V Con ferência Brasileira de Mídia Cidadã
UNICENTRO, Guarapuava /PR – 8 a 10 de ou tubro de 2009
Cidadania, um mito no jornalismo
Marcel J. CHEIDA1
PUC-Campinas
ISSN-2175-6554
Referência:
CHEIDA, Marcel J. Cidadania, um mito no
jornalismo. In: Mídia Cidadã 2009 – V
Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, 2009.
Guarapuava. Anais. Guarapuava, 2009. p. 266292.
RESUMO
A deliberada distorção de conceitos e termos relativos ao universo das relações de poder
para tentar justificar modelos ideológicos é prática mais que comum no jornalismo. Este
artigo relata a opção editorial do jornal Correio Popular, Campinas, que, ao criar uma
secção sobre projetos de filantropia e assistência social, incorporou o termo cidadania
para qualificá-los e exaltá-los como iniciativas voluntárias da sociedade em detrimento
das ações políticas e governamentais. Para tanto, conforme N. Bobbio, o jornal adota o
modelo liberal de divórcio entre o universo estatal, portanto político, do universo social,
onde, para o projeto editorial, se encontra a cidadania. Esta deixa de ser uma categoria
política para se transformar num mito social apenas, desvinculado das ações em torno
da construção do Estado. Para esse trabalho foi adotado, também, o conceito de mito
semiológico de R. Barthes, que aponta o manuseio de termos para dar-lhes novos
significados, distanciado-os de seus significados tradicionais. É o caso da palavra e do
conceito de cidadania.
Palavras-chave: Jornalismo 1; Jornalismo Político 2; Ética Jornalística 3; Política 4;
Semiologia 5.
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Marcel J. Cheida é jornalista e professor de Ética e Legislação da Imprensa na Faculdade de Jornalismo da PucCampinas.
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Introdução
Ao postular a investigação sociológica da imprensa e suas relações de poder durante o
Primeiro Congresso da Associação Alemã de Sociologia, em Frankfurt, 1910, Max
Weber (2005, p. 20) ressaltou a importância política e econômica dos jornais na
sociedade capitalista e a necessidade de o mundo acadêmico se debruçar com maior
densidade crítica sobre eles. Em particular, Weber propõe indagações pertinentes para a
busca de respostas sobre como a imprensa influencia e conforma as idéias do homem
moderno. Indagações que vão orientar vários estudos sobre os jornais nas décadas
seguintes. Isso porque, segundo ele,
A imprensa introduz deslocamentos poderosos nos hábitos de leitura e
com isso provoca poderosas modificações na conformação, no modo e
na maneira como o homem capta e interpreta o mundo exterior.
(WEBER, p. 20)
Weber, um sociólogo já renomado e dos mais influentes no século XX, admitia o poder
exercido pela imprensa na sociedade contemporânea, e destacava os campos de
interesses e conflitos entre os jornais, jornalistas e os organismos ou instituições com os
quais aqueles se relacionam para manter o fluxo de informação para públicos e
indivíduos. A influência da imprensa sobre os homens e sobre a sociedade era
preocupação intelectual de Weber, para quem
A constante mudança e o fato de se dar conta das mudanças massivas
da opinião pública, de todas as possibilidades universais e
inesgotáveis dos pontos de vista e dos interesses, pesa de forma
impressionante sobre o caráter específico do homem moderno. (idem,
p. 20)
Mais tarde, outro pensador alemão, Jüergen Habermas (1984, p. 213) desenvolve amplo
estudo sobre a formação do espaço público como conquista da burguesia, a qual
constrói a mídia jornalística como ferramenta de manutenção e transformação do
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Estado. A imprensa, segundo Habermasi, não pode ser dissociada da evolução da esfera
pública, a qual também não se distingue mais da esfera privada no mundo
contemporâneo. Na era moderna, os jornais se confundiam, porém, com o campo
político-partidário. Tanto Weber como Habermas observa que na modernidade a
imprensa servia de porta-voz de correntes político-partidárias e com elas se misturavam.
Era o jornalismo romântico, idealista. Mas o século XIX vai abrigar uma mudança do
modelo de produção noticiosa a partir dos Estados Unidos, onde a cultura industrial e
urbana recebe de braços abertos o paradigma da objetividade dos fatos. Weber
ressaltava que o francês se identificava com os jornais opinativos, uma tradição
européia, enquanto que nos Estados Unidos o público demandava informações, ou
apenas a exposição dos fatos (WEBER, p. 18). São dois modelos basilares de
jornalismo praticados ao longo do século XX, ainda. O de viés opinativo, encontrado
em vários países europeus e no leste socialista, onde a imprensa era controlada pelo
partido comunista, e o de viés informativo, que vai se disseminar pelo continente
Americano. Ao final do século XX, porém, a fusão de grandes corporações com a
aquisição de empresas jornalísticas provoca a ampliação do modelo americano, o qual
apregoa a distinção clara entre notícia e opinião, entre o relato factual e a expressão dos
juízos valorativos.
Nesse cenário de aceleradas mudanças, a influência dos conteúdos e das formas
editoriais dos jornais evidencia-se pela importância econômica e política numa
sociedade midiática ou da informação, reestruturada conforme os novos tempos. Entre
as profundas mudanças na estrutura social, a distinção entre o público e o privado sofre
abalos que pulverizam as fronteiras entre a intimidade individual e familiar e a
publicidade dos atos de interesse público. Se na modernidade o público e o privado se
definiam com claras delimitações morais, no século XX a onipresença da mídia
gradualmente absorve num processo hegemônico ambas as esferas. As conseqüências
podem começar a ser entendidas a partir da afirmação de Weber, sobre como a imprensa
é um poder de conformação das idéias numa dada sociedade.
A sociedade mercadológica coisifica idéias e pessoas e estas descobrem que podem usar
o próprio corpo e a imagem para a ascensão social e econômica. A mídia jornalística
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passa a se alimentar de reportagens e notícias sobre o mundo privado, doméstico e
íntimo das pessoas. Assim, relatam uma nova sociedade na qual a mercadoria é
caracterizada pela fugacidade; se as pessoas se transformam em mercadoria midiática,
também se expõe no efêmero do tempo da televisão ou na limitação das páginas dos
jornais e revistas. A lógica do mercado se estrutura na renovação permanente e cotidiana
das idéias e comportamentos, num ciclo acelerado de substituição dos bens de consumo
para manter a economia na dinâmica necessária para a circulação da moeda e do
enriquecimento ilimitado.
Os jornais se transformam ao longo do século XX e chegam ao seu final como
instituições que abandonaram o engajamento político-partidário para cumprir uma nova
função (MARCONDES Fº, 1993, p. 62):
O jornalismo da nova era está sintonizado com o novo papel das
comunicações e com a supressão dos fatos que marcavam o calor, o
entusiasmo, a determinação de nossos antepassados. Ele hoje não traz
mais o conflito, a polêmica, a discussão, o choque de idéias. Sua
função atual é harmonizar como a freqüência modulada de
consultórios, mas sob a linguagem da inovação.
O autor realça o “poder monopolista” da mídia, que hoje não expressa os conflitos como
fenômenos sociais e políticos. Estes foram substituídos pelo conflito ou pela competição
entre grifes, entre personagens fictícios do cinema e das telenovelas. O jornalismo não é
impermeável ao novo mundo, faz parte dele, é protagonista desse tempo, e, segundo
Marcondes Fº,
para sobreviver apela para a indústria imaginária da notícia. Criam-se
fatos, forjam-se notícias, estimulam-se polêmicas fictícias, constrói-se
o conflito “em laboratórios”. O estúdio de TV, a redação de jornal
deixam de ser meios de transmissão de fatos e tornam-se eles mesmos
os produtores de mundos. (idem, p. 63)
A dura crítica de Marcondes Fº abriga um ceticismo inconoclástico sobre a imprensa
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como organização mercadológica, consumista. Mesmo porque, se o autor está correto
em afirmar que os jornais compõem um sistema econômico muito mais do que uma
instituição engajada política e partidariamente, como antes, ele também admite que os
jornais mantêm uma sincronia com o mundo das tecnologias digitais, da virtualidade, do
imaginário sobre o real.
As mudanças aceleradas são agravadas com a introdução da tecnologia digital em rede
que condiciona a produção jornalística num ambiente de maior competitividade entre as
empresas editoras. A tecnologia informatizada acelera os processos de produção na
construção de um processo de comunicação midiático em tempo real. Esses fatores
contribuíram para um novo modelo de produção noticiosa:
.... a prática jornalística torna-se, neste novo momento, a da imprensa
minimalista. Os grandes assuntos são tratados como se se reduzissem
a questões subjetivas de caráter pessoal. A economia não é trabalhada
do ponto de vista de sua relação com o Estado, com a sociedade
maior, da perspectiva das tendências e rumos, enquanto organicidade
do sistema. As matérias desta editoria são hoje produzidas apenas com
vistas a darem informações aos leitores sobre investimentos ou
práticas de sobrevivência na selva econômica. Há um reducionismo
dos grandes temas a assuntos de natureza subjetiva, individual ou
particular. (ibidem, p. 195)
A visão de Marcondes Fº reafirma a crítica sobre a função alienante exercida pelo
manuseio das informações de interesse público reduzidas a um trato de abordagem
individual, subjetivo, distanciado da esfera política, pública no sentido mais lato. Assim,
os jornais condicionam os conteúdos pela demanda mercadológica focada nas
tendências de comportamento do público como agentes de consumo de grifes e de
informações minimalistas, de serviços imediatos, de auto-ajuda.
O problema político e semiológico
A crise por que passa o Estado contribui para elevar o nível de credibilidade e adesão
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aos jornais, que se tornam mais expressivos na medida em que dispõem de um aparato
técnico e estético de amplificação dos conteúdos de modo a provocar e estimular
sensações diversas no público leitor, ouvinte ou telespectador. Sob o impacto da
dramatização dos relatos e da expressão emocional dos conteúdos noticiosos, o
indivíduo participa do simulacro construído pelo poder simbólico dos jornais, agora
focados no comportamento e nas demandas pessoais. A política como ação pública é
substituída por relações comportamentais, individuais, as quais demandam informações
sobre qualidade de vida, sobre as relações familiares, amorosas, sobre como conquistar
e manter um emprego, como se relacionar com o chefe, como tratar do filho
adolescente, como prevenir doenças etc.
Os jornais alteram os conceitos que na modernidade pertenciam aos legítimos agentes
do poder político. Assim, o debate sobre a organização política gradualmente foi
substituído pela informação de serviços. O Estado, falido, não mais dá conta de
importantes tarefas e missões que foram delegadas a ele pela sociedade. A imprensa,
ainda campo do debate político, contribui para a mutação e o esvaziamento do sentido
da política e do Estado:
(O Estado) ..., naturalmente, sobrevive, agora não mais dentro do
espírito do Estado Moderno, nascido dos princípios iluministas, que
dá conta de todo um desenvolvimento social, apóia as ciências e
trabalha para o bem-estar humano, acreditando e apostando na
racionalidade técnica. Hoje, trata-se de um Estado destituído desta
amplitude de ação e de possibilidades e mais reduzido devido á
interferência mais radical da imprensa no seu agir cotidiano. (ibidem,
p. 116)
Desse modo, os jornais também substituem os agentes de governo num simulacro de
ação política em favor do público, do leitor, do indivíduo que se projeta no relato
exposto como parte de uma teia de relações nas quais ele se sente partícipe, mesmo que
de maneira passiva. O poder político é deslocado para o poder midiático, cujo capital
simbólico (BORDIEU, 1998, p. 09) é estrutura e estruturador do sistema midiático. Os
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jornais integram o sistema simbólico como produtores e operadores dos relatos
noticiosos. Conforme Bourdieu,
O poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a
estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e,
em particular, do mundo social) supõe aquilo a que Durkheim chama
de conformismo lógico, que dizer, “uma concepção homogênea do
tempo, do espaço, do número, da causa, que torna possível a
concordância entre as inteligências”. (...) Os símbolos são os
instrumentos por excelência da “integração social”: enquanto
instrumentos de conhecimento e de comunicação (cf. a análise
durkheimiana da festa), eles tornam possíveis o consensus acerca do
sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a
reprodução da ordem social: a integração “lógica” é a condição da
integração “moral”.
Os jornais se projetam como demiurgos pós-modernos, os quais manuseiam o texto,
palavras e significados (BARTHES, 1985, 131), dando-lhes novos sentidos ao sabor dos
interesses nem sempre clarificados, e sim mantidos sob uma névoa discursiva ou antidiscursiva. Segundo Barthes, o resultado dessa manipulação do verbo é a formulação de
mitos semiológicos, um sistema duplo de significações que induz as pessoas a
perceberem os referentes ou objetos significantes com outros sentidos. O mito se opõe
à ideologia, porque aquele é “produto colectivo e colectivamente apropriado”
(BOURDIEU, 1998, p. 10). A ideologia, como modelo polarizado entre capitalismo /
liberalismo e socialismo, perdeu sentido político e partidário após a derrocada Soviética,
não perdeu o significado de manutenção ou conquista do poder via propaganda ou
retórica. Como capital simbólico condicionador de relações de submissão ao poder
político ou econômico, a ideologia se expressa pela mídia, numa incessante reafirmação
de instrumento da conquista ou da manutenção de poder. Na periferia do poder do
Estado, por meio de seus agentes governamentais, o poder econômico se manifesta nas
organizações privadas que dominam e controlam o capital. Há uma permanente e
ansiosa manifestação de argumentos para legitimar a concentração de riqueza.
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O mito como sistema simbólico e instrumento de conhecimento e de comunicação
encontra em Barthes (1985, p 131) uma interpretação calcada em outro campo do
conhecimento, a semiologia. O mito é um sistema semiológico (idem, p. 133)
construído na e pela fala. O modelo barthesiano é aplicado neste trabalho para melhor
entendermos a estruturação dos termos cidadania / cidadão e ética no noticiário e nos
textos opinativos do jornal Correio Popular, um publicação da Rede Anhangüera de
Comunicação (RAC), sediada em Campinas.
Na hipótese de Barthes, a construção mítica se referencia na cadeia semiológica
secundária. Barthes toma Ferdinand de Saussureii como base para a revisão do conceito
mito:
Para Saussure, que trabalhou com um sistema semiológico
específico, mas metodologicamente exemplar – a língua – o
significado é o conceito, o significante é a imagem acústica (de
ordem psíquica), e a relação entre o conceito e a imagem é o
signo (a palavra, por exemplo), entidade concreta. (ibidem, p.
135)
Signo, portanto, na concepção clássica, é a tridimensionalidade entre o 1) significante, o
2) significado e o 3) referente. O primeiro encontra-se no âmbito da língua, é a palavra
ou símbolos que expressem sentidos. O segundo encontra-se no âmbito da abstração, da
memória ou do imaginário. E o terceiro é o objeto percebido externamente como coisa
concreta, mas constituído na mente do indivíduo como significado.
O modelo clássico de Saussure não contempla, porém, aspectos psíquicos de recepção e
interpretação signíca. Nem mesmo atinge a preocupação sobre como o mito se comporta
como representação.
Quer se trate de grafia literal ou de grafia pictural, o mito apenas
considera uma totalidade de signos, um signo global, o termo final de
uma primeira cadeia semiológica. (op. cit. p. 136)
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O mito, portanto, age de modo a deslocar o “sistema forma das primeiras
significações” , isto é, tomado o termo global, primário, cidadania , a fala mítica a
transporta para um outro nível lingüístico, numa meta-linguagem. Barthes indicado o
esquema no qual essa transição ocorre:
1. Significante
3. signo
2. Significado
II. SIGNIFICADO
I. SIGNIFICANTE
III. SIGNO
No mito barthesiano, portanto, há dois sistemas semiológicos, no qual um se desloca em
relação ao outro. O mito é classificado como metalinguagem, “porque é uma segunda
língua, na qual se fala da primeira.”
Ao aplicarmos o modelo à leitura crítica do noticiário, o termo cidadania / cidadão foi
eleito como objeto de análise para validar a hipótese de como os relatos jornalísticos
constituem mitos semiológicos, num deslocamento do sentido original e formal do
termo. Ao redigir, o jornalista esvazia, esgota o sentido originário do termo para na
forma preenchê-la com novo conteúdo, num processo manipulador de conteúdos.
Diferente do conceito de significante de Saussure, Barthes afirma que no mito “o
significante ... apresenta-se de maneira ambígua: é simultaneamente sentido e forma,
pleno de um lado, vazio de outro” (op. cit. p. 139). A repetição de termos num cenário
de transformações profundas na perspectiva da individualidade competitiva provoca reconstruções semânticas, num processo de reafirmação de poder simbólico expresso pelo
veículo institucionalizado numa determinada comunidade.
O problema econômico e as ONGs
Se o termo cidadania / cidadão (s) comporta toda uma significação primária, como
sujeito pertencente a uma sociedade politicamente organizada na forma de Estado, o
advento da globalização e do neoliberalismo como modelo econômico transpôs o
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conceito para designar ações que mesclam atividades dirigidas à filantropia, à
solidariedade entre indivíduos por força das carências sociais detectadas nas mensagens
midiáticas. É o ato da despolitização do sentido originário do termo, mesmo com suas
diversas ressignificações ao longo da história. O sujeito / indivíduo global não é apenas
vinculado a um espaço territorial governado, autônomo e pretensamente soberano, mas
é aquele que se comunica e se interliga com organizações transnacionais, numa
realidade em que o Estado sofre de profundo descrédito ao não prover o cidadão como
fim último que o justifica como organização política sustentada no princípio do Direito.
Esse Estado é submetido a organismos internacionaisiii para direcionar as prioridades
econômicas, que determinam políticas diversas e condicionam os processos
governamentais. O modelo de Estado brasileiro durante décadas submeteu-se ao
controle de organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI),
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros credoresiv.
Apesar de vários autores proporem a redução do Estado como organismo de pacificação
dos conflitos, o Brasil enfrenta o cenário das transformações globais com um Estado
portentoso, sustentado por mais de 37% do PIB nacionalv, que vem na contramão das
tendências mundiais desde a década de 1990. Mesmo no governo do presidente
Fernando Henrique Cardosovi, a elevação da carga tributária ocorreu em contraponto à
política de desestatização, modulada pelo discurso da livre-empresa e de estímulo à
criação
das
organizações não-governamentais
como
alternativa
inevitável
à
incompetência governamental em atender as crescentes demandas sociais num País cada
vez mais urbano e escolarizado.
Ocorre, portanto, uma contradição entre o discurso pró-sociedade civil organizada como
instrumento de intervenção no universo político e o modelo de Estado provedor das
classes menos favorecidas por programasvii sociais mantidos pelo governo, como Bolsa
Família, Fome Zero, Auxílio Gás, ProUni, entre outros.
O cenário político-econômico reafirma o papel predominante do Estado e das ações de
governo na mediação dos conflitos sociais e na formulação de projetos de amparo à
maioria da população de baixo poder aquisitivo. Segundo Naves (2003, p. 563),
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Em nosso país, a promoção da cidadania depende do
poder do Estado de implementar políticas públicas,
assegurando a todos os brasileiros o exercício de seus
direitos. Compreender o sentido da cidadania significa,
assim, entender como se relaciona o indivíduo com o
setor público.
A afirmação sublinha, sem dúvida, o papel e o significado da cidadania para o país
como o Brasil, no qual a recente democratização ainda não permitiu a expansão
necessária dos serviços do Estado para incluir grande parcela da população na esfera
dos direitos básicos previstos na Constituição. Apesar disso, a inevitabilidade do
processo de globalização do campo das trocas simbólicas e culturais projeta um Brasil
interconectado e interligado aos eventos mundiais (idem, p. 563):
A compreensão do ser cidadão no Brasil de hoje só adquire
sentido pleno quando confrontada às transformações sofridas, nas
últimas décadas, pela própria ordem mundial. Dos estertores da
colonização européia na África e na Ásia à consagração da hegemonia
norte-americana, os últimos vinte anos se caracterizaram por um duplo
movimento: a crise do poder organizado como ‘Estado-nação’ e, por
outro lado, a valorização, de origem iluminista, de direitos comuns a
todos os seres humanos.
O Brasil apresenta um quadro histórico de contínua presença, a partir do século XIX,
das ações e organizações filantrópicas. Herança do direito Romano e da Igreja Católica,
a filantropia tomou corpo social no Brasil por meio das Santas Casas de Misericórdia, p.
ex., as quais serviram e ainda servem de modelo para a organização de outras
sociedades voltadas a amealhar recursos para destinar parte deles às camadas mais
pobres da população. E isso sem a interferência ou ajuda do Estado, pois boa parcela
daqueles que se dedicam a essas organizações o fazem de modo voluntário, com
recursos próprios. Mas, a partir da década de 1960, os movimentos sociais com nova
modelagem começam a surgir no País. Naves (ibidem, p. 568) observa:
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Quanto aos movimentos sociais, para compreendermos suas
origens no Brasil é preciso voltarmos (sic) à década de 1960. Com o
golpe militar de 1964, a repressão sistemática de todas as formas de
contestação política e organização sindical fez com que a vida
associativa se deslocasse para as comunidades e seus interesses
localizados. Por não ser encarada como desafio para o regime, o
trabalho comunitário escapou aos controles e assim conseguiu
expandir-se.
Mas é a partir do final da década de 1970 que destacadas associações e entidades sociais
começam a romper com o assistencialismo tradicional expresso na filantropia, segundo
Naves (op. cit. p 569). A década de 1980 é tempo do estertor dos regimes e da utopia
socialista, evento político determinante para o surgimento das associações voluntárias
que adotam o discurso em favor da universalização dos direitos humanos. As várias
organizações da sociedade civil voltadas a intervir nas relações e processos sócioeconômicos de modo a ampliar o número de indivíduos com melhor qualidade de vida
compõem o que se denomina de terceiro setor. De acordo com Naves, terceiro setor é
O conjunto de atividades espontâneas, não governamentais e não
lucrativas, de interesse público, realizadas em benefício geral da
sociedade e que se desenvolve independentemente dos demais setores
(Estado e mercado), embora deles possa, ou deva, receber colaboração
(op. cit. p. 574).
É importante destacar que o terceiro setor é composto por organizações com estruturas e
fins diferentes. Ainda na conceituação de Naves,
... são basicamente três as fontes originárias do terceiro setor:
filantropia e os movimentos sociais, aos quais somaram-se as ONGs.
O conceito é necessário para melhor entender a forma como os jornais tratam ONGs e a
filantropia, com se fossem um mesmo modelo de atividade social voltada à cidadania,
ou como muitos afirmam, à “inclusão social”. As ONGs surgem como substitutas dos
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partidos políticos e das instituições governamentais que não mais conseguiam atender às
antigas e novas demandas que surgem, entre elas a defesa ambiental. Essas organizações
são geradas, portanto, num ambiente político, mas a sigla passa gradualmente a ser
adotada por entidades tradicionais que atuavam e atuam no campo da filantropia e do
assistencialismo.
A relação dessas organizações com o Estado nem sempre é marcada pela demanda
política, de fato centrada na construção da cidadania universal. Muitas entidades
filantrópicas agem dependentes de verbas oficiais, em muitos casos, mas distantes de
projetos que compreendam o debate político ou político-partidário. Apesar disso,
cultivam o discurso da inclusão social e cidadã. Deve-se ressaltar, porém, a diferença
entre ONGs e entidades filantropias. Enquanto as ONGs surgem, de fato, para substituir
ações do Estado em diversas áreas, a filantropia permanece focada num modelo de
iniciativa individualista, personalista, calcada em doutrinas religiosas, invariavelmente
(FERNANDES in NAVES, 2003, p. 570):
As
associações
promovem
a
sociabilidade
num
contexto
individualista. Em suas atividades, os fins coletivos e os bens
coletivos são percebidos como interesse individual dos que estão
envolvidos. A vida pública insere-se nas iniciativas privadas. A
cidadania é personalizada.
A ação individual e personalizada contrapõe-se ao conceito moderno de cidadania,
como fenômeno político, público e social. As ações voluntárias de indivíduos movidos
por tendências sociais e comportamentais dirigem-se a objetivos ambientais ou
filantrópicos, distantes do contexto político, no qual as relações de poder se manifestam.
Ao delimitar a ação filantrópica na expressão ação social ou de cidadania, manipula-se a
terminologia que passa a ter um caráter mitológico barthesiano. O termo cidadania é
esvaziado para ser reconstruído semanticamente pela repetição e pelo contexto
discursivo cujo tema é a solidariedade social, a filantropia, o assistencialismo.
Ressalto, porém, que este trabalho não tem objetivo de julgar ou opinar sobre as ações e
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sobre as organizações filantropias ou assistencialistas, muitas delas com rico histórico
de contribuição social.
As ações voluntárias, individualistas, focadas no fim comportamental para que cada um
possa se projetar e se identificar com o coletivo e, assim, ser aceito socialmente,
desprezam o ato político, portanto, o próprio Estado. O discurso que enfatiza as ações
desse tipo apresenta enraizado desprezo pelas ações políticas e político-partidárias,
necessárias à fiscalização e à crítica aos governos. Bobbio (2000, p. 172) destaca como
a formação da sociedade religiosa e da sociedade econômica, burguesa, buscou
delimitar o campo da política distante do campo social (e religioso). A evolução da
sociedade burguesa, urbana e estruturada na competição mercadológica e individual,
procurou e procura restringir e delimitar as ações políticas (pertinentes ao governante)
das ações sociais (pertinentes à sociedade civil). Assim, procura realçar ideologicamente
suas ações na busca de legitimidade, de credibilidade nos meios sociais, onde a
produção e a difusão discursiva são essenciais como elementos estratégicos para obter a
boa vontade dos públicos. Ao aproximar os sentidos de cidadania, ética e filantropia ou
assistencialismo, o discurso encontrado na mídia jornalística reafirma o modelo de
ataque à política como ato estranho aos ideais de solidariedade.
Para Bobbio, se constitui num reducionismo distinguir o campo da política do campo
social, como o discurso em torno da responsabilidade ou das ações de inclusão social e
cidadania procura estabelecer. Ao usar a terminologia “social” como sinônimo de
cidadania, os jornais configuram uma semântica também orientada por uma relação
ideológica.
(...) resumir ... a categoria da política à atividade que tem direta
ou
indiretamente
relação
com
a
organização
do
poder
coativoviiisignifica restringir o âmbito do ‘político’ em relação ao
‘social’, recusar a plena coincidência do primeiro com o segundo.
A afirmação expõe a tradicional conceituação sobre o Estado como agente que reclama
o poder exclusivo para o uso da força como meio de impor a ordem social via norma
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legal. O Estado exerce outras funções, entre elas a de expandir os instrumentos de
distribuição dos direitos previstos numa democracia constitucional.
O problema da cidadania e do jornalismo
Ocorre que ao reiterar as expressões “social”, “ética” e “cidadania” como vinculadas à
busca de melhor qualidade de vida, os jornais reduzem o ato político a um ato de
governo, cuja credibilidade no Brasil é baixíssima, e distante das preocupações e
ocupações sociais. Exemplo que pode ser destacado encontra-se no Manual de Redação
(2005, p. 07) da Rede Anhangüera de Comunicação, publicadora dos jornais Correio
Popular, Diário do Povo, que circulam em Campinas, mais o Diário Notícias Já, que
circula em Campinas e região, os jornais gratuitos Gazeta do Cambuí (Campinas),
Gazeta de Piracicaba e Gazeta de Ribeirão, além de ser proprietária do portal Cosmo On
Line e da Agência Anhangüera de notícias.
O Manual de Redação que orienta todos os veículos da RAC define o leitor,
inicialmente, como “nosso cliente mais imediato”. A concepção é mercadológica; leitor
é consumidor. E este é alguém que participa de uma relação de troca de um tipo especial
de mercadoria: a notícia. Os projetos editoriais da RAC, em especial o de maior
influência em Campinas, o diário Correio Popular, se orientam por um dedicado grupo
de jornalistas experientes e empenhados em produzir um bom produto, que, aliás, é
merecedor de vários prêmios na categoria. A projeção da RAC e, em particular, do
Correio Popular não significa que o projeto editorial não apresente problemas de ordem
conceitual e semântica.
Tendo o leitor como cliente, a RAC chama para si a responsabilidade de pautar “ a
agenda da cidade” (idem, p. 07, 2.1), a RAC estabelece:
Uma das missões de um jornal regional é pensar à frente,
antecipar tendências (sic), antever problemas e cobrar soluções de
quem quer que seja, Prefeitura, Estado, União, empresa pública ou
privada. Sob esse ponto de vista, cabe aqui a exploração de uma
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ferramenta que já vem sendo usada com sucesso pelos jornais da
RAC, com base em orientação da Diretoria Editorial. Trata-se de
pautar a agenda da cidade, liderando na comunidade um esforço de
reflexão cujo objetivo final é melhorar a qualidade de vida do cidadão.
(grifo meu).
Ora, o que a RAC pretende com essas afirmações é exatamente a representação política
de modo a demandar reivindicações por meio da produção noticiosa. Pautar a agenda
significa estabelecer as prioridades políticas assim entendidas como tais pelo grupo
empresarial. Se se arvora na representação das demandas políticas e como protagonista
autoral da agenda da cidade, a RAC exerce e assume um papel político a rigor, numa
clara contradição com o conceito de cliente, um consumidor amparado por codificação
jurídica própria. A afirmação da RAC é, porém, explicada pela teoria da agenda-setting
(BARROS Fº, 1995; SOUSA, 2002; TRAQUINA, 2005). Isto é, o jornal é protagonista
do agendamento das prioridades políticas e assume o papel intervindo no espaço
público ao usar de seu capital simbólico. A partir dessa premissa, o conceito de
cidadania é expresso no item 2.2 (idem, p. 08):
Os jornais da RAC são pluralistasix. Cobram quando devem
cobrar. São duros e críticos quando devem ser. Mas esses veículos
carregam uma filosofia que valoriza as boas notícias, os bons projetos,
o esforço cotidiano de um exército de voluntários da cidade e região e
todos os aspectos relacionados com a responsabilidade social. O
conceito é de se fazer um jornal cidadão, ou seja, um jornal apenas de
notícias ruins não espelha de maneira homogênea o que pensa esta
comunidade. Se for sempre arauto do abutre, este veículo estará
contribuindo para a baixa auto-estima, esquecendo de ver uma legião
de pessoas que faz o bem, anonimamente ou não. Esse conceito já está
enraizado nas redações, mas é bom salientar que ele deve continuar
sempre, pois o jornalista é acima de tudo um cidadão.
O parágrafo expõe a inconsistência dos conceitos de “cidadão”, “notícia jornalística” e
“jornalista”. A ênfase se dá em torno da ação voluntária já citada por Fernandes, num
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cenário em que as iniciativas pessoais no âmbito das relações sociais buscam exprimir o
conceito de cidadania, sem que o Estado esteja presente ou se aproxime. A RAC chama
para si a responsabilidade política de representar os cidadãos / clientes / leitores e de
enaltecer as boas ações voluntárias, mesmo que essas sejam na essência formas de
filantropia.
A contradição maior está ainda na falta de conceituação do que a RAC entende por
“pluralista”. Termo que se opõe ao singular, plural passou a ser empregado pelo mundo
na década de 1990, na tentativa de reconhecer a diversidade da cultura e das
manifestações políticas no âmbito dos direitos humanos. Ser plural consiste antes de
tudo em assumir uma doutrina de convivência com a diversidade, aceitando-a de modo
simétrico, algo ainda irrealizado pela sociedade brasileirax. Ao grafar o termo
“pluralista”, em seguida, no mesmo parágrafo, explica o tom da cobrança condicionado
ao conceito de jornal cidadão (aquele que divulga boas notícias sobre atos e fatos
relacionados com a responsabilidade social). Assim, a RAC envereda pelo caminho da
explicitação ideológica sobre como estabelece a política editorial. A condição de
cidadão está vinculada à auto-estima, um fenômeno psicológico e não político (Se for
sempre arauto do abutre, este veículo estará contribuindo para a baixa auto-estima,
esquecendo de ver uma legião de pessoas que faz o bem, anonimamente ou não).
Cidadão, sujeito político, deixa de ser um direito e obrigação do Estado para se tornar
um problema comportamental. Além disso, ocorre outra contradição ao pretender tornar
notícia, portanto pública, a ação de voluntários que atuam no anonimato. Revelar esse
lado da sociedade implica em destacar as ações individuais, personalizadas, herdeiras da
filantropia e do assistencialismo católico. De fato, as diversas reportagens pautadas e
publicadas destacam ações de indivíduos que sacrificam tempo e dinheiro em favor de
entidades e comunidades. Tais sujeitos são descritos como fontes das boas notícias,
numa sistemática construção de um mundo social impermeável à política.
Outro problema de ordem conceitual e teórico é como o Manual de Redação qualifica o
termo notícia: jornal cidadão é sinônimo da boa notícia. Ao conceituar a idéia, o texto
reitera uma antiga confusão entre notícia e fato. Se o fato apresenta elementos de
interesse público, mesmo que cruéis ou degradantes, deve ser tratado na forma
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noticiosa, condicionada pelos elementos subjetivos e referenciais da especialização, da
profissão, como observa Karam (2004, p. 46):
(O jornalismo), É, ao meu ver, uma construção política,
ideológica, cultural, que reflete, com sua técnica específica, o mundo
em andamento, sem concessões, a serviço da sociedade ou da
universalidade humana.
Ao conceituar o jornal cidadão como algo avesso ao “arauto do abutre” , o Manual traz
implícita uma crítica a outros veículos que, ao publicar “apenas (...) notícias ruins”, não
espelhariaxi “de maneira homogênea o que pensa esta comunidade”. As notícias ruins
confundem-se com a negatividade dos fatos que são relatados na forma de mensagens,
cujo receptor indignado prefere eliminar o mensageiro a aceitar o conteúdo do evento
noticiado. A pretensão de “espelhar” de modo “homogêneo” o que a comunidade pensa
incorre num profundo problema com a pluralidade pretendida. Ao tentar realçar a
importância das boas notícias sobre as ações anônimas e voluntárias, a RAC estabelece
como premissa um projeto de homogeneidade de conteúdo que negativamente qualifica
toda notícia que estiver sob a guarda do “arauto do abutre”. Isso, de fato, não ocorre no
cotidiano do jornal que publica notícias relativas a fatos bastante negativos, com tons
lúgubres até.
Exemplo é a manchete de capa no dia 08 de março de 2007: Amor bandido leva jovem
universitária ao mundo do crime. A notícia trata da história da estudante de Direito,
Ana Paula Jorge Sousa, de 21 anos, detida sub a acusação de integrar uma quadrilha
formada assaltantes, um dos quais seria seu namorado. Além da manchete, a foto
publicada em quatro colunas expõe a jovem universitária apontando um revólver para o
leitor.
Outro exemplo: Pulmão é achado diante de uma casa na Vila Industrial. O título
atrai para a notícia, publicada em 07 de junho de 2007, p. A9, Correio Popular, sobre
um “achado macabro” em frente a um portão de uma residência na Vila Industrial,
tradicional e histórico bairro de Campinas: “um pulmão ligado à traquéia e que
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aparenta ser humano.” O relato é típico dos fait-divers, das notícias tachadas de
sensacionalistasxii, macabras até.
Se o jornal não assume a produção de notícias desse tipo de conteúdo, para não ser
“arauto do abutre” , numa tentativa de cumprir o princípio da pluralidade divulga
informações cujo conteúdo trágico, dramático e cruel contrasta com as reportagens
sobre as ações aceitas como positivas por parte dos cidadãos solidários.
A questão do espelho
A terminologia empregada pela RAC ressalta visões sobre um jornalismo não mais
assim compreendido, dado que a idéia de espelhar remonta ao modelo de objetividade e
neutralidade superada ao longo do século XX. Ora, se o jornal espelha, como quer a
RAC, a sociedade quando enfatiza as boas notícias, ao publicar os relatos sobre eventos
como o que envolveu a jovem universitária, o Correio Popular priorizou um fato alvo da
fome de abutres. A pragmática editorial para diversificar o noticiário é inerente ao jornal
generalista, dado que a sociedade é o campo da busca e da produção da informação
noticiosa e nela se manifestam os diversos protagonistas e antagonistas na construção
ou re-construção dos processos simbólicos divergentes, contraditórios, distintos e
paradoxais. A pauta do jornal é voltada para uma sociedade de extremos: da cidadania e
dos abutres.
Ao pertencer à sociedade, o jornal se expressa como instituição reveladora daquilo que é
conhecido por poucos para ser conhecido por muitos. Nessa mediação nem sempre
isenta, o jornal carrega elementos ideológicos, mitológicos e subjetivos, além dos
preconceitosxiii inerentes à constante procura pelo ajuste do indivíduo ao meio social.
Bucci (2000, p. 51) é um dos estudiosos do jornalismo que ressalta a produção noticiosa
como fruto da intervenção subjetiva do repórter e dos jornais num processo de
interpretação e construção de versões:
A verdade dos fatos é sempre uma versão (grifo do autor) dos
fatos. O relato, qualquer que seja ele, é um discurso e, como tal, é
inevitavelmente ideológico: mesmo quando sincera e declaradamente
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não opinativo, o relato jornalístico é encadeado segundo valores que
obrigatoriamente definem aquele que se descreve. A objetividade
perfeita nunca é mais que uma tentativa bem-intencionada.
Apesar dos termos orientadores das premissas, o Manual de Redação da RAC reconhece
o jornalista como “um observador” (idem, p. 10) que “não tem obrigação alguma de
agradar a ninguém”.
Esse jornalista da RAC deve ter um compromisso, “ acima de
tudo, com o leitor, não com sua fonte. A esta, basta dar o tratamento correto: ser fiel,
no texto, àquilo que ela disse, transmitindo com precisão e clareza o que foi apurado”.
O jornalista observador necessariamente é interventor, testemunho, sujeito cujo olhar
demanda uma perspectiva própria, uma sensação individual e característica, um
perceber orientado por ideologia e preconceito, e por valores e crenças. Observação não
se reduz ao ato de ver apenas, mas compreende a aplicação dos vários sentidos para
obter informações sobre um determinado objeto. Assim, o jornalista deve equilibrar os
compromissos com os diversos atores da reportagem, desde o fato, as fontes, a
organização jornalística, ao leitor e à sociedade. Ao afirmar o prioritário compromisso
com o leitor/cliente “acima de tudo” , o jornalista incorre na armadilha de se submeter
ao senso comum nem sempre aferido com precisão, mesmo porque o repórter também
deve ser leal com as próprias convicções deontológicas e políticas. Caso contrário, cairá
no abismo do cinismo, pois ficará submetido a uma entidade abstrata: o leitor. A
redação do texto do manual incorre numa falha lógica, pois dar “tratamento correto” às
declarações das fontes implica num compromisso moral tão grave e responsável quanto
ao compromisso com o leitor. Mesmo porque, a produção do noticiaria não seria
possível sem as fontes. O leitor (cliente), no campo da abstração é composição do
imaginário, e como indivíduo é agente da opinião pessoal, personalizada. Se a RAC
entende que o universo de leitores situa-se na pluralidade, a diversidade de idéias e
crenças compõe o referencial valorativo do que seja o leitor, coletivo diverso e
destituído da homogeneidade. Contudo, o jornalista carrega valores, crenças e
convicções que se conflitam muitas vezes com a orientação editorial e com a opinião
dos leitores, aferida por meio de pesquisas quantitativas, direcionadas invariavelmente
pelos interesses comerciais e estratégicos da empresa. O ato de produzir notícias
depende, inevitavelmente, da subjetividade de quem observa e interpreta os fatos e as
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declarações, pois caso contrário seria cair na armadilha de um compromisso apenas com
um sujeito do universo da produção noticiosa.
O termo “fiel” surge nessa página após os itens 2.3 e 2.4, nos quais a RAC relaciona um
Decálogo da Qualidade, na qual orienta o comportamento ético e os deveres do
jornalista, bem como os fundamentos e valores para o exercício do “ Bom jornalismo”.
Para ser descrito, porém, não são encontradas as palavras neutralidade, imparcialidade e
objetividade, muito menos fidelidade, que dão suporte conceitual ao modelo de espelho.
Mas, sim, entre outras, agilidade, coerência, compromisso (?), disciplina, ética,
equilíbrio, exatidão, prudência, reflexão, sapiência e seriedade. Esses valores
apresentam amplitude semântica, e são necessários para compor a base do debate
editorial, que pode amadurecer na medida em que os significados são refletidos
conforme as experiências cotidianas.
Ao definir o jornalismo-cidadão como sinônimo das boas notícias, a RAC se distancia
do caráter crítico que tradicionalmente move o jornalismo a fim de se amparar na
confiança do público. Se é um jornal plural, deve admitir as diversas e diferentes
versões produzidas pelo universo social, o que implicaria numa revisão da política
editorial. O bom / cidadão e o mau / arauto do abutre, bipolarização dos extremos, não
condizem com o modelo plural de sociedade que recusa a partição do mundo em dois
extremos. As versões são construídas por atores que são diferentes em idéias e valores e
que manifestam divergências num cenário de conflito social. A pluralidade é um
conceito que não se aplica, exclusivamente, àqueles a quem é dirigida a informação,
mas também à composição e à direção do projeto editorial.
O problema do bom e do mau
A RAC constrói um noticiário numa perspectiva do bom e do mau, à medida que realça
a divulgação das ações sociais praticadas pelo “exército de voluntários” e também
aborda os crimes na forma dos fait-diversxiv, modelo de notícia consolidado na segunda
metade do século XIX, com a expansão da imprensa de massa nos centros urbanos,
industriais, cujo cenário ocorre a consolidação da classe média, consumidora.
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De certo modo, a RAC propõe fazer jornais que apontem os dois extremos da
sociedade, numa visão ainda ingênua de espelho, como se as relações sociais e a
estrutura político-econômica fossem naturais em suas diferenças e estas fossem objeto
do noticiário numa ação jornalística de neutralidade. A lógica desse raciocínio sustenta a
idéia de que os relatos publicados nos veículos da RAC são sempre verdadeiros.
Barthes destaca que a formação do mito semiológico pelo discurso da mídia provoca a
sensação de que o mundo é assim, e as coisas são o que são. Os eventos sociais são
naturais, numa percepção de que a sociedade não pode ser mudada, transformada.
A pretensão da empresa em reafirmar o mundo no qual a política é estranha às ações
sociais ou às de responsabilidade social ou à cidadã é realçada, todavia, na afirmação de
um elenco de temas pautados (ibidem, p. 08) como agenda política como objeto que
justifica “o importante papel da RAC na mobilização de toda a sociedade (sic), pois
com base nessa agenda, o poder público passou a pautar suas ações de investimentos
levando-se em conta este painel exposto pela RAC”.
Ao chamar para si o papel de representação “de toda a sociedade” e das reivindicações
da comunidade, a RAC estabelece o viés ideológico alienante que separa a esfera
política das iniciativas de cunho social as quais são vinculadas à idéia de cidadania. Em
editorial publicado em 06 de junho de 2007, sob o título O resgate de alguns valores
da cidadania, o Correio Popular afirma que
Campinas é uma cidade que, de há muito, perdeu a sua
condição ideal de cidade organizada, bonita, de raízes históricas
interessantes, luminar na educação, saúde e artes, além de um oásis de
segurança e qualidade de vida. Por anos seguidos, a decadência dos
costumes sufocou essas características, impondo aos campineiros uma
realidade ditada pela confusão social, pelo descalabro políticoadministrativo e pela ausência de ações voltadas ao resgate desses
traços.
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A ênfase crítica às administrações passadas coincide com períodos governados pelo
Partido dos Trabalhadores, da prefeita Izalene Tiene, e pelo Partido Progressista, do
prefeito Francisco Amaral. Mais à frente, o editorial ressalta os valores resgatados:
Nessas questões, que não demandam investimentos maiores e
graves alterações estruturais, Campinas finalmente despertou da
letargia e deu início a um processo que tende a trazer uma situação de
normalidade. O Fórum de Fiscalização, que engloba técnicos e
funcionários de vários órgãos públicos, foi a campo e lacrou 12 bares
irregulares, atendendo às reivindicações de moradores que se
mobilizaram contra os abusos. Em outra frente, a Prefeitura deu início
à limpeza de pichações em paredes, muros e estruturas de imóveis
públicos, numa primeira ação contra vândalos acostumados a deixar a
marca de sua ignorância em prédios e paredes. A isso, deve se seguir o
estímulo a que imóveis particulares também sejam limpos e pintados,
além da implementação de propostas restritivas várias.
É clara a defesa que o editorial faz da ação do poder público como instrumento das
vontades da comunidade cidadã contra os vândalos responsáveis pela pichação de
prédios públicos e privados. Sob a alegação do despertar da letargia ao limpar os
edifícios públicos, o jornal cobra iniciativa semelhante para aos imóveis particulares. O
texto realça a significação da ação da Prefeitura ao limpar pichações (muitas vezes
confundidas pelo jornal como as grafites) como elevada conduta de resgate da
cidadania, bem como a fiscalização dos bares noturnos que exageram no som e na
ocupação do espaço público.
O editorial reduz o valor de cidadania à fiscalização da prefeitura, cujo dever, entre
outros, é intervir para impedir o conflito entre o público e o privado.
Se no editorial a cidadania decorre da atitude fiscalizatória e coativa da administração
municipal, outro sentido ocupa notícias como a publicada em 19 de abril de 2007,
intitulada Reciclagem vira ação de cidadania, no caderno Cidades. O evento relatado
trata de um projeto de reciclagem de latas de alumínio. A reportagem destaca a ação
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individual da aluna bolsista das Faculdades Integradas Metropolitana (Metrocamp) que
criou o projeto Amassalata, com o objetivo de recolher e reciclar latas de alumínio para
ampliar a rede de proteção ao meio ambiente. A iniciativa da aluna é realçada pelo fato
dela ser mãe e precisar completar a renda para pagar os estudos.
Outro exemplo do modelo de ação individual, personalista, voltada à filantropia e
orientação comportamental é relatado na reportagem de 06 de Junho de 2007, sob o
título Projeto Cidadão xv - Um foco de luz para as jovens mães, publicado no caderno
Cidades. A reportagem relata trabalho de assistência social e amparo às mães menores
de 18 anos pelo Grupo Fraterno Foco de Luz, sediado em Valinhos. De crença espírita, a
entidade apresenta características filantrópicas e assistencialistas, mas se enquadra, para
o Correio Popular, como projeto de cidadania. Embora o valor solidário do projeto seja
realçado, meritoriamente, a abordagem do jornal peca pela confusa construção de
sentidos em relação ao termo cidadania, pois o projeto se enquadra no modelo descrito
por Fernandes.
A edição do dia 04 de julho de 2007 traz a reportagem intitulada Projeto Cidadão Voluntário leva paz na hora da morte, publicada no caderno Cidades. O segundo
parágrafo da reportagem ajuda a esclarecer o tom favorável à ação solidária, filantrópica
e “cidadã”:
Desde 1997, em função do aumento no número de óbitos e para
cumprir os ritos fúnebres, criou-se um movimento de solidariedade
por meio dos ministros extraordinários da Igreja. Um curso de seis
meses prepara o voluntário em sua paróquia. A autorização para
atuação é dada pelo bispo e a ação ocorre na Pastoral das Exéquias
(responsável pelas cerimônias fúnebres). A licença vale por dois anos
e pode ser renovada. Atualmente, 60 pessoas se dividem em esquema
de plantões. No cemitério municipal Nossa Senhora da Conceição,
conhecido por Amarais, um voluntário por período permanece no
local.
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O apelo religioso realça a distinção do universo social do universo político, ao afirmar
em título e texto a cidadania como sinônimo de solidariedade também religiosa, mística.
Bibliografia
ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na
imprensa. São Paulo: Summus Editorial, 1995.
BARROS Fº, Clóvis de. Ética na comunicação: da informação ao receptor. São Paulo:
Moderna, 1995.
BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1985.
BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a Filosofia Política e as lições dos
clássicos. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
________________. As ideologias e o poder em crise. Brasília: UNB/Polis, 1988.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a
uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
KARAN, Francisco. Jornalismo e Interesse Público.
MEYER, Philip. Periodismo de precision: nuevas fronteras para la investigación
periodistica. Barcelona: Bosch / Casa Editorial, 1993.
MARCONDES Fº, Ciro. Jornalismo fin-de-siècle. São Paulo: Scritta Editorial, 1993.
PINSKY, Jaime & PINSKY, Bassanezi (orgs.). História da Cidadania. São Paulo:
Editora Contexto, 2003.
PONTE, Cristina. Para entender as notícias – linhas de análise do discurso jornalístico.
Florianópolis: Insular, 2005.
SOUSA, Jorge P. Teorias da notícia e do jornalismo. Chapecó: Argos, 2002.
TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo – porque as notícias são como são.
Florianópolis: Insular, 2005, v. I.
WEBER, Max. Sociologia da imprensa: um programa de pesquisa, in Estudo em
Jornalismo e Mídia, Revista Acadêmica, Universidade Federal de Santa Catarina, v. 2,
nº 1, julho de 2005.
2
i
Habermas trata do conceito de público no primeiro capítulo da obra, ao observar a contraposição entre publicus e
privatus durante a Idade Média. Se nesse período da história, a dominação feudal desconhecia “a antítese entre esfera
pública e esfera privada, segundo o modelo clássico antigo (ou moderno)”, os conceitos de dominium (domínio privado)
e imperium (autonomia pública, autoridade pública) já eram conhecidos desde os gregos e romanos. Mais tarde, na
formação burguesa e do estado moderno, a distinção jurídica é encontrada nas diversas sociedades européias, as quais
vão delimitar o bem público e o pertencente à esfera do particular. Este é dotado de privilégios, intocáveis, sob seu
domínio. Enquanto que o bem comum se revelava nos atos da autoridade representante do público, do povo, da nação. E
os jornais eram tidos como veículos para a divulgação ao público dos atos e decisões da autoridade governamental A
esfera pública, portanto, se caracteriza pela sua gênese e dimensão política, centro de convergência e divergência dos
interesses privados expostos na arena da negociação em que o agente representante, o governo, formula normas de
superação e convivência entre as partes conflitantes. (HABERMAS, p. 36)
ii
Ferdinand de Saussure é considerado pai da lingüística moderna. Falecido em 1913, deixou póstuma a obra referência
Curso de Lingüística Geral, redigida e editada pelos ex-alunos do curso por ele ministrado em Genebra, Suíça.
iii
Para melhor compreensão das mudanças ocorridas a partir da década de 1980, com a expansão do modelo neoliberal e
dos mecanismos da globalização financeira regida pelas novas tecnologias, ver NAVES, Rubens, in PINSKY, J. &
PINSKY, B (orgs.) História da Cidadania . São Paulo: Contexto, 2003.
iv
Para uma leitura mais esclarecedora, ver COGGIOLA, Osvaldo, Autodeterminação nacional, in PINSKY & PINSKY,
op. cit.
v
Para melhor compreensão dos fatores macro-econômicos, em especial em relação à carga tributária registrada no País,
ver http://www.receita.fazenda.gov.br/Publico/EstudoTributario/cargafiscal/CTB2005.pdf.
vi
Ver http://www.receita.fazenda.gov.br/Historico/Arrecadacao/Carga_Fiscal/default.htm.
vii
Para melhores informações, ver http://www.senado.gov.br/web/comissoes/cas/es/ES_ProgramasSociais1.pdf.
viii
Bobbio se refere ao conceito weberiano de Estado como organização detentora, legítima, do monopólio da violência
para empregar o poder coativo.
ix
A afirmação não encontra conceituação. Ao longo do Manual de Redação, porém, é descrito um modelo de jornal
típico das premissas liberais, ou neoliberais. Talvez a publicação de artigos de colaboradores na página 03 do Correio
Popular apresente uma tentativa de difusão e reafirmação de um princípio pluralista, que se confunde com a essência do
termo aplicado a todo o jornal. O conceito de pluralismo é antigo, segundo Bobbio, mas o termo é utilizado após a crise
do socialismo soviético. “Que uma sociedade é tanto melhor governada quanto mais repartido for o poder e mais
numerosos forem os centros de poder que controlam os órgãos do poder central é uma idéia que se encontra em toda a
história do pensamento político”. No caso de uma empresa privada detentora legítima da propriedade sobre a produção
e difusão noticiosa, a hierarquia administrativa fundada em uma estrutura de poder piramidal, vertical, é a negação da
pluralidade. Não se deve desprezar a gênese política do termo pluralidade, mesmo quando aplicada a uma política
editorial. Para melhor compreensão, ver BOBBIO, Noberto. As ideologias e o poder em crise. Brasília: UNB Polis,
1988.
x
Para melhor compreensão dos fatores de tensão nos processos de convivência plural, no qual as minorias disputam os
direitos políticos, ver DEMANT, Peter, in PINSKY & PINSKY (op. cit. 2003)
xi
O termo espelhar designa uma visão doutrinária predominante do jornalismo na segunda metade do século XIX, em
particular nos EUA. A idéia de que o jornal é espelho da sociedade deriva da visão de neutralidade que o jornalista
deveria possuir para apurar e divulgar as informações sobre o fato, como se este pudesse ser lido e publicado sem
qualquer intervenção de subjetividade.
xii
Um importante estudo sobre sensacionalismo e fait-divers pode ser encontrado em ANGRIMANI, Danilo. Espreme
que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus Editorial, 1995.
xiii
Ver MEYER, Philip. Periodismo de precision: nuevas fronteras para la investigacion periodística. Barcelona: Bosch
/ Casa Editorial, 1993, em especial o primeiro capítulo.
xiv
O termo, de origem francesa, designa as notícias sobre crimes, roubos, escândalos. Segundo Ponte (2005, 142), “a
origem histórica do fait-divers ajuda a perceber como é construído como objecto marginal. O século XIX, tempo de
novos territórios, urbanidades e comunidades aparentemente desagregadas e encaradas como lugares privilegiados de
perigo, é designado como época de ouro na imprensa. Roubos, crimes passionais, assassínios, violações, tomam lugar
na primeira página muito superior à sua dimensão estatística.” No caso dos jornais da RAC, os fait-divers estão
presentes cotidianamente, na forma de notícias que expõem o crime em especial praticado pelos personagens oriundos
de classes sócio-econômicas de baixo poder aquisitivo.
xv
Projeto Cidadão é uma proposta editorial de divulgar as ações positivas da sociedade, por iniciativa de organizações
civis e religiosas, por voluntários que assumam responsabilidades solidárias e filantrópicas. Reportagens sobre essas
ações e projetos são publicadas nas edições das quartas-feiras, no Correio Popular.