Revista Labirinto
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Contos de Samsara 15
Copyright © 2024 Contos de Samsara
15ª edição
Editora:
Michele Fernandes
Consultora literária:
Milena Maria Testa
Revisão:
Monique Bonomini
Michele Fernandes
Diagramação:
Michele Fernandes
Imagem da capa:
Filipo Brazilliano
Parceria:
Coletivo Escreviventes
Alerta de conteúdo sensível:
Talvez essa trilha seja também o mapa para alguém que se sinta perdido.
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Sobre a autora:
MICHELE FERNANDES é escritora
gaúcha, autora de “Conta Comigo!
Três Vezes Mulher” (Voz de Mulher)
e de “Eu prefiro o meu próprio crime”
(Arpillera). Como autista, em 2024,
lançará um romance que fala desse tema.
Revisora, leitora crítica e coordenadora
do Coletivo Escreviventes, faz da
literatura
a sua vida.
IG: https://www.instagram.com/michelefernandes.escritora/
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A Sala Escura
Aline Gonçalves
Era uma sala escura. De paredes pretas. Sem nervuras. Só breu. Havia
uma cadeira. Uma teia. Uma aranha. Havia uma janela. Era estranho.
Dava para ver lá fora. Mas, não dava para ver o céu. Fazia frio lá dentro.
Urgência de mantas sobre as peles. Sobre todos os móveis, pairavam
véus. Parecia a casa de alguém que se mudara há pouco. Muito a se
fazer. Objetos a serem distribuídos para lugares devidos ainda
desconexos. Parecia também a casa de alguém deposto. Um exílio sem
mais o quê. Utensílios sem lugar ou função. Talvez a lápide de um
morto. Era escura e úmida. Tomada de mofo. Buracos grandes de bolor
verde, como um queijo caro. Lá dentro, as lágrimas eram de sangue. E a
chuva, de vidro. Lá dentro, o sal era arsênico. E o açúcar, um lugar
invisível. Era tão grande, tão imensa. Era tão pequena. E incômoda. Ela
ali vivera, como a bailarina de corda. Toda dona da sua caixinha de
música. Toda presa num estojo redondo.
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Aurora era só sapatos. Seus sapatos rasos, de cor lilás. Ela ainda tinha a
altura dos seus joelhos e o tom pueril de quem espera instruções afixadas
no rosto. Aurora com sua pasta executiva e seu dia de trabalho cheio, era
ali, do tamanho dos seus joelhos. Toda menina. Toda indefesa. Tremia as
carnes feito um filhote de gato a pular pela décima vez a janela proibida.
Ainda assim, bebia o leite. Bebia em gotas. Era-lhe noite, na casa de
cortinas abertas. Em algum lugar lá fora, onde a janela não avistava,
brilhava um sol, num céu com nuvens. Fazia um silêncio barulhento. Ela
abriu o armário porque tinha sede e mesmo sabendo que ele ia tinir, fez-
se na ponta dos pés e forçou os cotovelos para que, com a força da
mente, evitasse o som estridente que ecoou inócuo na residência. O
gesto repetiu-se ao abrir a torneira, ao lavar o caneco, ao secar o
utensílio, ao dobrar o pano de prato. O gesto ecoou ao roçar seus
sapatos, quase sem sola, no assoalho. Aurora, com seu blazer de moça
adulta, pôs-se a saltear os corredores. Ela estaria lá. Talvez no quarto de
costura. Talvez no sótão, a guardar as roupas. Talvez na cadeira velha de
balanço escura. Eram só portas abertas, mas pareciam muros.
A cada passo, o ouvia. Sim. Aquele sorrisinho maroto abafado por mãos
infantis. Mais meio metro, vinham-se as notas do barulhinho sonoro.
Quase contagiante. Quase verdadeiro. Estavam em seus tímpanos os
sons da garota. De suéter cinza e dorso franzino. A garota de covas,
com olhos com brilho. Estava em seu rosto, o tom fosco. Enquanto seu
sapato roxo tocava o chão, esgueirava-se pelas beiradas à sua procura.
Cadê a menina a pregar-lhe uma peça? Nem atrás das portas. Nem
debaixo das camas. Cadê a menina de tranças?
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À procura do fantasma, embrenhou-se fundo na casa. Uma bola de
futebol vinda com o vento se choca com seus tornozelos. Tem cheiro
de suor. E o suor tem cheiro de infância e a infância cheirava esperança.
Vê-se no quarto escuro, a claridade se fora no meio do dia e a luz não
acende. Aurora tenta manter a calma, mas ela tem agora o tamanho dos
seus joelhos. Sua língua se enrola e não é possível gritar socorro. A
maçaneta travada. Só resta a mobília. Só resta o assoalho. A bola e as
bonecas antigas. O fantoche mira-a, lânguido no encalço do seu
ventríloquo e a boneca Emília, por detrás das treliças, lembra-a de que
estão todos entre as grades. A luz pisca, e a porta se abre. Rangendo,
rangendo... um sorriso sardônico. Cadê a menininha?
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Depois, desce as escadas onde já ficara ajoelhada, passa pela sala onde
alguém morrera, pisa o chão das cadeiras quebradas e encontra o jardim
dos pedidos de socorro até sair pela porta onde adquire seu tamanho
normal e volta a ter 1,80m e voz adulta.
Sobre a autora:
ALINE GONSÇALVES, mineira,
especialista em Direito Civil, Psicopedagoga.
Membro da Academia de Ciências e Letras de
Conselheiro Lafayette. Autora dos romances
“Anjo Proibido” e “A Distância dos Íntimos”,
o infantil “Bebelle em O Mundo Azul contra o
Gigante Invisível”, além de diversos contos
publicados em periódicos mineiros e na página
Intimismos (@intimismosalinegoncalves),
texto selecionado para integrar o livro “Cartas
de uma Pandemia” (editora Claraboia),
curadora da Mostra Literária Conselheiro
Lafaiete- MOLIETE. Mãe da Blanche Belle.
IG: https://www.instagram.com/aline.alvesgoncalves.escritora/
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Dorme, Bebé
Rafaela Lacerda
Estás atrasada, Desculpa, este bairro é um labirinto, perdi-me, Punhas o
mapa no telefone, Para a polícia vir atrás de mim? Não, obrigada, Modo
incógnito. Eles são estúpidos, não dão por isso, Não quero ser presa,
Não arriscas nada. Nem pareces minha filha, sorri ela com um suspiro
benevolente. Se calhar, é porque não sou, retorna a mais nova com o
azedume crispado no sobrolho. E, sem dar tempo ao previsível, «que
queres dizer com isso», arremessa, Por que é que nunca vi isto?, inquire,
num acto de prestidigitação, ao sacar de uma folha desbotada. Aquela
que parecia uma banal conversa de mãe e filha fica tão gelada como a
lâmina do bisturi que aguarda mais um trabalho ilegal em cima da
marquesa.
Onde é que descobriste isso?, foi o que saiu da boca da mais velha,
obviando um desconhecimento inexistente. Andava à procura de um
livro no escritório para um trabalho da escola e caiu isto de uma
prateleira. Li. Não sabia que havia segredos lá em casa, E não há,
Excepto este, não é?, Filha, eu, Não me chames aquilo que não sou,
Não digas isso. Já me basta saber que nem devia estar aqui, que, Para,
não é nada disso, Não é? Já te esqueceste do que está aqui escrito?,
Claro que não, mas, Eu avivo-te a memória, Não é preciso, Faço
questão, Não quero, Quero eu. Abre a carta e começa a leitura.
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Cara cria, se estás a ler isto é porque tiveste a infelicidade de nascer.
Tentei por todos os meios proteger-te dessa atrocidade, mas, desde
que os fascistas chegaram ao poder, a vida não tem sido fácil. Agora
não nos deixam abortar, não interessa o problema. Não interessa se
ainda não fiz os dezasseis anos, não interessa se o gajo que me
deixou assim era um cabrão bêbado que me apanhou a caminho da
escola e ainda me espatifou o telemóvel para não pedir ajuda. Nem
lhe vi a cara. Não interessa o que sofri naquele dia, não interessa o
que tu vais sofrer se nasceres. Não interessa. Só interessa sermos
cidadãos de bem, daqueles que protegem a vida. A minha mãe não
quis saber, só disse que era uma vergonha. Não queria que também
tivesses uma a ter vergonha de ti. Então fui à dona Alzira, lá do beco
de trás. Custou-me as poupanças todas que tinha e ainda mais o que
roubei à minha avó e ela nunca soube. Fez o que tinha a fazer, doeu
como o raio, mas apareceu a polícia e engaiolou-me. Não demorou
três semanas, o julgamento. E ainda dizem que a justiça é lenta neste
país. Vinte anos, anunciou a juíza. Que eu era o primeiro exemplo de
que a moral e os bons costumes tinham voltado ao nosso país.
Aquela puta. Aposto que, se precisar, vai ao estrangeiro fazer um
aborto e numa clínica de luxo. Claro que não tinha dinheiro para um
advogado, agora já não há direito a um advogado da segurança social.
Claro que não conhecia ninguém que me pudesse valer, claro que a
minha mãe fez questão de deixar de o ser. Uma semana depois da
sentença percebi que a velha da Alzira não fez nada além de me
deixar toda arrombada. Tu continuavas a crescer aqui dentro e, na
choldra, não havia nada que eu pudesse fazer. Andavam, ainda
andam, todos contentes, dizem que vou ter um bebé, que vou ser
mãe. Uma miúda ser mãe? Odeio tudo o que me fazes lembrar, como
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é que algum dia podia ter o mínimo de afecto por ti? Como é que podia
ser mãe? Com tudo o que isso implica. Por isso, acabou-se. Esta noite
consegui finalmente arrancar o parafuso da cama. Ando nisto há um
mês, mas a ferrugem não dava uma folga. Passei a noite a afiar a ponta,
no chão. Está boa, parece uma faca. É só acabar de escrever esta carta e
já o espeto nos pulsos antes de tocar a alvorada. Com sorte, não
sobrevives até me encontrarem. Com sorte, não vais passar a vida num
orfanato à espera de seres adoptada por uns ricaços quaisquer, enquanto
a direcção mete mais um cheque ao bolso todos os meses para fingir
que toma muito bem conta de ti até fazeres dezoito anos e depois te dar
um chute no cu, porque já és demasiado velha para alguém te querer
adoptar e já não tens serventia para engrossar a conta bancária da
honrada instituição. A doutora Isabel disse-me que eras fêmea, apesar
de lhe ter implorado que o não fizesse. Com sorte, não tens de passar
por aquilo que eu passei. Com sorte, não tens de fazer parte deste
mundo. Quem sabe noutras circunstâncias poderíamos ser amigas, até
te poderia amar, mas não consigo ir além do ódio, do nojo. Lamento.
Por mim, por ti. Adeus.
Tira os olhos raivosos da carta e olha para a mulher mais velha. Não
tens nada para me dizer?, O que queres que te diga?, Eu sou filha de
uma violação, é isso? De um aborto mal feito? De uma presa suicida?
Uma assassina que me queria matar? E agora fazes abortos
clandestinos neste vão de escada. És a doutora Isabel, não és? Ante o
silêncio e as lágrimas, repete. És tu, não és? Fala. Um silêncio, uma
inspiração, uma fungadela. Desde que li essa carta, jurei que mais
nenhuma miúda ia morrer à conta desta loucura de regime em que
vivemos. Em que nem respirar em liberdade podemos, em que
espreitamos por cima do ombro para ver quem nos segue. Em que,
para chegar aqui, tenho de inventar um caminho novo todos os dias
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e… Sabes porque é que nada disto te aflige? Porque tens dinheiro. E o
dinheiro faz vista grossa a tudo. Ah, e eu tenho o nome da minha mãe.
E a mesma profissão, não te esqueças, filha, Não me chames filha,
Chamo, porque és. Pari-te. Saíste daqui de dentro, Então e, Essa cria…
Essa cria sou eu.
Sobre a autora:
IG: https://www.instagram.com/rafaelalacerda_rafa/
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Se se se se
Thaís Campolina
posso escorregar no banho e bater a cabeça no box do banheiro. morrer
pelada, vendo um labirinto de miolo, condicionador e sangue se diluir
na água morna. posso esquecer de levar o lixo para fora e em dois dias
encontrar larvinhas vivendo tranquilamente na área. com um passo em
falso, posso cair na escada e acabar batendo a cabeça na pior quina do
prédio. alguém pode me matar por engano, porque eu me perdi e fui
parar no lugar errado na hora errada. um motorista distraído pode me
pegar de surpresa no meio da rua, frear bruscamente e morrer de susto,
enquanto eu grito aaaaaaaaaaaaa sem nunca ser atingida. posso comer
uma broa, me engasgar e tossir até morrer. posso estar com a glicose
descontrolada e continuar comendo doce sem nem imaginar o risco que
corro a cada trufinha que decido mandar pra dentro. não posso
esquecer de dar comida para os gatos. posso ter uma dívida crescendo
exponencialmente sem nunca saber disso. aquela vez que comi uva
depois de tirar o mofo de seus galhos com água pode me matar de
botulismo. posso ficar sete dias sem dormir e me acabar zumbi assim.
posso perder um dente, depois outro dente, depois mais outro e, com
inflamação dos três buracos, sentir uma febre tão alta e uma alucinação
tão intensa que eu acabaria arrancando todos os meus outros dentes por
conta própria em um surto. posso ver alguém morrer na minha frente
sem poder fazer alguma coisa para ajudar. posso esquecer de fechar a
janela do apartamento e um marimbondo cavalo entrar em casa sem que
eu perceba e me ferroar de madrugada. posso ter um branco e não
lembrar que tenho alergia a camarão e me esbaldar em bobó até a glote
se tampar. essa fincada no peito pode ser ataque cardíaco e não gases
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como todo mundo está cansado de dizer que é. posso levar um choque
ao colocar meu celular para carregar. o próximo avião em que eu entrar
pode cair. posso dormir tempo demais e acordar fraca e cair de cabeça
no vaso ao levantar da cama apertada para fazer xixi. posso ser presa
porque uma homônima cometeu um crime horrível perto da minha
casa. posso frear na estrada para salvar um cachorro e capotar meu
carro trinta e quatro vezes. posso esquecer de desejar feliz aniversário
pra minha mãe. essa dor de cabeça estranha que eu sinto nesse exato
momento pode ser na verdade um avc. posso não lembrar de acordar
para ir ao trabalho e perder o emprego, porque me ligaram, ligaram e
ligaram e eu não percebi, porque nunca tiro o celular do modo avião.
posso confundir sexta com sábado, desligar o despertador, acordar
atrasada, sair de casa desesperada e ser atropelada por um ônibus lotado.
posso ter um vizinho assassino estuprador stalker que cismou comigo
por causa de um bom dia. posso esquecer de ir ao médico ginecologista
mais um ano. posso trombar em um poste e morrer eletrocutada por
um fio solto. posso sair para ir na padaria e ser atacada por um homem
em plena luz do dia. posso ter uma doença silenciosa que está me
matando sem eu saber. posso tomar meu remédio errado. posso entrar
em combustão espontânea. não posso esquecer de tomar o ansiolítico
de novo. posso dormir dirigindo sem nem estar cansada. posso falar
demais e ganhar um calo nas cordas vocais. posso me imaginar
brincando de ioiô com a desgraça. o ioiô vai e volta. vai e volta. vai e
volta. até que se embaraça nos meus dedos. o ioiô me aperta, me prende
a circulação. o ioiô arruma um jeito de me fazer bater as botas de uma
maneira muito mais ridícula do que eu sequer fui capaz de imaginar.
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Sobre a autora:
THAÍS CAMPOLINA
(Divinópolis/1989) é autora do livro de
poesia “eu investigo qualquer coisa sem
registro” (Crivo Editorial, 2021), da
plaquete artesanal “noticiosas” (2023) e do
ebook “Maria Eduarda não precisa de uma
tábua ouija” (2020). Também é mediadora
de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia
Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas.
IG: https://www.instagram.com/thacampolina/
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Plano B:
o guia do labirinto
João Francisco Santos da Silva
Os dias passaram-se tristes e vazios. Sem noção do tempo transcorrido,
poderiam ter sido dez dias ou dois meses, só agora ele conseguira
disposição e coragem para voltar à casa. Diferente da casa de sua
infância, nos últimos tempos tornou-se bagunçada e solitária. Primeiro
foi a mãe, e agora seguia o pai. Mesmo parecendo quase sem sentido,
lhe era obrigatório retornar mais uma vez àquela casa. Lá estavam
guardadas muitas de suas próprias memórias, e outras tantas das que
faltavam de seu pai.
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A caderneta, acomodada no fundo da gaveta, estava bem escondida.
Escondê-la pode ter sido a derradeira negação de seu pai. Devia estar
muito assustado ao perceber que entrava no labirinto. Homem criativo,
detalhista e precavido, esse era o seu pai antes de perder-se dentro de si.
Talvez para aguentar o tranco, mentiu para si mesmo que possuía um
plano B para sair de lá.
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Ao longo de mais de vinte páginas o pai havia escrito toda a sua rotina,
tudo que fazia, passo a passo, durante as 24 horas do dia. Parece que foi
uma tarefa rápida e sem revisões posteriores. Deve ter sido muito difícil
para ele imaginar que precisaria de lembretes de seu nome ou até
mesmo da foto de seu único filho para reconhecê-lo. A última data
registrada na caderneta é a de 19 de novembro de 2009. Ele não tinha
intenção de fazer um diário. Queria ter um roteiro para seguir, mas não
o seguiu. Depois de feito, deixou de lado o seu Plano B. Provavelmente,
o guia foi perdido junto com todo o resto do que lhe pertencia. E no
final de vida, quando mais precisou dele, já desconhecia a sua existência.
O pai bem que tentou. Mas o fio guia foi roto, deixando-o perdido no
labirinto. No final, roupas sujas, excrementos pelo quarto, remédios não
tomados, agressividade com as pessoas próximas. Partiu, perdido e
internado em uma casa de repouso. Não reconhecia mais ninguém, nem
a ele mesmo. Morreu em 28 de setembro de 2014, quase cinco anos
depois de ter entrado e percorrido solitariamente o labirinto.
Se para o contador autônomo o guia não foi útil, para o filho serviu de
fio condutor para reencontrar o pai numa fase na qual ele já vislumbrava
a entrada do labirinto. O que mais angustiou o filho foi imaginar o
quanto seu pai devia ter se debatido, esbarrando nas paredes e se
desorientando cada vez mais lá dentro. Talvez, desespero parecido
àquele experimentado durante um pesadelo recorrente no qual não se
consegue sair dele durante uma noite inteira.
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Sobre o autor:
JOÃO FRANCISCO SANTOS DA
SILVA nasceu em Curitiba e reside em
Campo Grande, MS. É médico
acupunturista. Escreve contos, crônicas e
histórias infantis. Em 2023, teve contos
publicados nas antologias: “Coletânea de
contos de humor” e “Micro contos”,
ambos pela Editora Persona. Já teve
oportunidade de publicar três contos na
Revista Contos de Samsara em três
edições. Atualmente, colabora escrevendo
histórias curtas em um blog cultural
(https://www.blogdoalexfraga.com.br).
IG: https://www.instagram.com/joaofranciscosantosdasilva/
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A Matriz
Cris Rosa
A cada estrondo na rua, meu coração bate rápido e meu braço fica
dormente. A cada som de batidas na porta perco o fôlego, vejo tudo
girando ao meu redor. Ouço o som de passos que preenchem o vazio.
Tem alguém me perseguindo — eu sei. E não é de hoje. “Pai nosso que
está no céu, livrai-me do mal. Amém.” “Ave Maria cheia de graça. Ave
Maria cheia de graça. Ave Maria cheia de graça, rogai por nós na hora da
morte. Amém.” Vou em direção à porta. Não tem ninguém. Uff. Que
alívio. Estou segura. Ao menos pensei que estivesse — ao atravessar o
corredor, falta energia. Direita. Direita. Esquerda. Sinto um calafrio
angustiante. Uma silhueta enorme se coloca à minha frente. “Pai nosso
que está no céu, livrai-me do mal. Amém.” “Ave Maria cheia de graça.
Ave Maria cheia de graça. Ave Maria cheia de graça, rogai por nós na
hora da morte. Amém.” A silhueta humanoide se afasta dando-me
passagem. A luz retorna. Direita. Esquerda. Reto. Giro 180° no meu
próprio eixo. Minha imagem reflete um corpo humanoide com a cabeça
de tamanho desproporcional e coberta com uma capa. Sou uma fera.
Uma monstra. Corpo de mulher, cabeça de touro. Uma mescla de pavor
e de horror toma conta de mim. Meu instinto manda eu ir em frente. A
reta sempre me deixa desorientada, eu me perco e me encontro várias
vezes no meu próprio labirinto. Direita. Esquerda. Reto. Direita.
Esquerda outra vez. Chego à matriz – uma fonte luminosa. Mergulho.
Uma mão iluminada surge e me toca. Minhas mãos se tornam luz, assim
como o meu corpo inteiro. Na minha fronte, surge uma meia lua fixa e
brilhante. Em meu colo, um medalhão espelha meus olhos e me vejo:
— Não sou tão monstruosa quanto eu imaginava.
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Sobre a autora:
CRIS ROSA é cearense, feminista e
graduada em Letras (UFC). Dedica-se à
escrita e ao artesanato. Tem vários textos
publicados em coletâneas e revistas
literárias, incluindo algumas edições da
Contos de Samsara. É autora do livro
metamorfoseAr...se (2023), obra poética de
produção artesanal e de publicação
independente. Integra coletivos de
mulheres escritoras. Está se redescobrindo
como uma mulher autista.
IG: https://www.instagram.com/crisrosa33/
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Um Mês e Meio
Joana Rocha
Não saía há um mês e meio.
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Arrastei-me até ao quarto. Sentei-me na berma da cama, por fazer, e
deixei-me cair de costas.
Aquele dia tinha sido particularmente difícil, talvez porque, naquele mês
e meio, me habituara ao meu tempo e aos ruídos de uma casa vazia.
Durante esse período, evitei que qualquer som relacionado com o mar
se esgueirasse pelos ouvidos e que me fizesse lembrar o motivo da
minha reclusão. Olhava a ventoinha, tentando arejar os pensamentos e
continuar a fingir que não acontecera nada naquele dia.
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A mãe chamou-me para jantar. Ignorei-a e arrastei as banhas que me
caíam pelas pernas abaixo até à casa de banho.
Abri a torneira de água fria da banheira, que era grande como eu. Tinha
sido um presente dos pais, uma forma de me dizerem que podia
continuar obesa, que me aceitavam. Mas só depois de terem tentado
tudo para que o deixasse de ser. E ainda acredito que este presente teve
o dedo daquela psicóloga com quem pensam que eu não sei que falam.
Para cima e para baixo, para um lado e para o outro, ia fazendo a água
transbordar enquanto imaginava a beleza do fundo do mar.
Não o via há mais de sete anos, desde que a gordura se foi amontoando
toda por baixo da pele e que deixei de ter um fato de banho que me
servisse.
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Embora fosse outubro, estava quente. Felizmente, algumas nuvens
cobriram o sol, estendendo-me um caminho menos penoso. Observei
as casas vizinhas e numa varanda vi um gato parecido com o meu
falecido, branco com uma mancha preta no olho. Por um momento,
senti alguns remorsos.
Respirei fundo.
Olhei em redor, e a praia estava vazia. Pela primeira vez, tive pena de
não ver ninguém à volta, logo naquele dia em que me sentia tão bonita.
Continuei até ter água pelos ombros. Levantei os pés e senti a ligeireza
do meu corpo dentro da água. Há muito tempo que não me sentia tão
leve, tão livre. Podia apenas ser. Sem peso, sem forma, sem dor.
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De olhos fechados e ouvidos cheios de gaivotas, sorri com a boca toda
e mergulhei. Emergi. Olhei para trás, ao fundo a praia e o rasto de
espuma que as barbatanas formavam. Ia ter saudades de algumas coisas.
Mergulhei.
Sobre a autora:
JOANA ROCHA nasceu na ilha Terceira,
Açores, em 1980 e vive em Lisboa.
Licenciada em Serviço Social, pós-graduada
em Migrações, Inter-etnicidades,
Transnacionalismo e em Mediação
Familiar. Trabalha na área social e de saúde
desde 2004, exercendo funções de
coordenação, assistente social e
supervisora. Apaixonada por literatura, tem
publicado contos em revistas digitais. Em
2023, foi uma das vencedoras da 3ª edição
do Prémio Literário Luís Vilaça, com o
conto “O céu de Gracinda”.
IG: https://www.instagram.com/joana.rocha.80/
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Linhas do Tempo
Luciana J. Morais
As mãos que costuram são os olhos;
As agulhas, o pensamento;
O tecido, o próprio ato de existir.
Andreone T. Medrado
A avó Maria aprendeu com a mãe, Maria, que aprendeu, por sua vez,
com a mãe dela, Maria. A tia solteira, Maria, também ajudou. As irmãs e
as primas faziam a mesma coisa. A hora do bordado como círculo
sagrado, entrelaçava, não só os fios, mas as tramas de todas as mulheres
daquela linhagem.
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A avó tecia como as Moiras. Acreditava em uma profunda e misteriosa
lei que regia o destino de todos os homens. O trabalho não podia ser
desfeito. A sina é irrevogável. Assim como as Moiras, filhas das
profundezas da noite, a avó continha a sabedoria do poder mais antigo
do Universo, a força da ancestralidade.
Mariana cresceu com muita gratidão a tudo o que pôde ter. Era terna e
grata a Maria, que a criou sozinha, sustentando a sua verdade e o seu
sentimento.
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Mariana viajou o mundo e conheceu muita gente. O coração romântico
soube quando encontrou o amor no labirinto da gótica Catedral de
Chartres, na França. Mariana tecia com o fio de Ariadne. E chegou até o
escolhido pelas linhas da imaginação. Desta viagem, nasce um
compromisso feliz e Marina, o fruto dos que se conheceram em um
caminho simbólico que conduz o buscador ao seu próprio centro e
depois o leva de volta para o mundo.
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Sobre a autora:
IG: https://instagram.com/luciana_jacome_morais?
utm_source=qr&igshid=OGIxMTE0OTdkZA==
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Nada é como antes
Chirles Oliveira
Depois de 20 minutos, enfim surgia o garçom com o vinho bordô que
as moças pediram. Uma delas usava o celular compulsivamente,
ignorando completamente o assunto em pauta na mesa.
— Nossa! Você não deixa passar nada. Não perdoa nem o garçom.
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Enquanto isso, a atrevida não parava de se insinuar para o garçom
enquanto o rapaz servia a mesa ao lado.
— Você não toma jeito! Por isso vive com o coração em frangalhos. —
disse a amiga com um ar de superioridade e concluiu: — Quando irá
aprender a apreciar sua própria companhia?
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Sobre a autora:
CHIRLES OLIVEIRA nasceu em
Itarantim, Bahia. Reside em Vitória da
Conquista. É bacharela em Direito pela
UESB, licenciada em Letras e em Filosofia.
Especialista em Direito do Trabalho e
Violência contra a Mulher e Docência no
Ensino Superior. É poetisa e escritora.
Membro da Academia de Letras do Brasil -
SP. Autora dos livros “Abstrações – Gritos
que ecoam da alma” e “O Reflexo Atual da
Subjugação Feminina”. Cronista do blog
Escritor Brasileiro e colunista na Revista
Escribas.
IG: Instagram.com/chirles.oliveira
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Teodósio, o maior
Márcia Vieira Ávila
Teodósio era o mestre dos enigmas.
Não havia um único à face da Terra que ele não acertasse à primeira ou
decodificasse em três tempos.
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Terça-feira de manhã e todos os cientistas que compunham a equipa se
reuniram de urgência de modo a decidir o futuro de Teo.
Se não fossem crentes na ciência que estudaram anos a fio, iriam jurar a
um Deus em que não acreditavam que Teo os olhava, os ouvia e os
percebia.
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Sobre a autora:
MÁRCIA VIEIRA ÁVILA nasceu nos
Açores, estudou Arquitectura e Fotografia
em Lisboa. Cake Designer com marca
própria há mais de 10 anos. Actualmente
faz parte da Equipa Técnica do Espaço do
Tempo. Autora e ilustradora do livro
‘MARAVI a menina da ilha’, 2022.
Cronista e membro da direção no Repórter
Sombra e na Revista Internacional Aorta.
IG: https://www.instagram.com/marcia_vieira_avila/
38
Juntos somos
distância
Rosa Morena
Os sapatos ficaram prontos. Sei que não cabem mais. Percebeu, não foi?
Gostaria de emoldurá-los. Pareceria estranho? Eu poderia olhar para
eles e lembrar que um dia fui feliz.
Sua mãe não entende por que nos casamos. O filho de ouro dela, com
uma mulher que se dedica a cuidar de suas tempestades. Tem razão.
Quando está desenhando acho que não me escuta. Antes tinha mais
tempo. Fui eu quem estraguei tudo. Os doentes atrapalham os sãos.
Acha que um dia vou melhorar? Não ser mais a louca da família? Ficaria
sem graça, estou acostumada a esse rótulo.
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Agora, consegui sua atenção, deixou vazar um quase comentário.
Cuidado para não comprometer a estética do desenho. Ia dizer algo que
me magoasse? Os seus olhos castanhos ficaram verdes. Está chateado
comigo? Ontem, estava cansada para... deixa para lá. Tenho medo de
perder você. Benditas as palavras do padre Roni.
Vai colocar jardineira na frente? Ah, lembrei, você não gosta de árvores.
Dão muito trabalho. Concreto em primeiro lugar.
Não gosto quando você fica indiferente, enquanto tento encontrar uma
saída do meu labirinto.
40
Sobre a autora:
ROSA MORENA é natural de
Itapipoca-CE. Graduada em
Pedagogia com especialização em
Organização e Gestão da Educação
Básica. Autora de dez livros entre
poemas, contos, literatura infantil e
infantojuvenil.
Artista visual que transita pela
colagem e aquarela. É coordenadora
do Clube de Leitura Conversa e
participa do coletivo Mulherio das
Letras Ceará.
IG: https://www.instagram.com/rosamorena_escritora?
igsh=cnc1OWg1bWhtOGNp
41
O Inverno da Vida
Paula Campos
A pequena vila não passava de uma estrada relativamente estreita que
serpenteava pela serra acima, recortada por cerca de meia dúzia de
ruelas à direita de quem a subia.
42
O velho surgiu de um dos cantos do jardim, junto à pastelaria,
privilegiadamente situada mesmo junto à ravina. Andava na direção
delas e ali parou, procurando conversa.
43
Ainda lhes falou sobre a sua juventude, quando trabalhava na cidade a
uns escassos vinte quilómetros da vila. Puseram-se a imaginar como
seria a viagem, feita de bicicleta, em pleno inverno, por uma estrada em
condições péssimas. Contou-lhes, orgulhoso, como tinha salvo, uma
vez, a vida a um conterrâneo que sofrera um acidente, junto ao rio. Uma
época em que a morte ainda era uma tragédia e em que poucos morriam
sozinhos.
Clara sentiu que também aquele homem deveria ter vivido uma vida de
labirintos. A tranquilidade com que falava mostrava que soubera
escapar-lhes.
44
Sobre a autora:
IG: https://www.instagram.com/anapaulahortacampos/
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A dor não sente
nossos corações
Charles Pena
Pai! Papai! Papai passou rápido, nem me viu, nem um beijo, ele sempre
me beija quando sai. Que que aconteceu com ele? Num giro de pião ele
sai, passa por mim, sai sem me beijar no rosto.
Bota a mão em mim, meu ombro sente o peso, “papai tá grogue, mãe!?”
pergunto.
Vejo seus ombros se moverem, imito pra aprender, calada tava, ficou,
tiro sua mão, entro na frente, olho de remela, vermelho, um brilho
diferente, chorou! Chorou! O pensamento é pólvora pronta a explodir,
cai como bomba, tenho vontade de chorar.
Seguro o choro, ele sempre falava, “segura o choro, seja forte, menina!”
Porque ele não volta e fala pra mamãe também ser forte, parece a
torneira lá de casa, pinga-pinga gotas sorrateiras, eu subo na cadeira, fico
do tamanho de mãe, olho.
Para na parede, põe as mãos nos ouvidos, segura, aperta, sei bem disso,
sei de sua dor, do barulho de cão na cabeça dele.
46
Mamãe me olha, de olhos vermelhos, cheios d’água, arranca mão nos
olhos, esfrega, esfrega, as mesmas dores parece gritar ali nela.
Não tentendia nada, notar a dor, tudo não passava de uma vontade
escondida em mim, entender e sentir o mesmo mal, ser agraciada como
dizia a mãe, por não ter dores, não sentir nada é benção.
Não sabe o quanto eu sonhava em ter, sentir? Mas não tenho, não sinto.
Sem dor, eu tripudiava da vida, dos cortes no corpo, e muitas vezes era
internada às pressas.
Já caí de febre alta, de estômago cheio, gases, mas dores, não, nadinha
de nada.
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E, quando entrei, os dois fingiam rir, gargalhar, já sou grandinha, tenho
sete anos, pode contar, pensei, para eles eu contei uma piada, eles caem
na risada quando falei isso.
Não entro, não dá certo, não planejo ter filhos, eles não terão minha
maldição? Mas minha namorada almeja fazer inseminação.
Não pretendo! Grito quando me propôs isso, não darei ao mundo outro
rato de laboratório, não.
O corpo todo marcado, não daria esse luxo aos cientistas e médicos,
ninguém mais poria fios em mim ou na minha criança.
Abracei meu velho, apertei. “Eu te amo, papai.” Ele já sabia, beijou
minha testa, usou-me de escora, levantou com a dificuldade, arrastou-se
à avenida.
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Ali, parou e nossos olhos se encontraram, nossos sonhos se uniram
naquele momento, algo foi dito, sem som, sem vibração alguma no ar.
Percebi, era tarde, sem tempo, dor, força, somente lágrimas cuspidas
dos olhos quando nos encontraram.
Mamãe sabia que, no fundo, ele tinha desistido dos sons da vida há
muito tempo e perdida esperei me chamar.
Senti o vento gelar os ossos, o cheiro das coisas à minha volta, sentia o
perfume de mamãe me envolvendo.
49
Sobre o autor:
IG: https://www.instagram.com/charlespsaraiva/
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Vestígios
Cidinha Ribeiro
A velha Tereza ruminava lembranças, passagens antigas da vida em
declínio. Cada vez que escapuliam da mente e pulavam em seu colo, as
histórias reais tremelicavam.
Eu sempre via os pés de Lia calçados com rasteirinhas. Ela pisava com
leveza e saltitava sobre empecilhos deixados no caminho: ora ressaltos,
ora refugos jogados pelos desatentos. Ela saltitava feito dançasse e
caminhasse, caminhasse e dançasse.
51
Minha amiga cultivava a delicadeza. Ela gostava de borboletas, de olhar
estrelas, de escrever versos sobre quase tudo. Carregava consigo um
bloco de notas para não perder as possíveis inspirações. “Um dia, serei
poeta de verdade”, a convicção dela se dispondo a me convencer da
certeza. E eu acreditava mesmo nela, com fé.
Aos vinte anos, Lia foi estudar no exterior. Tornou-se uma cientista de
fama internacional, ganhou prêmios merecidos. Senti muito falta, mas
sempre me lembro dela com orgulho. Minha amiga querida, onde está
você?”
Lia sempre pedia à cabeleireira para cortar seus cabelos bem curtos.
Valorizava a praticidade e desdenhava a informalidade excessiva de
outras garotas da mesma idade. Achava distintas as mulheres bem
penteadas, e os cabelos curtos facilitavam a elegância.
52
Minha amiga querida, quanta falta sinto de você!
“Conheci Lia em seu aniversário de dez anos. Gostei tanto dela que
fomos as melhores amigas até ela se casar e mudar para outro estado.
Depois disso, continuamos nos falando, mas a relação se tornou
superficial. Nada de segredos divididos, de desabafos ao menor
desgosto, de juras de amor eterno. A vida de casada mudou seu jeito
irreverente e divertido de ser.
Lia era uma garota arteira e criativa em suas maluquices. A mãe insistia
em transformá-la em uma princesa com vestidos vaporosos, laçarotes e
sapatinhos finos e delicados. Ela insistia em usar shorts sujos, meiões
dos irmãos e tênis furados, em jogar bola na rua, em falar palavrões e
em sujar a roupa com o sorvete de limão, que ela amava.
Lia existiu de fato? Ando tão esquisita... Acho que estou envelhecendo.
Aos poucos, mas estou mesmo ficando esquecida — ruminações de
dona Tereza buscando resgatar a amiga perdida nas imagens distorcidas
do passado.
53
Sobre a autora:
CIDINHA RIBEIRO é mineira,
canceriana, paisagista e artesã. Mãe de um
casal, é avó do Rafael e do Miguel, seus
grandes encantamentos. Escreve desde
menina, tendo publicado seu primeiro livro
em 2015. De lá para cá, publicou outros
quatro: contos, crônicas e agora um
romance polifônico, nem um pouco
tradicional. Tem participações em
antologias físicas e virtuais e escreve para
revistas.
IG: https://www.instagram.com/umasenhoraescritora/
54
O Labirinto de
Espelhos
Olinda Pina Gil
— Quem quer, quem quer comprar o bilhete, para a nossa nova
atração? — apregoava um homem sozinho, sentado numa cadeira de
pau em frente a uma pequena mesa à procura de clientes.
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Eu ainda não tinha decidido se seria ator de teatro ou escritor. E
enquanto não decidia atuava nalgumas peças para ganhar algum e
tentava publicar contos em revistas obscuras que ninguém lia, e dos
quais não tirava qualquer rendimento. Tanto como ator como escritor
eu precisava de estudar as pessoas, e por isso estava ali. Sozinho e
distante como sempre.
Não sei por que comprei o bilhete, talvez não viesse sequer a utilizá-lo.
Será que eu tive pena do homem, e fui naquele momento solidário?
56
— Então, nada? — perguntei.
— Se não tem mais nada para fazer, use o seu bilhete — sugeriu-me.
Que mal poderia haver num pequeno divertimento? Espelhos não eram
comigo, nunca se sabe que reflexos nos podem devolver. Como se
olhasses para um quadro que guardasse os teus piores segredos.
— Então não? É mesmo pena não estar aqui um jornal com a notícia,
ou um habitante doutras paragens que confirmasse. Mas tem a minha
palavra, garanto-lhe.
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O primeiro reflexo devolveu-me um palhaço. Talvez aquilo que eu
tenho sido em vida. O segundo a minha pessoa desfigurada em
canalha, na verdade o resultado das minhas atitudes com os que me
rodeiam. O terceiro reflexo não tinha cabeça. Levantei-me, agachei-me,
sem que a cabeça aparecesse. Ora, a minha cabeça era algo em que eu
confiava, não me sentia satisfeito em que desaparecesse. Não havia
bailarinas, nem anões, nem animais monstruosos. Estava na hora de
regressar a casa.
Achava eu.
Sobre a autora:
OLINDA PINA GIL estreou-se na
escrita no “DnJovem”, suplemento do
“Diário de Notícias”. Autora de “Contos
Breves” (2013), “Sudoeste” (2015) e de
“Sobreviventes” (2016) e dos livros infantis
“O Príncipe e o Lobo” (2022) e “A Menina
e o Circo” (2023). Para além de contos
publicados em ebook, tem colaborações
dentro e fora de Portugal. Foi agraciada em
vários prémios em conto e poesia.
IG: https://www.instagram.com/olindagil/
58
Lar Açucarado Lar
Maryse Brito
— Labirinto morreu!
— Teve um colapso!
A boca do povo dizia. O acontecido se espalhava por aqui, por ali, por
acolá. Entrava pela porta da frente, disparava pelo quintal. Escapulia
feito vento ligeiro. Ficava um instantinho, coisinha pouca, nos ouvidos
das paredes. Ia se espalhando, se espalhando, fazendo levantar, de um
pulo só, os que não davam ligança aos pipocos do foguetório da
alvorada festiva. Quem já viu uma notícia ruim correndo, sabe do que
estou falando. A boca do povo dizia, dizia, dizia, e o povo corria, corria,
corria para a casa de Labirinto.
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— Ei, Carpina Cara Manchada de Bexiga! Labirinto merece um caixão
decente!
— A mortalha! A mortalha!
Falando pouco e ouvindo muito; era assim que Labirinto vivia. Passava
horas e horas escutando o povo, tirando as mulheres.
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— Amália... Amália de... Amália de Jesus — respondi ao coveiro.
62
Sobre a autora:
MARYSE BRITO é baiana de Mutuípe.
Integrante do Mapa da Palavra da Bahia.
Tem textos em antologias e coletâneas.
Participa do Coletivo
Escreviventes. Em 2023, escreveu Cebola
e Sangue, poesia premiada na Antologia
Nós – Textos de Autoria Feminina , da
Selo Off Flip.
IG: https://www.instagram.com/isebrito13/
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Faça-se o verbo
Deanna Ribeiro
Lá fora, avenida vazia. Aqui, alguma coisa rondando: sussurros quase
incompreensíveis; o sopro do vento vibra o vidro na janela; idiomas
desconhecidos, talvez já extintos. A compreensão só alcança o existir,
mas não o determina nem classifica.
64
Essa coisa amorfa me desafia a dizê-la, olha no mais profundo de mim,
não sem deixar escapar os dentes pelos lábios quase abertos, num riso
de lado. Talvez ela saiba da impossibilidade de materializar-se, ou queira
me levar a conhecer o plano em que o saber e o sensível se condensam
e formam um só corpo inseparável. Ou palavra seja o elo para o outro
lado, onde habita a compreensão.
Acontece que não sei chegar até lá. Meus caminhos falham entre a coisa
e o saber, têm buracos enormes, em que, uma vez se cai, mergulha-se
no vazio completo. Breu de confundir a alma. Labirinto sem novelo.
Cegueira de nascença.
Inútil dizer que não consigo. Ela insiste, vem e me desperta até que,
vencida, eu esteja de frente à tela sem saber. Ainda que seja madrugada,
ainda que me doam as costas, ainda que: ela queira corporificar-se.
Existir não basta, a coisa quer o concreto saber-se no mundo.
Sobre a autora:
DEANNA RIBEIRO nasceu no Recife
(PE), mas é olindense de criação e
formação. Graduada em Letras pela
UFPE, é autora do livro “Ao fechar os
olhos imagina a água" (Quintal Edições,
2024). Publicou em algumas antologias e
coletâneas e pode ser lida no Instagram
@deanna_ribeiro.
IG: https://www.instagram.com/deanna_ribeiro/
65
Bandeiras Rasgadas
Vera de Angelis
Quando o barco começou a afundar, a consciência de Arlindo foi se
misturando ao delírio. Enquanto pôde, reviu o vestido florido de Maria.
Imaginou o aroma do jantar nas panelas sobre o fogão e a mesa
arrumada com guardanapos de papel e copos de vidro. Uma lembrança
misturada ao tempo de menino e agora era a mãe, de vestido florido,
varrendo a calçada da praia.
66
Era como um pesadelo encharcado e infinito misturando memórias,
dores e alucinação: o canto de uma sereia, flores e algas se entrelaçando.
O vestido de Maria mergulhando com ele. Tão pouco tempo juntos.
Agora que o amor parecia ter dado certo na sua vida, ia ele, se perdendo
nas águas do mar sem fim.
Tentou pegar o vestido e se agarrar a ele para não morrer assim, tão só.
Ouviu o sino de uma igreja. Seu casamento, talvez. Ou um mundo de
fantasia submerso, com princesas e piratas.
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— Veja os outros barcos com suas bandeiras coloridas batendo
ao vento.
Vai ver foi acertar contas com o patrão. Entregar a feira do dia.
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Não foi preciso dizer nada. Agora sabia que ele não voltaria.
Por mais feias que fossem, queria todas elas flamejando ao vento, no
barco do seu amor navegando em direção aos seus braços.
Sobre a autora:
VERA DE ANGELIS tem 69 anos, é
paulista e vive em Itatiba SP, há 17 anos.
Considera-se escritora desde os 16 anos de
idade, quando sentiu necessidade de
registrar em palavras sentimentos e
descobertas. Formou-se em Letras pela
USP, e foi bancária até se aposentar. Já
participou de seis edições da Revista
Contos de Samsara e adora seus desafios
que a motivam a escrever.
IG: https://www.instagram.com/veraldeangelis/
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O Labirinto e a Corda
Celso Joabe
Na última vez que a vi, ignorei-a. Um objeto entre tantos, pensei, sem
importância. Abandonar a corda foi uma decisão contrária ao meu
espírito. Agora, enfrento os mesmos dilemas da vida, repetidamente,
como um banquete de sabedoria intragável. Entre redemoinhos de
enganos e arrependimentos, descubro a superficialidade do mundo.
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Volto de onde vim, vendo outros cenários que são os mesmos. Minha
mente começa a divagar e criar rostos nas paredes; estou há muitas
horas sem comer ou beber. O tempo se esvai com aspereza e sadismo.
Meus passos, agora, me intrigam; andam como se fossem seres
separados de mim. Eu observo e descanso. Sinto o trabalho de cada
dedo, de cada articulação, e a contribuição do piso recebendo meus pés
descalços. Uma força divina me conduz para o julgamento. Sou levado
para longe da minha amada corda. Resisto. Grito. Meus pés me
ignoram, seguindo sua própria sabedoria. Entendo que eles têm seus
motivos, mas eu tenho os meus: preciso daquele pedaço de cipó, preciso
pedir, antes do meu último suspiro, perdão.
A saída deste labirinto pode estar nas fibras daquela corda. O caminho
para dentro de mim se guarnece nela, e nada é mais importante. Escuto
passos vindos de lugar algum. Me ajoelho em resignação. O prato da
resiliência me é servido. Custo a aceitar seu gosto amargo, o gosto de
estar só, de saber que não tenho um ombro para me apoiar, que meu
destino só depende de mim. Os passos ficam mais fortes, se
aproximam, assim como uma pulsão de vitalidade toma conta de mim.
Não serão meus passos nem os do desconhecido que irão me vencer; a
partir de agora, sigo rumo ao meu destino. Assumo o tédio das curvas
infinitas, das paredes com limo e do cheiro de mofo. Me divirto com as
nuances que cada momento tem por si próprio. Me acostumo com os
passos estranhos que são minha única companhia. A fome e a sede
ainda doem, mas aceito mais este prato do banquete. Escolho não
sofrer, não reclamar, apenas viver o desconforto que traz sua própria
sabedoria, evitada por aqueles presos em seus prazeres.
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Desejo que ela permaneça sempre comigo, prometi jamais a abandonar,
mas meus pés retomam sua marcha, conduzindo-me em frente. O chão
se purifica, o ar se torna mais leve, e os cantos dos pássaros ecoam
suavemente ao longe. Não sei se estou preparado para este novo
capítulo, apenas reconheço minha jornada diante do imponente portal.
Anseio por carregar minha preciosa corda em minhas mãos, para que
possa ser meu guia nos intrincados labirintos da vida, onde muitas vezes
o caminho parece sem saída.
72
Sobre o autor:
CELSO JOABE é um músico
multifacetado que transita por diversos
gêneros musicais, como jazz, MPB, funk e
choro. Sua paixão pela música o levou a
mais de três décadas de experiência,
aprimorando suas habilidades no
Conservatório de Tatuí e se destacando na
cena musical de Assunção, no Paraguai.
Atualmente em Curitiba, Celso dedica-se à
cena instrumental, atuando como pianista
em diversos trios e quartetos, compondo
trilhas sonoras e compartilhando seu
conhecimento como professor. Sua
criatividade se expande para a literatura,
com a publicação do livro de contos
"Contos do outro lado" pela editora
Armazém de Quinquilharias e Utopias.
IG: https://www.instagram.com/celsojoabe_literatus/
73
Apoena
Elaine Perez
Até nas profundezas dos infernos vejo as malditas texturas.
Mãe, percorri todo o lado leste do vale e esse cheiro de mijo de porco
dos seus ossos me embebedaram. Desgraçada, me pegou mais uma vez.
Meu peito arde. Tenho filas de pontos a sangrarem dessa pauta de dor.
Demônia dos infernos.
Mais uma vez, me afastei dos sapatos luminosos para seguir essa música
de vaca no pasto. Sua vaca.
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Como você consegue? Furos simétricos a perfurar meu peito. Odeio o
cheiro de urina. Nunca me esqueci.
Cada vez em que não chacoalhava como guizo falante e você percebia
minhas calças com pingos de medo, sentia suas mãos me furarem. Você,
maldita, contava, ponto por ponto. A umidade escorria de cada dedo.
Aprendi bem pequeno a contar os dedos das mãos. Vinte furos. Vinte
desgraçados dedos.
A bengala é branca. Tem que ser. Café bem forte. A noite foi intensa.
Porque continuo a colocar esses óculos enormes? Você não está mais
aqui. Vai que eu assuste alguém no trabalho. Quem quer ver os olhos de
um cego? Vou jogar dominó com Soraia. Ela já consegue encaixar bem
os furinhos e combinar a quantia certa. Sua mãe me falou dos seus
sapatos vermelhos.
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Sobre a autora:
ELAINE PEREZ, nascida em
Sorocaba/SP. Educadora aposentada,
pesquisadora das infâncias, escritora e
compositora sorocabana. Escreveu as
obras: “Caminhos Poéticos de uma
educadora”, “Estudo poético da
Mediunidade”, “A pedra dos meus olhos”,
“Artmada”, “Na rede eu conto”,
“Arvoredo”, “Floral”, “Floral tradução”,
“Sabores que alumiam a alma”. Participou
de antologias de poesia e contos. Participa
de revistas. É integrante do Grupo o Ato
de Escrever, do Coletivo Escreviventes e
participa das oficinas com Mell Renault.
IG: https://instagram.com/elaineperezfo?r=nametag
76
Minha Analista e Eu
Elena Chacon
É a terceira vez que passo neste mesmo lugar. Sei disso porque, de
tempos em tempos, coloco uma fitinha no caule de alguma planta para
fazer uma marcação. Mas é inútil; serve apenas como um efeito placebo
de esperança. Passo pelos lacinhos feitos do tecido rasgado da minha
roupa, finjo que não vejo. Faz tempo que não tomo banho, que não me
olho no espelho. Como devo estar? Um desastre… Será que as pessoas
ainda me reconheceriam, se me vissem? Improvável. Faz anos que me
prendi aqui neste labirinto. Me prendi, não, preciso aprender a ser mais
justa comigo. Me prometeram muitas coisas sobre esse lugar. Me
disseram que aqui eu teria controle de tudo, tudo mesmo, o tempo todo.
Me disseram que tudo sairia do jeitinho que eu quisesse, as pessoas
fariam os meus gostos, o dinheiro nunca faltaria, eu seria finalmente
aceita. Prometeram que meus defeitos, aqui, seriam qualidades, porque
eu é quem decidiria o que seria o quê. Imaginei a vida perfeita, sem
imprevistos, sem medos, sem ansiedades, sem nada que eu não pudesse
mudar a meu favor. Nunca mais teria de olhar para os meus traumas de
infância, nunca mais teria que mudar meu jeito de ser em uma roda de
conversa. Claro, foi tudo ilusão. Paguei minhas economias da vida pra
chegar aqui, foi uma viagem turbulenta e perderam minha mala no
caminho. Trouxe só a mim e esta bolsa que estava no meu colo e que só
tem pedras dentro. Não sei quem foi que me deu isso, mas tenho um
apego porque é a única coisa que trouxe lá de fora. Quando chegamos,
77
o piloto do avião olhou para mim e sorriu com tanta gentileza que senti
que ainda estávamos nas nuvens. Disse “que sua estadia seja incrível,
dona Júlia”. Mas não sei se Júlia era mesmo meu nome, porque me
lembro de ter um nome bem comprido. Às vezes, acho que me
confundiram com essa tal de Júlia, e ela está lá, no meu mundo
encantado, e eu vim parar aqui neste labirinto sem saída. Então ele me
empurrou para fora do avião, e eu caí aqui, com essa bolsa que acho
que, pelo menos, deveria ter um paraquedas. Acontece que agora já
estou aqui há tanto tempo que me acostumei com como as coisas
funcionam. Não sei se sinto falta do mundo real. Era bem difícil, eu me
lembro. Eu era uma menina esquisita e mirrada que tinha medo de tudo
e de todos. Aqui tive que aprender a caçar e pescar, ando o dia inteiro e
descanso um pouco à noite, mas não muito. Se eu não tomar cuidado,
os pássaros roubam minha bolsa de pedras. Eles já tentaram várias
vezes e uma vez quase conseguiram, mas pulei bem alto e me agarrei na
alça até ele soltar a gente; eu e a bolsa. Fiz minha cabaninha com galhos
e folhas, em um canto que marquei com uma bandeira bem alta para ver
de longe e até que eu vivia feliz. Isso tudo antes dessa moça chegar. Ela
é elegante, não é toda suja como eu. Caminha devagar como se pisasse
em ovos o tempo todo, mas com muita determinação. Não parece que
foi jogada do avião, parece que pousaram e estenderam um tapete
vermelho para que ela descesse. Ela vem aqui toda semana e me
pergunta “você não sente falta do mundo lá fora?” e eu não sei o que
responder. Aqui é mais seguro, sei como tudo acontece. Tenho hora pra
comer, dormir, andar, voltar. Tenho minha bolsa de pedras comigo. Sei
a hora em que o Sol nasce e se põe todo dia. Sei as plantas que posso
comer e as venenosas. Decorei cada esquina e cada passagem. Para que
voltar para um lugar onde tudo é desconhecido? Ela ri como se
soubesse de algo que eu não sei. Boba. É melhor ficar esperta porque
aqui quem manda sou eu, tenho vontade de dizer. Mas não digo, sinto
que ela quer me ajudar. Um dia, me convidou para sair e eu gritei
“NÃO EXISTE SAÍDA!” exasperada com tanto confronto com a
realidade. Será que ela não vê que estou presa em um labirinto? Por ora,
ela me parece inofensiva, mas seu jeito me assusta. Às vezes ela me fala,
“querida, já tentou ver as coisas por outro ângulo?” mas não entendo o
que ela quer dizer com isso. Ela acha que estou aqui por que quero, por
78
que gosto? Me prenderam aqui, tá bem? Eu sairia se pudesse. “Mas você
pode. Pode tudo nessa vida.” Mas não posso isso. Sem contar que gosto
da certeza das coisas e a única certeza que tenho é a do labirinto. E na
semana passada ela voltou, dessa vez a vi entrar: afastou as folhas com a
mão e sorriu com ares de graça e plenitude. Acha que eu não vi que ela
sabe onde fica a saída? Eu vi, vi você entrar! “Então também sabe por
onde sair.” Fiquei sem ter o que dizer. Era verdade e agora não sair era
uma escolha. Mas eu não podia sair: eu não sabia por que tinha entrado,
e se fosse um motivo primordial para minha vida, para me proteger do
mundo? E se sair fosse um risco muito grande para o meu bem-estar?
“Esse, querida, é nosso próximo passo. Somente depois de entender os
motivos que te prendem nesse labirinto você será livre para decidir
sair.” Livre. Eu me achava livre aqui dentro, mas agora não sei. Essa
moça falou muitas coisas que me deixaram pensativa. Talvez eu devesse
baixar as armaduras com ela. Ouvir o que tem pra dizer. Decidir se ela
tem me falado a verdade ou lorotas. E o tempo que investi pra estar
aqui? Eu construí tudo do zero: as folhas, as encruzilhadas, os pássaros.
Não sei se a solução é ir embora assim, sem mais nem menos. Tenho
que ver direitinho. Mas até semana que vem, quem sabe eu já não tenha
entendido.
79
Sobre a autora:
ELENA CHACON só tem 18 anos e
ainda tem muito o que viver. Transborda
suas experiências, emoções e
pensamentos em forma de palavras que
denunciam sua sensibilidade para com a
vida. Agarrada aos livros desde que se
entende por gente, Elena continua sendo
a garotinha sonhadora que escrevia
poemas sobre a natureza, mas agora suas
palavras exploram temas cada vez mais
introspectivos e sentimentais.
IG: https://www.instagram.com/ana.elenac?
igsh=dnMwbGRtb3c1ZGF0
80
Folha
Crislaine Gruber
Fazia frio. Olhei para o jardim. Ele continuava lá. Um homem
atormentado. Me fitava com um olhar oco. Não desviava os olhos,
apenas piscava de vez em quando, muito menos do que o
necessário, deixando o branco do olho de um vermelho que antes
me enchia de pavor.
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Eu sempre acreditei. Era o que eu podia fazer.
Fazia dez anos que eu assistia à mesma cena da minha janela. No dia da
partida da nossa menina, ele vinha, se prostrava no jardim, em pé,
braços pendidos, olhando para casa. Imagino que passava o dia a
fantasiar como seria se ela estivesse aqui. Se tivesse crescido. Se pudesse
brincar de pega-pega no gramado. Se ganhasse um cachorro e fizesse
estripulias com ele pelo quintal. Se conseguisse espiar pela janela ele
chegando do trabalho. Se tivesse se arrumado para uma festa junina e
saído toda sorridente porta afora para encontrá-lo. Se ficasse,
adolescente, lendo na rede em frente à casa. Se tivesse se apaixonado e
trazido alguém para apresentar para a família. Se crescesse e tivesse seus
netinhos, agora eles brincando no quintal. Se tivesse vivido.
Eram olhos ansiosos por um futuro que não existiria. Uma dor que não
tinha encontrado um caminho para repousar. Ficava perdida, vagando,
feroz, ainda gritando dentro dele.
Ele, eu não sei como segue. Só o vejo, ao final do dia, virar as costas e
partir. Até o próximo ano.
82
Sobre a autora:
CRISLAINE GRUBER nasceu em Rio
do Sul (SC), em 1988, e vive em
Florianópolis desde 2006. É professora no
Instituto Federal de Santa Catarina desde
2010, formada em Moda, mestra em
Design e doutora em Engenharia de
Produção. Apaixonada por literatura, tem
se dedicado aos livros de diferentes
maneiras, na docência, na escrita, no
voluntariado, na segunda graduação, agora
em Letras.
IG: https://www.instagram.com/crislainegruber/
83
O que Deus une
Thais Silva de Castilho
Ela procurou o pároco da igreja para uma confissão. Se sentia em um
labirinto e não encontrava saída. Perdida e incapaz de tomar uma
decisão sozinha, buscava alguém para colocar um ponto final em suas
dúvidas. Assim, buscou o pároco para se aconselhar, antes de qualquer
decisão que viesse a ser tomada.
84
— Tudo passa, minha filha... Permaneça casada.
— O que Deus une, o homem não separa, minha filha — disse o padre.
— Então separe, minha filha. Se ele parou de dizimar, separe. Ele não
honra a palavra de Deus.
85
Sobre a autora:
IG: https://www.instagram.com/castilho2044/
86
Sinal Perdido
Joana Patacas
José segurava o telemóvel na palma da mão como se de um pássaro
ferido se tratasse. Os dedos cerraram-se em torno do aparelho, a
pressão aumentando, como se pela força da sua vontade pudesse
arrancar daquele objeto um sinal de vida. Mas ele permanecia mudo, um
pedaço de tecnologia fria e indiferente à sua crescente angústia. As suas
sobrancelhas grisalhas e indisciplinadas convergiram numa carranca de
consternação quando o seu polegar pressionou o botão de desbloqueio.
O ecrã brilhou em resposta, lançando sombras profundas nos sulcos do
seu rosto envelhecido — não tinha notificações.
87
Abanou a cabeça, os lábios contraindo-se numa linha amargurada.
Tinha de ser um problema técnico, uma avaria. Não conhecia
ninguém que não tivesse um telemóvel, pelo que não fazia sentido
nenhum estar à margem daquela realidade pulsante. Convencido de
que a falha residia na tecnologia e não nele próprio, rumou à loja onde
comprara o maldito aparelho, decidido a resolver aquela complicação
que o isolava do resto do mundo.
88
Um som agudo trespassou a névoa dos seus pensamentos, como uma
agulha a perfurar um balão. Um bipe estridente reverberou pela sala,
seguido por uma voz eletrónica que anunciava o próximo número, com
a indiferença mecânica de quem não se importava com as histórias por
trás de cada chamada. Levantou-se, as pernas dormentes pela espera
prolongada, e dirigiu-se ao balcão com passos hesitantes. Um jovem
funcionário saudou-o com uma jovialidade ensaiada. As palavras
tropeçaram-lhe na língua ao expor a sua questão, a voz trémula e
quebradiça como um fio de caramelo esticado ao limite. Com agilidade,
o rapaz pegou no dispositivo, examinou-o. Sob o seu toque experiente,
testes de diagnóstico foram executados, botões pressionados e
aplicações abertas e fechadas. Após o que pareceu uma eternidade,
declarou: "O seu telemóvel está a funcionar, senhor. Precisa de ajuda
para perceber melhor como funcionam algumas coisas?”
89
Guardou o telemóvel no fundo de uma gaveta e afundou-se na poltrona.
As sombras do final da tarde alongavam-se, infiltrando-se nos recantos
da sua mente, trazendo consigo a amarga constatação de que, nas idades
mais avançadas, a solidão raramente é uma escolha. É uma consequência
implacável do tempo, que leva consigo os entes queridos e deixa para
trás apenas lembranças desbotadas. Uma lágrima solitária traçou um
caminho sinuoso pela sua face envelhecida. Naquele momento,
compreendeu a verdadeira essência da vida. Não eram a quantidade de
notificações ou a constância dos contactos que lhe conferiam
significado, mas sim a profundidade e a autenticidade dos laços que
cultivara ao longo dos anos. E, apesar da solidão que agora o envolvia,
as memórias desses momentos de ligação genuína permaneceriam com
ele, aquecendo-lhe o coração e iluminando-lhe o espírito até ao fim dos
seus dias.
Sobre a autora:
JOANA PATACAS, com licenciaturas em
História e Jornalismo e especialista em
Storytelling, acredita no poder das palavras
para transformar factos em narrativas
inspiradoras na sua profissão como
copywriter. Cresceu rodeada por histórias,
contadas por várias gerações da sua família
e pelas páginas dos livros que sempre leu
com voracidade. A sua paixão pela escrita é
uma verdadeira vocação, que explora
também através da investigação
genealógica e do teatro, aos quais se dedica
há alguns anos.
IG: https://www.instagram.com/jujoanamaq/
90
Os Caminhos Dentro
de Si
Daniele Rangel
A mesa estava posta para o jantar, ou melhor, estava posta desde o café
da manhã. Apenas foram sendo trocados os pratos, à medida que as
refeições mudavam, anunciadas pelo relógio na parede. De resto, ela
parecia estar posta. O bebê de nove meses ainda não dormia uma noite
completa e tirava muitos cochilos durante o dia, mas nenhum desse
intervalo era suficiente para a mãe se sentir que finalmente pegou no
sono. Os olhos pesavam, o corpo parecia se acomodar na cama ou
poltrona e de repente um chamado e ela já se sobressaltava, já a postos,
igual sua mesa na sala, mal arrumada, mas pronta para recebê-la para o
jantar
A mãe sentou-se culpada por sentir alívio em poder tomar seu café com as duas
mãos. Queria tomar um banho antes, tirar a camisola vestida desde a manhã, no
entanto era uma escolha muito difícil a fazer: tomar um banho rápido para sentir
menos cheiro de leite derramado em si ou jantar usando as duas mãos no pouco
silêncio daquele momento. Escolha difícil igual labirinto em suas ofertas cheios de
caminhos que dificilmente levaria a alguma saída. Para ela, um ou outro caminho
levaria para o mesmo final — ser interrompida a qualquer momento pelo
chamado do bebê. Escolheu seu café com leite e um pedaço de bolo.
91
O cheiro de leite era seu novo perfume, o banho podia ficar para um
pouco depois, quando alguém chegasse em casa ou quando ele dormisse
de novo. Fechou os olhos e suspirou, lembrando do prazer que lhe era
tão corriqueiro nesse tão simples gesto de sentar-se à mesa sozinha para
comer seu bolo preferido. A culpa mais uma vez chegou para lhe fazer
companhia, enquanto trilhava seu labirinto em busca de si. “Ora! Não
há nada demais em eu me sentir feliz por meu filho não estar em meu
colo!”, dizia para si mesma para se convencer disso como uma verdade,
enquanto olhava o bebê pela babá eletrônica. “Se eu for um pouco mais
rápida, talvez dê tempo de eu tomar um banho também.” Preferiu se
demorar e sentir o café quentinho.
92
Tomou mais um gole do seu café quase frio. O bolo conseguiu comer,
mas nem sentiu o gosto direito, seus pensamentos não deixaram. Ela
estava ali sentada, feliz e culpada por usar suas duas mãos na refeição.
Caminhando em seu labirinto interior, explorando os vários caminhos
— de quem seria dali para frente, de quem deixou de ser, de quem
gostaria de ser ainda. Todos pareciam ser longos demais, porém não
queria que fossem sem saída. Queria que pelo menos os levassem até a
ela mesma. Mas quem era ela? Ser mãe parecia ser sua única identidade
no momento. As frases que mais escutava eram: Cadê a mãe do ano?
Onde está a mãe desse bebê? Essa é a mãe do meu filho. Até o pediatra
começava a consulta com “Bom dia, mamãe, como está o Paulinho?”.
Sentia falta do seu nome, mas também se deslumbrava com a sua nova
versão recém-nascida.
— Mamainn!
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Sobre a autora:
DANIELE RANGEL é
pernambucana, casada, mãe de quatro
filhos, graduada em Letras, com
mestrado em Psicanálise aplicada à
Educação, professora de Português do
Instituto Federal; adora chocolate, vinho,
praia e literatura. Ela acredita que ler é
uma ação transformadora, porque é
possível acessar nosso mundo interior
por meio das palavras e das experiências
dos personagens. É autora do conto "A
Filhinha do Papai" publicado na
Amazon, já tendo alcançado o segundo
lugar dos mais baixados.
IG: https://www.instagram.com/_dani.rangel/
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O Labirinto de
Iracema
Olivaldo Júnior
Iracema não se lembra ao certo de como foi parar naquela Unidade de
Terapia Intensiva. Morena, magra e tão alta quanto poderia ser uma
descendente de indígenas, Iracema, anagrama de América, era
professora e, momentos antes do acidente que a fez parar no Hospital
Municipal de Miraflores, no Estado de São Paulo, tinha brigado com
Henrique, um homem que conhecera por meio de um aplicativo de
namoro, há um ano e pouco. Tão bonito quanto Iracema, Henrique era
do tipo que atraía atenção por onde quer que passasse. Alto, magro,
aquele homem de olhos claros, entre o azul e o verde, também era
professor. Amavam-se, mas, apesar do amor, brigavam. E muito.
Iracema era muito possessiva, e Henrique não ficava atrás, então era
fogo na certa.
95
— Chamando Doutor Rubens. Atenção, chamando Doutor Rubens —
continuava a locutora, enquanto Henrique circulava para lá e para cá,
como se fosse adiantar ficar assim.
96
Ao tentar se aproximar das duas, ou seja, de sua mãe e de si mesma
ainda bebê, como se uma lente se fechasse na objetiva de uma câmera,
voltou ao corredor escuro e, tremeluzentes, frias, sua irmã e a luz a
chamavam…
97
remanejada para esse outro momento de sua vida pelo labirinto
encantado. No quarto, ela em coma, os aparelhos funcionando a mil.
— Sim, aceito.
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Deitada, imóvel, a mente de Iracema voltava agora a momentos antes
do acidente, quando, ainda na escola, querendo surpreender o
namorado, entrou de supetão na sala quinze.
Sem pensar em mais nada, a não ser em sair daquele momento, Iracema
entrou no carro e, ajeitando o cinto, tomou a estrada na contramão.
99
Sobre o autor:
OLIVALDO JÚNIOR nasceu em
Aguaí, São Paulo, mas mora em Mogi
Guaçu, cidade vizinha, desde menino.
Formado em Letras, com Habilitação em
Português e Inglês, e em Radialismo de
Locução, é poeta, escritor e músico,
cantor e compositor. Apaixonado por
fotografia, vive tirando fotos e
escrevendo a respeito. Incentivado por
seus pais, que lhe compravam discos e
livros sempre que podiam, e por alguns
professores, Olivaldo tem participado de
Concursos Literários regularmente,
obtendo diversas classificações país e
mundo afora.
IG: https://www.instagram.com/olivaldo.junior/
100
O Coração Humano
Olívia Avelar
A mãe batia só nas galinhas. Depois, eu nasci. Eu era menina e já sentia
saudade delas, quando morriam. Cada uma canta do seu jeito, risca o
chão com ciscado diferente, bate as asas bem aberto, ou de lado, ou
assim, cambotinha, mostrando as penas pra gente ver. Eu sinto saudade
delas, sim. Os olhinhos miúdos. Pescocinho careca. A mãe chupa os
ossinhos do pescoço fazendo barulho.
101
Depois da rolinha, perdi as contas. Enterrava sanhaço, gato
envenenado, outras rolinhas. Galinha não, delas só sobrava osso.
Cachorro foram só dois. Fiz velório pro Jagunço, tadinho, tava velhinho
quando morreu. Tava igual ao dono, seu Manoel Tinoco. Não demorou
muito pra ele ir também. Perdeu o companheiro, daí emborcou a
cabeça, arriou coluna, espinhela, não teve jeito, não. O outro era vadio,
passava na minha porta dia sim, dia não. Eu chamava ele de Zé
Chouriço, porque ele tinha cor de chouriço. Mataram na paulada, na
covardia. Pra ele, eu catei até flor. Gambá enterrei só um. Os dentinhos
afiados, tava morto e tava rindo.
102
“Sonho é labirinto, fiota. Dê conta de acordar.” E Dona Cecília disse
mais nada. Assuntei por aí, ninguém me explicava o que era labirinto.
Seu Deocleciano me ofereceu um corte de tecido e uma chaleira pra eu
deixar a mãe sozinha e ir dormir na casa dele. Disse que lá não tem
sonho ruim. Pra que eu fui contar. “Questão de tempo, bichinha…
logo, logo, você vai ser igual sua mãe…” e fez o mesmo barulho
nojento que a mãe faz quando chupa osso.
Não tenho medo de enterrar os bichos. Cuido deles na vida, cuido deles
na morte. Ela bate, eu cuido. Tenho medo é de ir dormir. Medo de
sonho ruim, do cabeça de boi. Do labirinto da Dona Cecília. Tenho
medo que de tanto dormir e acordar, num dia o sol vai raiar e vai ser
minha vez de cortar pescoço. Tenho medo do Seu Deocleciano. Tenho
medo de virar a mãe.
Sobre a autora:
OLÍVIA AVELAR é formada em
Letras e pós graduada em Filosofia. Em
2022, publicou seu primeiro livro - Azul
da Prússia - pela Editora Folheando. É
professora e escritora membra da
Academia Cachoeirense de Letras.
Nasceu e vive em Cachoeiro de
Itapemirim, ES.
IG: https://www.instagram.com/olivia.batista.avelar/
103
A Bailarina do
Caderno
Jenny Rugeroni
Ainda me lembro das ruas quase vazias que percorria para voltar da
escola. Era início da década de 1990; quase ninguém tinha carro, nem
telefone. Eu carregava minhas apostilas e o caderno de matérias com a
bailarina na capa, que meus pais diziam se parecer comigo: as saias de
tule contrastando com o rosado das maçãs do rosto, os cabelos negros
presos no alto da cabeça. Donizete me apressava. Queria chegar logo, e
eu ficava cochichando com as meninas. Não que ele fosse entender; o
som do Technotronic no seu walkman era tão alto que podíamos ouvir
a dois metros dos fones. Sônia, a mãe da Suelen, estava sempre
debruçada no portão. Algumas casas tinham floreiras, anões de jardim,
tartarugas de gesso. E o gato amarelo da Suelen observava do alto do
muro, atrevido e soberbo como um rei.
Vanildo morava numa casa que não existe mais, nos fundos de um
terreno onde agora construíram um barracão. Lembro-me dele
descendo a rua da escola com ar desanimado: um rapaz não muito alto,
ombros largos, mãos ásperas, olhos verdes. Era louco por mim e não fiz
nada para isso, era apenas eu mesma. O lance com ele durou bem
pouco. Eu tinha catorze anos, era magra e desengonçada, vestia roupas
de segunda mão, porque meus pais não podiam comprar outras, mas as
pessoas me achavam bonita. O Donizete havia completado dezesseis
anos, e se achava adulto. Na época, eu vivia como se o tempo fosse
infinito. Era ansiosa, infeliz, entediada de ficar em casa enquanto a vida
explodia nas noites do centro da cidade.
104
Foi no carnaval que acabei ficando com o Vanildo. Não sei por qual
milagre meu pai me deixou ir. Mandou o Donizete me vigiar, mas era
fácil burlar meu irmão. Eu queria ficar com o Índio, que estudava
comigo e ganhou esse apelido porque era descendente da tribo dos
Tupinambás. Mas ele já estava com outra menina. No meio da multidão,
o Vanildo pegou na minha cintura. Dançamos, conversamos, falando no
ouvido porque a música estava alta. Depois ficamos nos beijando num
canto, sempre de olho para o Donizete não ver. Se meu pai descobrisse,
nunca mais me deixaria sair.
Quem viu e ficou chateado foi o Iverson, irmão mais novo da Suelen.
De onde a Sônia tirou esse nome? Ele me jogava beijos, queria se casar
comigo, e eu esnobava: se enxerga, moleque, você só tem treze anos.
Meus pais gostavam dele, mas não da Suelen, que aos dezessete anos
tinha uma filha de dois, a Cacá. Minha mãe dizia: nada de andar com
essa menina, é péssima companhia. Eu gostava da Suelen, atrevida e
soberba como o gato amarelo. Pena que diziam que ela não teria um
casamento decente.
Fiquei com o Vanildo mais uma vez. Até que ele era legal. Havia
abandonado a escola, falava tudo errado, e isso me incomodava. Pena
que você é virgem, disse ele, senão ia ver só uma coisa. E eu sentia um
frio na barriga; era uma pena mesmo, só que depois ninguém ia querer
casar comigo. A Sônia jurava que o Vanildo tinha uma namorada que
morava na casa com a palmeira na calçada. Além de preta é mãe solteira,
fofocava. Na época eu não percebia o absurdo do preconceito. Só achei
que ela não gostava da moça e ficava com implicância. Mãe solteira não
presta, dizia ela. A Suelen também era mãe solteira, então a Sônia não
tinha moral para falar.
105
Só sei que não deu certo, mas o Vanildo não desistiu. Vivia rondando o
portão da escola, puxando conversa com o Donizete para ficar por
perto. O que eu tinha, que a namorada mais velha não podia oferecer?
Saindo da aula, eu acenava para o Índio no ponto de ônibus. Ele era alto
e moreno, a pele perfeita como a terra, e me causava calafrios quando
sorria.
Com ele, também não deu certo, nem chegou a ser namoro. Ficamos
por uns quatro meses. Era pouco prazer e muita ansiedade, mas na
época eu não me dava conta. Ele era mulherengo, não queria namorar.
Escreveu uma carta: gosto de você, mas esse amor que você sente eu
não tenho, não. Chorei por uns dias, abraçada ao travesseiro. Depois
segui com a minha vida, virando o rosto quando passava pelo ponto de
ônibus.
106
Passei umas duas semanas imaginando o que a Suelen e meu irmão
fizeram naquele quarto. Tinha sonhos estranhos com labirintos e
homens sem rosto, nos quais eu me transformava na Suelen, atrevida e
soberba como o gato amarelo. Acordava febril, imaginando o sorriso do
Índio, alto e moreno, a pele perfeita como a terra, o único garoto que
me importava e que eu não podia ter.
Sobre a autora:
JENNY RUGERONI é autora dos
romances “A Herdeira do Silêncio”,
“Um Céu de Estrelas Curiosas”, “O
Ano em que não Choveu” e
"Insubordinada", além de diversos
contos e crônicas. Vive com a família e
catorze gatos em São João da Boa Vista
- SP, na região da Serra da Mantiqueira,
onde a natureza é uma fonte de
inspiração. Vencedora de mais de
quarenta prêmios literários, apresenta
um olhar lírico sobre o cotidiano,
convidando à reflexão sobre a
desigualdade social e os dilemas
enfrentados pelas mulheres
contemporâneas.
IG: https://www.instagram.com/jennyrugeroni/
107
Viagem por Lugar
Nenhum
Bruno Andante
“Parque de diversões não é um bom nome”, pensou Alma. Parecia a
única criança entediada. Na praça central, agora observavam um mágico
retirando um sol do chapéu. A menina cansou de ser plateia.
Andou sem rumo, sem ver graça em nada. Finalmente, uma placa
chamou a atenção: “labirinto”. Na direção apontada, viu uma tenda de
circo. Entrou. Que cena curiosa: só uma velhinha em uma cadeira de
balanço, junto a uma porta.
ㅡ Em lugar nenhum.
ㅡ Hein?
108
A velhinha apontou a porta. Alma viu um pequeno corredor levando da
primeira porta até uma segunda.
“Que maluquice”, pensou Alma. Mas deu o primeiro passo, vendo que
só precisaria de dois.
Retirando a cabeça, deu alguns passos atrás. Olhou ao redor, e já não viu
as paredes, nem a saída. Deu meia volta: o espelho também sumiu.
Estava em meio a uma densa neblina. Silêncio completo.
109
Finalmente, ouviu algo. Música! Harpas e flautas. Contornos de árvores
apareceram, depois paredes... estantes? Muitas, cheias de livros. A
neblina se dissipou: estava em uma imensa biblioteca. Linda! Com
jardins, escadarias, muitos andares. Haviam até pequenos rios, e um
chafariz.
Não viu ninguém. A música vinha de todo lado. Andou pelos jardins,
cruzou uma pontezinha, e parou frente a uma estante solitária. Notou
em cima a estátua de uma coruja.
A coruja voou, elegante, e pousou em uma meia lua que Alma não viu
antes, pendurada a um céu estrelado. Agora era noite, e a biblioteca
estava iluminada com luminárias flutuantes.
ㅡ Parece.
ㅡ E de quem é?
ㅡ E quem é você?
ㅡ E quem é você?
110
Alma pensou, e respondeu com um sorriso irônico:
O que aconteceu foi mais estranho do que tudo até ali. Ao começar a
ler, se sentiu sonolenta. Mas a sensação era confusa: parecia adormecer,
e ao mesmo tempo acordar. E então sonhou. Mergulhou num novo
mundo. Tão realista! Tanto que esqueceu que sonhava: vivia uma vida
normal.
A vida de outra pessoa. Uma moça, que iria se casar. Não estava feliz.
Desistiu daquilo, se tornou atriz, ganhou fama, viajou pelo mundo.
Momentos felizes, momentos tristes. Envelheceu. Se sentiu sozinha.
Morreu…
111
ㅡ Cuidado! ㅡ disse a coruja, desde uma escadaria.
ㅡ Então encontre.
ㅡ Infinitos.
ㅡ E como encontro?
112
Ela não saberia dizer quanto tempo passou. Viveu histórias inteiras,
sempre procurando saídas para algum labirinto. Alguns de paredes,
outros de nuvens. Aprendeu muito, e encontrou mapas. Mas nenhum
indicava a saída daquele labirinto. Tentava usá-los e encontrava sempre
um beco sem saída.
Então ela começou a parar. Parar o corpo foi fácil, parar a mente foi
muito difícil. Persistiu, cada vez mais quieta. Finalmente, em profundo
silêncio, se sentiu imensa… maior que a biblioteca. Sentiu então uma luz
a aquecendo.
ㅡ Você ficou fora vários minutos, sua maluca. O show do mágico vai
terminar, e o professor vai procurar a gente.
ㅡ Vamos ㅡ disse ela, andando. ㅡ Você não vai acreditar, mas… já sei
como ele tira o sol do chapéu.
113
Sobre o autor:
BRUNO ANDANTE é psicólogo,
iogue, escritor, músico e palhaço.
Facilita saraus de múltiplas artes e
oferece vivências imersivas de
meditação, criação artística e conexão
com a natureza. Atualmente, se dedica
em especial a concluir e publicar seus
primeiros livros de poemas e de contos.
IG: https://instagram.com/brunoandante
114
Cristo-vão
Camille Perissé
Ele colocou seu capacete, sem olhar para trás ou para os lados. O uivo
do vento era a única melodia desejada. Equilibrou-se, como ao montar
uma cela macia, e fez um giro cuidadosamente com a mão direita. Em
poucos segundos, tudo está longe, inclusive as vozes, os cheiros e a
mistura quente e fria de fluidos.
Para ele não há sagrado neste silêncio. Seu esvaziar-se é a fuga de uma
alma pela metade. A blasfêmia encarnada. É seguir um caminho às
alturas que encontrará o céu de portas fechadas. Assim está: obrigado a
dar voltas.
Como em incontáveis vezes, vai pelo aterro e, sem olhar para a vastidão
do mar, mas pressentindo-a pela brisa, respira cada vez mais fundo e
mais pausado. Pisa cada vez mais fundo e não pausa. Qual a diferença
entre este par de rodas e um par de asas? Mal sente a lei da física que o
prende ao asfalto, só percebe os espaços. A esta hora, a esta velocidade,
no fundo, nenhum átomo de matéria se encosta. Nunca encostou.
115
O coração de alguém batia rápido e se atormentava. Mas essa sensação
permaneceu no ambiente que ele tinha deixado sem nada dizer. Sem
arrependimentos. Sem lembranças. Toda emoção é como uma poça
turva que um dia já foi água cristalina, que esqueceu-se de si mesma, de
sua natureza volátil, e misturou-se à poeira mais baixa. Por mais
impurezas que carregue, ela um dia evapora. Como Cris.
Sobre a autora:
CAMILLE PERISSÉ mora no interior
do estado de São Paulo. É jornalista e
pedagoga. Fez contação de histórias para
crianças em hospitais. Recebeu prêmio
de segundo lugar no 11ª Concurso de
Narrativas de Morro Reuter com o
conto "O homem da mala" e participa
do livro Conte como quiser (Paraquedas,
2021) com os contos "Espelhados" e
"Pequena Iriri". "De volta ao meio do
caminho" foi seu livro de estreia pela
editora Patuá (2023).
IG: https://www.instagram.com/camillepoeta/
116
Vão
Vilma Martins Schiante
O cheiro úmido do cimento ardia o nariz. Pior, ainda, o de urina e
outros líquidos. As meninas nem ligavam. Nem os gatos. O abandono
não era da mãe, que gritava antes de sair para o trabalho:
Para não enlouquecer, ela fingia não saber que as filhas passavam a tarde
na construção inacabada. Também não era abandonada. Tinha de tudo.
De dia, virava quintal para brincadeira das crianças; de noite, diversão de
adultos.
A obra foi embargada uns anos antes da pandemia. A mais nova ainda
era bebê. Faltava o acabamento, mas o grosso estava praticamente
pronto. Piso no concreto e paredes no chapisco davam um ar de
solidão. O VÃO do elevador sem aviso de CUIDADO era um convite
para morte matada ou suicídio. A melancolia das máscaras aumentava
com o cinza do cimento. Planta queimada. A de papel, porque a verde
crescia nos cantinhos como as covinhas das meninas. Elas gostavam de
brincar de esconde-esconde lá.
117
As três irmãs, de 13, 10 e 6 anos, não viam risco. Só risada. A
brincadeira era se vendarem, uma de cada vez, com a máscara de pano e
girar como um peão até ficar tonta. E ainda tinha que contar até dez
para tirar a venda. Chegavam no piso térreo afobadas, sem ar, com
adrenalina saltitante.
ㅡ Aí que tá a emoção!
ㅡ Aí que tá a parte legal: a gente pode estar sozinha ou ter uma de nós
seguindo cada passo.
ㅡ É no risco!
ㅡ Se você tirar a máscara dos olhos e tiver uma de nós ali, vai ter que
descer pelo VÃO do elevador!
ㅡ VÃO!
118
A pequena deu pra trás. A de 10, que conhecia cada metro quadrado
daquele prédio, foi na frente. Até que foi fácil. Chegou lá embaixo com
o coração pulando mais do que ela.
A mais velha foi largada no 10º andar, antes das 15 horas. O dia já
estava cinza e nada da irmã chegar ao térreo. Estava ficando tarde e frio.
A mãe ia ficar uma fera com elas. Mas, não. Quando a mãe voltou para
casa, as duas choravam.
ㅡ Até que enfim! Achei que vocês tinham se perdido naquele labirinto.
ㅡ Eu sabia. Mas a mãe vai ficar louca quando ver você aqui.
ㅡ Relaxa, maninha.
119
ㅡ Sério. Todo mundo acha que você caiu. Tem até polícia te
procurando no elevador. Sabia que aquele buraco é bem fundo?
ㅡ Rsrsrsrsrs...
Sobre a autora:
VILMA MARTINS SCHIANTE fez
Propaganda, Letras e Jornalismo na
USP. Trabalha como redatora há mais
de 35 anos e tem contos, crônicas e
poemas em várias coletâneas. Em 2023,
foi classificada no Prêmio Carolina
Maria de Jesus e, na FLIP, lançou pela
Opera “Conto em uma linha”, seu
primeiro livro com 100 microcontos.
Com esse estilo, venceu o concurso da
Triumphus. “MAtA”, o segundo livro,
chega na FLIP 2024 pela Caravana.
Participa do Coletivo Escreviventes e
do Mulherio de Letras de SP. Está nas
edições Útero, Maçã, Asas, Viagem,
Noite e Livro de Contos de Samsara.
IG: https://www.instagram.com/vilmaschiante/
https://www.instagram.com/contocomvilma/
120
O que se esconde
na luz
António C. Guerreiro
Ansiosa, faltam-me palavras. O que penso e sinto não se alinham.
Estranho. Há dias apercebi-me, sentir com o corpo e ter emoções são
coisas diferentes. Uma surpresa. A sério? Estou espantada.
121
Antes estava muito por casa, uma vez ou outra saía. Jantávamos e
fazíamos serão. Começou a acontecer cada vez menos. O César
combinava encontros, visitas, idas aqui e ali fosse com quem fosse.
Ficaram mais e mais pesarosos, magoados.
Aquela estúpida manhã bem cedo. Um sábado. Pedi aos pais para nos
sentarmos na sala. Sem perceberem, acederam. Dei-lhes as mãos. «É o
momento certo de viver de outro jeito. Eu e o César andamos a ver casas para uma
vida juntos.» Surpresos, entreolharam-se em silêncio. O pai disse-me
então. «É cedo, esse namoro não amadureceu. É preciso paciência. Não basta viver
no mesmo tecto e ter toda a intimidade que lhes apeteça para haver um casamento,
um para durar. Estás a fugir à dificuldade em te relacionares connosco desde que
começaste em correrias. Fugir, seja por que razão for, não é solução, é aumentar o
problema, ou mesmo criar um novo.» A mãe bem concordou, sem saber o que
poderia dizer mais. Emocionou-se, a chorar, acariciando a minha face,
puxou-me para si. Deitei a sua cabeça sobre o peito, afagando-a com o
meu queixo. Ficámos em silêncio.
122
nem o César jamais mencionara a palavra. «Depois se verá…» O meu pai
não é parvo. «Isso é vago. Um passo destes exige clareza do que esperam um do
outro, direcção. Um projecto de vida reflectido. Considerar todos os aspectos. Iludes-te!
Ao César falta maturidade. Essa crença no dinheiro e bens — não será isso que vos
manterá juntos. São um meio, não um fim, senão atrapalham, não ajudam.»
Engasgou-se, afligido. «Ceder, imitar colegas ou amigos. Que tolice! Fazer o que
outros fazem sem pensar — comer, dormir ou outra coisa, escola, faculdade, curso
disto, daquilo, casar-se, juntar-se, filhos — é uma forma desastrosa de viver. É
importante concretizar de forma cônscia, não por mimetismo. “Porque eles, elas
fazem, eu também farei o mesmo!” — não é um bom modo de vida, Mariana. Não
é…» Suas palavras soaram-me cada vez mais distantes até se tornarem
num sussurro ao longe. Não quis ouvir. Abracei um e outro, depois os
dois ao mesmo tempo. «Vou preparar as coisas no meu quarto.» Saí da sala a
correr.
César não voltou. Tentei e tentei. Não falámos mais. Passou um mês.
Ele enviou uma mensagem hoje. Uma mensagem!? «O aluguer está pago
por doze meses. Depois tens de ver…» Estupor.
Falta-me horizonte, não sei o quê… nada parece uma solução. Lidar
com isto sem fazer nada para sair deixa-me ainda mais infeliz, tensa e
tensa. É-me difícil pensar e não pensar não é solução nenhuma. Ficar
neste estado é o que quero e não quero… não sei…
123
Desejo puxar para mim o azul acima, navegar nele, descobrir o que se
esconde na sua luz, sair deste labirinto emaranhado do que penso e
penso. De rompante… vejo pelas minhas mãos: a textura aveludada das
pétalas, o sedoso das folhas, o piloso dos pelos, o macio da pele.
Descalço-me. O toque liso, granuloso do solo — «da terra que nos
alimenta e vivifica» como o pai diz. Labirinto?! Uma metáfora aos seus
olhos: impele à procura, novo passo, outra maneira de resolver.
Reagir… mover-me numa direcção… mas mover-me…!
Sobre o autor:
ANTÓNIO C. GUERREIRO nasceu em
Lisboa, Portugal, e escreve prosa poética e
poesia desde 1997. As influências e referências
vêm de Camões, Almeida Garret, Antero de
Quental e Fernando Pessoa. Pelo caminho,
também William Blake, Emily Dickinson, Cecília
Meireles, Herman Hesse e Rabindranath Tagore.
Em 2021, decidiu aprender como escrever
histórias em prosa. Faz parte de um Clube de
Escritores onde tem publicado pequenos
microcontos. Tem alguma poesia publicada e a
publicar brevemente. Tem contos publicados na
Samsara 11, 12 , 13 e 14, e outro numa coletânea
de contos. Tem também em andamento a
escrita de três novelas. Para chegar à presente
versão deste conto, o autor agradece a boa
colaboração das leitoras beta, Ana Paula
Campos e Teresa Dangerfield.
IG: https://www.instagram.com/silvaantonioguerreiro/
124
Olhar o Céu
Maribel Vazquez
Ofereceram mapas na entrada. Apressado, peguei um em língua
desconhecida. Não sei se grego, turco ou japonês. Disseram que fui
poliglota, que decifrava signos e símbolos. Não lembro desse tempo. O
mapa que tenho nas mãos não me serve. Só leio o que estiver escrito no
meu idioma.
Posso parar, sentar uns minutos, mas a água é salgada e está subindo. Se
adormeço, morro afogado. Os peixes, cansados como eu, nadam lentos,
em fileira indiana. Em um matadouro os animais são alinhados em fila.
O abate exige organização.
125
Lembro do Minotauro, se tivesse comigo um fio, tiraria a prova. Estou
andando em círculos. A passagem se alarga, consigo ver algumas
árvores. A água não para de subir. Os animais de terra escapam subindo
nas árvores. Eu não subo em árvores. Sou do chão. Pés sentindo o solo
e me equilibrando entre pedras. Gosto da terra firme, da previsão do
tempo, do dinheiro guardado no banco.
Vou correr, assim distraio minhas ideias, não quero pensar em morte,
nem em fome, nem em medo.
126
Os pés doem. Deveria ter vindo de tênis, mas resolvi, na última hora,
estrear o sapato. Logo hoje. Queria estar elegante em terras novas.
Maldita ideia de querer ficar bonito para passear. Quando vou pensar no
conforto? Mas tem a vaidade, ela se agarra nos pensamentos e eu
fraquejo. Quero ser o que não sou.
Os passos estão chegando mais perto. Melhor eu voltar a correr. Não sei
se são a ajuda que peço ou os inimigos que fiz. Busco placas e estradas
que me tirem daqui. Os passos estão muito próximos, meus pés
sangram e o coração a qualquer momento vai sair pela boca. Respiro
fundo, não quero desanimar. Quando me desespero, perco o controle.
Do alto vejo o portão de saída. De longe tudo fica mais claro. Olho para
os lados, são muitos voando comigo. Eles sabiam o segredo. Eu que
nunca tinha olhado para o céu.
127
Sobre a autora:
MARIBEL VAZQUEZ Paulistana,
psicóloga, leitora. Encontrou na escrita o
melhor lugar. Em 2023, publicou dois
livros infantis: “Abelardo, estropiado” pela
Ed. Caravana e “Refugiadas - Escapando
de um céu em perigo”, pela Editora
Urutau. Colabora no Portal do Escritor
Brasileiro e na revista Subtextos. Integrante
do Coletivo Escreviventes. Premiada no 4o
Prêmio Escriba de Crônicas 2023.
Selecionada para a Antologia do Concurso
Literário da 4°edição da Flipira 2023. Seu
conto “Zona abissal” foi selecionado no
Prêmio de Literatura da UNIFOR 2023.
IG: https://www.instagram.com/tangerinacontos/
128
Submissão
Alexandra Ferreira
Acordo cedo, ainda sonolenta e dirijo-me à varanda para ver a cidade a
desacordar. Observo as ruas quase desertas e desfruto desta quietude.
Tomo um duche, visto uns jeans e uma t-shirt azul. Deixo o cabelo
solto, maquilho-me com discrição e sinto-me aprontada. Volto a
espreitar o exterior — transeuntes caminham apressados quebrando o
silêncio duma rua já desperta.
129
Sinto-me desconcertada com a imagem desta mulher que deambula
como um fantasma. Tenho necessidade de questionar a sua desventura e
ajudar. Oscilo, não sei como abordá-la. Decido arriscar, levanto-me e
alcanço-a. Quando se apercebe da minha proximidade estremece, mas
para minha surpresa, não se afasta.
Reparo nos seus olhos negros, vazios, vejo olheiras profundas num
rosto pálido, cujas rugas revelam maturidade. Interpelo-a: bom dia,
posso ajudá-la?
130
— A minha vida é um labirinto. A entrada que escolhi era incerta.
Percorri vários caminhos. Estou desorientada, não consigo encontrar a
saída, todas se afiguram dificultosas em transpor...
— Está a gostar?
— Não sei se vou querer ler este... Deixei de sentir prazer há algum
tempo… A dor suplanta o prazer. Sou mulher e tenho de viver com
essa consciência. Tenho de respeitar o meu marido, satisfazê-lo e estar
grata pela vida que ele me proporciona.
131
— Não compreende, ele cuida de mim. Nunca me bateu. Apenas impõe
dedicação…
Sobre a autora:
ALEXANDRA FERREIRA nasceu em
Viseu em 1970. É Engenheira e Mestre
em Engenharia Rodoviária. Tem um filho
e vive no Porto desde 1999. Participa
ativamente em Seminários e Congressos
Nacionais e Internacionais, e é coautora
de artigos científicos e relatórios técnicos.
Tem paixão pela escrita. Em 2019,
publicou o romance “Sombras com
Rosto”; em 2023, o livro de contos “Um
Verão Sem Ti” e participou em antologias
- “Contos de Natal”, “Cartas de Amor,
Saudade, Liberdade”. Integra os Clubes
Escreviventes e Transatlânticos e o grupo
de contistas Contos de Samsarra. Tem
textos publicados em várias revistas.
IG: https://www.instagram.com/alexandraferreira288/
132
Eu, o minotauro
Rafael Duarte Oliveira Venancio
Quem me vê, neste labirinto, mal sabe quem eu sou…
Sou feio, sou triste, sou inglório. Lembro disso toda vez que alguém
entra no meu labirinto. Tal como agora…
“Muuuuu…”
“Argh!”
133
Eu, o Minotauro apenas. Eu, Minotauro? Na verdade, eu sou Astério.
Eu sou o sucessor do reino de Creta. Do Rei Minos, eu sou o
primogênito. No entanto, nasci assim. Meio touro, meio humano.
Minha mãe até queria me desejar bem, mas todos me viam como algo
feio, algo triste para tal nobre família, algo inglório para o trono de
Minos. Aos poucos, ao crescer, minha mente foi se tornando dividida.
“Por Zeus, por Zeus… O que nós fizemos para estar aqui?”
“Deve ter uma saída. Não precisamos cruzar o centro onde o Minotauro
vive.”
Meu pai, após terminar o labirinto, se tornou um rei cruel. Por causa de
um acidente trágico com meu irmão Androgeu, demandou dívida de
sangue com os Atenienses. Tristeza, caos. Sete jovens atenienses a cada
sete anos deveriam ficar por sete dias dentro do labirinto. E não me
encontrar. Se encontrassem, o destino era certo. A morte pela força de
um touro movido pela torpeza humana.
Escuto sussurros.
134
“Tome este novelo. Após você matar a besta, você retornará para os
meus braços.”
Acredito que ela tem um plano. Uma esperança. Será que é a minha
esperança?
“Aí voltarei com você para Atenas para ser sua rainha.”
Acredito que sim. Ouvir a voz da minha irmã acalmou a minha mente.
“Com esta espada, liberto Atenas de sua dívida injusta com Creta.”
135
Sobre o autor:
RAFAEL VENANCIO é escritor,
psicanalista, astrólogo e professor.
Possui doutorado e pós-doutorado na
área de Comunicação e Artes pela
Universidade de São Paulo, bem como
especializações e formações
específicas no campo da Psicanálise,
Astrologia, Cultura e Religião Védicas.
IG: https://www.instagram.com/rafaeldovenancio/
136
Último Labirinto
Mafalda Carmona
Na fila da loja do chaveiro, Cármen sentia a boca seca, a língua pesada
dentro da cavidade onde deveria estar confortável, e as mãos tremiam
dentro dos bolsos da gabardine. A mão direita segurava a chave que
subtraíra ao marido naquela manhã, quando ele regressara de mais uma
viagem.
137
Mas tinha que ser rápida. Na mala, o medicamento do marido, o álibi
para a saída autorizada da moradia, a ida à farmácia.
E o silêncio que se seguira, quase uma bênção quando a porta, por fim,
se fechou com um barulho seco seguido de dois estalidos metálicos.
Deixou-se estar. Não fazia sentido esperar por uma mudança. Mas desta
vez imaginou-se a sair dali, delírios talvez, mas era só o que tinha.
138
Com total amnésia, diria, com as mãos junto ao peito como se estivesse
a rezar. “Cármen, outra vez fechada na cozinha, mas qual é o teu problema? Que
raio se passa contigo? Como queres que trabalhe em paz e fique descansado?”
Paternalista acrescentaria as mesmas frases de sempre: “Quero um bom
jantar, estou faminto.” Remataria ainda, antes de subir as escadas: “Não
te esqueças de pôr vinho na mesa, vamos comemorar.”
139
Sobre a autora:
MAFALDA CARMONA, arquitecta de
espaços, escreve sobre a vida e
memórias na poesia, inspirada pelo sítio
onde vive, na Cotovia, Sesimbra, perto
da Serra da Arrábida, Portugal. Desde
2023, as suas reflexões têm lugar no blog
"Cotovia e Companhia" e no Instagram
@mafalda.carmona. As suas poesias
habitam Colectâneas e Antologias,
marcam presença no Recanto das Letras,
na revista "Ofélia" e no projeto
"Fotografar Palavras". A poesia é sua
paixão, e nela encontra pontes para a
comunicação com o Outro e a alegria no
quotidiano. Tem como convicção de
que "Todos nascemos poetas, só é
preciso lembrá-lo. Saber é quase tudo.
Sentir é o Mundo."
IG: http://www.instagram.com/mafalda.carmona/
140
Feitiço
Diana Silva
As maldições já não estão na moda, agora o normal são possessões ou
trocas de identidade.
Há uns dias falei com uma dessas entidades, ela surgira de um fosso e
senti-me tentada a recebê-la, mas não o fiz. Ela levara-me para um beco
sem saída, a parede de tijolos e cimento, áspera na minha mão que
raspava. Pedi auxílio na minha mente, sem o corpo expressivo, o olhar
vítreo, o semblante pálido.
141
Agachei-me com as articulações geladas e dei com uma pedra que
encaixava perfeitamente na minha mão, atirei-a. Aguardei o que parecia
uma eternidade, nunca cheguei a escutar a pedra a bater. Seria possível
que aquele poço fosse um abismo?
Perguntou novamente, desta vez mais alto, mais forte, mais perto:
Não podia retorquir, não devia, ou será que me queriam fazer acreditar
em mentiras e desacreditar da minha própria imagem?
142
Prendi o olhar, a cor estava certa, o formato oval do rosto estava certo,
o nariz, os lábios, as mãos... Tudo ali estava certo.
Assenti e ela apontou para a boca do poço, o quão ingénua seria eu para
crer que aquela era a única escapatória possível?
Dei dois passos adiante, dei por mim a tocar na pedra empilhada, o breu
refastelava-se do pavor que emergia. Como podia sentir-me consumida
pelo inverno e aquela pedra ser tão quente?
143
Acordei suada e sem rumo, o meu sono não fora tranquilo.
Lavei o rosto, ansiava por algo fresco na pele. Onde teria ido parar
daquela vez?
Fechei a porta atrás de mim, pisei a gravilha, era o único som para além
da brisa noturna. Esquerda, esquerda, direita, sem saída.
144
Numa das entradas estava a minha imagem mais uma vez, parecia um
holograma.
Presa no delírio este tempo todo, ele acreditou que tinha acabado
comigo, o melhor seria fingir que tinha sido um acidente, afinal não iria
perecer dos maus-tratos, iria ser queimada viva.
145
Para azar dele, a sorte estava finalmente do meu lado, acabei por ser
encontrada a tempo. Iria sair daquele engodo, iria prevalecer e encontrar
a cura para o tempo que perdera por caminhos barrados.
Sobre a autora:
DIANA SILVA é natural de Lisboa,
autora de “Sonhar com as Estrelas”,
tem um pequeno negócio de cake
design e outro com cristais. Escrever é
um dos primeiros amores na sua vida,
assim como a leitura. Mãe de duas
meninas, espera um dia inspirá-las a
seguir os seus sonhos sem receios.
IG: https://www.instagram.com/dianasilvaautora/
146
Pensamento
Descuidado
Mara Vanessa Torres
Naquela hora morta, os corredores do hospital estavam vazios. Para ser
sincera, todos os segundos vividos na indefinição de um leito hospitalar
indicam horas mortas. Mas eu continuava ali, de pé, estoica, aguardando
o vaticínio dos médicos a respeito do estado de saúde de Orhan. Eles
precisariam abrir o peito e colocar um marcapasso? Haveria alguma
complicação? Apesar de muito jovem, Orhan suportaria o
procedimento? E como se daria o pós-operatório?
147
— Eu não confio em você, Mariana. Não acredito em uma palavra que
desliza da sua boca. Seu comportamento é ridículo! Você defende esse
homem com unhas e dentes... Um sujeito imoral desses! Vá lá, fique
com seu homem problemático!
Orhan disse tudo isso aos gritos. Era um homem bonito, alto, de
cabelos pretos longos e físico avantajado. Tinha uma capacidade mental
e lógica muito acima da normalidade. Inclusive, devo dizer, esse era seu
velocino de ouro e seu calvário. Seu poderoso cérebro fazia conexões
existentes e não-existentes, gerando uma paranoia intensa. Orhan tinha
uma necessidade de controle absurda, fazendo com que desejasse entrar
na mente das pessoas.
148
E lá estávamos nós de novo, falando do homem que sempre aparecia
em nossa mesa de jantar ou no meio da nossa cama. Sempre trazido pela
desconfiança eterna de Orhan.
149
Balancei a cabeça e me sentei na cadeira. O silêncio opressor do quarto
era terrível, dando asas para outro pensamento negligente: será que eu
realmente amei o Orhan?
“Não estou cantando esse lamento porque você está morta. Você não está morta,
Rüveyda; o cavalo foi baleado; eu estou morto.”
“Uma volta sem fim, onde o espírito vence a matéria, como queria
Leonardo da Vinci”, pensei. Pensamentos são ciclos sem fim,
atemporais. Eles podem dar vida à memória. Eles trazem os
mortos de volta.
150
Precisei fechar os portões do meu subterrâneo e subir, motivada, as
escadas em direção à superfície. Olhando para aquele momento no
hospital, com seus corredores enigmáticos, solitários e mortos, um
imenso labirinto agonizante, percebi que sou a minha própria
eternidade. Outro pensamento descuidado me fez entrever as flores do
jardim que eu mesma preciso cultivar:
Sobre a autora:
MARA VANESSA TORRES
escritora, jornalista e revisora. Autora
do livro “Átomos Desfeitos” (editora
Minimalismos), também conta com a
publicação de contos, novelas e
poemas nos mais diferentes formatos
e plataformas. Uma mente que
acredita em enigmas.
IG: https://www.instagram.com/maravanessatorres/
151
Escuro no
Fim do Túnel
Fernanda Germano
Às vezes, a gente só se encontra quando se perde, vovó me disse.
Ceci, faz todo o sentido do mundo… você já reparou que todos os movimentos que a
gente dá em direção à mudança vêm depois de uma decepção muito, muito grande?
Sem perda não existe avanço…
Ansiedade, Ceci…
Vó, a senhora não está entendendo… como pode eu perder tudo, ir pouco a pouco
deixando de ter o que eu tive e ainda assim ficar feliz com isso, pois “a mudança
virá”?
Ceci, é angustiante, eu sei. Mas as coisas boas levam tempo… notícia ruim é que
chega rápido.
152
Vovó se conformava com a situação que ela via acontecer há tempos.
153
A música ficava mais intensa à medida que subiam ao palco artistas
renomados do samba brasileiro contemporâneo. Comecei a notar
palpitações, dores no tórax… eu estava… me perdendo? Era o prenúncio:
ele. Vejo uma mensagem:
E se eu… me encontrar?
154
Desisti de apertar a campainha. Voltei nos passos que havia dado. A
mesma avenida, agora mais clara. Placas de videntes, anúncios de pastéis
e pipoca, guardas de estacionamento. Tudo tão claro, tudo tão óbvio. A
música se aproximava, eu tinha vontade de dançar. Com ele, mamãe, eu
nunca podia dançar… Sentei-me no mesmo lugar. O casal ainda se
enlaçava. A música, agora mais intensa, mais feliz. A vida não é uma
orquestra, Ceci… organizada, perfeita. Não é triste o tempo todo também… é bem
possível fazer uma melodia feliz.
Sobre a autora:
FERNANDA GERMANO é leitora e
escritora. Publicou os romances “Cegueiras
na Calçada” (Editora Voz de Mulher, 2022)
e “Pelas Frestas” (Editora Penalux, 2023) e
o livro de contos “Pequena Terra Batida”
(Editora Patuá, 2023). Leitora desde a
infância, descobriu a escrita como forma de
contato com a realidade a partir de projetos
sociais em regiões periféricas da cidade de
Campinas, no interior de São Paulo, onde
reside atualmente. É quase-médica pela
Unicamp, atua em atendimentos a
populações residentes em territórios de alta
vulnerabilidade social e faz das visões
marginais substrato para a escrita e da
escrita, a vida.
IG: https://www.instagram.com/fernandagermanno/
155
Caleidoscópio
Cecília Rogers
Pego o caderno de receitas. Olho as páginas manchadas pelo tempo. A
sua caligrafia caprichada. Seu esforço para manter a mão firme, para não
deixar transbordar o que estava dentro.
Eu guardava você assim, inteira comigo. Era tão diferente dos outros
dias em que a tristeza a chamava para a cama. Em que eu deitava junto
para que me sentisse ali.
156
O bolo tinha partes de baunilha e de chocolate. Elas formavam
pequenas voltas, à medida que você ia deixando cair a massa. Eu
pensava nas suas nuances e mistérios. Alegre, triste. Triste, alegre. Tudo
muito bem batido. Nós e o bolo. Nossas alegrias e lágrimas prontas para
serem assadas no forno.
Você mexia a massa com leveza. Estava longe do escuro daquele mundo
só seu. Quando o bolo começava a cheirar, era a hora tão esperada. Eu
ajeitava a mesa, você passava o café. As gotas pingando lentas pelo
coador de pano. Era o nosso tempo bom escoando.
Sobre a autora:
CECÍLIA ROGERS, de Niterói no RJ,
onde reside, é filha de baiana com inglês.
Acredita na força da literatura como via de
transformação. Engenheira e Mestra em Lit.
port. e africana – UFF, tem 4 livros de poesia
publicados, sendo os 2 últimos, “Contas do
Rosário” (2021, Penalux) e “Submersa”
(2022, e-book). Tem ainda 2 contos no
insólito (22/23, e-book) e está em antologias
e revistas diversas. Premiada no Concurso
Carvalho Jr. e finalista no Off Flip (2022).
Em 2023, publicou “Agualuz” (Mondru), seu
primeiro romance, um drama psicológico. A
ancestralidade e as questões que envolvem a
mulher percorrem sua escrita.
IG: https://www.instagram.com/ceciliarogers.poeta/
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Saída!
Leide Freitas
Labirinto verde-escuro, pura cor, devaneios e poesia. Respira devagar,
pulsa latente, tem coração, vida e brilho próprio como as estrelas. É
autossuficiente. Corpo emaranhado, proteção de invasores. Cântico dos
grilos e cigarras, vozes animais ressoam no silêncio noturno. Partículas
invisíveis e descontroladas se repelem e se chocam no difícil percurso. A
ordem é perder-se nos múltiplos desvios e caminhos.
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Para essa jornada é preciso bússola, bornal e cantil. É preciso domar os
medos e conquistar a prudência dos fortes. Continua a caminhada e
atento observa a vida pulsando nas minhas artérias verdejantes. Árvores
ancestrais ainda guardam antigos ninhos e águias peregrinas fazem ali
suas pousadas. Veredas estreitas sempre vigiadas por lobos selvagens.
Anoitece e o breu espesso, quase palpável, se entranha nesse espaço e
tempo.
159
Sobre a autora:
LEIDE FREITAS é cearense de
Capistrano-CE. Filha de Ezequiel Lima
Freitas e Francisca Rodrigues de Freitas.
Formada em Pedagogia-Universidade
Federal do Ceará. Especializada em Gestão
Escolar, Psicopedagogia e Educação
Especial Inclusiva. Autora das obras
“Reflexões Íntimas” (Editora Caravana),
“A casa da colina e o mistério dos jovens
desaparecidos” ( Disponível Amazon), “O
Tempo é Mulher” ( Disponível Amazon)
“Em tempos de pandemia” (Disponível
Amazon), “Zines: Semi-eróticos”;
“Renasço de todos os naufrágios” e “O
Diário de Sabrina” (SEDUC-CE).
IG: https://www.instagram.com/leidefreitas.escritora/
160
Agradecemos sua leitura!