, sua aparência é até engraçada, parece uma caveira
que gostaria de dizer algo, ela quer dizer algo, mas ele não a deixa falar.
Quando ela estava viva ele já não a deixava falar, por que o faria justamente
agora, que já está meio morta. Todas as pessoas jovens do prédio vão dar
uma olhada. E agora o nosso mais novo ponto de encontro. Nós arreliamos o
Kokosch e lhe dizemos: Precisa chamar o médico imediatamente. Seu
comportamento é irresponsável, vamos dar parte à polícia! Aí ele fica furioso
e no fim explode toda vez - “Rezar é mais barato, meus senhores, rezar é
mais barato!” Ele se atrapalha todo, de tanto medo de parar de rezar e da
velha morrer à sua frente. Ele gosta mesmo muito dela.
CHRISTA - Com licença, com o preço dos enterros! E mais barato cuidar dela do
que enterrá-la. Vai arrastar isso o máximo possível.
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BOCK - É ainda mais avarento do que eu. Deus do céu!
CHRISTA - Não, realmente, tio Bock, ele é muito mais sovina do que você. Sua
filha, a Pepi, é retardada. Ela teria onde aprender alguma coisa, numa
instituição especializada; lá talvez tivesse aprendido a falar, mas ele teria de
pagar alguma coisa, uma taxa, uma bagatela, mesmo para um porteiro. O que
faz o bom homem? Não a deixa aprender nada. É melhor ela casar, diz ele, já
há anos. Por que ela é tão boba e não agarra nenhum homem? E no entanto
todos daqui da casa já a tiveram. Tem uma sorte com homens, inacreditável,
não pega filho e não pode dar com a língua nos dentes. Os homens seriam
uns tolos, se não aproveitassem. Sabe de uma coisa, eu já a invejei muitas
vezes, apesar de ela ser apenas a filha do porteiro.
BOCK - Mas quando? Quando? Na época você tinha doze anos. Isso você está
esquecendo.
CHRISTA - E agora tenho vinte e um. A Pepi do porteiro tem trinta e dois.
BOCK - A idade não importa. A velha está morrendo, diz você. Talvez eu deva ver
o que a velha tem.
BOCK - Posso ficar à vontade, ir passando a mão por baixo da mesa, assim?
CHRISTA - Mas é claro! Você pode, sem medo. Ela é minha amiga.
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ANITA - Em que semestre?
KARL - No terceiro.
ANITA - Tinha.
ANITA - Inacreditável!
KARL - Preparei uma brincadeira capital. A luz vai se apagar, de repente e então
vou beijá-la. Você ouviu?
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KARL - Sim. Não fale tão alto, senão alguém pode ouvir e atentar para o fato.
KARL (levanta-se de um salto) - Ele, quem? Não é verdade. Não fiz nada! (Nisso
surge o velho Bock.) Ah, sim, o velho Bock!
MONIKA - Devo ser também a única. Já fiz muita coisa na vida. Não sou uma
mulher comum. Por isso o entendo.
MONIKA - Por que você é inteligente o suficiente para lutar com menos
liberdade.
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MONIKA - Olhe só meu marido. Lá está ele, conversando com o dono da casa.
MONIKA - Acertou. Sofre disso há anos. Mas não morre, nunca morrerá. Não
pode morrer. Com certeza vou morrer antes.
HORCH - Mas, minha cara. Ele deve ser uns vinte anos mais velho!
MONIKA - Seriíssimo.
MONIKA - É assim que pensa: uma mulher quer um homem alto, forte e
principalmente potente.
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Christa, Anita.
CHRISTA - Eu o convidei.
CHRISTA - Pediu desculpas por não poder vir. Tem um encontro decisivo.
ANITA - Isso não é difícil. Com tanto dinheiro, eu já o teria agarrado há muito.
CHRISTA - De quem?
CHRISTA - Meu Michel é um joão-ninguém. Mas você podia ter pego o Karl.
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CHRISTA - Precisa educá-lo.
ROSIG - Deixei-a em casa. Trancada. O que faz melhor é dormir, a velha porca.
ROSIG - Que lábia tem sua mulher! Se fosse a minha, dava uns tapas no traseiro e
mandava calar a boca, entendeu?
ROSIG - Você não precisa fazer nada com ela? Nada mesmo? Não é forçado?
ROSIG - Estupendo, homem! Essa, sim, seria uma porca para mim! A minha é
uma rameira. Tentou melhorar, mas é uma rameira. Aos sessenta ainda não
sossegou. Não está satisfeita, ganho toda e qualquer aposta, aposto o que
quiser. Agora está com cinqüenta e quatro, quando fico três semanas sem
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procurá-la ela chora como um arco-íris. Não chore, velha porca, digo eu,
tempi passati, não dá mais, o que quer ainda? Agora tenho você há vinte e
três anos, dedicado e fiel, o que você quer mais? Não posso ficar em cima de
você, como um velho cocheiro. Hoje ela começou de novo. Faz apenas
dezenove dias, e ela voltou à carga. A velha porca me diz na cara que não a
amo, eu não a amo. Bem, digo a ela, estas são notícias frescas. Você recebe
toda manhã, quando saio, um beijo; em 19 dias, são 19 beijos, à noite, depois
do jantar, um tapa no traseiro; em 19 dias, são 19 tapas no traseiro. Summa
summarum: 19 beijos e 19 tapas no traseiro, o resto é problema meu, e quem
quiser mais, não receberá nada, isso é bolchevismo, ela arranca da pessoa até
a última gota, onde você a toca parece um purê. Que vergonha, diabos. Para
castigá-la, hoje a tranquei em casa.
ROSIG - Permita-me, nem trinta e cinco anos! Nem trinta e cinco e você não
precisa fazer nada. Ela me impressiona. Como ela é assim?
GALL - Sim.
GALL - Tente.
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BOCK - Não é de admirar, que ele nunca a tenha...
BOCK- O que é que ele escuta? Sua própria vergonha! (Apontando para Gall.)
GALL - Nem todo mundo é um bode. Nem todo mundo pode ser um bode. Deve
haver também homens decentes.
ROSIG - Vocês atiram muito longe, meus senhores. O homem mais lascivo é o
homem mais descente. O sêmen do homem deve fluir sobre todas as coisas,
isso os velhos gregos já diziam.
ROSIG - O que mais dá, senhores, é fazer germinar! Germinar ou fluir ou atirar.
Vou trabalhar.
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BOCK - Imediatamente. Com quem, então?
BOCK - Será que devo? Quando digo que estou pronto, não sou de brincadeira.
Tenho um ímpeto de juventude dentro de mim. Minhas pacientes estão
entusiasmadas. Não preciso de álcool. Sinto-me como se tivesse quarenta
anos. Vou conquistar sua mulher! Vou conquistá-la!
GALL - Imediatamente.
BOCK - Hoje. Aqui. Neste lugar. Um momento, por favor. (Um terrível acesso de
tosse sacode os restos de seu corpo.)
Segenreich, Rosig.
ROSIG - Uma única vez. É uma vida miserável. Preciso enterrar minha velha.
SEGENREICH - Você também não fala de outra coisa que não seja de sua mulher.
Hoje é um dia para os jovens. Hoje você não deve me ofender. Você deve
beber. Isso sim. E quando estiver totalmente bêbado pode ir para casa, para
sua velha. Antes disso não permito. Quero dizer-lhe uma coisa. Você tem que
beber porque não pode me ofender. E por que não pode me ofender? Não
pode me ofender porque eu construí esta casa. Sou o pai da noiva. Beba à
saúde da noiva, viva a noiva, salve a noiva, três vezes hurra! A noiva, minha
filha, eu, o pai. Os três eu pus no mundo. Hein, eles deram certo! Que se
atrevam a copiá-los! Fabricação Segenreich. Prevenida contra imitações.
Legalmente protegida, patente registrada. E assim continuará, eternamente.
Tenho amor, tenho grande amor por meus filhos. No dia do casamento,
minha filha ficará maior de idade.
ROSIG - Mas você fala como um poste pintado de vermelho. Faz tempo que sua
filha é maior de idade. O álcool tagarela em você como um bêbado. Hoje
você tomou um banho de vermelho. Quer saber qual é a sua aparência? Você
parece um turco pai de noiva, porque o fizeram de palerma. Não tenho
tempo, estou de olho na Monika Gall.
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SEGENREICH - Sim, vá embora, faça um caixão e deite-se com ela dentro dele e
deixe-se enterrar com ela. Sua mulher, deixe-a em casa. Por mim faça o que
quiser. Mas você precisa beber, beber, entendeu? Eu sou o pai da noiva.
ROSIG - Você não me entende, irmão. Você não sabe o que quer dizer: ser um
homem.
SEGENREICH - Sei.
SEGENREICH - Sei.
ROSIG - Você!
ROSIG - Você!
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SEGENREICH - Vá embora, seu derrotado. Para o caixão, vocês dois! Não
preciso de nenhuma Gall. Tenho meus filhos. Eles se atirariam no fogo por
mim. Christa! Marie! Karl! Sentido, quando o pai chama! Christa! Marie! Karl!
ROSIG - O senhor seu marido não tem nada contra. Nada contra.
ROSIG - Não sou mais tão jovem. Não sou mais tão jovem.
ROSIG - Vejam só, está ofendendo nosso amigo Gall, isso não vamos permitir.
BOCK - E me atiçou.
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MONIKA - Vocês chamam essa odiosa estaca oca de amigo? Esperava mais de
vocês, meus senhores!
ROSIG - O homem não a entende de jeito algum. Uma mulher tão inteira como
você.
MONIKA - Isso é o que pensa. Parece velho, mas não morre nunca.
BOCK - Vai morrer antes de mim, isso eu lhes digo. Sou médico.
ROSIG - Essa é uma mentira deslavada dele. Não acreditem em nada que ele diz.
Ele me mandou em toda a minha práxis sumnta suminarum quinhentos
defuntos, com isso eu não seria o que sou, não teria engordado, teria morrido
de pedir esmolas, teria morrido de sede, não só de fome. Tenho muitos outros
fornecedores e relações. O próprio Gall já me arrumou muito mais. Mas com
os seus 79 anos ele ainda precisa andar por aí se vangloriando e pavoneando,
não preciso dele!
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BOCK - Diga você mesma em quem acredita, mocinha. Acho imoral especular
com defuntos.
ROSIG - Isso é uma baixeza! O vovô aqui especula com porcaria. Faz filhos nas
mulheres, depois elas o procuram, ele faz uma raspagem, raspa seus próprios
filhos das mulheres e ainda cobra por isso. Ele especula com seus próprios
filhos.
ROSIG - Ele? Produz por dia tantos filhos quantas são as pacientes em seu
consultório. Não é à toa que se chama Bock.
BOCK - Eu juro, posso jurar, palavra de honra: o Rosig foi durante oito anos
lavador de defunto.
MONIKA - Meu marido não tem muito mais de cinqüenta, mas é um fracote
incomum. Talvez morra de repente, de um ataque do coração.
BOCK - Isso não seria nada mau. Com a farmácia tão sortida.
BOCK - Quando ele se sentir mal, mande me buscar imediatamente. Conheço sua
constituição. Na primeira olhada, saberei que doença o matou.
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ROSIG - Senão você cai numa suspeita pesada.
Mariechen, Michel.
MARIECHEN - Isso não tem importância. Está com raiva de mim por eu ser irmã
de Christa?
MARIECHEN - Acho que você está. Você não deve ter raiva. Você, sabe que, se
Christa não fosse minha irmã, nem sequer nos teríamos conhecido.
MARIECHEN - O que há? Você pode me beijar porque agora somos parentes.
Parentes devem se beijar. Senão ficam bravos um com o outro. Não direi
nada a Christa.
MARIECHEN - Que você beijou mamãe. Não direi nada a ela. Você estava lá no
quarto de dormir. Você caiu em cima de mamãe, eu os segui. Eu vi. Não direi
nada a Christa. Mas você tem que me dar um beijo longo e apertado. Não,
três, não, dez, agora mesmo, então não direi nada a Christa. Ei, por que
minha mãe puxava você pelos cabelos? Também quero puxá-lo pelos
cabelos. Vi como ela o mordia. Também quero mordê-lo. Ei, por que não diz
nada?
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MICHEL - Estou tão cansado. E você só fala bobagem.
BOCK - Naturalmente deu uma batida. Agora chora como um aguaceiro. Também
não suporto, dar esbarrões. A gente fica pálido de susto.
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Mariechen continua correndo e chorando.
KARL - Minha irmã está choramingando de novo. Você sempre olha na direção
errada.
KARL - Doutor Bock. A gente estuda o tempo suficiente para obter o título. Estou
agora no terceiro semestre.
SCHÖN - Deixe seu pai sossegado, você recebe novamente bala de mim, o que
você quer do seu pai, sua mãe está ali dentro. Ande, seja boazinha. Isso não
interessa nem um pouco ao seu pai. Acha que fiz alguma coisa à sua mãe?
Não fiz nada a ela. (Para a viúva Zart) Assim é a menina, não suporta que
ninguém encoste em sua mãe, nem assim, com a mão!
SCHÖN - Mas o que ela me custou todos esses anos! Bombons, bonecas,
chocolate, tudo para ficar calada.
HORCH - Quem é esse sujeito atrevido? Vamos pegá-lo agora mesmo! Vamos
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mostrar a ele! Você só precisa me dizer quem é.
CHRISTA (nesse ínterim juntou-se a eles) Será que foi Michel que deixou você
assim? O quê? A menina tem só catorze anos! Engraçado, não?
MARIECHEN - Papai, papai, Michel me beijou, Michel quer me beijar sem parar,
Michel não dá sossego, não permito que Michel me beije!
SEGENREICH - O que há com ele? Será que também está bêbado? O rapaz não
agüenta nada. Fica logo bêbado. O rapazola verde. Venha cá.
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Segenreich toma Marie carinhosamente nos braços, acaricia-a,
a conduz cavalheirescamente até a mesa, coloca doces à sua
frente e parece menos embebedado, desde o momento
em que começou a se ocupar da criança. Da
única porta até agora fechada (que
leva ao banheiro), sai Johanna.
Ela nota o pai com filha.
SEGENREICH - Nada, nada. Já está bem. O ratinho! Agora tenho algo para o
meu ratinho. Uma diversão de primeira, colossal, gigantesca! Meus senhores,
eu me permito chamar sua atenção. Nós nos afastamos demasiado. Cada um
por si, e quando devíamos estar todos juntos, porque é assim que deve ser em
meu grande dia.
ROSIG - Hoje esse aí não lavou a boca. Amanhã vamos lhe comprar uma escova
de dente.
ROSIG - Não se excite, com essa vesícula doente. Devíamos limpar é sua
vesícula.
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CHRISTA - Você tem mais sorte do que todos nós juntos, tio Bock.
BOCK - Este foi sempre o meu caráter. Logo terei vivido cem anos.
BOCK - Por mim, só oitenta. Christa, ela está realmente bem. Preciso dar uma
olhada. A música deve parar.
CHRISTA - Não disse que estivesse mal. Mas acho que estou melhor.
BOCK - E vou lá me importar com o que você acha! (Acena com o dedo.) Venha
cá, minha criança!
MARIECHEN (corre para Pepi) - Minha mãe disse para você ir embora!
(Empurra-a.)
JOHANNA - Nós mesmos sabemos, caro Horch, o que ela quer, está de olho no
belo Michel.
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pertencem!
BOCK - Ela vai ficar aqui. Vai ficar aqui. Gosto quando alguém ri. Assim está
certo, menina. Pupupu! Qui, qui, qui! Tatatá!
ROSIG - Que vergonha essa música com suas luvinhas melindrosas, eles não
estão tocando nada!
Toque atroante.
ANITA - Isso você diz para que a gente fique imaginando coisas.
HORCH - Temo que seu pai tenha esquecido o que estava se propondo há pouco.
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ROSIG - Você deve se calar, quando alguém não vem ao caso, deve se calar.
MONIKA - Você não tem que ficar me dando ordens. Sou uns vinte anos mais
jovem do que você.
SCHÖN - Foi o que pensei. Na casa dele, ele não permite uma coisa assim.
SCHÖN - Tenho de fazer isso seis vezes ao dia? Agora você sabe que é.
BOCK - O quê, você não sabe quem é esse senhor, o mulherengo mais perigoso
do século, você devia achar uma honra entrar nas memórias de um tal
Casanova, sem o sobrenome, a mãe não fica sabendo de nada.
KARL - Mande o velho Bock para o inferno. Está bem? O mais bonito é que nem
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me leva a sério. Não sei por que essa história da luz não funcionou antes.
CHRISTA - Mas mamãe, o que é isso? É a Toni Gilz, a neta da dona da casa, nós
ainda estamos lhe devendo o aluguel.
JOHANNA - Será que uma pessoa não pode festejar o casamento da filha sem ser
importunada? Gentalha não tem nada a procurar aqui. Fora!
CHRISTA - Mamãe, você não está ouvindo? (Pega seu braço e fala
insistentemente com ela.)
JOHANNA - Perdão, meu Deus, não a reconheci. Ah, a neta da sra. Gilz. Que
gentileza de sua parte ter pensado em nós. Por que não veio antes? Com essas
tranças louras tem um rosto lindo. A avó só pode ter alegria com uma neta
assim. E quando vai se casar?
TONI GILZ - Ouvi a música e pensei que podia vir até aqui apreciar o ambiente.
Não sabia que a Pepi do porteiro também estava aqui, não combino muito com
ela, quem é o senhor de idade que está fazendo assim com o dedo?
TONI - Bem que ele poderia se casar comigo. Um homem velho e rico é o que, há
muito, eu desejo para mim.
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CHRISTA - Por que velho?
TONI - Estou acostumada à velhice por causa de minha avó. Os jovens, duram
muito. O que você acha, será que ainda vai viver muito tempo?
TONI (vai até o velho Bock) - O que quer de mim, meu velho senhor? Já ganhei
um beijo seu na escada.
TONI - Não. Com a tonta da Pepi não me sento. Não por ser retardada, mas por
ser filha do porteiro.
BOCK - Menina, você tem razão, mas a sua mãe está morrendo, hoje precisamos
ser amáveis com ela. Sente-se.
TONI - Ah, bom, porque está morrendo? (Senta-se.) Minha avó também vai
morrer logo.
BOCK - Por que você acha que sou tão rico, minha menina?
TONI - Não sei, mas quando as pessoas velhas morrem sempre deixam alguma
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herança.
BOCK - Bem, então vamos nos casar. Eu fico com a sua casa - agora eu sei - é a
do papagaio louco, não é?
TONI – É a de minha avó. Mas vou estrangulá-lo quando ela morrer, vou
estrangulá-lo, o papagaio!
CHRISTA - Isso é nojento. Ele nunca tem o suficiente, é preciso tirar o copo de
sua mão. Se se envolvesse com alguma mulher! Mas nenhuma! E, podem me
acreditar, isso aí é meu pai!
HORCH - Vou agora propor um belo jogo. Para seu divertimento. Ou está cansada
da reunião? Poderia compreendê-la.
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MARIECHEN - Mamãe, ele já está querendo me beijar de novo.
JOHANNA - Quer parar com suas mentiras, menina mal educada! Imagine se vai
querer beijar logo você!
BOCK (arfando) - Vire-se, criança, é assim que tem que se sentar. Não consigo
segurá-la.
TONI GILZ - Já está cansado. Sou muito pesada. O senhor é velho demais. Tem
que se casar comigo, comigo!
BOCK - Amanhã. Amanhã. A pequena tem temperamento. Quase tanto quanto eu.
ROSIG - Esse Horch tem uma fantasia suja. Precisamos primeiro limpar sua
fantasia...
SEGENREICH - O homem tem idéias! Sim, senhor, como tem idéias! Posso beber
o quanto quiser, nunca tenho idéias assim!
HORCH - Ouçam, ouçam, mas não se assustem! Em quinze minutos o mundo vai
acabar. Primeiro vão sentir um ligeiro tremor. Vão achar que é um carro
pesado passando com ruído. O caminhão pára ruidosamente diante da casa e
não pode continuar. Vocês riem e olham para o lustre, ele balança de cá para
lá, de lá pra cá, tonéis rolam do telhado pelas escadas, tonéis pesados,
grandes tonéis desengonçados...
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BOCK - Tonéis de Heidelberg.
HORCH - Não riam ainda, estão rindo cedo demais! Quando o lustre desabar
sobre a mesa e estilhaços de cristal penetrarem em sua carne, quando
cambalearem e toda a luz sumir no barulho, quando ninguém mais olhar nos
olhos um do outro, nem um vislumbre, nem uma sombra, escuro lá fora,
escuro aqui dentro, a rua como a casa, e a casa como vocês mesmos, e não
consigam segurar em nada, nem chamar, só gritar, então saberão, então
saberemos onde estamos, tremendo diante da terra como a terra diante de
nós, e o susto nos terá em seu punho apertado. Esperem! Quem terá tempo
para si, quem pensará em si, quando seu ente querido estiver nas garras da
morte? Somos seres humanos, não é mesmo, com isso vocês concordarão, e
como estamos mergulhados em mentiras, como é agradável mentir em um
casamento abençoado como este, dou-lhes de presente outra grande mentira.
Será que voltarão a acreditar em mim?
ROSIG - Essa é uma imunda mentira sua. Você ficou furioso porque eu penso em
sua mulher, com quem vou dormir, assim que você estiver morto. Prometi a
ela, não preciso de sua permissão, se você ficar malcriado, eu o mato.
HORCH - Silêncio! Imaginem que teriam seu ente mais querido aqui entre nós,
entre os convidados do casamento. É difícil pensar nessa hipótese? Será que
esqueceram essa pessoa em casa? Então deixem-na lá, onde está enterrada e
escolham um dos presentes aqui. E se escolheram, nem bem escolheram aí
ouvem o caminhão passar ruidosamente, o lustre lá em cima sacoleja, os
tonéis rolam, o teto racha, o chão se abre, vem a escuridão. E vocês, o que
farão pela pessoa querida?
Vozes (em confusão) - Eu? Está pensando em mim? Quero ser o primeiro. Já
escolhi. Por favor, seu Idealista. Já sei.
HORCH - Silêncio! Vejo com alegria e grande satisfação que todos se apressam
para a ruína. Ninguém fica para trás. Todos estão prontos e têm a pessoa
querida mais preparada. Façam a festa! Perguntarei pela ordem, chamarei
agora. Quem está mais próximo da morte? Bock!
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HORCH - De qual gosta mais? De qual gosta mais?
GALL - De ninguém.
GALL - De mim.
SEGENREICH - Sou o pai da noiva. A casa eu construí. Sou o pai dos três. Eu!
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HORCH - Qual delas? A velha, a jovem, a mais moça?
HORCH - Que jovem é hoje adorada por dois velhos? Monika Gall!
HORCH - Quem especula com palavras, quem nos conhece a fundo? Horch! Eu
me pergunto e digo: Christa!
MONIKA - Bandido!
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HORCH - Você pode!
JOHANNA - Mariechen vai agora mesmo para a cama. É hora de crianças irem
para a cama.
HORCH - Quem tem que ir para a cama e não quer ir sozinha? Marie!
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BOCK - Eu cubro a Gall. Assim morrerá confortavelmente.
HORCH - Rosig!
HORCH - Gall!
HORCH - Segenreich!
SEGENREICH - Ponho Christa nas costas, pego Karl com o braço esquerdo,
Marie com o direito.
HORCH - Schön!
HORCH - Christa!
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CHRISTA - Reservo o Bock para mais tarde.
HORCH - Anita!
HORCH - Karl!
HORCH - Marie!
TONI - Minha casa! Minha casa! (Atira-se sobre Segenreich, que está no outro
extremo do salão.) Como você a construiu? Minha casa! Minha casa está
balançando. Minha casa!
TONI - Mas eu sinto como ela oscila. Minha casa desmorona. A casa não tem nem
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vinte anos e desmorona!
TONI - Você ficou com o dinheiro. Onde fica a casa? Quero minha casa! Vou dar
parte de você!
SEGENREICH - Agora vou ficar bravo. Não está acontecendo nada com a casa!
TONI - Polícia! Preciso ir à polícia. Deixem-me sair! Polícia! Vou dar parte de
você, vou mandar prendê-lo! Polícia!
HORCH - Vejam! Ouçam! O que vão fazer por seu ente mais querido?
ROSIG - Minha mulher está trancada em casa. Preciso dar uma olhada nela. Não
posso deixá-la só. Ela tem medo.
ROSIG - Está dormindo sozinha. O apartamento começa a tremer. Você acha que
está tremendo só aqui? Está tremendo também lá. Ela não pode se defender.
Como vai se defender? Está trancada.
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Ele se abaixa e procura sob a mesa.
O braço de Gall o segue por todo lugar.
ROSIG - Ela está na cama. Ela se despiu. A não ser a camisola, ela está nua.
Assim não pode sair à rua, de camisola. Dorme pesado. Não ouve nada. E
surda do ouvido esquerdo. Sempre dorme do lado direito, sempre. Vivo com
ela há vinte e três anos.
GALL - Vinte.
GALL - Vinte.
GALL - Vinte.
ROSIG - Vinte e três. Estou dizendo vinte e três. Não admito que falem de meu
casamento. Ela é a melhor das mulheres. Todos a querem. Todos a amam.
Tranco-a em casa. Senão me é roubada. Ela não é uma dessas rameiras. Eu a
salvarei. Preciso me salvar. Deixem-na!
ROSIG - Não me conhece mais? O que há com você? Está bêbado. Está louco.
Solte-me!
BOCK - Onde está minha dentadura? Ajudem-me a procurá-la. Não farei nada a
sua mulher. O que posso fazer-lhe sem dentes?
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ROSIG - Homem, trata-se de sua vida! Ela quer envenená-lo. Tome cuidado!
MONIKA - Ouçam-me por favor. Meu marido está morto. A farmácia está
sozinha.
MONIKA - Foi sua última vontade. Devo cuidar da farmácia. Ajudem-me a sair
daqui.
ROSIG - Agora precisa agarrá-la direito. Com uma mão não basta. Com as duas.
MONIKA - Não sei. Como posso saber? Foi o susto que o matou.
GALL - Quando?
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GALL - A mim ele deixa, a mim.
MONIKA - Sou viúva. Eu me casarei com você. Fica com a metade da farmácia.
BOCK - Pensei, que fosse minha dentadura, peguei e não é minha dentadura.
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
ANITA - Meu noivo está esperando. (Ela se solta e corre, virando cadeiras,
empurrando a mesa, na direção de Segenreich.) Adeus, engenheiro. Foi
muito agradável. Há muito não era tão agradável. Infelizmente meu noivo
está me esperando.
ANITA - Temo que ele já esteja inquieto. Está esperando lá embaixo por mim. Ele
quase não me deixou sair.
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ANITA - Então permita que o traga aqui. Não posso deixá-lo esperar mais. Ele
não vai incomodá-lo.
ANITA - Sabe, ele é tão calmo, quando entrar vai acalmar todas as pessoas.
PETER HELL (de fora) - Não consigo entrar. Deixem-me entrar. Não me entenda
mal.
PETER HELL - Não sou gentalha. Por favor, não me entenda mal.
ANITA - Peter? Sim! Veja, é ele. É meu noivo. Já está ficando inquieto.
JOHANNA - Uns vinte mendigos tocam a campainha por dia. Que a gentalha não
passe o umbral. Estou farta desses mendigos! Estou farta deles!
ANITA - Agora abra só um pouquinho a porta, engenheiro, para que meu pobre
rapaz possa entrar.
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ANITA - Não podemos ficar juntos.
PETER - O que acontecerá com as flores? Por favor, não me entenda mal.
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
THUT - Você quer dizer a casa. Como já disse, uma casa é inquebrantável, como a
palavra do homem.
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LENI - Pode morrer.
LENI - Cuidado.
LENI - Já peguei.
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THUT - Eu digo não. Absolutamente não.
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
KARL (agarra Pepi com ambas as mãos) - Você se casa comigo? (Pepi emite um
arrulho.)
KARL - Anita não me quer. Sei por que não me quer. Não fiz nada para ela. Não
me suporta. E olhe que estou no terceiro semestre. Muitos estão só no
segundo. Agora ficou noiva. Será que sou tão inexperiente? Você também é
um ser humano. Você se casa comigo, Pepi?
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a casa. Seu corpo diz sim, sim.
KARL (agarra-a, larga-a agarra-a de novo e grita) - Tenho uma mulher! Tenho
uma mulher! Ela me quer! Tenho uma mulher! Ela me quer! Tenho uma
mulher! No terceiro semestre! Tenho uma mulher!
HORCH (baixinho) - Vejam, ouçam, o que vocês vão fazer pela pessoa que mais
amam?
CHRISTA - Michel!
MICHEL - Sim.
CHRISTA - Não sou sua mãe. Meu doce Michel. Ele tem olhos destrambelhados e
o cabelo cândido. Você me ama. Eu me casei com você.
CHRISTA - Não deixa ninguém sair. Enlouqueceu. Você precisa me salvar. Ele é
forte. Tire-o de lá com um empurrão para fora! Empurre-o para o lado! Ele é
forte. Ele vai matá-lo. Meu doce Michel. Ele não pode matá-lo. Você precisa
me salvar. Mate-o! Mate-o!
CHRISTA - Você é tão esperto. Só me chama de mamãe. Ele não percebe nada.
Venha, pelo lado, sem fazer barulho, eu o ajudo. Ele quer me matar. Você me
ama. Venha!
CHRISTA - Venha, dê-me a mão. Não puxe. O que está fazendo? Está me
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puxando para trás. Venha!
CHRISTA - Não lhe dê ouvidos! Você precisa me salvar. A mim. A mim. Você me
ama.
CHRISTA - Deixe-a. Ela não vale nada. Ele vai lhe dar um pontapé. Vou segurar a
perna dele. Vá por trás, meu querido. Também vou empurrá-lo.
CHRISTA - Que se cale. Quem é ela? Uma menina! Uma menina! Eu sou mãe.
Carrego um filho seu. Doce Michel. Sou mãe. Tenho um filho seu.
CHRISTA - Está me ouvindo? Sou mãe, Michel. Você ama seu filho. Venha!
Venha por trás. Vou segurar a perna dele. Quebra a poltrona na cabeça dele. Do
pai. Está me ouvindo? Do pai. Pegue esta poltrona, a pesada, aqui, a poltrona!
Vou na frente, com cuidado. Eu o seguro, venha, você bate na cabeça do pai.
Dê-me a mão, doce Michel, eu o amo, dê-me a mão!
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
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MAX - Fique feliz.
MAX - O quádruplo!
MAX - Por nossa conta. Por toda parte, escombros em cima de escombros, um
deserto impagável, pessoas sérias sacodem a cabeça, mas nosso terreno está
limpíssimo, limpíssimo. O quê, querem construir aqui? Sua estação sobre o
nosso terreno? Logo sobre o nosso terreno? Por favor, construam, mas quanto
querem pagar, quanto pagam pelo terreno?
GRETCHEN - O sêxtuplo!
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MAX - Em todo o corpo.
GRETCHEN - Conheço uma empresa barata. Vai levar esses escombros em três
dias.
MAX - E ainda ficarão felizes. Quem vai achar algo de comer sob os escombros?
Pagamos em espécie.
MAX - De alegria.
GRETCHEN - Onde?
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Barulho terrível. A parede da direita desaba.
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
SCHÖN - Eu também.
SCHÖN - Olhe, vou comprar-lhe balas. Vai e peça a seu pai, para que ele o deixe
sair. Não.
SCHÖN - Papai, não vou ter meu semestre reconhecido. Você precisa me deixar
passar. Deixe-o passar depressa, caro amigo. Não.
ZART - Pense em mim, Schön, você não vai ter descanso no túmulo.
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SCHÖN - Papai, tenho um netinho para você. Já o estou sentindo. Não.
JOHANNA (Barra a passagem de Schön. Cola seu corpo no dele) - Veja, tenho
formas.
SCHÖN - Com quem? Com a noiva. Olhe, caro amigo, enganei sua mulher com
sua filha.
SCHÖN - Sua filha foi minha. Dormi com uma. Dormi com a outra. Com sua
mulher eu também dormi. Com sua mulher, mas isto não lhe causa nenhuma
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impressão. Tudo bem, mas suas filhas. A pequena só tem catorze anos. A
outra se casou hoje. Caro amigo, você há de concordar, é uma safadeza de
minha parte. Você não precisa agüentar isso. Ponha-me na rua. Caro amigo,
você não pode agüentar isso em sua casa. Isso você não pode. Isso não.
SCHÖN - Imagine, é honra demais, caro amigo! Um cão sarnento a gente põe
para fora.
SEGENREICH - Chô!
HORCH - Vejam, ouçam, o que vão fazer pela pessoa que mais amam?
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KARL (abraça a velha moribunda, em cuja cama ele caiu) Tenho uma mulher!
Tenho uma mulher!
(Silêncio)
FIM
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