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Civil VIITrabalho Final

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – FACULDADE

NACIONAL DE DIREITO

Nome: Teresa Cristina Roza P. Monteiro Matrícula: 120156709 Turma: Noite

A jurisprudência em análise versa sobre a possibilidade jurídica de um filho


ajuizar uma ação de prestação de contas contra seus pais, relativa à administração de seus
bens durante o período de sua menoridade. A decisão a seguir examina aspectos
fundamentais acerca dos limites do poder familiar e da proteção dos interesses do menor.
Senão, vejamos:

RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS.


DEMANDA AJUIZADA PELO FILHO EMDESFAVOR DA MÃE,
REFERENTE À ADMINISTRAÇÃO DE SEUS BENS, POR
OCASIÃO DE SUA MENORIDADE (CC, ART. 1.689, I E II).
CAUSA DE PEDIR FUNDADA EM ABUSO DE DIREITO. PEDIDO
JURIDICAMENTE POSSÍVEL. CARÁTER EXCEPCIONAL.
INVIABILIDADE DE RESTRIÇÃO DO ACESSO AO JUDICIÁRIO.
RECURSO DESPROVIDO. 1. A questão controvertida neste feito
consiste em saber se, à luz do CPC/1973, o pedido formulado pelo
autor, ora recorrido, de exigir prestação de contas de sua mãe, na
condição de administradora de seus bens por ocasião de sua
menoridade, é juridicamente possível. 2. O pedido é juridicamente
possível quando a pretensão deduzida se revelar compatível com o
ordenamento jurídico, seja por existir dispositivo legal que o ampare,
seja por não encontrar vedação legal. Precedente. 3. O pai e a mãe,
enquanto no exercício do poder familiar, são usufrutuários dos bens dos
filhos (usufruto legal), bem como têm a administração dos bens dos
filhos menores sob sua autoridade, nos termos do art. 1.689, incisos I e
II, do Código Civil. 4. Por essa razão, em regra, não existe o dever de
prestar contas acerca dos valores recebidos pelos pais em nome do
menor, durante o exercício do poder familiar, porquanto há presunção
de que as verbas recebidas tenham sido utilizadas para a manutenção da
comunidade familiar, abrangendo o custeio de moradia, alimentação,
saúde, vestuário, educação, entre outros. 5. Ocorre que esse múnus deve
ser exercido sempre visando atender ao princípio do melhor interesse
do menor, introduzido em nosso sistema jurídico como corolário da
doutrina da proteção integral, consagrada pelo art. 227 da Constituição
Federal, o qual deve orientar a atuação tanto do legislador quanto do
aplicador da norma jurídica, vinculando-se o ordenamento
infraconstitucional aos seus contornos. Assim, o fato de os pais serem
usufrutuários e administradores dos bens dos filhos menores, em razão
do poder familiar, não lhes confere liberdade total para utilizar, como
quiserem, o patrimônio de seus filhos, o qual, a rigor, não lhes pertence.
6. Partindo-se da premissa de que o poder dos pais, em relação ao
usufruto e à administração dos bens de filhos menores, não é
absoluto, deve-se permitir, em caráter excepcional, o ajuizamento
de ação de prestação de contas pelo filho, sempre que a causa de
pedir estiver fundada na suspeita de abuso de direito no exercício
desse poder, como ocorrido na espécie. 7. Com efeito, inviabilizar, de
plano, o ajuizamento de ação de prestação de contas nesse tipo de
situação, sob o fundamento de impossibilidade jurídica do pedido para
toda e qualquer hipótese, acabaria por cercear o direito do filho de
questionar judicialmente eventual abuso de direito de seus pais, no
exercício dos encargos previstos no art. 1.689 do Código Civil,
contrariando a própria finalidade da norma em comento (preservação
dos interesses do menor). 8. Recurso especial desprovido.1

No contexto da jurisprudência analisada, que discute a viabilidade jurídica de um


filho ajuizar uma ação de prestação de contas contra os pais pela administração de seus
bens durante sua menoridade, é pertinente refletir sobre a evolução terminológica do
"poder familiar" no sistema jurídico brasileiro. Originalmente, o Código Civil de 1916
(arts. 379 a 395) referia-se a essa prerrogativa como "pátrio poder", enfatizando a
autoridade do pai sobre os filhos e atribuindo à mãe um papel auxiliar. Essa designação
reforçava a preeminência da vontade paterna em caso de divergências (art. 380,
CC/1916).
Com a promulgação do Código Civil de 2002, essa terminologia foi atualizada
para "poder familiar", uma mudança sugerida por Miguel Reale (REALE, 2003, p. 18),
refletindo uma visão mais equitativa da autoridade parental. Paulo Luiz Netto Lôbo
(2008, p. 268-269) critica o termo "poder familiar" por ainda não ser totalmente
adequado, preferindo a expressão "autoridade parental". Ele observa que legislações
estrangeiras modernas, como a francesa desde a lei de 4 de junho de 1970 e a americana
conforme Harry D. Krause, adotaram esse termo para enfatizar o melhor interesse do filho
e a legitimidade do exercício dessa autoridade. Lôbo argumenta que "autoridade parental"
traduz melhor o exercício de uma função legítima e voltada para o interesse do menor, ao
contrário do termo "poder", que pode sugerir uma imposição de força. Ele explica:

[...] autoridade, nas relações privadas, traduz melhor o exercício de


função ou de múnus, em espaço delimitado, fundado na legitimidade e
no interesse do outro, além de expressar uma simples superioridade
hierárquica, análoga à que se exerce em toda organização, pública ou
privada. 'Parental' destaca melhor a relação de parentesco por
excelência que há entre pais e filhos, o grupo familiar, de onde deve ser
haurida a legitimidade que fundamenta a autoridade, além de fazer
justiça à mãe [...] (LÔBO, 2008, p. 269).

Essas considerações são particularmente relevantes na análise da ação de


prestação de contas, onde o "poder familiar" deve ser exercido dentro dos limites do
melhor interesse do menor, conforme preconiza a doutrina da proteção integral
estabelecida pelo art. 227 da Constituição Federal. A alteração terminológica e a reflexão

1
REsp 1623098/MG, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em
13/03/2018, DJe 23/03/2018 – grifou-se.
sobre a autoridade parental são cruciais para garantir que o poder dos pais sobre os bens
dos filhos menores não seja absoluto e que exista a possibilidade de controle judicial em
casos de suspeita de abuso de direito.
Essa evolução terminológica reflete-se na modificação do Estatuto da Criança e
do Adolescente (Lei 8.069/1990) pela Lei Federal n. 12.010/2009, que substituiu a
expressão "pátrio poder" por "poder familiar", reafirmando a necessidade de uma
abordagem mais igualitária e focada no interesse da criança e do adolescente.
A decisão do STJ no REsp 1623098/MG é um exemplo de como o princípio do
melhor interesse do menor, consagrado pela doutrina da proteção integral, influencia a
interpretação e aplicação das normas jurídicas. Ao reconhecer a possibilidade de ação de
prestação de contas por parte do filho em casos de abuso de direito pelos pais, o tribunal
reforça a necessidade de proteção dos interesses dos menores, assegurando seu acesso ao
Judiciário para a defesa de seus direitos.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 12.010, de 3 de agosto de 2009. Dispõe sobre adoção; altera as Leis n os

8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29 de


dezembro de 1992; revoga dispositivos da Lei n 10.406, de 10 de janeiro de 2002 -
o

Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei
n 5.452, de 1 de maio de 1943; e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção
o o

1, Brasília, DF, p. 1, 4 ago. 2009.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e


do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília,
DF, p. 13563, 16 jul. 1990.

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n.º 1623098/MG. Relator:


Ministro Marco Aurélio Bellizze. Terceira Turma. Julgado em 13 mar. 2018. Diário da
Justiça Eletrônico, Brasília, DF, 23 mar. 2018.

LÔBO, Paulo. Famílias: Direito civil. São Paulo: Saraiva, 2008.

REALE, Miguel. Visão geral do novo Código Civil. In: TAPAI, Giselle de Melo Braga
(Coord.). Novo código civil brasileiro: lei 10406, de 10 de janeiro de 2002: estudo
comparativo com o código civil de 1916, Constituição Federal, legislação codificada e
extravagante. 3ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 9-19.

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